thumb|direita|200px|Machado de Assis Várias Histórias é uma coletânea do escritor brasileiro Machado de Assis, publicada em 1896 que reúne dezesseis contos seus publicados na Gazeta de Notícias entre 1884 e 1891. É considerada uma das suas melhores obras no gênero. Oito das histórias aí publicadas tornaram-se clássicas e aparecem com muita frequência em coletâneas: A Cartomante, Uns Braços, Um Homem Célebre, A Causa Secreta, Trio em Lá Menor, O Enfermeiro, Um Apólogo e D. Paula.

Estilo e temática Muitos dos traços presentes nos contos do livro já aparecem em Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), dentre eles o pessimismo, o niilismo, a ironia destrutiva. Características de estilo sofisticadas para a época como o narrador onisciente intruso, a polifonia, a descrença no conhecimento como meio de salvação da humanidade fazem seus escritos estarem à frente de seu tempo, e o põem em sintonia com autores como Dostoiévski.

Contos Os contos estão listados abaixo na ordem em que foram publicados no livro original. À direita, entre parênteses, está o ano de publicação original na Gazeta de Notícias.

1) A Cartomante (1884)

Publicado originalmente na Gazeta de Notícias de 28 de novembro de 1884. Obra-prima à Maupassant, onde a singularidade do acontecimento se sobrepõe à análise psicológica ou filosófica.Prefácio de José Guilherme Merquior das Várias Histórias das Edições Críticas de Obras de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977. O conto gira em torno do tema da credulidade versus ceticismo. Camilo tem um caso amoroso com Rita, esposa de seu amigo de infância Vilela. Certo dia, recebe uma carta anônima dizendo que “a aventura era sabida de todos”, e por isso deixa de visitar o amigo. Rita, temendo que Camilo já não a ame, consulta uma cartomante. Camilo, que não acredita nessas coisas, a repreende. Até que um dia recebe uma carta de Vilela pedindo que venha imediatamente falar com ele. Teria Vilela descoberto a traição? A caminho da casa do amigo, Camilo, pondo seu ceticismo de lado, não resiste à tentação de consultar aquela mesma cartomante na rua da Guarda Velha, atual Avenida Treze de Maio, no Centro carioca.Para saber os nomes atuais de ruas citadas por Machado de Assis, consulte: . E aí os fatos se precipitam até o final inesperado. “Machado, que em muitas de suas crônicas ironizou a crença em videntes, leitores de mão, etc., põe aqui a ironia do destino em ação para contar essa história, uma de suas mais populares.”Luiz Antonio Aguiar, Almanaque Machado de Assis, Editora Record, 2008, p. 91.

TRECHO: Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia.

2) Entre Santos (1886)

Publicado originalmente no Suplemento Literário da Gazeta de Notícias de 1o de janeiro de 1886. Conto fantástico de fundo psicológico. Um padre velho conta que, quando era capelão da Igreja de São Francisco de Paula, certa noite percebeu uma luz misteriosa no interior do templo e, ao adentrá-lo, deparou com “uma coisa extraordinária”: os santos haviam descido dos nichos e conversavam nos altares sobre os sentimentos profundos de seus fiéis. São José conta a história de uma adúltera que brigou com o amante. O conto culmina com a história, narrada por São Francisco de Sales, de um avaro que reza pela cura de sua mulher, mas não consegue se decidir a oferecer em retribuição o ex-voto de uma perna de cera, porque custará dinheiro. À semelhança da “Anedota pecuniária” em Histórias sem Data, temos aqui um perfil satírico-caricatural do avarento exacerbado, tema recorrente na literatura, que Dickens retratou no personagem Scrooge e Balzac em Gobseck (e nas histórias em quadrinhos temos o Tio Patinhas).

TRECHO: Que ele é usurário e avaro não o nego; usurário, como a vida, e avaro, como a morte.

