Luigi Galvani (Bolonha, — Bolonha, ) foi um médico, investigador, físico e filósofo italiano. Fez uma das primeiras incursões do estudo de bioeletricidade, um campo que ainda hoje estuda os padrões elétricos e sinais do sistema nervoso.Luigi Galvani (1737-1798) – Eric Weisstein’s World of Scientific Biolgraph. Página visitada em 4 de dezembro de 2012. Foi professor de anatomia da Universidade de Bolonha, cidade onde viveu e morreu.
Vida e educação Luigi Galvani nasceu em 9 de setembro de 1737 em Bolonha Raffaele Bernabeo (organizador) Luigi Galvani (1798-1998): fra biologia e medicina, Bologna, Cooperativa Libraria Universitaria Editrice Bologna, 1999, ISBN 88-491-1241-6, pag 16 filho de Domenico Galvani e Barbara Foschi, jovem senhora de boa família bolonhesa. Marco Bresadola Luigi Galvani: devozione, scienza e rivoluzione, Bologna, Editrice Compositori, 2011, 978-88-7794-731-4, pag 20 Galvani e o seu irmão mais velho, Francesco, tiveram uma infância serena e rica, de que tem-se pouca notícia, em uma casa da rua hoje denominada rua Guglielmo Marconi, em Bolonha.
Trabalhando com registro de costumes, primeiramente estudou Letras e Filosofia na Universidade. Graduou-se em Filosofia e Medicina em 1759. Frequentava as aulas expositivas de Gaetano Tacconi em Filosofia e Cirurgia, de Domenico Maria Gusmano Galezzi em anatomia, e as de Jacopo Batolomeo Beccari e Giuseppe Monti em química e história natural. Em 1762, casou com Lucia Galeazzi, filha de seu professor, que se tornou parceira afetiva e preciosa colaboradora por toda a vida.
Um papel fundamental na educação do jovem Giovani foi atribuído à educação recebida dos Padres Filippinos do oratório de São Filippo Neri. A ordem se inspira no ideal do "catolicismo iluminado", promovido por Ludovico Antonio Muratori e importado a Bologna por Prospero Lorenzo Lambertini (bispo da cidade e, a partir de 1740, papa com o nome de Bento XIV). O ordem dedica-se a incentivar iniciativas voltadas à melhoria da vida dos cidadãos mediante o retorno a uma religiosidade mais racional e menos supersticiosa (falava-se, a este propósito, de "devoção regulada"). Provavelmente Giovani foi aluno também de Giambattista Roberti, um padre jesuíta professora de Filosofia e de Sagradas Escrituras, o qual, embora pertencente a outra ordem religiosa, compartilhava a moderação religiosa dos padres filipinos.Marco Bresadola, op.cit., pag 25
Já nas suas primeiras experiências estudantis apareceu a sua orientação de vida: ele permaneceu sempre um convicto defensor dos valores cristãos sobre os quais baseava-se sua educação, mas teve grande influência de algumas ideias iluministas, como a importância fundamental atribuída ao método experimental na pesquisa sobre a natureza e a ideia que o saber devesse ter como fim a utilidade à sociedade. É emblemática, a tal propósito, a decisão, muito posterior, de não jurar fidelidade à República Cisalpina, instaurada na península Itálica por Napoleão Bonaparte, como era requisitado a todos os funcionários públicos, incluídos os docentes universitários: escolha alinhada comum livreto lançado naqueles anos no qual o autor, de formação filipina, afirmava a incompatibilidade entre a fé católica e os ordenamentos políticos napoleônicos. Nicola Paltrinieri, Breve trattato composto nel marzo ed aprile del 1798 sulla prima parte del primo giuramento cisalpino, Bologna, 1799
Estudos de Medicina A família de Galvani seguia a linha do "catolicismo iluminado" de Ludovico Antonio Muratori, de forma que alguns creditam aos ideais muratorianos a escolha, não usual para os filhos da classe mercantil, de inscrever o irmão Giovani na universidade. Enquanto Francesco Giovani foi encaminhado ao estudo do direito canônico, para depois empreender com sucesso a carreira de advogado, Luigi Galvani inscreveu-se na Faculdade de Medicina e Filosofia.
