A erupção vulcânica de La Palma de 2021 iniciou-se às 14h12 (UTC) de 19 de setembro de 2021 na dorsal do Cumbre Vieja, na ilha de La Palma, nas Ilhas Canárias, Espanha. Esta é a última erupção na ilha depois do surgimento do vulcão Teneguía, em 1971, e a última produzida no arquipélago canário desde a erupção submarina de El Hierro de 2011. A erupção originou um novo vulcão denominado Tajogaite, anteriormente designado por algumas fontes como Cabeza de Vaca.

O bairro de Todoque foi especialmente afetado, como centro urbano soterrado pelo avanço de uma escoada de lava, a 26 de setembro, incluindo a igreja de São Pio X. A escoada de lava principal atingiu o mar na noite de 28 de setembro, num arrife e praia da costa de Tazacorte, a oeste da montanha de Todoque, formando um delta lávico, e dando origem a uma fajã de mais 500 metros de largo e 24 de profundidade, em contínuo crescimento direções sul e oeste sobre o Oceano Atlântico.

A 4 de outubro ocorriam erupções do tipo estromboliano e do tipo havaiano em sete bocas do cone vulcânico, com escoadas mais rápidas e fluídas. O número de desalojados era de 6.000, com 1005 edifícios destruídos, e 413,38 hectares cobertos pelas escoadas de lava. Desde o início da erupção, e até 29 de setembro, haviam sido emitidas 10.757 toneladas de gases. Até 1 de outubro, 13º dia de erupção, o vulcão havia expelido 80 milhões de metros cúbicos de magma, o dobro do Teneguía, em 1971, num terço do tempo.

Antecedentes esquerda|miniaturadaimagem|Mapa geológico da ilha de La Palma, mostrando a localização das erupções em tempos históricos Entre 7 de outubro de 2017 e 25 de junho de 2021, o Instituto Geográfico Nacional registou na parte sul de La Palma um máximo de oito séries sísmicas, conhecidas como enxames sísmicos, com características semelhantes. Estas, juntamente com anomalías de gases e geoquímicas medidas pelo Instituto Vulcanológico das Canárias, indiciavam efeitos de uma possível intrusão magmática.

Esta região, definida na carta geológica de la Palma como edifício Cumbre Vieja, tem sido palco de numerosas erupções em tempos históricos, como as de Montaña Quemada, em 1470-1492, Tahuya, em 1585, Tigalate, em 1646, San Antonio, em 1678, El Charco, em 1712, e, em tempos recentes, Llano del Banco e Hoyo Negro, em 1949, muito próximo da erupção atual, Duraznero, no mesmo ano, e Teneguía, em 1971.

Um estudo científico publicado no início de 2021, que utilizou, entre outras, uma técnica inovadora para interpretar observações disponíveis de radares situados em satélites diferentes, assinalou certas anomalias no Vale de Aridane que sugeriam uma possível "reativação" do subsolo após os anos 2009 ou 2010, embora reconhecendo ser aceite que em até 80% de situações com este tipo de anomalias não se produziram erupções vulcânicas posteriores.

A análise das deformações do terreno, percursor de erupções vulcânicas muito sensível a longo prazo, faz-se por interferometria RADAR, através de satélite (DInSAR), permitindo a análise das deformações de regiões muito extensas com bastante precisão. A análise destas deformações em La Palma, e da sua variação, fez-se entre 2006 e 2021, através dos satélites ENVISAT, RADARSAT-2 e COPERNICUS SENTINEL. Os resultados obtidos foram, por sua vez, contrastados com resultados obtidos em estações GPS (GNSS).

