Projecto Global era uma super estrutura organizativa planeada por Otelo, com diversas funções, que englobaria Forças Populares 25 de Abril (FP-25) e o partido político Força de Unidade Popular (FUP) além das restantes componentes - Oscar e Quartéis bem como todas as subcomponentes. Otelo sempre contestou a inserção das FP-25 neste plano.

Apesar de não ter existência jurídica ou ser invisível perante os cidadãos e a opinião pública, o Projecto Global tinha como finalidades, entre outras, criar condições que permitissem aos seus integrantes, a prazo e mediante a insurreição armada, tomar o Estado e instalar o poder popular através da institucionalização do que designavam por democracia directa e basista, e subverter o funcionamento das instituições do Estado consagradas na Constituição, pois tal se trata de uma das condições adequadas à referida insurreição armada…" O Terrorismo e as FP 25 anos depois, José Barra da Costa, Edições Colibri, Junho de 2004

Segundo documento de esquema interno, apreendido no âmbito da Operação Orion, “esta organização de tipo novo surge como a forma possível de dar resposta à situação repressiva que a burguesia exerce sobre os trabalhadores e revolucionários, por um lado, e por outro lado ser capaz de sintetizar a resposta dos mesmos a nível da luta e da violência na perspectiva de vir a constituir direcção política da insurreição armada e da tomada de poder" Os fundadores do Projecto Global foram entre outros, Otelo Saraiva de Carvalho, José Mouta Liz, Pedro Goulart e Humberto Dinis Machado. Caso FP-25 de Abril: Alegações do Ministério Público, Ministério da Justiça, Lisboa 1987

No processo chamado FUP/FP 25 de Abril, Otelo e companheiros serão acusados, amnistiados pela autoria moral e inocentados pela autoria material. Ver Projeto Global (Forças Populares 25 de Abril)#Desfecho jurídico: amnistia e inocência

Origens Logo após a eleição presidencial de 1976, onde Otelo obteve a e um resultado histórico, com quase 800 mil votos (16,2%), tenta criar um partido de forma a poder aproveitar todo o capital político entretanto adquirido, No entanto o GDUP, criado logo a seguir às eleições presidenciais e que concorreu às eleições autárquicas, uns meses mais tarde, não logrou obter mais do que 100 mil votos, a que correspondeu a cerca de 1,5%. os fracos resultados é uma das razões principais pelas quais o próprio GDUP tenha tido uma vida curta e menos de um ano depois tinha deixado de ter actividade política. No entanto, nada disso travou a radicalização de Otelo nem a sua ambição, apoiada pelos movimentos mais radicais da política portuguesa.

Após a prisão dos principais dirigentes do Partido Revolucionário do Proletariado/Brigadas Revolucionárias (PRP/BR), cujas estruturas tinham sido severamente abaladas pela operação policial de 1978, que resultou na prisão de Isabel do Carmo e Carlos Antunes. A partir dai, com os seus líderes presos e um partido sem liderança, gera-se uma ruptura entre os dirigentes na prisão e os restantes militantes. Pedro Goulart liderou o grupo mais radical dos que advogavam maior violência, nomeadamente assassinatos. numa tentativa de radicalizar a luta armada, criando assim uma cisão dentro do já muribundo PRP.

A cisão política, como repetida ad nauseam noutras páginas semelhantemente distorcidas, refere-se que a "facção Goulart" apresenta um documento ao III congresso subscrita por dezassete militantes a defender apoiar Otelo, em oposição aos anteriores líderes que considerariam apoiar Eanes.

