Usina do Gasômetro é uma antiga usina termoelétrica que pertenceu à antiga Companhia Energia Elétrica Riograndense (CEERG), subsidiária da multinacional Eletric Bond and Share, desativada e transformada em centro cultural, localizada na cidade brasileira de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. Com sua enorme chaminé, é um dos mais conhecidos ícones da arquitetura de Porto Alegre e um ponto de referência para a cultura da cidade.
Apesar do nome, gasômetro, esta usina não produzia gás, mas energia elétrica. O nome Gasômetro vem de uma usina anterior, localizada na mesma área, construída no fim do século XIX e que produzia gás para alimentação dos lampiões da rede de iluminação pública. O local onde foi instalada ficou conhecido como a Ponta (ou Volta) do Gasômetro.
A construção do seu grande prédio foi iniciada em 1926. Desde o início, o projeto foi envolvido em controvérsias, custou quase o dobro do previsto e sua operação foi problemática, com constantes queixas da população. Apesar disso, o fornecimento de eletricidade em larga escala propiciou um salto de desenvolvimento para a cidade e a Usina se tornou um símbolo de progresso e modernidade. Em 1958, o controle da empresa passou para o governo. No fim da década de 1960, o carvão, usado como combustível, foi substituído pelo óleo diesel. Entretanto, com a crise petrolífera de 1973, sua operação foi dificultada, encerrando as atividades em 1974. O edifício foi abandonado e entrou em decadência, sendo cogitada sua demolição.
Iniciou então um debate sobre seu destino. Um movimento organizado pela sociedade conseguiu sua preservação: em 1982 foi tomado pelo município, em 1983 pelo IPHAE. Em 1991, a Usina foi restaurada e transformada em centro cultural, que rapidamente se tornou um dos principais equipamentos culturais de Porto Alegre, organizando um vasto programa de atividades nas áreas de música, teatro, cinema, artes visuais, dança, além de oficinas, cursos, palestras, eventos, feiras e outros. Em 2017, foi fechada para novas reformas, reabrindo em 26 de agosto de 2025 em meio a uma polêmica pública e uma disputa judicial, geradas pelo projeto da Prefeitura de concessão da administração à iniciativa privada pelo período de 20 anos. O imóvel pertence à União e o contrato de cessão ao Município exige que o espaço permaneça público.
História Antecedentes thumb|esquerda|Acendedores de lampião de Porto Alegre, foto de Virgilio Calegari A história da Usina está ligada ao desenvolvimento do sistema de iluminação pública da cidade, que no século XIX era feito através de lampiões alimentados com óleo de baleia, e depois com querosene. Em 1874, passou a operar na Praia do Riacho a primeira usina de gás, a Usina de Gás de Hidrogênio Carbonado, mais conhecida como Gasômetro, e daí vem o nome. O Gasômetro era operado pela Companhia São Pedro Brasil, pertencente ao francês Noel Paul Baptiste d'Ornano, e foi interligado a uma rede de tubulações, que passaram a alimentar os lampiões urbanos, sendo instalados cerca de quinhentos combustores. Entretanto, ainda permaneciam funcionando muitos lampiões a querosene nas periferias. Em 1896, um relatório da Intendência indicava a existência de 582 lampiões a gás e 276 a querosene. thumb|esquerda|O primeiro Gasômetro em 1911
Com a chegada da eletricidade, o sistema movido a gás e querosene se tornou obsoleto e foi gradualmente sendo substituído. Em 1900, a Intendência lançou dois editais de concorrência para fornecedores de eletricidade, mas as propostas foram consideradas caras demais. Desta maneira, a Intendência tomou a si o encargo de construir uma usina termelétrica. A usina começou a funcionar em 1908. No ano seguinte os bairros receberam seiscentos pontos de luz elétrica, eliminando-se todos os lampiões de querosene, mas a usina tinha uma capacidade pequena e não atendia toda a demanda dos bairros, e o poder público se viu constrangido a permitir a operação de companhias privadas para complementar o abastecimento. Além da municipal, mais duas companhias foram fundadas nesta época: a Fiat Lux e a Companhia Força e Luz, A Força e Luz era a mais importante, surgindo com a fusão da Companhia Carris de Ferro Porto-alegrense com a Companhia Carris Urbanos de Porto Alegre. Até 1918 quase 1.500 lampiões a gás haviam sido substituídos por bicos elétricos.Franco, Sérgio da Costa. "Iluminação Pública". In: Guia Histórico de Porto Alegre. Porto Alegre: EdiUFRGS, 2006, 4ª ed. pp. 208-211
Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) surgiram dificuldades para a navegação marítima, através da qual vinha o carvão inglês usado nas usinas, e o preço da lenha também subiu. A situação não se resolveu rapidamente. Enquanto isso, em 1923, foi fundada a Companhia de Energia Elétrica Rio-Grandense (CEERG), tendo como maior acionista a Companhia Estrada de Ferro e Minas de São Jerônimo, uma importante mineradora carioca que atuava no estado desde 1889 e tinha interesse de fomentar o mercado para o carvão gaúcho, que no entanto, tinha baixa qualidade e gerava muita cinza em sua queima. Pouco depois, a CEERG começou desenvolver os planos para a construção de uma nova termelétrica em Porto Alegre, pretendendo entrar no mercado metropolitano, sendo cogitados três locais para a instalação. A Superintendência dos Serviços Industriais sugeriu a Ilha do Pavão, para evitar inconvenientes para os moradores da cidade, mas foi escolhida uma área na Ponta da Cadeia junto ao antigo Gasômetro e à Praça da Harmonia, e à beira do Guaíba.
