Verdade Celestial foi uma falsa seita religiosa, parte de uma rede de pedofilia ativa entre 2013 e 2015 em Setúbal e na aldeia de Brejos do Assa, em Palmela, em Portugal. Oito pessoas foram constituídas arguidas, ficando quatro deles em prisão preventiva, aguardando julgamento. O caso surpreendeu pelos contornos pouco habituais em Portugal, e pela forma como passou inteiramente despercebido da população, sendo considerado por fonte da Polícia Judiciária como um case study criminal. O juiz João Benildo Rodrigues, que presidiu ao coletivo do tribunal de Setúbal e julgou os arguidos em 2017, afirmou não haver memória de um caso como este em julgamento em Portugal, pela violência e gravidade ímpar dos factos ocorridos. O principal arguido, Rui Pedro, foi condenado a 23 anos de prisão, tendo cinco dos outros arguidos sido condenados a penas entre os 7 e os 19 anos de cadeia. Duas das mulheres envolvidas, entre as quais a mulher de Rui Pedro, foram absolvidas.

Crimes

Setúbal A partir de 2011, Rui Pedro Santos, o principal arguido, começou a criar uma rede de perfis falsos "com o fim de fomentar contactos e conhecer pessoas com o propósito de combinar encontros entre crianças e terceiros que quisessem ter práticas sexuais com elas, a troco de dinheiro".

Em 2013, Pedro vivia em casa de uma irmã no bairro de Monte Belo, em Setúbal, trabalhando como recepcionista num hotel, do qual foi despedido pouco antes de se mudar para Palmela. A mulher, Alexandra, é natural do Pinhal Novo,, tendo então 27 anos. Pedro abusava sexualmente do filho, na altura com sete e oito anos, fingindo brincar aos médicos. Os abusos aconteciam com o conhecimento da mãe, e muitas vezes na presença do filho mais novo de ambos, de dois ou três anos. Ao casal juntou-se um amigo, David Martins, divorciado, pai de um rapaz de cinco anos, também abusado por ambos, e a principal vítima da rede.

Com a experiência que tinha como treinador de futebol, conseguiu um lugar no Clube Desportivo de Algeruz, a treinar o Futebol Clube Esferinhas, clube amador fundado em setembro de 2012, vocacionado para a promoção do desporto nas camadas infantis, entre os 5 e os 12 anos. Ainda em Setúbal, Pedro convenceu um rapaz dos Esferinhas a frequentar a sua casa, onde conversavam e jogavam PlayStation. Em uma ocasião, Pedro apresentou-se como "um mestre espiritual" que o protegeria de "espíritos maus e demónios" se a criança lhe obedecesse. Com medo, o rapaz obedeceu. E mesmo quando tentava afastar-se ou pedia para nada fazerem, Pedro agarrava-o, forçando-o, dizendo que tinha poderes para amaldiçoá-lo.

Em 2013, o casal encontrava-se desempregado e em dificuldades económicas, vivendo apenas do salário do amigo, empregado do Lidl, levando a que todos aceitassem o convite da namorada de um primo de Pedro para viverem num anexo da quinta dos pais dela, que havia convencido a ajudar o casal, que alegadamente teria sido despejado, com os dois filhos menores, da casa onde moravam em Setúbal. Nem a moça, nem o primo de Pedro foram constituídos arguidos no processo, por não serem encontrados indícios do seu envolvimento dos crimes, apesar das explicações escolares que ali davam terem potenciado o contacto de Pedro com menores.

Herdade de Brejos do Assa Inicialmente Pedro procurou estabelecer-se Algeruz, procurando um espaço para alugar para dar consultas de psicologia. Arrendou inicialmente a uma moradora um anexo com sala, uma pequena cozinha e uma casa de banho, pagando 150 euros. Ainda chegou a pintar as paredes, mas acabou por nunca habitar ali. A proprietária acabou por devolver-lhe o dinheiro, por aparentarem ser pessoas pobres.

