thumb|240px|Pedro em 1887, por Lucien Walery O declínio e queda do Império do Brasil decorreu na década de 1880, com os principais fatores cada vez mais entrando em evidência após o ano de 1881. O período também coincidiu com uma época de grande progresso e estabilidade econômica e social sem precedentes no Império do Brasil, durante a qual a nação conseguiu crescer internamente e alcançar um lugar de destaque como potência emergente no cenário internacional.
Pedro deixou de acreditar na monarquia como uma forma de governo viável para o futuro do Brasil depois da morte de seus dois filhos homens, restando apenas sua filha Isabel, Princesa Imperial, como a herdeira presuntiva da coroa. Uma soberana mulher, apesar de constitucionalmente permitida, era considerada inaceitável tanto para Pedro quanto para aqueles no poder. A questão foi ignorada durante décadas enquanto o país progredia e o imperador mantinha boa saúde.
Sua saúde começou a piorar a partir de 1881, e Pedro afastou-se gradualmente dos assuntos públicos. Mesmo cansado de estar preso a um trono que duvidava que sobrevivesse após sua morte, ele perseverou por responsabilidade e também porque não parecia existir alternativa imediata. Além disso, Isabel não demonstrava nenhum desejo de suceder ao pai. A indiferença com sistema imperial por parte tanto do imperador quanto de sua filha permitiram que a descontente minoria republicana, formada principalmente por oficiais militares insubordinados e fazendeiros insatisfeitos com o fim da escravidão, ficasse audaciosa e eventualmente lançasse um golpe de Estado que derrubou o império.
Prosperidade O Império do Brasil mudou muito ao longo das cinco décadas desde a ascensão ao trono do imperador D. Pedro II em 1831. O país continuou a prosperar e a diversidade social aumentou durante a década de 1880, incluindo o primeiro movimento organizado pelos direitos da mulher. O liberalismo adotado por sucessivos gabinetes governamentais favoreceu a iniciativa privada e resultou em décadas de prosperidade econômica. O comércio internacional brasileiro tinha alcançado um valor total de 79 bilhões de réis entre 1834 e 1839. Esse valor continuou a crescer anualmente até chegar em 472 bilhões entre 1886 e 1887 (um aumento anual de 3,88% desde 1839). O crescimento econômico brasileiro após 1850 podia ser comparado favoravelmente aos Estados Unidos e outras nações da Europa. O jornalista e historiador Hélio Vianna estima o valor do PIB de 50.000:000$000 em 1840, vindo a atingir a cifra de 500.000:000$000 em 1889 (uma taxa de crescimento anual de 4,81% desde 1840 a 1889, totalizando 49 anos de crescimento do PIB em 4,81%). Obtendo uma renda per capita de 34$882 mil réis em 1889. A renda nacional (Receitas Gerais da União), que chegava em 11,795 bilhões de réis em 1831, foi parar em 160,840 bilhões em 1889. A renda nacional (Receitas Gerais da União) era classificada como a oitava maior do mundo em 1858. Para dar uma ideia do potencial econômico do Brasil durante o império, segundo a Enciclopédia Barsa: "[se] ele tivesse sido capaz de sustentar o nível de produtividade alcançado em 1870 e conseguido aumentar o ritmo das exportações em um igual àquele verificado na segunda metade do século XIX, sua renda per capita em 1950 teria sido comparável a média per capita das nações no oeste europeu".
thumb|esquerda|400px|"Os Soberanos do Mundo". Por volta de 1889, Pedro II (à esquerda, de túnica preta, calças brancas e faixa) havia alcançado proeminência no cenário mundial tanto para o Brasil quanto para si mesmo Durante este período ocorreu um desenvolvimento em grande escala, antecipando iniciativas similares nos países europeus. Existiam cinquenta fábricas em 1850 cujo valor era maior que sete bilhões de réis. Ao final do período imperial em 1889, o Brasil tinha 636 fábricas (taxa anual de 6,74% desde 1850) que valiam 401.630:600$000 réis (crescimento de 10,94% desde 1850). Segundo Steven Topik, a "zona rural ecoava com o tinido de trilhos de ferro sendo colocados enquanto ferrovias eram construídas no ritmo mais furioso do século XIX; de fato, a construção nos anos 1880 foi a segunda maior em termos absolutos em toda a história do Brasil. Apenas oito países no mundo inteiro colocaram mais trilhos na década de 1880 do que o Império do Brasil". A primeira linha férrea tinha apenas quinze quilômetros, aberta em 30 de abril de 1854, época em que muitos países europeus não possuíam esse meio de transporte. Crescendo para 718 quilômetros de linhas por volta de 1868, chegando a 9 200 quilômetros ao final do império em 1889 (com mais nove mil em construção), tornando o Império do Brasil o país com a maior rede ferroviária na América do Sul e Latina e também o nono país com a maior rede ferroviária no mundo.
Topik acrescenta que "fábricas também se espalharam pelo Império em um ritmo sem precedentes na década de 1880, e suas cidades estavam começando a receber os benefícios das companhias de gás, eletricidade, saneamento, telegrafia e bonde.
O Império do Brasil estava entrando no mundo moderno". O Império do Brasil foi o quinto no mundo a instalar esgotos modernos nas cidades, o terceiro a ter um tratamento de esgoto e um dos pioneiros na instalação de linhas telefônicas (sendo o Império do Brasil o segundo país no mundo e das Américas, depois dos Estados Unidos e primeiro na América do Sul e Latina a possuir o telefone). Além disso, foi o primeiro da América do Sul a adotar um sistema de iluminação elétrica pública (em 1883) e o segundo nas Américas (depois dos Estados Unidos e primeiro na América do Sul e Latina) a estabelecer uma linha telegráfica conectando-o diretamente com a Europa (em 1874). A primeira linha surgiu no Rio de Janeiro em 1852. Em 1889 existiam quilômetros de linhas conectando a capital com províncias brasileiras distantes como o Grão-Pará, até mesmo ligando o Brasil com outros países sul-americanos como a Argentina e o Uruguai.