A interpretação destas observações realizou-se através de um modelo de inversão de última geração, capaz de localizar e caracterizar os volumes que exercem pressão, e os diferentes tipos de fraturas, ou deslocações, que podem representar fontes magmáticas, assim como os caminhos que toma o magma. A comparação destes resultados com a sismicidade e as anomalias gasosas e geoquímicas permitiu gerra um modelo conceptual, explicando a evolução do processo de reativação vulcânica.

miniaturadaimagem|341x341px|A linha amarela representa a ascensão do magma De acordo com este modelo, entre 2009 e 2010 o magma começou a ascender, a partir de um armazenamento situado abaixo do sul de La Palma, a uma profundidade entre 25 e 30 quilómetros. Este processo ocorreu ao largo do limite do Complexo Vulcânico Norte e Cumbre Vieja. O magma ascendeu até entre 8 e 10 quilómetros de profundidade, produzindo as anomalias gasosas e geoquímicas observadas em 2010 e 2011 sobre este percurso. Esta subida realizou-se entre zonas fraturadas e frágeis, não consolidadas, provavelmente associadas a erupções recentes, sem atividade sísmica. A magnitude dos deslocamentos de terreno medidos, e a falta de mudanças significativas de gravidade sugerem um pequeno volume de magma acumulado. Posteriormente, em 2011 e 2012, a entrada de uma pequena quantidade de magma continuou seguindo um percurso semelhante, como ficou refletido nas anomalias de gases medidas pelo Instituto Vulcanológico das Canárias na zona de Cumbre Vieja, en 2013. Pequenos volumes de magma ascendiam provavelmente pela mesma rota, sem que ocorresse atividade sísmica durante estes períodos.

esquerda|miniaturadaimagem|Movimentos sísmicos preliminares No início do período 2017-2020, ocorrem dois enxames sísmicos, em outubro de 2017 e fevereiro de 2018, associados a recentes fraturas, provavelmente abrindo novos caminhos e favorecendo a ascensão do magma, novamente refletido nos sinais geoquímicos observados, assim como no aumento do tamanho e importância das fontes de deslocação em Cumbre Vieja.

Na madrugada de 11 de setembro de 2021 começou um novo enxame sísmico de baixa intensidade no sul da ilha. Até domingo, 19 de setembro, foram registados 31 movimentos sísmicos, com magnitudes oscilando entre 0,8 e 2 na escala mbLg. Na segunda-feira, 13 de setembro, atingiram-se os 1500 movimentos sísmicos na zona do Parque Natural de Cumbre Vieja, nos municípios de Fuencaliente, Mazo e El Paso, o que levou a ativar um alerta de cor amarela (nível de alerta 2 numa escala de 1 a 4) no Plano Especial de Proteção Civil e Atenção a Emergências por Risco Vulcânico (Pevolca), por parte do Governo das Canárias.

Durante o dia 19 de setembro registaram-se 327 sismos, destacando o sismo de 3.8 mbLg que ocorreu às 11:16, amplamente sentido na ilha, com profundidade de dois quilómetros. Pouco depois ocorreu outro, de 4,2 na escala Richter. Desde o início da atividade sísmica, considerou-se que a deformação da ilha devida à pressão do magma sobre a crosta terrestre havia causado a elevação da zona de possível erupção em cerca de 15 centímetros.

Apesar desta situação, decidiu-se não aumentar as medidas de precaução, tendo o Cabildo de La Palma decidido iniciar a evacuação de menos de 40 pessoas com mobilidade reduzida e parte do gado presente na zona.

Cronologia da erupção miniaturadaimagem|229x229px|Populares observam à distância a erupção

Setembro 19 de setembro A erupção iniciou-se às 15:13, hora local, no pinhal de Cabeza de Vaca, no município de El Paso, na dorsal de Cumbre Vieja, na mesma zona das erupções históricas de La Palma. Apresentava inicialmente duas fissuras separadas por 200 metros, e oito bocas. Autoridades como a Guardia Civil, que destacou sobre o terreno mais de 120 efetivos, estimaram que o total de evacuados poderia superar os dez mil, tendo em conta a previsão do curso da lava em direção à costa. Várias estradas tiveram a circulação fechada, por precaução.

20 de setembro Durante as 16 horas seguintes, produziram-se três escoadas de lava, chegando a alcançar uma altura de seis metros. Mais de cinco mil pessoas foram evacuadas dos bairros mais próximos à trajectória das escoadas, entre elas centenas de turistas. Na última hora do dia acrescentou-se uma nona boca na zona do bairro de Tacande. As escoadas de lava, do tipo "aa", não eram muito fluídas; não obstante, no seu curso em direção ao oceano a cerca de 700 metros por hora provocaram numerosos danos materiais, como a destruição total de edifícios, vias de comunicação e instalações próximas à zona da primeira erupção.

