A Associação de Bancos no Estado do Rio de Janeiro (ABERJ)é a mais antiga entidade representativa de bancos no Brasil, tendo sido concebida no interior da centenária Associação Comercial do Rio de Janeiro, em 8 de novembro de 1922, por iniciativa de um grupo de banqueiros, sendo os empresários Alberto Teixeira Boavista e Jayme Leão de Vasconcellos seus fundadores e primeiros Presidente e Tesoureiro, respectivamente.
Criação O ano de 1922 representou um período de contemplação e transformação das dinâmicas do Brasil. A Aberj, fruto da demanda por uma entidade representativa para os bancos, surge em novembro de 1922, num período em que o Rio de Janeiro ainda se configurava como o principal centro político e econômico do país. O Centenário da Independência do Brasil, trouxe a tônica de modernização e discussão acerca de novas estruturas que poderiam ser adicionadas às dinâmicas do país, tal como a avaliação de estruturas já existentes. Houve um grande esforço tanto acadêmico quanto político por uma nova leitura histórica acerca do que significou a Independência e de que modo a mesma se refletia nas relações (políticas, econômicas e sociais) que estavam a ocorrer no país. A partir de tais reflexões, passou-se a questionar se o sistema político vigente era mesmo o mais adequado para conduzir a República, havendo reivindicações e levantes militares pelo fim do regime de oligarquias, sendo este posto por terra apenas em 1930.
Quanto ao Sistema Bancário brasileiro, sobretudo o do Rio de Janeiro, capital político-administrativa da República, havia a efervescência de debates acerca da criação de uma unidade representativa para seu empresariado econômico. À medida que a demanda pela criação de um órgão associativo que contemplasse unicamente os bancos, crescia, o próprio setor bancário estava a viver uma fase de modernização.
A Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, uma das primeiras do país e a responsável pelas transações de maior relevância no período, se encontrava em grande movimentação durante o início da década de 1920. Apesar da recém-findada Primeira Guerra Mundial, o país estava a passar por um processo de incentivo à indústria e à exportação, sentindo a crise econômica apenas no final da década. Ainda, a partir de 1920, artifícios de política monetária foram criados para funcionar como reguladores e dinamizar as atividades das instituições financeiras, sendo capazes de proporcionar condições para que houvesse o suporte à grande demanda de crédito, indispensável ao processo de industrialização. Toma-se como exemplo a criação, em 1921, da Inspetoria Geral dos Bancos, que teve como função a fiscalização das atividades cambiais e a regulamentação de normas para o estabelecimento de bancos e casas bancárias.Decreto nº 14.728, de 16 de Março de 1921. Disponível em: Câmara dos Deputados.
A primeira proposta de criação de uma organização da classe dos banqueiros partiu de Alberto Teixeira Boavista, diretor do extinto Banco Francês e Italiano da América do Sul. Boavista já participava de reuniões e eventos da classe comercial como representante dos banqueiros, tendo discursado em vários desses eventos sobre a necessidade de criação do Club dos Banqueiros, e em todos foi aplaudido por essa explanação. O Club nunca chegou a ser feito, mas, em contraposição, surgiu a Associação Bancária do Rio de Janeiro, hoje conhecida como Aberj, sendo ela a primeira associação destinada aos bancos do país.
“Os amigos e admiradores do sr. Alberto Boavista, diretor do Banco Francês e Italiano, por motivo de sua viagem à França, no próximo dia 27 do corrente, ofereceram-lhe ontem, no Jockey Club, um lauto banquete, que decorreu na maior cordialidade. À mesa, em forma de ‘U’, sentaram-se cerca de sessenta pessoas. Após o agapo e ao champanhe, fez o brinde de honra, oferecendo o banquete e saudando o homenageado, o Sr. Dr. Jayme de Vasconcellos, que enalteceu o caráter reto e boníssimo do sr. Alberto Boavista. Respondeu o homenageado agradecendo e sugerindo a ideia da fundação, nesta Capital, do Club dos Banqueiros, ideia essa que recebeu os aplausos de todos os presentes.”Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 21 de fevereiro de 1922, edição 44 p. 6.“E passando a outro assunto: - os senhores repararam naquela ideia do presidente do Banco Francês e Italiano, de fundar-se entre nós um Club dos Banqueiros? Que acharam dela? Digna de todo aplauso, pois não? Sim, o Sr. Alberto Boavista deve assinalar com uma pedra branca, na sua vida, aquele esplêndido banquete que os seus colegas desta praça lhe ofereceram no Jockey Club, em a noite de 20 de Fevereiro. Ter ideias é a coisa mais difícil deste mundo e tê-las boas não é para qualquer. Trate, portanto, o operoso banqueiro patricio de pegar firme na palavra de seus convivas, executando logo o que ali ficou estabelecido, se não quiser, verdadeiramente, que o grande público, desta vez, inveje os banqueiros, por não poder fazer o que eles fazem, e para o que nada lhes falta, e ao mesmo tempo os odeie, por verificar que eles, nem distribuem alegrias a todos, nem aproveitam o seu dinheiro para o próprio júbilo, para o próprio conforto e para a sua própria e cordial aproximação e convivência…”Ilustração Brasileira. Rio de Janeiro, fevereiro de 1922, edição 19 p. 14.Fundada em 8 de novembro de 1922 às 5 da tarde, no salão da histórica Associação Comercial do Rio de Janeiro, por Alberto Boavista e Jayme Leão de Vasconcellos - eleitos Presidente e Secretário, respectivamente -, a Associação Bancária do Rio de Janeiro representou um marco para o Sistema Bancário do Brasil da Primeira República.Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, 9 de novembro de 1922, edição 310 p. 6. Se configurando como a primeira entidade de classe dos bancos no país, e fruto de uma demanda prévia do empresariado financeiro, a Associação trouxe a possibilidade de se estabelecer um espaço de discussões e soluções mútuas quanto à economia brasileira."Conforme estava anunciado, ficou ontem definitivamente constituída a Associação Bancária do Rio de Janeiro. Às 5 horas da tarde, numa das salas da Associação Comercial, presente grande número de fundadores e indicada a mesa para direção dos trabalhos, foram aprovados os estatutos. Em seguida, procedeu a eleição da 1ª Diretoria, cujo mandato é de um ano. O resultado apurado, por grande maioria, foi o seguinte: Presidente, Alberto Teixeira Boavista (Diretor do Banco Francês e Italiano); Vice-Presidente, Frank Dodd (Gerente do British Bank); Secretário, Dr. Jayme de Vasconcellos (Diretor-Presidente do Banco do Rio de Janeiro); Tesoureiro, J. Urrutigaray (Gerente do Banco Pelotense). Proclamado o resultado da eleição, houve uma salva de palmas. A Diretoria foi imediatamente empossada, agradecendo a prova de confiança que recebera da assembleia."Jornal do Commercio. Rio de Janeiro, 9 de novembro de 1922, edição 310.
