O sistema de Bioflocos (Biofloc Tecnology - BFT), é um sistema alternativo de piscicultura onde é empregada a reciclagem e a reutilização de nutrientes residuais como ração para peixes. A principal abordagem do Bioflocos é o cultivo de microorganismos de forma adequada juntamente com espécies aquáticas (peixes ou mariscos) para produzir um sistema sustentável, beneficiado pela troca de água mínima ou nula. A tecnologia funciona em dois contextos principais:

Manutenção da qualidade da água, por meio da utilização de compostos nitrogenados tóxicos para formação de proteína microbiana; e Aumentar a taxa de conversão alimentar e diminuir o custo total de produção.

História do Bioflocos (BFT) O primeiro BFT foi desenvolvido na década de 1970 no Ifremer-COP (Instituto Francês de Pesquisa para Exploração do Mar, Centro Oceânico do Pacífico) com Penaeus monodon , Fenneropenaeus merguiensis , Litopenaeus vannamei e L. stylirostris... Israel e EUA (Centro de Maricultura Waddell) também iniciaram Pesquisa e Desenvolvimento com Tilápia e L. vannamei , respectivamente no final dos anos 1980 e 1990. Agora, esta tecnologia foi executada com sucesso em TNBIOFLOC Mayiladuthurai, tamilnadu. O nome fundador da TNBIOFLOC é Mr.Gajendraprabhu desde 2017.

A aplicação comercial começou em uma fazenda no Taiti (Polinésia Francesa) em 1988 usando tanques de concreto de 1000 m² com troca de água limitada atingindo um recorde de 20–25 ton/ha/ano em 2 safras.  Uma fazenda localizada em Belize, América Central, também produziu cerca de 11-26 ton/ha/ciclo usando 1,6 ha de tanques poli-revestidos. Outra fazenda localizada em Maryland, EUA, também produziu 45 toneladas de camarão por ano usando cerca de 570 m² de estufa interna BFT raceways.

O BFT tem sido praticado com sucesso em fazendas de camarão e peixes de grande porte na Ásia, América Latina e Central, EUA, Coréia do Sul, Brasil, Itália, China, Índia e outros. No entanto, pesquisas sobre BFT por universidades e centros de pesquisa estão refinando o BFT, para aplicação agrícola em cultura de engorda, tecnologia de alimentação, reprodução, microbiologia, biotecnologia e economia.

O papel dos Microorganismos Os microrganismos desempenham um papel vital na alimentação e manutenção da saúde geral dos animais cultivados. Os flocos de bactérias (bioflocos) são ricos em nutrientes (fonte de proteínas-lipídios) disponíveis como alimento para peixes ao longo do dia.  A coluna de água mostra uma interação complexa entre micróbios vivos, plânctons, matéria orgânica, substratos e herbívoros, como rotíferos, ciliados, protozoários e copépodes, que serve como fonte secundária de alimento.  A combinação deste material particulado mantém a reciclagem de nutrientes e a manutenção da qualidade da água.

O consumo de flocos pelos organismos cultivados provou aumentar a imunidade e a taxa de crescimento,  diminuir a taxa de conversão alimentar e reduzir o custo total de produção.  Os fatores promotores de crescimento têm sido atribuídos tanto a bactérias quanto ao plâncton, onde até 30% do alimento total é compensado no camarão.

Compatibilidade de espécies Existe uma norma de compatibilidade de espécies para cultivo em BFT. Para obter um melhor desempenho de crescimento, as espécies candidatas devem ter resistência à alta densidade de estocagem, adaptar-se às mudanças no oxigênio dissolvido (3-6 mg/L), sedimentar sólidos (10 --15 mL/L)  e compostos de amônia, hábitos onívoros ou capacidade de ingerir proteína microbiana como alimento.

Criação de peixes amazônicos em sistema com a tecnologia dos bioflocos (BFT) Os estudos com bioflocos aplicados às espécies amazônicas de importância para a piscicultura, como o tambaqui (Colossoma macropomum) e a matrinxã (Brycon amazônicos), iniciaram em 2015 através do grupo de pesquisa Aquicultura na Amazônia Ocidental do Instituto Nacional de Pequisas da Amazônia. Desde então, estão sendo investigados diversos aspectos desse sistema BFT (qualidade de água; manejo da larvicultura de matrinxã e tambaqui; manejo nutricional e densidade de estocagem na recria de matrinxã), especialmente nas fases de larvicultura e recria de matrinxã e tambaqui .

Larvicultura da matrinxã em sistema com a tecnologia dos bioflocos (BFT) A larvicultura da matrinxã (Brycon amazonicus) é um dos grandes desafios para aumentar a oferta, reduzir os custos e tornar esta espécie mais competitiva no cenário da aquicultura nacional . É uma fase critica, pois as larvas estão frágeis em processo de desenvolvimento na forma e no funcionamento de seu organismo (folder matrinxa). No caso da matrinxã ocorre intenso canibalismo durante todo o periodo larval, resultando em perdas significativas de até 90%. Para resolver esse entrave, estudos tem avaliado a larvicultura da matrinxã em sistema BFT visando melhorar o desempenho zootecnico e a sobrevivencia das larvas. Nesse sentido, o BFT demonstrou ser muito promissor para aumentar a sobrevivencia das larvas em até 85% nos primeiros 5 dias de vida, comparado com o sistema convencional .

A alimentação é outro aspecto relevante para melhorar o crescimento e sobrevivencia das larvas. O primeiro alimento das larvas na natureza são os organismos vivos zooplanctônicos. Em sistemas de criação, nessa fase podem ser fornecidas as artemias salinas, cujo protocolo de produção já está amplamente difundido e disponivel no mercado. Entretanto, a artemia tem a desvantagem do alto custo. Por isso, outros estudos tem avaliado outros zooplânctons como alternativas ao uso da artemia salina. Para as especies do genero Brycon em ambiente natural há preferencia pelo microcrustáceo da ordem Cladócera, como a espécie Moina micrura. Assim, alguns estudos com M. micruram foram avaliados comparando-se a alimentação com Artemia salina e Moina micrura, na larvicultura de matrinxã no sistema com BFT e sem BFT (água clara com renovação de água). Os resultados desse estudo indicaram que o uso da Artemia foi melhor que a com Moina. Outros estudos avaliaram a concentração de presas e frequencia de alimentação utilizando a Moina micrura na larvicultura da matrinxã. As concentrações de presas recomendadas foram: 200 organismos por larva até o quinto dia, e do sexto ao décimo dia, recomenda-se 600 organismos por larva . A frequencia de alimentação recomendada é uma vez ao dia durante os 10 primeiros dias (Da Silva, 2023). Contudo, a M. micrura tem potencial para a alimentação de larvas de matrinxã, porém há necessidade de mais estudos para estabelecer um protocolo consolidado para sua produção em larga escala.