Em 30 de junho de 2019, a cantora e compositora estadunidense Taylor Swift entrou em uma disputa com sua antiga gravadora, a Big Machine Records, seu fundador Scott Borchetta e o novo proprietário, Scooter Braun, sobre a posse das gravações originais (masters) de seus seis primeiros álbuns de estúdio. A empresa de investimentos Shamrock Holdings adquiriu os masters em 2020, o que levou Swift a regravar e lançar quatro desses álbuns entre 2021 e 2023 como forma de retomar o controle sobre seu catálogo musical. A disputa recebeu ampla cobertura da mídia e gerou debates na indústria do entretenimento. Por fim, em 2025, Swift adquiriu os masters da Shamrock.
Em novembro de 2018, após o fim de seu contrato com a Big Machine, Swift assinou um novo contrato com a Republic Records. Em junho de 2019, a grande mídia noticiou que Braun havia comprado a Big Machine de Borchetta por US$ 330 milhões, com financiamento de diversos fundos de private equity. Com a aquisição, Braun passou a ser o proprietário de todos os masters, videoclipes e artes visuais com direitos autorais da gravadora, incluindo os seis primeiros álbuns de Swift. Em resposta, a cantora afirmou que tentou comprar os masters, mas que a Big Machine havia imposto condições desfavoráveis. Ela disse também que sabia que a gravadora acabaria vendendo o catálogo para outra pessoa, mas não esperava que Braun fosse o comprador, chamando-o de um "valentão manipulador e incessante". Borchetta, por sua vez, afirmou que Swift recusou a oportunidade de adquirir os masters.
Consequentemente, uma série de desentendimentos entre Swift e a Big Machine agravou ainda mais a disputa. Swift alegou que a gravadora tentou impedi-la de apresentar suas próprias canções no American Music Awards de 2019 e de utilizá-las no documentário Miss Americana (2020). Paralelamente, a Big Machine lançou o álbum Live from Clear Channel Stripped 2008 (2020), um trabalho inédito de Swift, sem sua autorização. Diante da situação, a artista anunciou que regravaria seus seis álbuns, com o objetivo de deter a posse das novas versões. Em outubro de 2020, Braun vendeu os direitos dos masters para a Shamrock Holdings, firma de investimentos da família Disney, por aproximadamente US$ 405 milhões, com a condição de que ele continuasse lucrando com o catálogo. Swift voltou a se manifestar publicamente contra o acordo, recusou a proposta da Shamrock para uma parceria acionária e prosseguiu com o lançamento das regravações, que obtiveram sucesso comercial e elogio da crítica. Ela promoveu os álbuns na The Eras Tour, que se tornou a turnê de maior bilheteria de todos os tempos. As faixas "All Too Well (10 Minute Version)" (2021) e "Is It Over Now?" (2023) chegaram ao topo da Billboard Hot 100, quebrando diversos recordes. Em maio de 2025, Swift anunciou que passou a ter total propriedade de seu catálogo após adquirir todos os masters da Shamrock, sob termos que ela descreveu como justos.
Diversos músicos, jornalistas, políticos e acadêmicos manifestaram apoio à posição de Swift, contribuindo para um debate mais amplo sobre os direitos dos artistas, propriedade intelectual, investimentos de capital privado e ética na indústria do entretenimento. A iHeartRadio, maior rede de rádio dos Estados Unidos, substituiu as versões originais das canções por suas regravações em sua programação. A revista Billboard nomeou Swift como a "Maior Estrela Pop" de 2021, em reconhecimento ao sucesso expressivo e sem precedentes do projeto de regravações. Quando Swift finalmente recuperou os masters, jornalistas consideraram o feito um marco decisivo na luta pelos direitos dos músicos e pela autonomia sobre suas próprias obras.
Antecedentes Lei De acordo com a lei de direitos autorais dos Estados Unidos, um lançamento musical está sujeito a dois direitos autorais distintos: o direito autoral da canção ou composição musical em si, e o direito autoral da gravação específica dessa canção, que geralmente está contida em um master. O master é a primeira gravação da música, a partir da qual são feitas cópias para venda e distribuição. O proprietário do master, portanto, detém o direito autor sobre todos os formatos da gravação, como versões digitais para download ou streaming, bem como formatos físicos como CDs e discos de vinil. Qualquer parte que deseje usar ou reproduzir uma gravação deve obter uma licença de direitos autorais autorizada pelo detentor do master. Antes do surgimento das plataformas digitais, os músicos dependiam das gravadoras para promover suas músicas por meio de estratégias como execução em rádios ou distribuição física para lojistas. As gravadoras, em geral, exigiam que os artistas cedessem os direitos sobre os masters de forma "perpétua". Por outro lado, deter os direitos sobre a obra musical é conhecido como direitos de publicação (publishing rights), os quais abrangem os elementos musicais anteriores à gravação sonora, letras, melodias, partituras, composições e arranjos instrumentais. Em geral, os compositores são os detentores desses direitos de publicação e são considerados os "editores" da música.