21 de setembro Cerca das 14:00 horas, a escoada principal havia alcançado a localidade de Todoque, a mais povoada de toda a zona afetada, com cerca de 1200 habitantes, a uma velocidade de 120 metros por hora. Nessa ocasião a lava avançava por duas línguas: a situada a sudoeste, em Las Manchas, tinha um movimento mínimo de apenas 2 metros por hora, enquanto a segunda, alimentada pela nova boca, foi a que chegou a Todoque.

Durante a tarde, Involcan constatou um aumento da atividade sísmica e, consequentemente, da atividade eruptiva das quatro bocas que continuavam ativas, ao mesmo tempo que se notava uma deformação do terreno de 25 cm. centro|miniaturadaimagem|907x907px|Sobreposição da área coberta pelo rio de lava nos dias 20, 21, 22 e 23. Captado pelos satélites do programa Copernicus.

22 e 23 de setembro miniaturadaimagem|Posto de Comando Avançado, instalado nas imediações da Caldeira de Taburiente, com efetivos dos vários corpos e forças de segurança do Estado.|257x257px O director técnico do Pevolca, Miguel Ángel Morcuende, mencionou um período de "mini estabilidade", que embora estivesse sendo "bastante explosivo", as escoadas de lava haviam diminuído a velocidade e avançavam muito lentamente. Morcuente confirmou ainda que existiam nove bocas, havendo quatro ativas numa única fissura.

A diretora do Instituto Geográfico Nacional (IGN) nas Canárias, María José Blanco, destacou que a erupção havia entrado numa fase mais explosiva, com grande emissão de cinzas e diminuição da sismicidade. Indicou também que a escoada continuava com baixa velocidade, a cerca de quatro metros por hora. A escoada que alcançou o bairro de Todoque, continuava alargando a sua frente, superando os 500 metros, enquanto a língua mais a norte permanecia parada.

esquerda|miniaturadaimagem|308x308px|Escoada de lava engolindo à sua frente todos os edifícios e estruturas 24 de setembro Abriram-se mais duas bocas, criando duas escoadas que se deslocavam a uma velocidade de cerca de 60-80 metros por hora, encosta abaixo. Pouco depois foi decretada a evacuação das povoações de Tajuya, Tacande de Abajo e a parte de Tacande de Arriba que ainda não tinha sido desalojada. Ao mesmo tempo, intensificou-se a atividade explosiva e a emissão de cinzas. A presença destas partículas no ar e a pouca visibilidade causou a suspensão de todas as operações comerciais no Aeroporto de La Palma e no de La Gomera.

25 de setembro A parte ocidental do cone principal de cinzas vulcânicas sofreu um desmoronamento. Abriu-se uma nova boca, originando uma escoada de lava muito mais intensa e fluida, movendo-se sobre a corrente original, que ainda continuava avançando, embora muito lentamente, a poucos metros por hora. A baixa velocidade deve-se à viscosidade ter aumentado muito nas partes inferiores, devido à diminuição da temperatura da lava, aumentando também a altura da escoada.

O ramal da escoada que estava em Todoque pouco avançou. A deformação do terreno não variou muito nos últimos três dias, uma vez que o material que estava entrando na câmara magmática estava sendo compensado pelo que estava sendo expelido. Até este dia haviam sido expelidos pouco mais de 25 milhões de metros cúbicos de magma.

A coluna de fumo e cinzas vulcânicas elevou-se a uma altura de seis quilómetros, com a cinza alcançando toda a ilha de la Palma, e parte da Gomera, mantendo o Aeroporto de La Palma inoperacional. Os operadores marítimos reforçaram as carreiras para a ilha de La Palma, produzindo-se, ainda assim, grandes filas de passageiros no porto de Santa Cruz.

26 de setembro miniaturadaimagem|333x333px|Colapso da torre-campanário da igreja de São Pio X, em Todoque, provocado pelo avanço da escoada de lava. 17:55 WEST de 26 de setembro de 2021.