Salamis (Σαλαμίς) foi um couraçado encomendado pela Marinha Real Helênica. Sua construção começou em julho de 1913 nos estaleiros da AG Vulcan em Hamburgo e foi lançado ao mar em novembro do ano seguinte, porém nunca foi finalizado. De acordo com seu projeto, seria armado com uma bateria principal composta por oito canhões de 356 milímetros, teria um deslocamento de mais de dezenove mil toneladas e conseguiria alcançar uma velocidade máxima de 23 nós. O navio tinha a intenção de modernizar a frota grega e também responder à uma expansão naval da Marinha Otomana, que tinha antes encomendado a construção de um couraçado moderno de um estaleiro britânico.

O projeto do Salamis começou a ser elaborado em meados de 1911 e foi revisado várias vezes durante seu processo de desenvolvimento, com diferentes estaleiros de vários países apresentando propostas. O início da Primeira Guerra Mundial em 1914 paralisou as obras e o casco incompleto do navio foi usado como alojamento flutuante pelos alemães. Seus canhões tinham originalmente sido encomendados da Bethlehem Steel nos Estados Unidos e foram vendidos para a Marinha Real Britânica, que os usou para armar uma nova classe de monitores. O casco sobreviveu intacto à guerra e foi sujeito a uma longa disputa judicial que por fim deu ganho de causa à AG Vulcan, que o desmontou em 1932.

Antecedentes A Guerra Greco-Turca de 1897 mostrou que a Marinha Otomana era incapaz de desafiar o poderio da Marinha Real Helênica pelo controle do Mar Egeu. Consequentemente, o Império Otomano começou um programa de expansão naval que inicialmente reconstruiu vários de seus antigos ironclads em navios mais modernos. Em resposta, o governo da Grécia decidiu em 1905 reconstruir sua frota, que na época era centrada nos três ironclads da Classe Hydra, construídos na década de 1880. A Marinha Real procurou propostas de estaleiros estrangeiros a partir de 1908. Licitações vindas da Vickers do Reino Unido para um pequeno couraçado de 8,1 mil toneladas foram rejeitadas.

Uma mudança constitucional em 1911 permitiu que o governo grego contratasse especialistas estrangeiros, o que levou ao convite para uma missão naval britânica a fim de aconselhar o programa de rearmamento. Foram recomendados dois couraçados de doze mil toneladas e um cruzador blindado grande. A Vickers e Armstrong Whitworth enviaram propostas para os couraçados. O projeto da Vickers era menor e armado com dez canhões de 254 milímetros, enquanto a Armstrong Whitworth propôs uma embarcação maior com armas de 356 milímetros. O governo não levou essas propostas adiante. A Vickers no mesmo ano apresentou pprojetos para navios menores, semelhantes aos de 1908.

thumb|esquerda|240px|O cruzador Georgios Averof, adquirido em 1909, foi o primeiro componente do programa de rearmamento naval grego O primeiro passo do programa armamentista grego foi finalizado em outubro de 1909 com a compra do cruzador blindado , originalmente de construção italiana. Os otomanos por sua vez compraram os antigos couraçados pré-dreadnought alemães e , ampliando a corrida armamentista entre os dois países. A Marinha Real tentou comprar dois antigos couraçado franceses, porém a compra fracassou e não foi adiante, assim como uma tentativa para adquirir dois couraçados britânicos. Os gregos então tentaram comprar navios nos Estados Unidos, porém os estadunidenses negaram pelos temores de que o negócio fosse alienar os otomanos, com quem o país tinha um significativo interesse industrial e comercial. O Império Otomano encomendou o dreadnought Reşadiye em agosto de 1911 de um estaleiro britânico, ameaçando o controle grego do Egeu. A Grécia enfrentou a escolha de conceder a corrida armamentista ou encomendar navios capitais próprios.

O contra-almirante Lionel Grant Tufnell, o chefe da missão naval britânica na Grécia, defendeu a compra de outro cruzador blindado como o Georgios Averof, junto com outras embarcações menores, além da alocação de fundos para a modernização da base naval em Salamina. Esta proposta tinha o apoio do primeiro-ministro Elefthérios Venizélos, que queria controlar os gastos navais no orçamento de 1912. O plano deu em nada, pois o governo ficou esperando pela chegada de conselheiros britânicos para o projeto de Salamina. A Marinha Real reuniu um comitê no início de 1912 encarregado de adquirir um navio capital para fazer frente ao Reşadiye, inicialmente foi concebido como um cruzador de batalha. O novo navio teria um deslocamento limitado a treze mil toneladas, pois era o máximo que a doca flutuante de Pireu poderia acomodar. O programa foi finalizado em março e os gregos também abriram licitações para contratorpedeiros, barcos torpedeiros, submarinos e um navio depósito para apoiar o cruzador de batalha.

Dez estaleiros britânicos, quatro franceses, três alemães, três estadunidenses, dois italianos e um austro-húngaro apresentaram propostas para esses contratos, com a Vickers e a Armstrong Whitworth enviando os mesmos projetos de 1911. Tufnell fazia parte do comitê supervisionando o processo, mas descobriu que os gregos tinham uma grande oposição sobre os projetos britânicos. A Vickers deixou competição, enquanto o custo da proposta da Armstrong Whitworth era muito mais elevado do que dos outros. Os britânicos ainda assim tinham esperanças de conseguir os contratos pela relação entre as marinhas dos dois países, algo refletido pelo número de oficiais britânicos que tinham sido contratados pela Marinha Real Helênica naqueles últimos anos. Por outro lado, os estaleiros franceses reclamaram que os britânicos estavam se beneficiando injustamente da presença de sua missão naval. A Marinha Real decidiu que o projeto de casco da Vickers era o melhor, porém as armas, munição e blindagem estadunidenses eram superiores. Nenhum dos países conseguiu os contratos, pois negociações entre Venizélos e o embaixador alemão garantiram os contratos para a Alemanha.