Apesar do tio Giuseppe Galvani, irmão de Domenico, tivesse vestido o hábito eclesiástico, Giovani preferiu outro caminho porque, segundo os ideais filipinos e muratorianos, o clero secular não apenas estava necessitado de profundas reformas, mas também era decididamente muito numeroso. Giuliano Pancaldi, Volta. Science and culture in the age of Enlightenment, Princeton University Press, Princeton (USA), cap. 2
Galvani começou a frequentar a Escola de Medicina da Universidade de Bolonha em 1754, laureando-se cinco anos depois. Naqueles anos, o professor e mestre da Faculdade de Medicina era Bartolomeo Beccari, aluno de Marcello Malpighi. Giovani ficou profundamente impressionado com o método de ensino de Beccari, que, além da medicina tradicional, propunha aos seus estudantes a descoberta de princípios científicos mais recentes (como o estudo malpighiano das glândulas), e insistia na importância da atribuição às partes sólidas do organismo em contraste com a teoria do humor de Hipócrates. Decisiva na sua formação universitária foi também a influência de Domenico Gusmano Galeazzi, professor de Física Médica do instituto e futuro sogro de Galvani, que, enquanto em aula ensinava os fundamentos para o conhecimento da ciência médica, convidava à sua casa os seus estudantes para a dissecação anatômica (prática seguida depois pelo próprio Galvani. Muito provavelmente foi na própria saleta de Galeazzi que Galvani desenvolveu a paixão pelo conhecimento direto dos fenômenos naturais e a convicção que o corpo humano pudesse ser manipulado. Marco Bresadola, op.cit., pag 39 Oportuna instrução do jovem Galvani: Giovanni Antonio Galli, professor de obstetrícia, a quem ele sucederia em 1782.
Estas três pessoas (Beccari, Galeazzi e Galli) tiveram uma influência decisiva na formação universitária de Galvani e representam perfeitamente a figura do intelectual receptivo nas discussões científicas surgidas entre o e o , e, ao mesmo tempo, fortemente baseado na tradição médica. Marco Bresadola, op.cit., pag 41
Galvani e o Estudo da Eletricidade Através de Movimentos Musculares A eletricidade é um dos campos que mais fascinou os estudiosos ao longo da história da ciência, embora o seu desenvolvimento sistemático tenha ocorrido no século XVII.
No período entre 1780 e 1790, Galvani sustenta que há uma forma intrínseca de eletricidade envolvida na condução nervosa e na contração muscular, e então passa a estudar sobre a interação da eletricidade em animais através de sucessivas experiências, a fim de entender as reações dos membros posteriores de rãs ao lhe aplicarem eletricidade, que nessa época, só dispunha de eletricidade estática.
A escolha por envolver sapos nas investigações do movimento muscular não foi isenta e aleatória. As características desse anfíbio tornavam a escolha extremamente adequada: seus nervos são facilmente localizáveis e separados - o que facilitava o estudo ao abrir as rãs; suas contrações musculares são evidentes e suas contrações não acabam logo após a morte, mas duram até 44 horas – tempo conveniente para os estudos de Galvani e constado por ele.
Por volta de 1786, Galvani realizou uma experiência pendurando por um gancho de latão as pernas de uma rã em um corrimão do lado de fora do laboratório, a fim de utilizar descargas elétricas fortes, no caso, de uma tempestade. Mas Galvani, de forma errônea, atribuiu o fato das patas da rã contraírem à eletricidade do animal, e não aos metais em contato com as pernas da rã. O que de fato Galvani fez sem saber, foi produzir corrente elétrica, o princípio do funcionamento de uma pilha elétrica.
O médico, físico e filósofo, com a publicação dos resultados das experiências em sua obra intitulada Comentários sobre a força elétrica nos movimentos musculares divulgada em 1791, incentiva Alessandro Volta, o italiano químico, físico e professor da Universidade de Pavia, a pesquisar tal fenômeno, o que o fez chegar na verdadeira explicação, levando-o à construção da chamada Pilha de Volta ou Pilha Voltaica.
A descoberta de Galvani e a construção da Pilha Voltaica marcaram a evolução dos estudos sobre eletricidade e magnetismo, conhecidos até então. A partir disso, o estudo de casos produzidos por corrente elétrica passou a ser chamado de Galvanismo.
