As classes sociais no Brasil foram descritas por diversos autores e instituições, não havendo uma concepção unívoca a esse respeito. Este verbete, portanto, apresenta diversas análises da estratificação social brasileira feitas ao longo da história contemporânea do país.
Em sociologia, a concepção de classe social é, por vezes, diferente das habituais divisões por faixas de renda (classes A, B, C, D e E), entre outros motivos, porque estas consideram as classes de um modo meramente quantitativo. Não levam em conta que as classes não são totalmente fluidas, mas relativamente fechadas em si. Desconsideram também a forma pela qual cada classe interage uma com as outras. Por exemplo, relações de exploração econômica e dominação entre as diferentes classes podem contribuir para a perpetuação da desigualdade econômica entre elas. Outro defeito dessa abordagem é não levar em conta que a renda é apenas uma das várias diferenças entre as classes. Cada classe tem visões de mundo, aspirações e até mesmo costumes próprios. Entretanto, a classificação por faixas de renda também é abordada neste verbete.
IBGE (2022) Em suas publicações, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) costuma classificar a população em classes de rendimento domiciliar total ou rendimento domiciliar per capita, mas não utiliza nomenclaturas como classes "A, B, C, D e E" e não adota uma definição oficial de categorias como "classe média".
Na divulgação da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), de 2017-2018, por exemplo, o IBGE dividiu a população em sete classes de rendimento, com base no valor do salário mínimo. Atualizada para o valor do salário mínimo de 2022 (1.212 reais), a classificação ficaria assim:
Número de salários mínimosRenda familiar (em reais)Acima de 2530.300,01 ou maisDe 15 a 2518.180,01 a 30.300,00De 10 a 1512.120,01 a 18.180,00De 6 a 107.272,01 a 12.120,00De 3 a 63.636,01 a 7.272,00De 2 a 3 2.424,01 a 3.636,00Até 2Até 2.424,00
Para a filósofa Marilena Chaui, essa divisão não leva em conta o que é uma classe social. A causa de uma classe, isto é, o que a gera, é a forma da propriedade. Deste modo, no capitalismo industrial, há a classe dos proprietários (a burguesia, ou elite) e a dos trabalhadores. Além dessas duas, há uma classe que não faz parte do núcleo central do capitalismo, isto é, uma classe que não é nem dona dos meios de produção e nem trabalhadora, no sentido do capitalismo industrial, que é a classe média (composta por profissionais liberais, funcionários públicos, integrantes da burocracia empresarial, entre outros). Outra fraqueza do método do IBGE é não considerar patrimônio ou ganhos esporádicos.
Jessé Souza (2017) Jessé Souza, em A Elite do Atraso (2017), identifica quatro classes no Brasil contemporâneo. Duas já existem há muito tempo: a "elite da rapina" e a "ralé de novos escravos" (que antes eram apenas "escravos"). As outras duas — uma classe média e outra trabalhadora — são mais recentes. Estas tiveram um começo incipiente na Primeira Guerra Mundial, mas só se firmaram na década de 1930 com Getúlio Vargas. A industrialização do Brasil promovida por Vargas foi responsável pelo surgimento dessas duas novas classes e pela configuração da sociedade brasileira da forma como ela é reconhecida hoje.
A divisão de classes de Jessé, inspirada por Pierre Bourdieu, não tem por base as faixas de renda (muito criticada por ele), nem a concepção marxista-leninista. Ela se baseia em sociabilidades diferentes. Isto é, cada classe social tem um método próprio de criar os filhos, de socializá-los, e essas diferenças geram as classes sociais e as suas respectivas mentalidades e visões de mundo. A divisão de classes a seguir é bastante semelhante à de Darcy Ribeiro.
+ClasseDescriçãoA elite dos proprietáriosCaracterizada pela posse do capital econômico, que é transmitido hereditariamente. Controlam tanto os meios de produção de bens materiais como de bens simbólicos, como parte da mídia.Classe média(1)Sua ênfase está no capital cultural. A classe também possui capital econômico hereditário, mas esse capital não tem a mesma importância que para a classe alta dos proprietários. A classe possui quatro subdivisões, conforme a tabela abaixo.Também chamada de classe trabalhadora semiqualificada. Conforme Souza, "é uma classe extremamente heterogênea, ela vai desde toda a forma de trabalho precarizado até pequenos empreendedores." Compreende 70% da população. É composta, em parte, por aquilo que se habitou chamar de "nova classe média", emergida durante os governos do PT.Ralé de novos escravosComposta pelos descendentes dos escravos, bem como de indivíduos livres, mas em situação de dependência. É uma classe que não tem acesso aos capitais econômico e cultural, e não dispõe nem das condições de adquiri-los, pois, para Jessé, eles são socializados de modo a viver sempre no presente, sem pensamento prospectivo, e sem estímulos dos pais para a leitura, o que faz com que eles não tenham a capacidade de concentração necessária para os estudos e a ascensão para a classe imediatamente superior.
(1) classes de origem mais recente.
Divisões da classe média No mesmo livro, A Elite do Atraso, foi apresentada pela primeira vez as divisões dentro da classe média. Tais divisões foram feitas com base em uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), coordenada pelo próprio Souza, somada a entrevistas realizadas por ele próprio em grandes cidades brasileiras. A classe média se diferencia conforme o tipo de capital cultural que adquire, e a sua quantidade. As frações expressivistas e críticas tem maior capital cultural, e as liberais e protofascistas, menor.