Desta cisão, surge a Organização Unitário dos Trabalhadores (OUT), constituída em congresso, realizado no Pavilhão da Embra, na Marinha Grande, entre 7 e 9 de Abril de 1978, e sessão de encerramento a 15 de Abril, no Campo Pequeno, em Lisboa. No total marcam presença cerca de 1300 participantes. Tendo o PRP como o seu principal dinamizador e dentro deste Pedro Goulart, que inclusive defende a eventual dissolução do PRP, na OUT. Entre as moções aprovadas, destaca-se a defesa da violência armada como arma política: «o poder popular, só será possível (...) pelo recurso (...) à violência revolucionária armada» e só poderá ser uma realidade «....se os trabalhadores estiverem armados, constituíndo um (...) exército popular», e «Só com a violência (...) é possível ao povo a conquista do poder político.» Por não se identificar com o novo regime, a OUT não se constitui como partido político e a maioria dos seus orgãos são ocupados por dirigentes do PRP, partido que cede espaço para albergar o movimento nas suas sedes, permitindo que Otelo Saraiva de Carvalho, que apesar da sua condição de militar, tenha direito a ser considerado um convidado permanente, sem direito a voto.

Após a cisão, a maior parte dos membros do PRP/BR, primeiro criando a Organização Unitária dos Trabalhadores plataforma política transitória, a partir do qual nasceu o Projecto Global. Este veio a “herdar" algumas das sedes e instalações do PRP. Com a transferência dos militantes ou operacionais acompanha-os todo o armamento e explosivos pertencentes ao mesmo PRP/BR.Expresso 29 de Maio de 1982,Primeiro Caderno, pg 6

Em termos políticos, o Projecto Global nasce também ao mesmo tempo que o primeiro governo de direita no pós 25 de Abril de 1974, com a maioria parlamentar da Aliança Democrática e o projecto de revisão constitucional que viria a expurgar a carga ideológica marxista e consequente extinção do Conselho da Revolução. Portugal tinha já pedido a adesão à Comunidade Europeia em 1977. Este seria materializado no acordo de pré-adesão, em 1980 e entrando logo em processo de negociação, que resultaria na adesão total a 12 de Junho de 1985.

Paralelamente acontecem as eleições presidenciais de 1980, onde Otelo concorreu e não obteve mais do que 1,49% dos votos, muito abaixo da votação conseguida nas eleições de 1976.

Objectivos Conforme a acusação do Ministério Público os objectivos eram bastante claros: Obstar a um golpe de Estado de cariz fascista; Criar condições que permitissem aos seus elementos a tomada do poder pela insurreição armada; Subverter o funcionamento das instituições constitucionalmente consagradas do Estado; O Projecto Global pretendia avançar organicamente com um exército revolucionário, o de enquadrar militarmente as massas trabalhadoras no assalto ao poder da burguesia, o de responder revolucionariamente a toda a repressão contra os trabalhadores e o de se financiar ao que designam por "recuperação de fundos e material logístico"

Componentes e Subcomponentes O órgão de cúpula do Projecto Global era a uma Direcção Político Militar (DPM) ou Direcção Estratégica que procurava agregar, coordenar e articular as componentes e subcomponentes, bem como exercer a direcção operacional das mesmas. No entanto, apesar destas funcionarem articuladas entre si, cada uma componentes funcionam de forma relativamente autónoma. A razão da existência de várias componentes tinha um objectivo muito claro, e bem explicado por José Oliveira Ricardo, em reunião ocorrida a 8 de Dezembro de 1982. "O Projecto Global é um projecto insurreccional. Está estruturado nas várias componentes necessárias para um projecto insurreccional. As componentes são compartimentadas e autónomas, com direcção política própria. À sua compartimentação é fundamental para resistir aos ataques do inimigo e impede que o projecto seja posto em causa no seu todo, pelos traidores, durante o percurso".

Não havendo uma data oficial para o nascimento do Projecto Global, atribui-se a data de 28 de Março de 1980 que constitui o anúncio público do nascimento da Força de Unidade Popular, a «Organização Política de Massas», cerca de um mês antes do primeiro atentado das FP-25 e ainda antes de ter sido oficialmente aprovado, pelo Supremo Tribunal de Justiça, a 28 de Julho de 1980.