Carreira Acadêmica Depois de ter frequentado a universidade e o instituto de ciências em Bolonha, Galvani começou a atuar nos hospitais da cidade para aprender a prática médica. Naquele período, em Bolonha havia nove hospitais: entre os principais, aquele de Santa Maria da Vida e de Santa Maria da Morte, San Giobbe, São Lázaro e Policlínico Santa Úrsula Malpighi. Galvani frequentou o de Santa Maria da Morte, onde fez solicitação para tornar-se assistente, privilégio concedido somente aos melhores estudantes de medicina que haviam terminado o curso de estudos mas ainda não haviam se graduado. Assim seu pedido foi recusado, mas alguns anos depois (1764) lhe foi concedido de tornar-se substituto de seu mestre, Giovanni Antonio Galli, que operava no Santa Úrsula.
Depois de ter conseguido, em julho de 1759, o título de doutor em Filosofia e Medicina, Galvani encontrou-se frente a uma decisão, devendo escolher entre o exercício da profissão médica e a possibilidade de tronar-se professor universitário. Logo, Galvani deu-se conta que o papel de docente universitário o teria restringido a obter menos do que: qualquer daqueles emolumentos que a prática médica lhe teria possibilitado obter. ASBo, Fondo Assunteria di Studio, Requisiti dei lettori, busta 40
Apesar de ter ciência disso, ele decidiu dedicar-se à carreira acadêmica. Marco Bresadola, op.cit., pag 71 thumb|Casa de Galvani, em Bolonha
Graças à recomendação do irmão Francesco, em 1762 Galvani entrou na Accademia dei Vari, ambiente que contribuiu para enriquecer seus dotes de orador e de pesquisador e que lhe permitiu conhecer expoentes da nobreza que foram determinantes para sua carreira acadêmica. Marco Bresadola, op.cit., pag 72 Em janeiro do mesmo ano, Galvani leu os seus primeiros discursos públicos em duas cátedras da Academia das Ciências do Instituto de Bolonha do qual havia sido eleito alunno no ano anterior. Em junho apresentou uma série de teses a discutir no Arquiginásio de Bolonha para obter um cargo de ensino universitário. O empenho de Galvani foi bem recompensado: em 1763, de fato obteve título tanto o título de "Anatômico Ordinário", cargo ocupado também por seus mestres, Beccari e Galeazzi, quanto o de leitor de Medicina.
Em 1766, ficou vago o posto das câmaras de Anatomia do Instituto de Ciências. Tal posto não foi submetido a concurso mas a administração do instituto propôs como nome único o de Galvani. Graças também ao apoio do seu sogro, ele conseguiu obter também esse posto e tornou-se "acadêmico beneditino". Marco Bresadola, op.cit., pag 83
Tais posições o obrigaram a diversas responsabilidades, entre as quais aquela de prover à Academia de Ciências ao menos uma dissertação ao ano. Walter Tega, Mens agitat molem. L'Accademia delle Scienze di Bologna (1711-1804) in Scienza e letteratura italiana del Settecento a cura di Renzo Cremante, Il Mulino, Bologna 1984, pp. 65-107 Ele de fato devia dar aulas de anatomia não só a estudantes de Medicina, mas também a pintores e escultores, preferindo o uso de modelos de cera em vez de cadáveres e ilustrações. Marco Bresadola, op.cit., pag 90
Em 1768, presidiu a famosa função anatômica, um verdadeiro e próprio espetáculo que se desenvolvia no Teatro Anatômico do arquiginásio. Luigi Galvani, Lezioni di anatomia. Prima lectio. Anno 1768, fondo Galvani, busta IV, plico I
Em 1780, foi-lhe oferecida, pela terceira vez em sua carreira, a oportunidade de ter um curso público de anatomia no Teatro do Arquiginásio: é interessante ressaltar que a primeira disputa foi com o prior dos escolares (a máxima autoridade estudantil da época) já que nenhum dos docentes de quem se esperava a tarefa de disputar com Galvani apresentou-se. Petronio Cavallazzi, Memorie storiche bolognesi dall'anno 1760 all'anno 1796, 2, anno 1780, in BUBo, Mss. Gozzadini, 351-353