A arte do Paleolítico refere-se ao conjunto de produções artísticas realizadas durante o Paleolítico ou Idade da Pedra Lascada, que tem início há cerca de dois milhões e meio de anos e estende-se até c. 8000 a.C.. Esse período marca o início da história da arte e abrange diversos achados arqueológicos atribuídos a diferentes espécies do gênero homo ao longo do tempo.
Ao tratar de arte do Paleolítico se faz necessário, primeiramente, localizar o conceito de arte nesse contexto. Apesar das delimitações daquilo que é ou deixa de ser arte ainda hoje serem pauta de amplos e importantes debates, não é possível inferir os mesmos critérios e motivações que conhecemos na contemporaneidade àquilo que chamamos de arte na Pré-história. Dessa forma, compreende-se que a arte do Paleolítico é um conjunto de produções e intervenções realizadas de forma consciente e intencional por populações de hominíneos, podendo ou não visar determinado objetivo estético ou a expressão de sua subjetividade.
Apesar de muitas dessas produções não terem resistido ao tempo, atualmente temos conhecimento de expressões artísticas das mais diversas áreas incluindo pinturas, gravuras, esculturas, ornamentos e até mesmo a produção e uso de instrumentos musicais. As “obras artísticas” mais antigas que temos conhecimento são conchas gravadas por Homo erectus há cerca de 500 mil anos e que foram encontradas em 2014 em Java, na Indonésia.https://www.smithsonianmag.com/science-nature/oldest-engraving-shell-tools-zigzags-art-java-indonesia-humans-180953522/. Acesso em: 26 jun. 2024.
História O período Paleolítico possui três subdivisões, sendo essas:
• Paleolítico Inferior (2 500 000 - 2 000 000 até 120 000 - 100 000 a.C.);
• Paleolítico Médio (300 000 - 200 000 até 40 000 - 30 000 a.C.);
• Paleolítico Superior (40 000 - 30 000 até 10 000 - 8000 a.C.).
A arte no período paleolítico é considerada a arte mais antiga da humanidade, desenvolvida pelo hominíneo durante o paleolítico superior. No entanto é possível que este nível seja o culminar de um longo processo de amadurecimento artístico e técnico, e que muito do que foi criado em épocas anteriores simplesmente não tenha sobrevivido até aos nossos dias. Por esta razão subsistem ainda muitas incógnitas e questões em aberto, podendo-se apenas especular sobre quais seriam as verdadeiras motivações artísticas do hominíneo paleolítico. Para uma abordagem mais próxima às primeiras criações artísticas é essencial relacioná-las com o seu plano de fundo cultural, geográfico e social. Indissociável do seu meio ambiente, o qual nem sempre é propício à vida humana, o hominíneo é por ele extremamente influenciado, levando a que as suas decisões (deslocamentos a outros locais, etc) sejam ditadas por condicionantes e fatores naturais. Que os temas da arte paleolítica foquem, acima de tudo, elementos do seu meio-ambiente (como o reino animal, principalmente o alvo da sua caça – manadas de renas das planícies e vales) surge assim como uma consequência lógica.
Especificidades regionais na arte rupestre do paleolítico
Durante um longo período de tempo os nossos ancestrais estavam distribuídos apenas em regiões da África, da Ásia e da Europa. Posteriormente houve uma expansão para a região das Américas. Os especialistas da área ainda buscam respostas para o meio que ocorreu essa chegada e como foi o desenvolvimento desses seres nesta região. Nesta perspectiva, há evidências arqueológicas de que o Homo sapiens, surgiu na África em 200.000 anos atrás e se dispersou pelos demais continentes, chegando a América por volta de 12000 anos atrás.A dispersão dos seres humanos. Museu da UFRG, 2021. Disponível em: https://www.ufrgs.br/museu/a-dispersao-dos-seres-humanos-homo-sapiens/. Acesso em 7/06/2024.
Assim, as populações de Homo sapiens estavam presentes apenas no continente africano e posteriormente houve uma dispersão dessa espécie para os outros continentes, entre eles a Ásia e a Europa, onde era habitado pelos Neandertais . Neste sentido, há evidências arqueológicas que apontam a existência do convívio entre Homo sapiens e Neandertais por um determinado período, como apontam os achados arqueológicos. No Oriente Médio existem vários sítios com achados de fósseis de ambas as espécies, com datações próximas, além das semelhanças da produção de pedras lascadas. Além disso, com o auxílio da engenharia genética moderna foram mapeados genomas neandertais em diversas populações modernas. Por meio dessa análise genética é destacado que todas as pessoas modernas, exceto para os africanos, têm em seu DNA 4% de genes de Neandertais. Isto significa que houve uma interação entre Homo sapiens e Homo neandertal que gerou descendentes comuns a ambos. Entretanto, os traços genéticos de Neandertais não foram encontrados em grande parte do DNA da oposição africana atual, o que demonstra uma redução do contato da população de Sapiens que permaneceram na África com os Neandertais. Entretanto, é importante mencionar que essa discussão ainda é palco de debate científico na atualidade, pois ainda ocorrem pesquisas que buscam compreender esse processo de convívio entre ambos os grupos e como houve essa união.MARCIANI, Giulia. Contato entre o Homo sapiens é o Homo neandertalensis: dados paleoantropologicos. Disponível em: Revista Iniciação Científica, v. 11, n. 1, 2013, Criciúma, Santa Catarina.