3) Uns Braços (1885)

Publicado originalmente na Gazeta de Notícias de 5 de novembro de 1885. Conto psicológico sobre um amor adolescente. “É a história de Inácio, jovem de 15 anos que vai trabalhar como ajudante do ríspido solicitador (funcionário do Judiciário, algo entre procurador e advogado) Borges, morando na casa deste. É lá que acaba se encantando com os braços de D. Severina, companheira do seu patrão. Deve-se lembrar que na época em que se passa a história, 1870, não era comum uma mulher exibir tal parte do corpo.” “Em Uns braços há todo um inacreditável (considerando a época) jogo de sedução entre o garoto de 15 anos, Inácio, e D. Severina, mulher do patrão do garoto.”Luiz Antonio Aguiar, Almanaque Machado de Assis, Editora Record, 2008, p. 91. Observe que na Rua da Lapa, onde mora o solicitador, tinha-se na época vista para o mar!

TRECHO: Aguentava toda a trabalheira de fora, toda a melancolia da solidão e do silêncio, toda a grosseria do patrão, pela única paga de ver, três vezes por dia, o famoso par de braços.

4) Um Homem Célebre (1888)

Publicado originalmente na Gazeta de Notícias de 29 de junho de 1888. Conto psicológico sobre o tema do músico que não alcança a plena realização, já abordado antes em “Cantiga de Esposais” (1883, Histórias sem Data) e “O Machete” (1878, não incluído em livro). O personagem Pestana, embora seja um famoso compositor de polcas ouvidas por toda parte, sente-se frustrado por não conseguir compor uma grande obra clássica, no estilo de Mozart ou Beethoven.

TRECHO: Por que não faria ele uma só que fosse daquelas páginas imortais?

5) A Desejada das Gentes (1886)

Publicado originalmente no Suplemento Literário da Gazeta de Notícias de 15 de julho de 1886. Conto de tendência romântica“A desejada das gentes apresenta vestígios românticos quando faz alusão a dicotomia morte/vida, monstro/anjo, morte/esperança, entre outras.” Ver sobre um tema ousado para a época: a “repulsa ao sexo” (ou, nas palavras do narrador, “aversão puramente física” ao casamento). Trata-se da história, contada por um “narrador personagem” (um narrador que faz parte da trama), de uma mulher de beleza divina, a Quintília, “a mais bela da cidade”, cobiçada pelos homens, mas que ninguém consegue conquistar. O narrador (o Conselheiro) torna-se amigo íntimo da moça na esperança de conseguir se casar com ela, mas a cada tentativa, ela responde que prefere que continuem apenas amigos. O casamento acabará ocorrendo, mas numa situação extrema, quando a “indesejada das gentes” (a morte) está prestes a entrar em cena. “Em 'A desejada das gentes', Machado concentrou, na figura de Quintília, a ideia de indiferença em relação à paixão erótica. Essa força passional, sendo matéria com poder de atração em todos os tempos, obteve o seu apogeu no Romantismo.”

TRECHO: […] aquela moça tinha ao casamento uma aversão puramente física. Casou meio defunta, às portas do nada.

6) A Causa Secreta (1885)

Publicado originalmente na Gazeta de Notícias de 1o de agosto de 1885. Romance psicológico sobre um sádico. “Garcia, médico, Fortunato, capitalista, e Maria Luísa, mulher deste, formam o triângulo de 'A causa secreta', o conto de Machado que mais lembra os de Poe. Fortunato aparece para Garcia quando este está socorrendo um homem apunhalado por capoeiras, Gouveia, e, depois de ajudá-lo, Fortunato o humilha. Ele fascina Garcia por sua morbidez, pela frieza com que vê sofrimentos e passa horas estudando anatomia e trinchando gatos e cachorros, o que causa crises nervosas na mulher. Serenamente sádico, Fortunato esquarteja um rato na frente dos dois. Depois, quando a mulher adoece, acompanha sua agonia sem nenhuma lágrima. No dia do velório, surpreende Garcia dando um beijo na testa de Maria Luísa, o que espeta sua vaidade [...], mas em seguida o médico explode em choro e soluços – e essa 'dor moral' Fortunato contempla com prazer.”Daniel Piza, Machado de Assis: Um Gênio Brasileiro. 2a edição revista e corrigida pelo autor. São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006, p. 287.

