O arapaçu-de-wagler ou arapaçu-escamado-de-wagler (nome científico: Lepidocolaptes wagleri) é uma espécie de ave passeriforme da família dos furnariídeos (Furnariidae) e subfamília dos dendrocolaptíneos (Dendrocolaptinae). endêmica do Brasil, é encontrada apenas nos estados do Piauí, Bahia e Minas Gerais, nos biomas da Caatinga e do Cerrado. Habita principalmente matas decíduas e semidecíduas, caatinga arbórea, matas de galeria e áreas florestadas relativamente preservadas, sendo mais abundante em florestas maduras com dossel fechado. Mede cerca de 19 centímetros de comprimento, pesa aproximadamente 27 gramas e distingue-se pela plumagem superior canela-avermelhada clara e brilhante, pela região ventral cinza-ocrácea e pela ausência de pintas ocres. Alimenta-se sobretudo de artrópodes e larvas de insetos, podendo forragear solitário, aos pares ou em bandos mistos de aves.
A espécie foi anteriormente tratada como conspecífica ao arapaçu-escamoso-do-sul (Lepidocolaptes falcinellus) e posteriormente considerada subespécie do arapaçu-escamoso (Lepidocolaptes squamatus). Embora alguns arranjos sistemáticos ainda mantenham essa interpretação, análises morfológicas e genéticas sustentam o reconhecimento de L. wagleri como espécie plena. Estudos filogenéticos baseados em DNA mitocondrial apontam L. wagleri e L. squamatus como espécies-irmãs, embora registros de indivíduos com características intermediárias ao longo do vale do rio São Francisco indiquem a necessidade de estudos adicionais sobre os limites taxonômicos e a diferenciação populacional do grupo.
O arapaçu-de-wagler possui área de ocupação reduzida e populações fragmentadas, sendo considerado sensível ao desmatamento e à degradação ambiental. A principal ameaça à espécie é a destruição das matas secas associadas à caatinga arbórea e às florestas deciduais, principalmente pela conversão de áreas naturais em pastagens, monoculturas e áreas de produção de carvão vegetal, além da ocorrência de incêndios antrópicos. Modelos de nicho ecológico indicam redução expressiva do habitat adequado em decorrência da combinação entre mudanças climáticas e perda de cobertura vegetal. A espécie ocorre em diversas unidades de conservação e sua preservação depende do fortalecimento da proteção ambiental, da realização de estudos ecológicos e genéticos e da ampliação do conhecimento sobre sua distribuição.
Etimologia
O nome genérico Lepidocolaptes deriva do grego lepís (), "escama", e koláptēs (), "pica-pau" ou "batedor". O epíteto específico wagleri, por sua vez, homenageia o herpetólogo e sistematista alemão Johann Georg Wagler . O nome popular arapaçu deriva do tupi arapa'su em sentido próprio. Seu primeiro registro ocorreu em 1949.
Taxonomia e sistemática
O arapaçu-escamoso (Lepidocolaptes squamatus) é considerado espécie-irmã do arapaçu-escamoso-do-sul (Lepidocolaptes falcinellus), tendo sido anteriormente tratado como conspecífico a ele. Nessa classificação, reconhecem-se duas subespécies, a nominal L. s. squamatus (Lichtenstein, MHC, 1822) e L. s. wagleri (Spix, 1824). Justifica-se esse arranjo na distância genética relativamente pequena entre a raça nominal e wagleri, aliada ao registro de pelo menos um espécime com combinação intermediária de caracteres. Apesar disso, o ornitólogo Ber van Perlo as trata como espécies plenas, o que pode ser o caso com base em diferenças morfológicas e genéticas observadas na reavaliações dos dados. Análises filogenéticas baseadas em DNA mitocondrial indicaram que L. wagleri e L. squamatus constituem espécies-irmãs, com elevados valores de probabilidade posterior sustentando a divergência entre os táxons. Apesar disso, espécimes provenientes da margem direita do rio São Francisco, em Caetité, na Bahia, e em Jequitaí, em Minas Gerais, apresentaram plumagem intermediária entre os dois táxons. Padrão semelhante foi observado em um espécime de Arinos, na margem esquerda rio São Francisco, em Minas Gerais, sugerindo a necessidade de estudos filogeográficos complementares para esclarecer os limites taxonômicos e a dinâmica de diferenciação populacional. Apesar disso, Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos reconheceu essas diferenças e assumiu que são espécies diversas, posição adotada no segundo ciclo de avaliação (2016-2020). Por esse motivo, algumas classificações mais atuais tratam a subespécie L. s. wagleri como espécie plena, sob o nome de Lepidocolaptes wagleri.
Descrição
O arapaçu-de-wagler mede cerca de 19 centímetros de comprimento e pesa aproximadamente 27 gramas. Apresenta partes superiores em tom canela-avermelhado mais claro e brilhante, com pouco contraste entre a coroa e o dorso. As manchas da coroa reduzem-se a estrias axiais tênues, enquanto as partes inferiores são mais acastanhadas e possuem estrias com bordas escuras menos evidentes. É desprovido de pintas ocres e região ventral apresenta tonalidade mais cinza-ocrácea.
