thumb|Santo Tomás de Aquino

O tomismo é o sistema filosófico e teológico de Santo Tomás de Aquino (1225 - 1274), posteriormente aprofundado pela corrente de pensadores influenciados por ele. Caracteriza-se sobretudo pela sua aceitação do uso da razão na especulação teológica, mas sem confundir seu domínio com o da fé. É notória a influência platônica e, sobretudo, aristotélica; por esta, a tradição tomista é frequentemente chamada aristotélico-tomista.

Aspectos gerais

Na base do sistema tomista está sua tentativa de encontrar uma harmonia entre a filosofia e a teologia. Santo Tomás é o principal expoente da ideia desenvolvida na escolástica chamada de philosophia ancilla theologiae, a filosofia como serva da teologia. Esta concepção, porém, não busca diminuir a razão em detrimento da fé, mas sim apresentar uma relação de ordenação: por um lado, a filosofia está ordenada à teologia; por outro, a teologia necessita da filosofia como um preâmbulo, uma fundamentação. Nisto, Santo Tomás se distancia tanto das correntes racionalistas do averroísmo de seu tempo, como do fideísmo que se desenvolveria posteriormente (sobretudo com Guilherme de Ockham).

Esta harmonia buscada entre fé e razão encontra diversos paralelos em outros âmbitos, como aquele entre teologia e filosofia, Igreja e Estado, e, ultimamente, Deus e o homem. Portanto, pode-se dizer que a doutrina tomista é a busca de uma harmonia entre realidades distintas, mas nas quais Santo Tomás encontra uma ordem que tenta explicitar.

No Medievo, o tomismo foi uma das correntes de prestígio do ambiente escolástico das universidades. Ganhou seguidores sobretudo em Paris e nos círculos dominicanos. No entanto, não obteve aceitação unânime de imediato, sofrendo condenações locais e tendo diversos opositores em outras correntes, como os escotistas e os ockhamitas. Foi sobretudo a partir do Concílio de Trento e do subsequente uso por meio dos papas e no ensino dos seminários que as ideias de Santo Tomás de Aquino se estabeleceram como a base mais sólida para a explicação da doutrina católica.

O tomismo se caracteriza por uma forte tendência aristotélica, filosoficamente, que rejeita diversos aspectos da visão agostiniana. No entanto, teologicamente, Santo Agostinho foi a principal influência de Santo Tomás, e este se esforçou por manter suas ideias na linha do paradigma até então vigente. Portanto, pode-se dizer que o tomismo, rejeitando diversos pontos essenciais da filosofia agostiniana, não deixa de ser fortemente influenciado por esta.

As discordâncias filosóficas entre o tomismo e o agostinianismo se dão sobretudo na concepção sobre a alma humana e no plano epistemológico.

Filosofia

Ontologia A ontologia tomista tem por base as concepções filosóficas de Aristóteles. Este estabelece a distinção entre ato e potência, segundo a qual o ente em ato é aquele que já atingiu determinado fim, enquanto que o ente em potência é aquele que está disposto a se atualizar. Por exemplo, pode-se dizer que a madeira é uma estátua em potência, pois pode assumir a forma da estátua; se assume realmente esta forma, diz-se que atingiu o ato, se atualizou.

A partir disto, a filosofia aristotélica faz a distinção entre aquilo que é essencial em um ente e aquilo que lhe é acidental. A essência de um ente é o que há de necessariamente atual nele, enquanto que os acidentes apenas potencialmente existem. Em sentido filosófico, o essencial é aquilo que constitui um ente, enquanto que o acidental pode estar ausente sem que o ente em questão deixe de existir. No exemplo da estátua, pode-se dizer que o essencial é representar algo, sendo o material da estátua acidental: pode ser tanto de madeira quanto de mármore sem que deixe de ser estátua, mas não seria mais estátua se não representasse uma realidade.