+Divisões da classe médiaCapital culturalFração liberalTanto a fração liberal como a protofascista se caracterizam pela posse de um conhecimento técnico adaptativo, que serve para se adaptar às necessidades do capital, e não para criticar a ordem social. Essas frações buscam o conforto das certezas compartilhadas, veiculadas sobretudo pela mídia. Também se caracterizam pelo moralismo. Em comparação com a protofascista, a fração liberal possui maior apego ao ideário democrático.Fração protofascistaConforme Souza, "o ódio às classes populares é aqui aberto e proclamado com orgulho, como expressão de ousadia ou sinceridade. O protofascista se orgulha de não ser falso como os outros e poder dizer o que lhe vem à mente. O mal e o bem estão claramente definidos, e o bem se confunde com a própria personalidade." Distingue-se da liberal também por sua maior sensibilidade a críticas, que são vistas como uma negação da própria personalidade.Também chamada de "classe média de Oslo", assim como a fração crítica, é mais crítica. Porém, sua atenção é mais voltada a causas ambientais, ecológicas, e de direitos dos animais, e não dá suficiente atenção ao principal, que, no Brasil, é a miséria e a desigualdade. A classe média é de "Oslo", portanto, porque dá a impressão de viver em um país em que as desigualdades e misérias foram praticamente resolvidas.Fração críticaO menor segmento da classe média, são os setores mais intelectualizados, e que buscam criticar a sociedade. Esse segmento percebe a realidade social como uma invenção, algo construído.
thumb|center|297px|Composição da classe média brasileira, segundo suas frações, ou nichos. Toda a classe média corresponde a, no máximo, 20% da população
Além das divisões horizontais apresentadas acima, Souza também divide a classe média verticalmente em uma classe média alta e a massa da classe média. A classe média alta se aproxima da elite. Não ultrapassa 2% da população. Já a massa da classe média é bem maior: corresponde entre 15% e 18% da população. Esta massa é caracterizada por uma maior diversidade de opiniões políticas. Algumas abraçam o fascismo, enquanto outras são mais progressistas.
ABEP (2015) A Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP) usa o chamado "Critério Brasil". Em 2015, foi criado o Novo Critério Brasil.
O Critério de Classificação Econômica Brasil (CCEB), ou apenas "Critério Brasil", é uma classificação é feita com base na posse de bens e não com base na renda familiar. Para cada bem possuído há uma pontuação, e cada classe é definida pela soma dessa pontuação. As classes definidas pelo CCEB são A1, A2, B1, B2, C, D e E. O Novo Critério Brasil, por sua vez, considera novos itens, como a presença de água encanada, rua asfaltada, posse de motocicleta e de outros itens de uso diário, como computadores e lavadoura de louças. Esse critério, contudo, tem suas desvantagens:
Darcy Ribeiro (1995) Em O Povo Brasileiro (1995), o antropólogo Darcy Ribeiro apresenta uma divisão empírica das classes, isto é, baseada na observação da sociedade. Ribeiro critica a importação de tipologias de classes sociais da Europa, como se elas valessem automaticamente para a realidade latino-americana. Nesta divisão, percebem-se quatro grandes estratos: classes dominantes, setores intermediários, classes subalternas e classes oprimidas.
A classe dominante subdivide-se em três grupos. O patronato, cujo poder e riqueza vêm da exploração econômica. O patriciado, por sua vez, é composto por indivíduos que exercem altos cargos (general, deputado, bispo, etc.) Mais tarde, surgiu entre as classes dominantes outro grupo: o estamento gerencial das empresas estrangeiras.
Os setores intemediários, por sua vez, são compostos por "pequenos oficiais, profissionais liberais, policiais, professores", entre outros. As classes subalternas englobam os indivíduos que, apesar de pobres, estão integrados no mercado. Possuem empregos estáveis, Também englobam pequenos empresários, arrendatários, gerentes de propriedades rurais, etc.
A mais ampla classe é, contudo, as oprimidas, ou dos "marginais", composta principalmente de negros e mulatos. Estes não estão plenamente integrados na vida social, no sistema econômico, etc., e vivem de subempregos, ou de empregos instáveis. Para Ribeiro, a eles cabe a tarefa de reformar a sociedade.
+CLASSES DOMINANTESPATRONATOESTAMENTO GERENCIAL
ESTRANGEIROPATRICIADOOLIGÁRQUICO
Senhorial
ParasitárioMODERNO
Empresarial
ContratistaESTATAL
Político
Militar
TecnocráticoCIVIL
Eminências
Lideranças
CelebridadesSETORES INTERMEDIÁRIOSAUTÔNOMOS
Profissionais liberais
Pequenos empresáriosDEPENDENTES
Funcionários
EmpregadosCLASSES SUBALTERNASCAMPESINATO
Assalariados rurais
Parceiros
MinifundistasOPERARIADO
Fabril
ServiçosCLASSES OPRIMIDASMARGINAIS
Trabalhadores estacionais
Recoletores - volantes
Empregados domésticos
Prostitutas - mendigosFonte:
Trujillo Ferrari (1983) A descrição das classes sociais feita por Trujilo Ferrari em seu livro Fundamentos de Sociologia (1983), considerada "magistral" por Eva Maria Lakatos, se baseia em critérios de renda. Ela é a seguinte: