Obdulio Jacinto Muiños Varela (Montevidéu, Obdulio Varela: empatía y tristeza de un campeón 20 de setembro de 1917 — Montevidéu, 2 de agosto de 1996) foi um futebolista uruguaio que jogava como volante. Capitão do Maracanaço, é considerado o jogador uruguaio mundialmente mais reconhecido na história, ainda que não fosse exatamente visto como o melhor nem mesmo em sua posição, havendo outros mais técnicos. Nenhum, porém, conseguiu a dimensão de “caudilho” exercida por Obdulio, um dos poucos futebolistas condecorados ainda em vida com a Ordem do Mérito da FIFA (em 1994, em Chicago, no Congresso prévio à Copa do Mundo daquele ano). Varela disputou duas vezes a Copa do Mundo FIFA e com ele a campo a seleção uruguaia jamais foi derrotada. foi um dos ídolos do Peñarol.

Celebrizou-se como o capitão da Seleção Uruguaia campeã da Copa do Mundo de 1950 sobre o Brasil em pleno Maracanã. Sua ascendência sobre os companheiros, no clube e na Celeste, e sua pele mulata lhe renderiam a alcunha El Negro Jefe ("O Chefe Negro").BASSORELLI, Gerardo (2012). El Negro Jefe. Héroes de Peñarol. Montevidéu: Editorial Fin de Siglo, pp. 58-71GEHRINGER, Max (dezembro de 2005). Os campeões. Placar: A Saga da Jules Rimet, fascículo 4 - 1950 Brasil. Editora Abril, pp. 40-41

Nelson Rodrigues, em suas crônicas esportivas, falou mais de uma vez em tons lendários sobre Varela. Disse que ele "não atava as chuteiras com cordões, mas com as veias" e que "a humilhação de 50, jamais cicatrizada, ainda pinga sangue.Todo escrete tem sua fera. Naquela ocasião, a fera estava do outro lado e chamava-se Obdulio Varela".

O também ex-zagueiro uruguaio Diego Lugano disse em entrevista ao programa Bola da Vez da ESPN Brasil, no ano de 2005, após ser perguntado se imitava Varela nas brincadeiras de bola quando criança, respondeu: "Você não pode brincar de ser Deus".

O próprio Obdulio, porém, desmistificava a imagem gerada em torno de si: "Eu não sou um caudilho. O que gostava era jogar futebol; mandar um pouco; ordenar algo dentro de campo e nada mais. A pessoa nasce para mandar, isso não se aprende. Eu não represento nada. Tudo o que se diz são mentiras. Sou uma pessoa como qualquer outra e a única coisa que me resta é a satisfação de ter cumprido. A glória não existe. A glória é ter amigos que gostem de ti. Com a fama não se vive". Ele também preferia usar o segundo nome "Jacinto" para se identificar, atribuindo ao brasileiros a identificação como "Obdulio".CASTRO, Robert (2014). Capítulo V - Brasil 1950. Historia de los Mundiales. Montevidéu: Editorial Fín de Siglo, pp. 79-105

Origens

Nasceu pobre e asmático, no humilde bairro montevideano de La Teja,Um monstro de alma e garra (7 abr. 1986). Placar n. 828. São Paulo: Editora Abril, pp. 52-51 filho de galegohttps://www.elcorreogallego.es/opinion/firmas/negro-jefe-y-gallego-KA4640927 crescendo em outra localidade, na rua Pablo Pérez, na Curva de la Indústria. Foi criado com os pais separados, e só depois de algum tempo foi reconhecido pelo pai – por causa disso, usava o sobrenome materno de Varela, e não o paterno de Muiños, diferentemente do que normalmente se aplica nos países de língua espanhola.

Estudou até o terceiro ano do primeiro grau na escola do Campo Español, trabalhando ainda na infância. Para ajudar no sustento de uma família de muitos irmãos, que eram dez ou onze, foi engraxate, onde conseguia seis pesos por mês em 1932. Também foi vendedor de pão, mensageiro e outros empregos informais. Também vendia jornais nos bairros de Paso Molino e do Centro – sobre a relação com a imprensa, declararia que “os jornais contêm somente duas coisas que são verdadeiras: o preço e a data”. Aos 13 anos, guardava automóveis no Hotel del Prado. Nessa mesma época, começou a jogar futebol de rua com bolas improvisadas de trapos.

Quando tinha 16 anos, já instalado no bairro de La Comercial, sua vida era futebol da manhã à noite e seu primeiro time chamava-se Fortaleza, uma das equipes de bairro. Outras desse patamar que defendeu chamavam-se Dublin e Pascual Somma, onde ficou porque lhe deram emprego de operário de alvenaria. As atividades no Pascual também lhe renderam a primeira viagem internacional, a Buenos Aires, em 1936. A respeito, declararia:

Dali passou ao Deportivo Juventud, que, diferentemente dos times anteriores, estava afiliado na Associação Uruguaia de Futebol, no equivalente à segunda divisão.

Como jogava

Era reconhecido como marcador tenaz, eficaz no jogo aéreo e com correta distribuição de bola, ainda que nada a ponto de fazê-lo ser visto como fora de série como jogador, característica sim atribuída à sua liderança e personalidade. Ocasionalmente, também destacava-se por gols em fortes chutes de longa distância.

Curiosamente, tinha os hábitos de chamar os adversários de japoneses e os colegas de time, de catalães, embora não se lembrasse como isso se iniciou, além de assoviar para pedir a bola, algo que começaria em sua passagem pelo Montevideo Wanderers.

Carreira antes do Peñarol 300px|thumb|right|Em 1943, junto de Ernesto Lazzatti, da seleção argentina. No Juventud, Obdulio conheceu a pressão das torcidas adversárias. Em uma de suas biografias, o jogador relembrou ao menos dois episódios: contra uma equipe de campo próximo ao mar e uma das torcidas “mais bravas de todos os tempos”, entrou em campo em meio a uma “passarela humana que era encarregada de revisar a anatomia da equipe contrária”. O Juventud conseguiu arrancar um empate, e ao se retirar Varela teria escutado que “dessa vez vocês se se saíram bem, moreninho, na volta vais ter de contar os ossinhos”.

No outro, um time de Marañas, Varela conseguiu marcar dois gols, um em forte chute de direita e outro em tiro livre de fora da área, sendo sua última lembrança da partida: foi golpeado na nuca. Seria um recado para não se atrever a festejar gols como visitante.

Ainda como jogador do Juventud, que somente no ano de 1999 conseguiria subir à primeira divisão, Varela foi procurado tanto pelo Peñarol como pelo Nacional. Mas terminou no Montevideo Wanderers, já na época o terceiro maior campeão uruguaio. Sobre o primeiro contato com a dupla principal do país e a transferência ao Wanderers, assim declararia:

Estreou no Wanderers em 12 de março de 1938, em um amistoso do time B. A estreia em jogos competitivos deu-se em abril, contra o Liverpool uruguaio, no Parque Rodó. Ganhou por 3-1. Varela também venceu na primeira vez em que enfrentou no estádio Centenário o Peñarol: 2-1. Um dirigente do Wanderers arranjou ao volante trabalho de porteiro em uma secretaria de tributos indiretos. Despontando naquele clube como um talentoso meia-esquerda,O Capitão do Bi (novembro de 1999). Placar - Especial "Os Craques do Século". Editora Abril, p. 60 chegou à Seleção Uruguaia ainda em janeiro de 1939.

Varela defendeu o Wanderers até 1942. Lá, desenvolveu o hábito de assoviar para pedir a bola. Entre 1938 e aquele ano, a melhor campanha foram dois terceiros lugares, em 1939 e em 1942, ficando também em antepenúltimo em 1941. Poderia ter ido ao futebol argentino, passando uma semana treinando no Banfield: “passei uma semana como turista e depois vim. Nunca gostei de Buenos Aires. Era muita cidade para mim”, explicou. Foi então adquirido pelo Peñarol. Tal como no Wanderers, sem ser previamente comunicado e inicialmente a contragosto:

Peñarol Primeiros anos

Varela estreou pelo Peñarol em 17 de abril de 1943, contra o Sud América pelo Torneio Competência. Ganhou por 4-0. Foi no novo clube que ele começou a jogar mais recuado, como centromédio. Chegou em um contexto complicado. Logo tornou-se titular, mas, naquele ano, o time viu o arquirrival Nacional vencer o campeonato uruguaio pela quinta vez seguida.ANTÚÑEZ, Marcos Silveira (2011). 1943. Club Atlético Peñarol 120. Montevidéu: Ediciones El Galeón, p. 82 Era a primeira vez em que um clube uruguaio emendava tantos títulos seguidos, no chamado "Quinquenio de Oro".MELOS PRIETO, Juan José (2012). 1939-1943. El Nacional de Atilio y El Quinquenio de Oro. El Padre de la Gloria. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 82-83 O grande destaque naquele ano foi uma goleada de 6-0 em amistoso com o Boca Juniors, com Obdulio presente.