Com base nisto, Santo Tomás desenvolve as noções de entre ente e essência, exposta em seu tratado assim chamado. Para o escolástico, deve-se fazer uma verdadeira distinção entre um ente e sua essência, e esta é anterior à existência do ente; esta filosofia se chama essencialismo. Por esta linha, diz-se que todo ente possui certo número de atributos essenciais, sem os quais não poderia existir. Assim, a essência é o que constitui um ente. Na tradição aristotélica, a essência de um ente é sua espécie, e se define por duas características suas, que são o gênero especialíssimo (o mais próximo do indivíduo) e a diferença específica (aquela que distingue uma espécie de todas as outras de mesmo gênero). Por exemplo, a essência de Sócrates é homem, que se define como animal racional: animal é o gênero e racional é a diferença específica.

Transcendentais Na concepção de Santo Tomás, seguindo a tradição aristotélica como legada à escolástica por Porfírio e sua tradução latina por Boécio, os atributos transcendentais do ente (bondade, veracidade, unidade...) são identificados entre si e com o próprio ser. Isto quer dizer que um ente é bom na mesma medida em que é verdadeiro e uno, e na mesma medida em que possui existência. Nesta concepção, portanto, o ente que é menos bom, menos verdadeiro e menos uno é também menos ente; isto é, existe menos, é menos perfeito. Logo, vê-se que, na concepção tomista, tudo é bom na medida mesma em que existe. Esta ideia vai radicalmente contra as concepções maniqueístas e cátaras de que o mundo seria mau: na visão de Santo Tomás de Aquino, o mundo é bom, e tudo o que existe, na medida mesma em que existe, é bom.

Questão dos universais A querela dos universais foi um problema filosófico e lógico presente na escolástica, sobretudo em seu período tardio, em que um dos lados, o dos realistas, defendia a existência dos universais (espécies, como homem ou animal, e conceitos abstratos, como bondade ou beleza), enquanto que o outro, o dos nominalistas, defendia sua inexistência, reduzindo o mundo aos indivíduos. Por exemplo, um realista admitiria a existência de um conceito abstrato como o de humanidade; um nominalista, por sua vez, diria que tudo o que há são indivíduos humanos, sem a noção universal de humanidade. A importância desta questão está sobretudo no fato de que, negando a existência dos universais, nega-se que os entes possuam características essenciais e imutáveis; portanto, a maioria dos nominalistas rejeita o essencialismo.

No tempo de vida de Santo Tomás de Aquino, a relativa unanimidade da posição realista tornara a questão dos universais secundária, e ela apenas voltaria a ocupar um lugar de centralidade na escolástica em seu período mais avançado, com Guilherme de Ockham e os lógicos tardios. Por isto, Santo Tomás trata a questão dos universais geralmente como uma necessidade para versar sobre tópicos mais importantes em seu sistema, como as especulações epistemológicas. Ainda assim, pode-se depreender de seus escritos uma posição clara, e vê-se que o tomismo segue aqui o chamado realismo aristotélico ou moderado.

Segundo a posição aristotélico-tomista, os universais realmente existem. Porém, isto não se entende em um sentido platônico, segundo o qual os universais existiriam enquanto tais e separadamente, como ideias eternas; pelo contrário, o tomismo postula que os universais existem instanciados nos particulares. Por exemplo, diz-se que a humanidade existe de fato, mas não como uma realidade externa com existência própria, e sim de maneira imanente nos indivíduos humanos.

Desta maneira, o tomismo nega tanto o realismo platônico, segundo o qual os universais existem como tais e separadamente dos particulares, quanto o nominalismo, segundo o qual os universais não existem e são apenas nomes arbitrariamente impostos sobre os particulares. Para Santo Tomás de Aquino, o universal é aquilo que há de essencial nos vários particulares de uma espécie; por isto, haveria um conjunto de atributos imutáveis presentes em todos os indivíduos de tal espécie. Por exemplo, a capacidade de cortar seria dita um atributo essencial da faca; portanto, todo indivíduo da espécie faca teria de necessariamente possuir tal capacidade, e seria possível falar de um universal (faca) que existe realmente instanciado em todos os particulares (todas as facas individuais são, em sua essência, faca).