Construção e operação Em 16 de abril de 1926, foi lançada a pedra fundamental do "novo Gasômetro", que teve um custo estimado em 15 mil contos de réis, mas na realidade custou 25 mil contos. Para a construção, foi contratada a empresa dinamarquesa Christian & Nielsen, com um projeto desenvolvido na Inglaterra, e a supervisão das obras ficou a cargo do engenheiro C. J. Hemm. O prédio de 37 metros de largura por 89 metros de comprimento seria o primeiro prédio industrial de concreto armado do estado.
Contudo, as verbas disponíveis não bastaram, e em novembro de 1927 foi preciso apelar para um financiamento do grupo norte-americano American & Foreign Power, representado no Brasil pela Companhia Brasileira de Força Elétrica (CBFE), que por sua vez era subsidiária da Electric Bond and Share Co. e do Banco Morgan de Nova lorque. As negociações foram difíceis, pois os financiadores exigiam a concessão do monopólio não só do fornecimento de energia elétrica e gás, mas a exploração do transporte público de bondes elétricos e ônibus, isenções fiscais, poder de desapropriar terrenos e imóveis para a instalação, e o direito de decidir sobre a necessidade de ampliação da rede. Por duas vezes as negociações foram encerradas sem que se chegasse a um acordo, pois a Intendência resistia à ideia do monopólio e considerava inaceitáveis as outras exigências. Em 1928, foi lançado outro edital de concorrência, mas o único candidato foi a CBFE, que exigiu uma resposta em seis dias. O Poder Público cedeu e assinou o contrato em 5 de maio de 1928. O processo todo foi muito criticado pelo jornal Correio do Povo, pelo chefe dos Serviços Industriais do município e por professores da Escola de Engenharia e do Instituto Eletrotécnico, pela sua falta de transparência, urgência desnecessária, estimativa de preços excessiva, falta de parâmetros técnicos claros e alijamento de outros concorrentes. thumb|O projeto do novo Gasômetro apresentado pela empresa Christian & Nielsen, 1926
A Usina foi inaugurada em 15 de novembro de 1928, tinha uma capacidade de 20 mil Kilowatts, equipamentos modernos, funcionários qualificados, e, segundo o IPHAE, "contribuiu de forma significativa para a modernização não apenas da cidade de Porto Alegre, mas também do Brasil, quando a industrialização nacional dava os seus primeiros passos". A construção se inseriu ainda num ambicioso programa dos governos estadual e municipal que vinha sendo desenvolvido desde o início do século, com o objetivo de modernizar a cidade e redesenhar o perfil urbano com novas ruas, praças e avenidas, higienização do Centro Histórico e um intenso programa construtivo de imponentes edifícios públicos e privados. Nas palavras de Emerson Guimarães, "podemos dizer que a Usina do Gasômetro, sendo a grande fornecedora de energia para a cidade, incorporava os elementos simbólicos de um imaginário fascinado pela ciência, pela eletricidade e por sua ilimitada força geradora. Ela estaria, portanto, simbolicamente associada ao moderno, ao progresso e à civilização. [...] Desta forma, tratar da história inicial da Usina do Gasômetro é tratar de um ícone de nossa modernidade". Mais do que isso, ela fomentou o uso da eletricidade nos setores industrial e comercial e nos ambientes domésticos, contribuindo decisivamente para uma significativa mudança econômica e cultural. "Por tudo isso, por empreender, portanto, um novo ritmo para a cidade, pode ser considerada um dos elementos mais importantes na constituição do imaginário simbólico da Belle Époque porto-alegrense". Segundo De Bem, Araújo & Waismann, é "um dos prédios mais famosos da cidade de Porto Alegre".De Bem, Judite Sanson; Araújo, Margarete Panerai; Waismann, Moisés. "Usina do Gasômetro: Patrimônio de Porto Alegre". In: Mouseion, 2020 (37): 183-189 thumb|Publicidade na Revista de Arquitetura do Rio de Janeiro, 1932
Apesar da propaganda positiva do governo e da própria empresa, sua atuação não foi desprovida de conflitos e problemas. Além da contratação criticada, eram frequentes os cortes de energia, às vezes por vários dias consecutivos, mesmo em locais centrais importantes como a Biblioteca Pública e cinemas, mas especialmente nos bairros, gerando muitas reclamações. Além dos funcionários técnicos, havia dezenas de operários empregados no carregamento do carvão e na alimentação das fornalhas, que tinham equipamentos precários, recebiam baixos salários e cumpriam longas jornadas em um trabalho insalubre; muitos deles eram presidiários, e houve muitos relatos de casos de doenças ligadas ao trabalho. O transporte público assumido pela empresa também se revelou deficiente em vários aspectos, reduzindo o número de veículos, encarecendo as tarifas e não cumprindo os horários. Além de tudo, a Usina produzia muita fumaça e fuligem, que recaía sobre os moradores da redondeza, sendo um dos pontos que mais gerou polêmica na época. Os protestos não cessavam e muitas matérias foram publicadas na imprensa apontando os problemas que a Usina trazia. Após algumas iniciativas que produziram pouco efeito, como a instalação de filtros de fuligem e eliminadores de cinzas, foi construída a atual chaminé de 117 metros para amenizar os transtornos causados pela poluição. A chaminé tornou-se um ponto de referência arquitetônico e geográfico da cidade.