A canção Trem do Pantanal foi composta em 1975 pelos cantautores brasileiros Paulo Simões e Geraldo Roca. Conta a história de um sujeito comunista, fugitivo da ditadura militar brasileira, que embarca no Trem do Pantanal rumo a Santa Cruz de la Sierra na Bolívia. Todavia, é popularmente entendida como uma "canção ecológica" de elogio ao Pantanal ou por se referenciar à cultura sul-matogrossense.

Foi eleita a música mais representativa do estado brasileiro do Mato Grosso do Sul, por meio de votação direta no ano de 2001.Neder, Álavaro (2011). “Enquanto este trem atravessa o litoral central”: Platinidad, poéticas do deslocamento e (des) construção identitária na canção popular urbana de Campo Grande, MS. Albuquerque: revista de história, 3(6).Dorsa, A. C. (2009). Uma visão intertextual e interdiscursiva do trem do pantanal. InterMeio: Revista do Programa de Pós-Graduação em Educação-UFMS, 15(30). Desde então, é considerada "hino não-oficial" ou "hino do coração" sul-mato-grossense. A música chegou a suplantar o hino oficial, sendo tocada em seu lugar como tema de equipes estaduais em eventos esportivos.Neder, Alvaro. (2014). "Roda em volta de mim, que a polca paraguaia é assim": encontros culturais na canção popular urbana e transformações políticas em Mato Grosso do Sul. Per Musi, (29), 209-219.

A primeira gravação foi feita pela cantora baiana Diana Pequeno, em 1982, mas só veio a se popularizar na voz de Almir Sater, versão do mesmo ano. Em 1985, Sérgio Reis também gravou a canção. Recebeu mais de 100 gravações por diversos artistas.

Composição No ano de 1975, Geraldo Roca e Paulo Simões compuseram a canção intitulada, originalmente, "Todos os Trilhos da Terra" dentro de um vagão do Trem do Pantanal rumo a Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. Na ocasião eles viajavam do Rio de Janeiro à Machu Picchu.Caetano, Gilmar Lima (2017). A música nos domínios do poder: Uma análise sócio-histórica a respeito da ideia de música regional sul-mato-grossense (1977-1990). Tese de Doutorado - Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD).

O título foi alterado pelos compositores, ainda nos primeiros anos de existência da canção, para "Trem do Pantanal", pois foi como ficou mais conhecida pelo público.

Em meia hora escreveram a primeira parte dos versos. Em sua totalidade a letra é:

Letra

Enquanto este velho trem atravessa o pantanal

As estrelas do cruzeiro fazem um sinal

De que este é o melhor caminho

Pra quem é como eu, mais um fugitivo da guerra

Enquanto este velho trem atravessa o pantanal

O povo lá em casa espera que eu mande um postal

Dizendo que eu estou muito bem vivo

Rumo a Santa Cruz de La Sierra

Enquanto este velho trem atravessa o pantanal

Só meu coração esta batendo desigual

Ele agora sabe que o medo viaja também

Sobre todos os trilhos da terra…

A saga de um "fugitivo da guerra" narrada na música foi inspirada na experiência de um amigo de Geraldo Roca e Paulo Simões.

Os compositores, que são de procedência carioca, mas com famílias sul-mato-grossenses, viveram quando jovens na cidade do Rio de Janeiro. Lá, segundo conta Geraldo Roca, tinham um amigo que frequentava a sede do Partido Comunista Brasileiro. Um dia, esse amigo teve de fugir da repressão militar, rumando para Santa Cruz de la Sierra na Bolívia. A música foi composta anos depois, quando os próprios fizeram esse mesmo caminho, por meio do Trem do Pantanal. Segundo Geraldo Roca: "pegamos o violão enquanto o trem atravessa[va] o Pantanal e a música saiu em meia hora”.

Geraldo Roca afirma que "Trem do Pantanal" não foi concebida como um elogio ao Pantanal, tampouco buscava expressar um sentimento regional: "Tem muita gente que admira a música como uma elegia ao Pantanal. Mas Trem do Pantanal não é nada disso. É uma canção de um proscrito, que está fugindo de uma ditadura. Não tem ninguém olhando para as estrelas". Nas palavras do autor, o fugitivo da canção é um comunista fugindo da ditadura militar brasileira.

Paulo Simões afirmou que, na época de composição da música, ele não possuía uma relação profunda com o Pantanal, entretanto, segundo ele, "naquela noite, alguma coisa de mágica me tocou". Na cabine do Trem, ele e Geraldo compuseram uma música que passou a desempenhar um papel no inconsciente coletivo a respeito do Pantanal, o que ele considera curioso, pois nessa música "não se descreve o Pantanal, nem se teoriza sobre o Pantanal". O Pantanal aparece janela a fora, "exercendo um poder mágico sobre o nosso inconsciente".

Primeiros anos A primeira apresentação da música foi feita no teatro O Tablado, no Rio de Janeiro, na qual tudo deu errado, de acordo com Geraldo Roca.

A primeira vez que tocaram Trem do Pantanal em um festival no Mato Grosso do Sul, no auge da ditadura, foram desclassificados, pois os jurados consideraram a música subversiva.

Sucesso e legado A canção foi popularizada na voz do cantor e compositor Almir Sater, gravada por ele em seu álbum Doma (1982). Almir Sater é considerando o grande divulgador da música. No mesmo ano, 1982, o intelectual e musicólogo José Octávio Guizzo caracterizou a canção como uma espécie de hino da "moderna música popular urbana" do Mato Grosso do Sul.GUIZZO, José Octavio (2012). Moderna música popular urbana de Mato Grosso do Sul . Campo Grande: Editoral UFMS ISBN 978-85-7613-385-8 Segundo ele, transformou-se em hino por possuir "forte apelo popular e inusitado poder de comunicabilidade". O apreço popular foi referendado no ano de 2001, ocasião em que foi eleita música símbolo do Mato Grosso do Sul. A partir daí, passou a ser considerada popularmente como hino não-oficial do estado.

Em relação a todo o sucesso que a música adquiriu, Geraldo Roca afirmou que não esperava que a música viesse a ter a repercussão que teve e ainda que ela "não escolheu essa repercussão, a repercussão que escolheu a música”.

Eleição No ano de 2001 a canção Trem do Pantanal foi eleita como a mais representativa do estado do Mato Grosso do Sul. A votação se deu por meio de eleição direta realizada em todo o estado, com urnas eletrônicas cedidas pelo Tribunal Regional Eleitoral. Contou com a participação de 27.698 pessoas. A canção recebeu 12.112 votos (43,73% do total) e venceu em 52 dos 77 municípios do estado. Em cidades como Aquidauana, Anastácio e Corumbá, por onde o trem passava, o resultado foi superior aos 70% de votos.

Ver também Paulo Simões Geraldo Roca Almir Sater Trem do Pantanal Música folclórica de Mato Grosso do Sul

Categoria:Canções baseadas em histórias reais Categoria:Cultura de Mato Grosso do Sul