TRECHO: Entre o polegar e o índice da mão esquerda segurava um barbante, de cuja ponta pendia o rato atado pela cauda. Na direita tinha uma tesoura. No momento em que o Garcia entrou, Fortunato cortava ao rato uma das patas; em seguida desceu o infeliz até a chama [...]

7) Trio em Lá Menor (1886)

Publicado originalmente no Suplemento Literário da Gazeta de Notícias de 20 de janeiro de 1886. Romance psicológico sobre a mania de perfeição. Como num trio da música clássica, o conto se divide em quatro movimentos. O trio também serve como símbolo do triângulo amoroso da história: a protagonista Maria Regina, movida pela busca da perfeição, fica indecisa entre dois pretendentes, e acaba não ficando com nenhum. “No final, a heroína se perde nos sonhos, em que vê, como uma metáfora de sua situação, a encantadora imagem de uma estrela dupla que se aparenta com um único astro.”

TRECHO: Maria Regina viu dentro de si a estrela dupla e única. Separadas, valiam bastante; juntas, davam um astro esplêndido. E ela queria o astro esplêndido. Quando abriu os olhos e viu que o firmamento ficava tão alto, concluiu que a criação era um livro falho e incorreto, e desesperou.

8) Adão e Eva (1885)

Publicado originalmente na Gazeta de Notícias de 1o de março de 1885. Conto fantástico-filosófico onde a imaginação corre solta. Reinterpretação maniqueísta dos mitos bíblicos da criação do mundo e de Adão e Eva no paraíso, onde o Diabo tem tanto peso quanto Deus. Quem narra essa história é um juiz de foraMagistrado nomeado pelo rei de Portugal para atuar em locais onde era necessária a intervenção de um juiz isento e imparcial, que normalmente seria de fora. Ver convidado para uma refeição por uma senhora de engenho baiana em “mil setecentos e tantos”. No final a história do juiz de fora se revela incoerente, pois, se tivesse acontecido de verdade, os convivas não estariam ali “saboreando este doce, que está, na verdade, uma cousa primorosa”. Em 1878 Machado já havia publicado outra paródia bíblica, “Na Arca”, incluída em Papéis Avulsos. Em 1897 o escritor português Eça de Queiroz publicou um conto de temática afim intitulado “Adão e Eva no Paraíso”.

TRECHO: - Aqui está como as cousas se passaram. Em primeiro lugar, não foi Deus que criou o mundo, foi o Diabo...

9) O Enfermeiro (1884)

Publicado originalmente na Gazeta de Notícias de 13 de julho de 1884 sob o título “Cousas Íntimas”. Conto psicológico-criminal. História de um crime perfeito, nunca descoberto, cometido por um enfermeiro que, após sofrer múltiplas agressões de seu paciente – um coronel do interior que ninguém aturava –, num misto de raiva e autodefesa acaba assassinando o doente agressor. Por uma ironia do destino, o enfermeiro torna-se herdeiro universal de sua vítima.

TRECHO: Chegando à vila, tive más notícias do coronel. Era homem insuportável, estúrdio, exigente, ninguém o aturava, nem os próprios amigos. Gastava mais enfermeiros que remédios. A dous deles quebrou a cara. Respondi que não tinha medo de gente sã, menos ainda de doentes; e depois de entender-me com o vigário, que me confirmou as notícias recebidas, e me recomendou mansidão e caridade, segui para a residência do coronel.

10) O Diplomático (1884)

Publicado originalmente na Gazeta de Notícias de 29 de outubro de 1884. O conto transcorre numa festa de noite de São João em uma casa na Lapa. O protagonista, Rangel, apelidado de “diplomático” devido aos seus modos educados, é o protótipo do sonhador cujos sonhos nunca se concretizam. “Trata-se de um homem de caráter indeciso, extremamente hesitante e acovardado para tomar decisões.” Na festa pretende declarar seu amor à Joaninha, entregando-lhe uma carta. Mas protela tanto a entrega que outro rapaz, o Queirós, acaba conquistando a moça.

TRECHO: De imaginação fazia tudo, raptava mulheres e destruía cidades. […] Cá fora, porém, todas as suas proezas eram fábulas. Na realidade, era pacato e discreto.

11) Mariana (1891)