Organização Política de Massas - Força de Unidade Popular A Organização Política de Massas (OPM) era a componente com formato legal, que se traduzia num partido político - Força de Unidade Popular FUP e Organização Unitária de Trabalhadores (OUT), que nunca teve existencia juridica e legal. A OPM foi constituída de início pela OUT, tendo-lhe juntado mais tarde a Força da Unidade Popular (FUP), sendo que os seus dirigentes eram exactamente os mesmos, reunindo estes ora sob a sigla da Organização Unitária dos Trabalhadores ou sob a sigla da Força de Unidade Popular sem um racional claro. Após um processo de discussão interno na OPM, esta veio a ser constituída unicamente a FUP.

A esta componente, competia desenvolver conflitos sociais, alargar a base de apoio do Projecto Global, funcionando tudo o resto como um normal partido político com as suas estruturas e sedes regionais. A FUP era na prática a institucionalização legal do Projecto Global e a cobertura para todas as acções de propaganda. O partido legal, serviria também para dar cobertura à aquisição de imóveis, cujo financiamento proviría das acções de financiamento - assaltos, ajudas externas e raptos (engavetamentos).

Logo após os primeitos atentados, a 9 de maio de 1980, elementos do gabinete executivo da FUP, não oriundos do PRP ou da OUT, exigiram que houvesse uma demarcação pública da FUP em relação às FP-25, o que gerou discussão interna na FUP. Na falta dessa demarcação, verificou-se o abandono dos elementos não oriundos da OUT e PRP e que anteriormente teriam pertencido ao MES, da UDP, da FSP, como o Acácio Barreiros, o Manuel Serrra, a Catalina Pestana e outros militantes. Após esta saída, a FUP ficado reduzida apenas aos elementos que estariam em sintonia com a componente militar armada, as FP-25.

Estrutura Civil Armada - Forças Populares 25 de Abril Ver artigo principal: FP-25 de abril

Era a componente clandestina e armada destinada a operacionalizar a violência armada. A ECA, como lhe designava Otelo, era o embrião do Exército Popular Revolucionário que derrubaria o regime democrático pela força das armas. Para isso, era necessário criar as condições, o que se vinha fazendo, com a luta armada. As suas acções armadas, eram atentados, assaltos, baleamentos e assassinatos, e era anunciada e conhecida do grande público nos comunicados e reivindicações de atentados como Forças Populares 25 de Abril (FP-25).

Entre 1980 e 1987, as FP-25 foram diretamente responsáveis por 14 mortes, inclusive uma criança — às quais acrescem ainda as mortes de 6 dos seus operacionais, dezenas de atentados a tiro, centenas outros com recurso a explosivos bem como assaltos a bancos, viaturas de transporte de valores, tesourarias da fazenda pública, empresas, etc, que resultaram no roubo de várias centenas de milhar de contos, usados para financiar todas as componentes.

A equivalência entre os planos da Estrutura Civil Armada e as FP-25 alegada pelo Ministério Público foi contestada por Otelo.

Oscar - Otelo Saraiva de Carvalho Componente pessoal e uninominal correspondendo à figura de Otelo Saraiva de Carvalho, enquanto figura de elevado grau de reconhecimento e notoriedade pública e política, que garantiria a credibilidade da organização, a atracção de militantes ou simpatizantes para todas as restantes componente. Foi ainda a forma de dar protagonismo e visibilidade a Otelo.

Oscar nunca poderia ter como objetivo ser um código secreto dado, desde o 25 de abril de 1974, ser conhecido corresponder a Otelo Saraiva de CARvalho (OSCAR).Mouta Liz, J. e R. Francês (2023) Otelo Saraiva de Carvalho. Acusação e Absolvição. O Projecto Global e as FP-25 de Abril. Âncora Editora.

Quartéis Componente secreta, supostamente deveria ser constituída por militares no activo, atraindo jovens oficiais e dinamizada por iniciativa de Otelo, com o objectivo de criar uma estrutura paralela de reacção dentro do exército português. Esta componente teria ainda a função de fornecer à organização informações e documentos militares que viessem a ser relevantes para a luta armada ou para a insurreição armada. No entanto, nunca chegou a ter existência ou actividade conhecida.