O título uruguaio veio enfim em 1944, com Obdulio destacando-se no clássico com o Nacional: em um deles, marcou o primeiro gol da vitória por 2-0 no chamado “clássico da sentada”. Os dois rivais adiante terminaram empatados, forçando a realização de jogo extra. Como inicialmente ficaram no 0-0, realizou-se uma segunda final. Nela, os tricolores abriram 2-0 com dois gols de Atilio García, mas perderam de virada por 3-2 o jogo e o título. Foi de Varela o gol do empate.ANTÚÑEZ, Marcos Silveira (2011). 1944. Club Atlético Peñarol 120. Montevidéu: Ediciones El Galeón, p. 83

Em 1945, o Peñarol foi novamente campeão e Obdulio, titular.ANTÚÑEZ, Marcos Silveira (2011). 1945. Club Atlético Peñarol 120. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 84-85 O episódio mais destacado no ano a envolver o jogador, porém, foi um amistoso, contra o River Plate. Os uruguaios venceram e os dirigentes premiaram seus jogadores com 250 pesos, exceto Varela, agraciado com quinhentos: “eu não joguei nem mais nem menos do que ninguém. Se eles mereceram 250 pesos, eu também”, assinalou. O conselho deliberativo então premiou todos com quinhentos.

Em 1946, o título voltou ao Nacional, a despeito de uma derrota escandalosa para Peñarol, na qual Varela terminou involuntariamente como personagem principal. Os aurinegros venciam por 3-1. Quando Oscar Chirimini marcou 4-1, foi agredido por Eusebio Tejera e revidou. Varela envolveu-se na discussão, que se generalizou. Quando os ânimos se acalmaram, o árbitro expulsou Chirimini e Tejera, mas Varela, embora não fosse expulso, também precisou deixar o campo, por ordem policial. Com nove jogadores, o Peñarol conseguiu segurar a vitória, que ficou em 4-3.ANTÚÑEZ, Marcos Silveira (2011). 1946. Club Atlético Peñarol 120. Montevidéu: Ediciones El Galeón, p. 86 Foi nesse ano que Varela tornou-se capitão do Peñarol.Obdúlio Varela, o terrível El Negro (19 jun. 1970). Placar n. 14-A. São Paulo: Editora Abril, p. 15 Ficou conhecido como El Clásico del Comisario, em alusão ao comissário que o retirou - segundo algumas versões, por ordem do chefe de polícia, que torcia pelo rival. Obdulio resistiu e chegou a sofrer golpes de cassetete.

Em 1947 e em 1948, o Nacional manteve-se campeão. O título de 1948 foi concedido na realidade a quem era líder quando o torneio foi paralisado,MELOS PRIETO, Juan José (2012). 1948. El Padre de la Gloria. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 102-103 após a primeira rodada do segundo turno. Iniciou-se uma greve que só acabaria em abril do ano seguinte.ANTÚÑEZ, Marcos Silveira (2011). 1949. Club Atlético Peñarol 120. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 90-91 Obdulio foi justamente um dos líderes do movimento grevista, que brigava por uma lei de passe que amarrava os jogadores aos clubes, assim como por melhores salários. Durante a paralisação, Varela voltou a trabalhar na construção civil e chegou a mandar devolver um jogo de cozinha entregue em sua casa por emissários do Peñarol, em tentativa de lhe fazer voltar atrás, embora o presente fosse um sonho para sua esposa. Foi a greve mais longa no futebol a nível mundial.

Outra declaração, rancorosa, sobre a greve foi dada em 1973:

Durante a greve, Obdulio chegou a receber proposta de patrocínio da Fábrica Nacional de Cervejas, na qual cederia sua imagem por três milhões de pesos. O convite foi feito através de colegas e inicialmente enfureceu o jogador, reprovando os companheiros por não terem expulsado “a patadas” o gerente da fábrica. Varela só aceitou após três damas sugerirem no sindicato uma partida beneficente às crianças do campo. Ciente disso, o gerente prometeu empregar cinco milhões na causa se Obdulio aceitasse tornar-se garoto-propaganda da cervejaria. O contrato foi imediatamente assinado e cumprido.

O time-base do Maracanaço