A Marinha Real selecionou em junho de 1912 propostas da alemã AG Vulcan para dois contratorpedeiros e seis barcos torpedeiros que seriam finalizados em apenas três a quatro meses. Este prazo excecionalmente curto foi alcançado com a ajuda da Marinha Imperial Alemã, que permitiu que os gregos adquirissem navios alemães em construção. O preço do contrato era evidentemente baixo, pois um estaleiro britânico chegou a afirmar que não conseguiam entender como a AG Vulcan seria capaz de ter lucro. Um mês depois a Grécia selecionou a AG Vulcan novamente para a construção de seu cruzador de batalha, mas sua blindagem e armamentos viriam da Bethlehem Steel nos Estados Unidos. Estaleiros britânicos ficaram novamente furiosos, mais uma vez alegando que seria impossível para a AG Vulcan conseguir lucro com o contrato, concluindo que o governo alemão estava subsidiando a compra para conseguir se estabelecer no mercado da construção naval. Os gregos, por sua vez, alegaram que os fabricantes britânicos estavam conspirando para manter altos os preços das placas de blindagem e que foram capazes de abaixar os preços encomendando a blindagem nos Estados Unidos.

Desenvolvimento

O projeto inicial do Salamis tinha 140 metros de comprimento de fora a fora, boca de 22 metros, calado de 7,3 metros e um deslocamento de 13,7 mil toneladas. O navio foi projetado com duas turbinas a vapor de 26 mil cavalos-vapor (19,1 mil quilowatts) de potência e velocidade máxima de 21 nós (39 quilômetros por hora). O armamento seria de seis canhões de 356 milímetros em três torres de artilharia duplas na linha central, uma na proa, uma na popa e uma à meia-nau, com seis canhões de 152 milímetros, oito de 76 milímetros, quatro de 47 milímetros e dois tubos de torpedo de 450 milímetros.

Houve várias revisões no projeto. A Marinha Real começou esforços sérios para se fortalecer em meados de 1912, enquanto cresciam as tensões que levariam à Primeira Guerra Balcânica. Ela queria apenas pequenas alterações no projeto em agosto, porém as primeiras operações na guerra convenceram o comando naval sobre as vantagens advindas de um navio maior. Tufnell sugeriu um motivo diferente para as alterações, acusando os alemães de terem oferecido um projeto barato e inseguro para o mar, conseguido o contrato e então pressionado os gregos por um projeto mais caro e prático.

Existia também a possibilidade de que couraçados da corrida armamentista naval da América do Sul fossem colocados a venda, uma perspectiva que interessava gregos e otomanos. Dois couraçados já tinham sido completados para o Brasil, com um terceiro em construção no Reino Unido. Outros dois estavam em construção para a Argentina nos Estados Unidos. Segundo o historiador Paul G. Halpern, "a repentina aquisição por uma única potência de todos ou mesmo alguns desses navios poderia ter sido o suficiente para desequilibrar uma delicada balança de poder tal qual aquela que prevalecia no Mediterrâneo". Os dois países tinham interesse nos navios argentinos, com Venizélos tendo tentado comprar um dos couraçados da Classe Rivadavia enquanto ainda estava em construção como uma alternativa para um reprojeto do Salamis, algo que acabou adiando sua finalização.

O governo argentino se recusou a vender o navio e assim Venizélos concordou em modificar o projeto do Salamis, com um comitê especial sendo criado para essa revisão e que incluía oficiais navais gregos e britânicos. O comitê era a favor de um projeto com deslocamento de 16,8 mil toneladas, porém Hubert Searle Cardale, o único membro da missão naval que estava na lista ativa da Marinha Real Britânica, propôs um aumento para 19,8 mil toneladas, argumentando que este aumento permitiria uma embarcação muito mais poderosa. Venizélos aprovou o aumento para 16,8 mil toneladas, mas foi contra quaisquer outros aumentos. Lambrós Koromilas, o Ministro das Relações Exteriores, e Nikólaos Strátos, o Presidente do Parlamento, conspiraram para que a proposta de 19,8 mil toneladas fosse adotada enquanto Venizélos estava comparecendo à conferência do Tratado de Londres. Koromilas e Strátos enganaram o resto do gabinete sobre a real opinião do primeiro-ministro e conseguiram sua aprovação para o contrato.

A proposta de 19,8 mil toneladas defendida por Koromilas e Strátos foi oficialmente adotada em 23 de dezembro de 1912. As mudanças mais significativas foram um aumento de cinquenta por cento no deslocamento, a adição de uma quarta torre de artilharia dupla e o arranjo da bateria em duas torres nà vante e duas torres à ré, em ambos os casos com uma sobreposta a outra. O navio seria entregue para a Marinha Real em março de 1915 ao custo de 1,693 milhões de libras esterlinas. M. K. Barnett, escrevendo contemporaneamente para a revista Scientific American, comentou que a embarcação "não estabelece qualquer avanço em particular no projeto de navios de guerra, sendo, em vez disso, um esforço para combinar as maiores qualidades defensivas e ofensivas ao menor custo". Por outro lado, o Journal of the American Society of Naval Engineers acreditou que o Salamis tinha sido projetado para velocidade e poder de fogo em detrimento de blindagem. Venizélos tentou cancelar o novo contrato assim que retornou para a Grécia, porém a AG Vulcan negou, comentando que "Primeiros-ministros sobem e caem do poder e a influência de Venizélos não será duradoura". A encomenda do Salamis, que era chamado tanto de couraçado quanto de cruzador de batalha, fez da Grécia o décimo quarto e último país a encomendar um navio no estilo dreadnought.