Epistemologia Também a epistemologia ou gnosiologia tomista tem por base as concepções aristotélicas. Seguindo esta linha, Santo Tomás de Aquino vê o homem como uma tabula rasa, uma tábua vazia sobre a qual o conhecimento se inscreve a partir do exterior. Com isto, coloca a experiência como o princípio do conhecimento, juntamente com Aristóteles. Isto contraria a noção platônica da reminiscência, segundo a qual o conhecimento do homem não viria do exterior, mas já estaria dentro do próprio homem e precisaria apenas ser recordado.miniaturadaimagem|Platão (428/427 - 348/347 a.C.) e os platônicos consideravam que o conhecimento humano se dá pela reminiscência.Santo Tomás fala de três operações do intelecto, que são a simples apreensão, o juízo e o raciocínio. A simples apreensão tem princípio na impressão da forma, pelo objeto empírico, nos órgãos dos sentidos. No entanto, não se deve confundir a visão aristotélico-tomista do conhecimento com as noções de Kant, segundo o qual o conhecimento empírico não teria a necessidade lógica que apenas o conhecimento a priori atingiria. De fato, para Santo Tomás, o intelecto humano tem por objeto próprio (isto é, aquilo sobre o quê trabalha) o ser inteligível dos entes sensíveis. Com base nisto, diz-se que o conhecimento que o ser humano tem dos entes sensíveis não é de seu aspecto empírico, mas sim daquilo que neles há de universal. Isto se dá por meio da abstração, pela qual se conhece, em um ente particular, apenas aquilo que possui de universal. Assim, pela constatação dos entes empíricos, o intelecto não conheceria com necessidade o ente empírico, mas sim sua essência universal. Por exemplo, pelo conhecimento de um ser humano particular o intelecto seria capaz de atingir a definição universal do homem: animal racional. Esta é a simples apreensão.

O juízo, por sua vez, é a operação pela qual o intelecto forma uma proposição com base em certos conhecimentos prévios. Por exemplo, a partir das noções de Sócrates e mortal, o intelecto chegaria à proposição segundo a qual Sócrates é mortal. Segundo Santo Tomás de Aquino, é a partir daqui que se pode falar da verdade e da falsidade; isto se baseia na noção aristotélica de que a verdade não existe nas coisas, mas sim no intelecto. Esta concepção diz que a verdade é a adequação entre o intelecto e a coisa conhecida; portanto, há verdade quando o intelecto emite um juízo que está de acordo com a realidade. Por exemplo, se se dissesse que o homem é um animal alado, haveria aqui a falsidade, pois o juízo emitido pelo intelecto não corresponde à realidade.

Por fim, há o chamado raciocínio, que consiste no encadeamento de diversos juízos em uma única dedução. Na concepção aristotélico-tomista, o raciocínio por excelência é o silogismo, que consiste na dedução de uma conclusão sobre um particular a partir de duas proposições, sendo que a primeira (premissa maior) atribui um predicado a um universal, e a segunda (premissa menor) posiciona o particular como membro deste universal. Um exemplo clássico seria o seguinte:

Todo homem é mortal. Ora, mas Sócrates é homem. Logo, Sócrates é mortal.

A partir destes princípios, seria possível atingir a certeza epistemológica, partindo, ultimamente, dos dados sensíveis, mas sempre abstraídos. Portanto, o conhecimento do homem seria sempre do universal e, por meio do raciocínio, poderia ir além dos entes sensíveis, e obter ainda a certeza. Com base nisto, o tomismo estabelece a possibilidade de que o homem conheça com certeza absoluta aquilo que está além dos sentidos, como as verdades metafísicas.

Antropologia e psicologia