É importante mencionar que em cada região do planeta houve uma expressão diferente das populações que nela viviam. Esses fatores são influenciados por condições como: o tipo de matérias presentes, os hábitos da população e o seu período. Isso destaca uma diversidade de produções e técnicas, como formas de lascamento de pedras, formas de pinturas e construção de objetos. No entanto, também observa-se, simultaneamente, algumas semelhanças entre os achados, o que expressa a existência de contatos entre diferentes grupos de diferentes regiões. DELFINA, Cristiane. O homem na América. De onde veio? Quando? Como? Com Ciência, Campinas, outubro de 2013. Disponível em: http://comciencia.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-
A arte pré-histórica europeia e norte-americana possui maiores registros, mas isso não ocorre explicitamente por haver em maior quantidade ou ser mais complexa. O que ocorre é que nessas regiões há maiores investimentos em pesquisas arqueológicas e assim esses registros são encontrados em maior quantidade e de forma mais simples. Outro aspectos importante a ser mencionado é que a maior parte dos achados arqueológicos ligados à expressões artísticas do período paleolítico, estão datados no período do paleolítico superior, mas não descarta a existência de produções ainda mais antigas. Guthrie R.D. The Nature of Palaeolithic, 2005 art.
É importante ressaltar que existem diversos estudos acerca do período paleolítico, bem como a arte rupestre, em andamento. Ainda há muitas perguntas a serem respondidas e lugares a serem pesquisados, como aspectos dos primeiros povos que chegaram às Américas. Uma dificuldade encontrada é devido à apresentação dos achados, uma vez que a preservação das obras depende muito das boas condições dos locais onde estavam, como os padrões climáticos da região.
Arte paleolítica na África
Em Blombos, na África do Sul, foram encontrados achados associados à arte paleolítica. Foram encontrados “desenhos” feitos com uma cera ocre em um floco de silcrete, de aproximadamente 73.000 anos. Também foram encontradas contas de conchas e gravuras hachuradas em peças ocres. ISSN 1678-7706. An abstract drawing from the 73 000-year-old levels at blombos cave south africa
Arte paleolítica na Ásia
Foi encontrado na Ilha de Sulawesi, na Indonésia, a arte parietal (pintura) mais antiga de Homo sapiens, de aproximadamente 44 mil anos. Nessas pinturas há o registro de formas animalescas, que podem servir como base para a compreensão da fauna do período paleolítico nesta região.ZAIDEL.Dahlia W.Imagination, Symbolic Cognition, and Human Evolution: The Early Arts Facilitated Group Survival.
Arte paleolítica na Europa
Lembrando que nesse continente são encontradas formas de arte parietal e mobiliaria (portátil) muito preservadas, possivelmente devido ao clima favorável. Vale ressaltar que os sítios arqueológicos da Europa são muito estudados, por isso a maior parte dos conhecimentos que temos sobre essas formas de arte vem dessa região. Assim, a arte papelarias da Europa é a que tem mais informações registradas.
Na Gruta Chauvet, na França, estão localizadas as pinturas mais antigas da Europa associadas a Homo sapiens (32 mil).ALONSO, Lídia Pelayo. Altamira. Wold History Encyclopedia, 13 de dezembro de 2015. Disponível em:https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-11600/altamira/.
A Gruta Altamira, na Espanha, apresenta pinturas rupestres, tendo sido habitada durante milênios. Essa teoria de que de que ela foi muito habitada vem do grande número de achados na região, que são, além das obras, objetos de pedra lascada e esqueletos datados do período.ALONSO, Lídia Pelayo. Altamira. Wold History Encyclopedia, 13 de dezembro de 2015. Disponível em:https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-11600/altamira/.
A Gruta de Lascaux, na França, abriga alguns dos exemplos mais famosos de pinturas rupestres. Nela há cerca de 600 pinturas, sendo a maioria de animais, espalhadas pelas paredes internas da caverna. Há uma grande conservação das imagens, o que possibilita maiores estudos sobre elas.GROENEVEL, Emma. Caverna de Lascaux. Wold History Encyclopedia, 06 de setembro de 2016. Disponível em: https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15133/caverna-d…
O momento de transição Após o início da produção manual de objetos começam a surgir os primeiros indícios de decoração dos mesmos, mas só no Paleolítico Superior se fazem as primeiras tentativas de transpor algo real para um determinado suporte. Para isto é necessário uma observação cuidada da natureza envolvente e a percepção de que é possível a reprodução do mundo visível através de um novo método.
Este método implica a captação da realidade e, no caso da pintura e do relevo, a passagem da tridimensionalidade para um plano bidimensional que resulta, inicialmente, em representações de grande naturalismo e realismo. Nesse período, os hominídeos faziam o uso de rochas ou pedaços de osso ou madeira que se assemelhavam a um determinado animal, tirando partido dessa associação e das características preexistentes do suporte para criar uma escultura ou relevo (por vezes também associando a pintura).
A partir de 40.000 a.C. houve o surgimento as artes mais idealizadas, nesse momento começa a aproximar-se cada vez mais da sintetização dos elementos e da sua esquematização simbólica (como o caso das estatuetas femininas onde se realçam as características da feminilidade em linhas simples).
Abordagens sobre o objetivo da arte