Pedro, a mulher e os filhos terão chegado à freguesia em inícios de 2014. A população acreditava que tinham vindo do Norte, com os dois filhos, então de dois e sete anos. Pedro, então com 32 anos, dizia ser treinador de futebol de formação e psicólogo, vocacionado a ajudar crianças. Em janeiro de 2014, instalaram-se nuns anexos de quintal, no terreno de uma luxuosa vivenda, envolvidos por arvoredo, cujos telhados dificilmente se avistam da estrada, pertença de um casal da aldeia, pais da namorada do primo de Pedro.

O casal e os filhos, juntamente com Martins, que se fazia passar por seu antigo motorista, e o filho deste estabeleceram-se no anexo da herdade. Juntou-se-lhes depois um casal de raparigas com cerca de 20 anos, fugidas da casa dos pais, em Aveiro, por estes não aceitaram a sua homossexualidade, que Pedro conhecera pela internet. As moças foram viver para a casa, e embora tomassem conta das crianças e por vezes fossem buscá-las à escola, tinham práticas sexuais à frente delas, chegando a demonstrar como se usa um vibrador. André Marques, de 27 anos, licenciado em gestão pelo Instituto Superior de Economia e Gestão, que havia assumido a sua homossexualidade, não sendo aceite pelos pais conservadores. Sentindo-se "perdido", acabaria por se juntar ao grupo. Rui Pedro foi buscá-lo a Sete Rios, em Lisboa, para conhecer a quinta, possibilitando-lhe logo na primeira noite abusar de um primo e afilhado dos donos da quinta, então com 11 ou 12 anos. O menor conseguiu que saíssem do quarto, nunca mais voltando a pernoitar ali. Todos contribuíam de alguma forma para a falsa seita, acreditando que Pedro tinha "superpoderes". Todos os oito arguidos viviam naquelas instalações de forma permanente ou provisória, até à sua detenção em junho de 2015. Faziam ali a vida, dividindo-se entre uma casa e um pequeno anexo ao fundo do terreno.

O primeiro contacto com as crianças fazia-se muitas vezes quando Pedro se oferecia para as ajudar, enquanto "psicólogo", depois de as conhecer. O contacto fazia-se por vezes no campo de futebol da aldeia, mas também por via da publicidade que a mulher fazia nos cafés às consultas do marido. Com os contactos feitos através dos treinos de futebol com os pais das crianças, e pela publicidade deixada pela mulher, Pedro começou a dar consultas de psicologia. As duas primeiras eram gratuitas, custando depois cinco euros. Apresentando falsas credenciais de psicólogo, chegou a apresentar relatórios para a escola da condição de um menino com dislexia. Os documentos eram insuspeitos, neles sendo usada a mesma linguagem técnica que a mãe e avó da criança reconheceram de relatórios anteriores feitos pelos verdadeiros psicólogos da escola. De acordo com os relatórios elaborados pelos psicólogos da Polícia Judiciária, Pedro é um "burlão manipulador, mentiroso, convincente naquilo que diz", conseguindo argumentar e convencer as pessoas sem sequer as confrontar. Dessa forma, rapidamente integrou-se na freguesia, conseguindo um conjunto de clientes, todos menores. Paralelamente, dava explicações, conseguindo os alunos através de panfletos que deixava na escola básica local, frequentada pelo filho. Uma vez o negócio montado, Pedro acabou por deixar os treinos de futebol. O amigo servia de motorista da organização, trazendo e levando os rapazes a casa dos pais.

Seita da Verdade Celestial Durante mais de um ano, Pedro recebeu crianças na casa e no anexo, a pretexto de se ocupar delas, dando explicações e organizando Atividades de Tempos Livres (ATL) no quintal, com piscina insuflável, onde algumas mães deixavam os filhos. O espaço localizava-se no centro de uma enorme quinta com árvores de fruto e rodeada de videiras, sendo impossível avistar da estrada. Os habitantes de Brejos do Assa acreditavam tratar-se realmente de um verdadeiro ATL. Havia consultas de psicologia, explicações e atividades, num espaço apreciado pelas crianças. Os próprios pais chegaram a ser convidados para festas e sessões de karaokê. No espaço, Pedro criava situações por forma a fotografar as crianças que frequentavam a herdade, enquanto as acariciava. As imagens, assim como as descrições físicas de cada um dos meninos, eram depois usadas numa série de sites destinados a encontros gay, onde passava horas. Aí acabou por encontrar vários homens com preferências específicas por crianças, começando a lhes vender os serviços.