Distribuição e habitat
O araçapu-de-wagler é uma ave endêmica do Brasil, com ocorrência restrita aos estados do Piauí, Bahia e Minas Gerais. Distribui-se pelos biomas da Caatinga e do Cerrado, estando associada às sub-bacias hidrográficas dos rios Contas, Alto Parnaíba e Alto e Médio São Francisco. Sua área de ocupação (AOO) foi estimada em 120 quilômetros quadrados, valor calculado a partir da sobreposição de uma grade com quadrículas de quatro quilômetros quadrados sobre os pontos conhecidos de ocorrência da espécie, considerando-se a soma das áreas efetivamente ocupadas pelos registros disponíveis. Habita áreas de Cerrado, matas decíduas e semidecíduas, caatinga arbórea e matas de galeria. Em geral, apresenta maior abundância em florestas em estágios mais avançados de regeneração, caracterizadas por árvores decíduas mais altas e dossel fechado entre 18 e 20 metros de altura. Tende a ocupar ambientes relativamente preservados, sendo considerada moderadamente sensível ao desmatamento. Na Fazenda Brejão, em Brasilândia de Minas, foi registrada apenas em trechos florestais bem conservados ao longo do rio Paracatu, não sendo detectada em áreas mais alteradas apesar do esforço amostral realizado.
Ecologia
A dieta do arapaçu-de-wagler é composta principalmente por artrópodes, larvas de insetos, ootecas e ocasionalmente pequenos vertebrados. Pode forragear solitário, aos pares ou integrado a bandos mistos de aves, atuando sobretudo nos estratos médio e superior da floresta. Seu período gestacional foi originalmente calculado em quatro anos, mas estudos mais recentes sugerem 2,8 anos. Por ser sensível a alterações ambientais, sua capacidade de se movimentar entre habitat natural e/ou antropizados é considerada mediano.
Conservação
Em 2017, a Secretaria do Meio Ambiente do Estado da Bahia classificou o arapaçu-de-wagler como em perigo (EN) na Lista Oficial das Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção do Estado da Bahia. Em 2018, com base numa avaliação de 2012, o arapaçu-de-wagler foi classificado como em perigo (EN) no Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), bem como nas edições dedicadas aos estudos das aves. A espécie recebeu essa classificação com base no critério B2ab(iii) da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), o qual indica área de ocupação reduzida, populações severamente fragmentadas ou restritas a poucas localidades e declínio contínuo na extensão ou qualidade do habitat. Essa avaliação reflete principalmente os impactos da fragmentação florestal, do desmatamento e da degradação ambiental sobre as populações remanescentes da espécie. Antes disso, em 2002, a espécie havia sido classificada como vulnerável (VU) segundo o critério A2c, o qual indica redução populacional observada, estimada ou inferida no passado, associada principalmente à diminuição da área de ocupação, da extensão de ocorrência ou da qualidade do habitat. Essa classificação refletia os impactos da perda e degradação ambiental sobre as populações da espécie, especialmente em decorrência do desmatamento e da fragmentação florestal. Em 2020, apesar das ameaças reconhecidas à espécie, a perda de habitat não foi considerada como fator determinante à extinção da espécie no futuro próximo, sobretudo por conta de sua presença em áreas de conservação, o que justificou a reclassificação do arapaçu-de-wagler como pouco preocupante (LC). Em 2025, essa classificação foi reavaliada e a espécie voltou a ser reconhecida como em perigo (EN).
O biólogo Alexandre Aleixo, em seu verbete a respeito da espécie no Livro Vermelho, recomendou como medidas de preservação a realização de estudos ecológicos e genéticos voltados à elaboração de um plano de manejo para a espécie, bem como a condução de levantamentos adicionais nos estados da Bahia e do Piauí, com o objetivo de identificar novas populações. Também considerou necessárias ações de fiscalização para coibir a destruição de hábitat, além da criação de novas unidades de conservação dentro de sua área de ocorrência. A espécie esteve contemplada no Plano de Ação Nacional (PAN) para Conservação das Aves da Caatinga (anos 2015 e 2019) e no PAN das Aves do Cerrado e Pantanal (2015). O arapaçu-de-wagler é considerado escasso em algumas regiões de sua distribuição. Em Brasilândia de Minas, por exemplo, apenas cinco indivíduos foram capturados entre maio de 2002 e fevereiro de 2005. Apesar disso, apresenta registros em unidades de conservação federais e estaduais, sendo considerada frequente no Parque Estadual da Mata Seca, em Minas Gerais, onde 48 indivíduos foram capturados entre 2007 e 2013. Por depender de ambientes florestais e aparentemente possuir baixa capacidade de deslocamento através de matrizes não florestais, suas populações podem encontrar-se severamente fragmentadas em decorrência da intensa fragmentação do habitat. Sua presença foi registrada em unidades de conservação, como no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, Parque Estadual da Mata Seca, Área de Proteção Ambiental Cavernas do Peruaçu, Parque Nacional da Serra das Confusões, Área de Proteção Ambiental de São Desidério, Área de Proteção Ambiental Bacia do Rio Pandeiros, Área de Proteção Ambiental Lajedão, Área de Proteção Ambiental Serra do Sabonetal, Parque Estadual da Lapa Grande, Parque Estadual da Mata Seca e Reserva Particular do Patrimônio Natural Fazenda Ressaca.