A Década de 1920: a Associação Bancária do Rio de Janeiro
A situação econômica e as Reformas Bancárias da década de 1920 Os anos que sucederam a década de 1920 foram marcados por uma crise econômica latente, que viria a ser sentida de maneira mais efetiva a partir do ano de 1929, especialmente a partir da Quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque.
Em 1920, o Brasil passava por um crescimento das exportações cafeeiras, ocasionado principalmente pela demanda reprimida na I Guerra Mundial. Nesse sentido, os Estados Unidos se configuram como o país a importar o maior número de sacas de café do Brasil no mundo, principalmente por causa dos saldos da guerra, que haviam deixado os países europeus em regime de recessão, sendo o café considerado um item de luxo. Apesar do crescimento da demanda, a economia cafeeira se via em um momento de instabilidade, ocasionada pelas grandes safras. Ou seja, mesmo que o café ainda fosse o principal produto de exportação e impulsionador da economia brasileira, o excedente era ainda maior que a sua procura. Tal fenômeno gerou um déficit na balança comercial do café já nos primeiros anos da década de 1920.VILELLA, Annibal Villanova. SUZIGAN, Wilson. Política do governo e crescimento da economia brasileira : 1889-1945. Rio de Janeiro : IPEA/INPES, 1945.
Em janeiro de 1921 foi aprovado o regulamento de criação da Carteira de Redescontos do Banco do BrasilPORTAL DA C MARA DOS DEPUTADOS. Decreto nº 14.635, de 21 de Janeiro de 1921. Disponível em: <https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1920-1929/decreto-14635-21-janeiro-1921-512329-publicacaooriginal-1-pe.html>, sendo esta a principal tática de regulação econômica de uma Reforma Bancária, empreendida pelo Governo Federal, para que houvesse a contenção do déficit gerado. Como sugere seu nome, a Carteira de Redescontos era responsável por redescontar títulos de outros bancos, sendo essa uma das principais funções de um Banco CentralLEVY, Maria Bárbara; MEDEIROS, Paulo de Tarso. Banco do Brasil. In: Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro. Fundação Getúlio Vargas, CPDOC. Verbete. . Ou seja, o Banco do Brasil se tornou o responsável por fornecer empréstimos a outros bancos que não conseguiam obter plena captação de capital, tendo em vista o contexto instável da economia. Como resposta direta à criação da Carteira de Redescontos, viu-se, ainda em 1921, uma expansão do volume e meios de pagamento e a aceleração das emissões.
Considerando o crescente estímulo à indústria no começo da década de 1920, em 1923, durante o governo de Artur Bernardes, uma nova Reforma Bancária foi estabelecida. Apesar de ter sua Carteira de Redescontos encerrada, o Banco do Brasil permaneceu desempenhando a função do redesconto e, além disso, obteve o monopólio da emissão de papel-moeda para o país, passando a desempenhar plenamente as principais funções de um Banco Central.
O contexto econômico dos primeiros anos da década de 1920 poderá ser esquematizado com os seguintes pontos:
Possibilidade de incentivo à indústria dada a retomada dos níveis de exportação do café; Déficit comercial na economia cafeeira (safras maiores que a demanda); Atribuição de funções de um Banco Central ao Banco do Brasil como medida de estabilização econômica.
A situação dos bancos, fixados no Brasil nesse período, também era de imprevisibilidade, havendo uma série de dinâmicas, como fusões com outros bancos e a tentativa de expansão para outros territórios. No entanto, a partir da atribuição do redesconto, foi possível para o Sistema Bancário manter uma maior estabilidade, podendo fornecer serviços melhores e atingir uma maior representatividade:"No período das indústrias, no qual nos achamos, observa-se a tendência dos bancos para a concentração. Ora aumentam o capital, ora fundem-se, ora absorvem outros menores, ora limitam-se a comprar a maioria das ações de outro banco que cai sob seu controle. este modo fazer economias com a organização do trabalho e as despesas da administração, tornar-se poderosos para vencerem as crises e para compensarem os riscos, expandir-se pelo interior e pelo exterior, com o estabelecimento de uma rede de filiais, ampliando o raio de ação, e evitar a concorrência, que, neste comércio, não deixa de apresentar perigos. Com a redução da taxa de desconto e outras vantagens, prestam incontestavelmente serviços à clientela e adquirem formidável influência em todo o processo da circulação monetária e capitalista [...].