Haxime ibne Abede Manafe (; m. ?), nascido Anre ibne Abede Manafe (), também conhecido pela cúnia Abu Nadla, foi um membro proeminente dos coraixitas de Meca e bisavô do profeta islâmico Maomé. Filho de Abede Manafe ibne Cuçai e neto de Cuçai ibne Quilabe, tornou-se ancestral epônimo dos haxemitas. Exerceu as funções da rifada e da sicaia, responsáveis respectivamente pelo fornecimento de alimentos e água aos peregrinos da Caaba, e é tradicionalmente associado à ampliação do abastecimento de água de Meca. Seu epíteto, Haxime, é explicado pelas fontes pela tradição segundo a qual teria esmigalhado pão para preparar tharid e distribuí-lo aos peregrinos durante um período de escassez.
As tradições atribuem a Haxime importante papel no desenvolvimento do comércio dos coraixitas, particularmente na organização das viagens caravaneiras realizadas anualmente no inverno e no verão. Também lhe são atribuídos acordos comerciais e diplomáticos com poderes e povos vizinhos, que teriam contribuído para ampliar as atividades mercantis de Meca em direção à Síria, ao Iêmem e à Abissínia. Haxime é ainda apresentado como líder dos mutaiabitas, uma das alianças formadas entre os clãs coraixitas, embora parte das tradições relativas às disputas políticas de seu tempo possa refletir rivalidades posteriores entre haxemitas e omíadas. Durante uma viagem comercial, Haxime casou-se em Iatrebe com , dos najaritas, com quem teve Xiba, posteriormente conhecido como Abede Almotalibe, avô de Maomé. Haxime morreu em Gaza, na Palestina, durante outra viagem comercial e teria sido sepultado na cidade. Após sua morte, seu filho permaneceu inicialmente com a família materna em Iatrebe, sendo posteriormente levado a Meca por seu tio Almotalibe.
Vida
Haxime, cujo nome pessoal era Anre, era filho de Abede Manafe e neto de Cuçai ibne Quilabe, a quem a tradição atribui a consolidação da supremacia dos coraixitas em Meca e a reorganização de diversas funções relacionadas à peregrinação. Entre seus irmãos estavam Abede Xemece, Naufal e Almotalibe. Haxime tornou-se uma das principais figuras dos coraixitas e exerceu as funções da rifada e da sicaia, relacionadas respectivamente ao fornecimento de alimentos e água aos peregrinos que visitavam a Caaba. Para financiar a primeira, recolhia contribuições em dinheiro ou gêneros entre os principais habitantes de Meca. Também mandou escavar poços para ampliar o abastecimento de água da cidade; segundo a tradição preservada pela TDV, entre eles estavam dois grandes poços chamados Besre e Sájela. Durante a peregrinação, fazia transportar água dos poços de Meca em camelos e armazená-la em um reservatório de couro situado nas proximidades do local de Zenzem, de onde era distribuída aos peregrinos.
Seu nome Haxime, literalmente associado à ideia de "quebrar" ou "esmigalhar", é explicado pelas fontes por uma tradição relacionada a essas atividades. Durante um ano de escassez em Meca, teria trazido da Síria pães ou bolos, que quebrou (hashama) e utilizou para preparar tharid com caldo, distribuindo-o aos peregrinos. Em razão desse episódio, Anre teria passado a ser conhecido pelo epíteto Haxime. As fontes também o apresentam como líder da aliança dos mutaiabitas, formada no contexto das disputas internas entre os clãs coraixitas. Watt considera possível que Haxime tenha efetivamente liderado essa aliança ou um de seus desenvolvimentos posteriores, do qual estavam excluídos os descendentes de seus irmãos Naufal e Abede Xemece. A tradição registra ainda uma disputa de precedência entre Haxime e seu sobrinho Omaia ibne Abede Xemece, mas Watt considera esse relato provavelmente uma elaboração posterior que projetou sobre os dois personagens as rivalidades dinásticas entre haxemitas e omíadas.
Haxime é tradicionalmente associado à expansão das atividades comerciais dos coraixitas para além de Meca e seus arredores. Ibne Isaque, embora sem assegurar inteiramente a historicidade da tradição, atribui-lhe a instituição das duas viagens comerciais anuais dos coraixitas, realizadas no inverno e no verão. A Encyclopaedia of Islam considera plausível que essa tradição esteja relacionada particularmente à organização das viagens de verão para a Síria. Segundo a TDV, Haxime estabeleceu relações comerciais e diplomáticas em nome dos coraixitas com os sassânidas, himiaritas, abissínios e outros poderes e tribos. Teria obtido, mediante acordos com o imperador bizantino Leão I e com um soberano gassânida, autorização para que os mercadores coraixitas comerciassem livremente em seus territórios. Também teria enviado uma mensagem ao negus abissínio para assegurar facilidades semelhantes na Abissínia e firmado acordos com tribos estabelecidas ao longo das rotas caravaneiras. Por esses entendimentos, os coraixitas transportariam e venderiam mercadorias dessas tribos em território bizantino sem cobrar pelo serviço, enquanto elas garantiriam a segurança das caravanas. A tradição atribui assim a Haxime a consolidação de um sistema no qual os coraixitas viajavam no inverno para o Iêmem e a Abissínia e, no verão, para a Síria e a Anatólia.
Durante uma viagem comercial à Síria, Haxime passou por Iatrebe, onde se hospedou com Anre ibne Zaíde ibne Labide, dos najaritas, com quem ele e seu pai mantinham relações. Ali casou-se com a filha de seu anfitrião, . Segundo a tradição, Salma estabeleceu como condição para o casamento que, caso engravidasse, desse à luz junto de sua própria família em Iatrebe. Dessa união nasceu Xiba, posteriormente conhecido como Abede Almotalibe, avô de Maomé. Além de Abede Almotalibe, as fontes atribuem a Haxime outros três filhos e cinco filhas. Haxime deixou Salma e o filho em Iatrebe e seguiu novamente para a Síria em viagem comercial. Morreu durante a jornada em Gaza, na Palestina, onde teria sido sepultado. Assume-se que sua morte tenha ocorrido por volta de 524. Abede Almotalibe permaneceu com a família materna em Iatrebe durante a infância e, segundo a TDV, tinha cerca de oito anos quando seu tio Almotalibe o levou para Meca. Assim, as funções e a posição de Haxime não passaram imediatamente ao filho após sua morte; Almotalibe ocupou posição de destaque antes que Abede Almotalibe, já estabelecido em Meca, viesse posteriormente a assumir as funções associadas à sua linhagem.
Bibliografia
Categoria:Haxemitas (clã coraixita) Categoria:Árabes do século V Categoria:Árabes do século VI Categoria:Família de Maomé Categoria:Família de Ali