Contexto Taylor Swift é uma cantora e compositora de West Reading, Pensilvânia, Estados Unidos. Em 2003, aos 13 anos, ela visitou grandes gravadoras em Nashville, Tennessee, em busca de um contrato, mas foi rejeitada. Em 2004, Swift apresentou músicas autorais em uma vitrine da RCA Records e recebeu um contrato de desenvolvimento artístico. Após isso, mudou-se para Nashville e trabalhou com compositores experientes da Music Row, como Troy Verges, Brett Beavers, Brett James, Mac McAnally e os Warren Brothers. Em 2005, ela se tornou a artista mais jovem (com 15 anos) a assinar com a editora Sony/ATV Tree. No entanto, deixou a RCA, pertencente à Sony, por receio de que "contratos de desenvolvimento pudessem engavetar artistas". Em novembro de 2004, Swift participou de uma apresentação para a indústria no Bluebird Café, em Nashville, onde foi notada por Scott Borchetta, um executivo da DreamWorks Records que tinha a ideia de fundar sua própria gravadora independente. Eventualmente, Swift assinou um contrato de gravação de 13 anos com a nova gravadora de Borchetta, a Big Machine Records, sediada em Nashville, tornando-se sua primeira artista contratada. O acordo concedia à Big Machine a posse dos direitos autorais das gravações originais (masters) dos seis primeiros álbuns de Swift em troca de um adiantamento em dinheiro.
De 2006 a 2017, Swift lançou seis álbuns de estúdio pela gravadora Big Machine: Taylor Swift (2006), Fearless (2008), Speak Now (2010), Red (2012), 1989 (2014) e Reputation (2017). Todos foram grandes sucessos comerciais e consolidaram Swift como uma das artistas mais bem-sucedidas da história da música. Embora a Big Machine detivesse os direitos dos masters, Swift manteve os direitos de publicação das canções, já que era a principal compositora de todas as faixas lançadas sob o selo. Isso lhe deu a possibilidade de regravar as músicas no futuro, conforme permitido pelo contrato com a gravadora, que impõe um período de tempo durante o qual o artista não pode regravar seu próprio trabalho. Caso não fosse a autora das canções, Swift não teria tido o direito de regravá-las.
Em agosto de 2018, segundo a Billboard, o advogado de Swift, Donald Passman, juntamente com sua equipe de gerenciamento, propôs à Big Machine Label Group a compra dos masters por parte de Swift, já que o contrato com a gravadora estava prestes a expirar. No entanto, a gravadora respondeu que só venderia os masters se ela renovasse o contrato de gravação com a Big Machine, comprometendo-se a lançar novos álbuns sob o selo pelos próximos dez anos. As duas partes não chegaram a um acordo.
O contrato de Swift com a Big Machine Records chegou ao fim em novembro de 2018. Após isso, ela assinou um novo contrato global com a Republic Records, gravadora sediada em Nova Iorque e pertencente ao Universal Music Group. Segundo a Variety, o catálogo de Swift representava cerca de 80% da receita da Big Machine. Swift revelou que, como parte das negociações com a Republic, incluiu uma cláusula que beneficiava todos os artistas da Universal: qualquer venda das ações da gravadora no Spotify, maior serviço de streaming musical do mundo, resultaria na distribuição de participação acionária entre os artistas da gravadora, sem a necessidade de compensação posterior. O contrato também deu a Swift total propriedade sobre os álbuns lançados sob o novo selo, incluindo os masters e os direitos de publicação, começando com seu sétimo álbum de estúdio, Lover (2019). Segundo a Forbes, o contrato com a Republic ofereceu a Swift uma porcentagem de royalties de 50% ou mais, muito superior aos 10% a 15% que ela "provavelmente" recebia da Big Machine.
Disputa Aquisição por Braun
Scooter Braun é um empresário, gestor de talentos e proprietário de mídia estadunidense, conhecido por gerenciar as carreiras de artistas como Justin Bieber, Ariana Grande, Demi Lovato e Kanye West, por meio de sua empresa de entretenimento, a SB Projects. Em junho de 2019, o The Wall Street Journal, seguido por outros veículos da grande mídia, noticiou que a holding de Braun, a Ithaca Holdings LLC, havia adquirido integralmente a Big Machine Label Group por aproximadamente US$ 330 milhões. A compra abrangeu todas as áreas de atuação da Big Machine, incluindo seu elenco de artistas, contratos de distribuição, direitos de publicação e masters de gravações. O negócio foi financiado por empresas americanas de capital privado, como Carlyle Group, 23 Capital e Soros Fund Management, todas com participação acionária na Ithaca. Em um comunicado conjunto, as empresas afirmaram que a aquisição "cria uma das companhias mais poderosas em gravadoras, gerenciamento artístico, streaming, publicação e mídia, ao combinar serviços, artistas, executivos e expertises complementares". Como parte do acordo, a propriedade de todos os masters e direitos autorais detidos pela Big Machine, incluindo os dos seis primeiros álbuns de estúdio de Swift, foi transferida para Braun. Borchetta, fundador da Big Machine, passou a integrar o conselho de administração da Ithaca, adquirindo uma participação minoritária na empresa, e permaneceu como presidente e CEO da Big Machine.
Resposta de Swift