De modo a camuflar o esquema, Pedro serviu-se dos seus conhecimentos enquanto Testemunha de Jeová, criando uma seita religiosa internacionala que chamou "Verdade Celestial". Elaborou um conjunto de regras, com categorias hierárquicas, da qual alegava ser ele o "Mestre", respondendo, por sua vez, a um mestre espanhol, de nome Pablo. Por forma a sustentar a mentira, Pedro criou no Facebook uma série de perfis falsos. Os cargos dos outros membros da comunidade, que deviam obediência total ao mestre, eram distribuídos pelo grau de importância que iam adquirindo na hierarquia: Ungidos Reais, Ungidos Especiais e os Servos Devotos. Quem fugisse às regras de Rui Pedro, podia ser selváticamente espancando.

Pedro passou então a falar da "Verdade Celestial" às crianças, apresentando-se como o "Mestre", criando um mundo imaginário que servia ao mesmo tempo para aliciar e assustar. Rui Pedro dizia às crianças que todos eram abençoados por um deus do qual ele era o representante na terra, e que a casa estava protegida dos espíritos maus que tentavam entrar, sendo as práticas sexuais eram uma forma de partilharem as boas energias. Rui Pedro pregava como filosofia a vida em comunidade e a entreajuda entre crianças e adultos, dizendo que para que nenhum mal lhes acontecesse enquanto grupo, todos teriam de aceitar os rituais, sendo Rui Pedro o líder e o representante de um deus a quem todos deviam obediência. Aos adultos a quem convenceu a juntarem-se a ele, e à mulher, dizia que para o grupo só existia a verdade, em nome de uma vida em comunidade com obediência ao mestre com o qual eram efetuados atos sexuais apresentados como atos purificadores. Se contassem a alguém, seriam todos sacrificados.

Segundo a filosofia pregada por Rui Pedro, as crianças eram portadoras de más energias e nelas pousavam, de quando em quando, espíritos demoníacos. Para as libertar eram necessários três rituais. O primeiro, e mais importante, tinha como foco o pénis, que afirmava ser o membro por excelência de purificação, uma vez que penetrava as carnes das crianças; o sexo oral surgia num segundo escalão, e por fim a ejaculação dos adultos por cima dos seus corpos. Chegar ao primeiro escalão, a cópula com as crianças, tornava-se assim no grande objetivo dos predadores.

Os sinais ligados à falsa seita eram invisíveis da estrada, tendo a Polícia Judiciária que percorrer o caminho de terra para encontrar inscrito numa árvore o nome "Javeh" e um crucifixo, rodeados por cadeiras onde seriam feitas as supostas cerimónias religiosas. No interior, existiam colchões espalhados por todo o lado, e documentos com as regras da organização.

Pedro atemorizava as crianças com ameaças que iam da necessidade de serem protegidos de espíritos malignos, à premonição de acidentes em que estariam envolvidos. Os rapazes passavam por uma cerimónia semelhante ao batismo, embora o grande objetivo não fosse "chegar ao céu", mas ser purificado. Pedro dizia a crianças e a adultos que as práticas sexuais, com ou sem ameaças, eram "atos purificadores". Existiam vários graus de "purificação", todos eles através de atos sexuais com os menores, começando por carícias, masturbação, sendo o topo o sexo com penetração. Os "purificadores" da seita eram os predadores sexuais. Uma das regras do grupo de pedófilos era que o 'elemento purificador' era o pénis e que as vítimas deviam ter menos de 14 anos, "por serem inocentes e puras".

Pedro aproveitava as vezes em que conseguia persuadir as crianças a pernoitar na quinta para trazer a clientela pedófila até lá. Eram então sujeitas a vários abusos sexuais, sempre sozinhas, para que os crimes não fossem testemunhados por outras crianças, e sempre sob o pretexto da purificação. Pedro cobrava entre 30 a 60 euros pelos serviços. Alguns dos homens acabavam por dormir lá, enquanto outros iam embora depois dos abusos.