O Império do Brasil era admirado internacionalmente por seu sistema democrático e também respeitado por sua liberdade de imprensa. Na política existiam "partidos sólidos e competitivos, um parlamento ativo, uma imprensa livre, liberdade de expressão". O presidente argentino Bartolomé Mitre chamou o país de uma "democracia coroada", enquanto o presidente venezuelano Juan Pablo Rojas Paúl afirmou ao saber da queda de Pedro II que "terminou a única república que existia na América [do Sul]: o Império do Brasil". O Brasil do último ano de reinado do imperador era uma nação "próspera e [internacionalmente] respeitada" que mantinha uma liderança incontestável na América Latina. Sua marinha era a quinta ou sexta mais poderosa do mundo em 1889, possuindo os navios de guerra mais poderosos no hemisfério ocidental. Pedro era amado pelo povo brasileiro e era considerado com "respeito, quase veneração" na América do Norte e Europa devido às suas ações e ideais democráticos, liberais e progressistas. Os comentários feitos por Christopher Columbus Andrews, antigo cônsul norte-americano no Rio de Janeiro, que conheceu o imperador no final de 1882, contam muito da visão geral que os estrangeiros tinham do Brasil e de seu monarca ao final da década de 1880:
O primeiro-ministro britânico William Ewart Gladstone afirmou que Pedro era "um modelo para os soberanos do mundo" e o considerava um "grande e bom soberano". O escritor brasileiro Machado de Assis posteriormente lembraria dele como "um homem humilde, honesto, bem instruído e patriótico, que sabia como fazer de um trono uma cadeira [por sua simplicidade], sem diminuir sua grandeza e respeitabilidade". O Brasil estava à beira da fragmentação quando Pedro assumiu o trono em 1831. Cinquenta e oito anos depois, o país estava em paz interna havia mais de quatro décadas, a escravidão tinha recentemente sido abolida, o sistema representativo estava consolidado e a liderança militar estava em mãos civis (algo incomum nos países hispano-americanos). De fato, como escreveu José Murilo de Carvalho, pela "longevidade de seu governo e as transformações que ocorreram ao longo de seu curso, nenhum outro Chefe de Estado marcou mais profundamente a história da nação".
Declínio Imperador cansado thumb|230px|Pedro em 1887, por Lucien Walery. Um imperador cansado de sua coroa A partir do final de 1880, cartas entre Pedro e Luísa Margarida de Barros, Condessa de Barral e sua confidente, revelam um homem que se tornara cansado do mundo e cada vez mais com uma visão alienada e pessimista. Ele frequentemente expressava "sua solidão, seu desejo de escapar para junto dela". O imperador mantinha uma fantasia de deixar tudo para trás e realizar sua amada ambição de estabelecer uma vida na Europa, como expressou: "eu se gozasse de toda a minha independência onde estaria? Adivinhe". Esse forte desejo de aposentar-se para uma vida no exterior menos controlada foi uma presença constante durante a década de 1880. Apesar da distância entre devaneio e realidade, ele permaneceu respeitoso com seu dever e era meticuloso ao realizar as tarefas exigidas pelo cargo imperial, mesmo que frequentemente sem entusiasmo.
Pedro também estava passando por um declínio físico, que apenas serviu para piorar seu estado mental. Ele era admirado durante sua juventude por sua habilidade de trabalhar por longas horas e rapidamente recuperar-se de reveses. Porém, "a falta de exercícios físicos e os péssimos hábitos alimentares também influenciavam". Nos anos 1880 o imperador precisou usar óculos pincenê para ler devido ao declínio de sua visão e próteses dentárias a fim de comer, já que o açúcar tinha feito seus dentes se deteriorarem. Inesperadamente começou a se manifestar uma tendência para cochilar, incluindo adormecer "no meio de reuniões importantes e durante compromissos públicos". A causa era o que se conhece hoje como diabetes mellitus tipo 2, com a qual Pedro foi diagnosticado por volta de 1882. O monarca foi afligido pelos anos seguintes com várias doenças repentinas, indo desde dores estomacais até febres. Ele sofreu um corte em sua perna esquerda em 1884, que infeccionou e demorou muito mais que o esperado para curar devido ao diabetes. Pedro também começou a sofrer de "problemas urinários devido ao dano causado pelo diabetes a seus rins". esquerda|miniaturadaimagem|250x250px|Palácio de São Cristóvão (atual Museu Nacional), na Quinta da Boa Vista. Residência oficial de Pedro II até o exílio. Fotografia de 1862. Cansado do reinado e sofrendo de doenças frequentes, o imperador retirou-se cada vez mais dos negócios do governo, frequentemente comportando-se como um espectador. Ele foi visto caminhando pelas ruas da cidade vestido com uma casaca e carregando um guarda-chuvas, algumas vezes cercado por crianças sorridentes, olhando frutas em um mercado local e experimentando a comida servida aos estudantes em visitas a escolas. Pedro tentava viver uma vida como pessoa ordinária, "misturando-se com as pessoas nas ruas" de forma bem sucedida. Ele aboliu vários rituais relacionados com a monarquia, como por exemplo o beija-mão em 1872 e a Guarda dos Arqueiros em 1877, "a guarda palaciana que trajava uniformes multicoloridos e portava alabardas". O Paço Imperial, onde o governo se reunia, foi praticamente abandonado assim como o Paço de São Cristóvão, agora desprovido de cortesãos. O diplomata austríaco barão Joseph Alexander Hübner resumiu a situação em 1882: