O assassinato de Marcelo Arruda ocorreu no dia 9 de julho de 2022 quando o guarda municipal e tesoureiro do Partido dos Trabalhadores (PT) foi assassinado por Jorge José da Rocha Guaranho, agente penitenciário federal e apoiador de Jair Bolsonaro, em Foz do Iguaçu, Paraná. O fato gerou repercussão internacional por representar o clima de polarização e violência política no ciclo das eleições gerais no Brasil em 2022.

Antecedentes Marcelo Aloizio de Arruda (Foz do Iguaçu, 9 de julho de 1972 – Foz do Iguaçu, 9 de julho de 2022) foi criado na favela dos Bancários, e começou a trabalhar como engraxate. Em 2003, se formou em biologia pela UniAmérica Centro Universitário. Foi candidato a vice-prefeito de Foz do Iguaçu em 2020 pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Em relato do advogado e professor de Direito Fábio Aristimunho Vargas para a BBC News, no dia 14 de maio ele e Marcelo palestraram na Oficina da Juventude Contra a Violência, onde Arruda defendeu que "policiais de esquerda como ele é que seriam as primeiras vítimas numa eventual escalada autoritária no país, (...) para evitar que repassassem conhecimento estratégico a uma resistência democrática". À época de sua morte, Marcelo era tesoureiro do partido, guarda municipal há 28 anos, e diretor do Sindicato dos Servidores Municipais de Foz (Sismufi). Ele era casado e tinha quatro filhos, incluindo um bebê de um mês de idade. No dia 9 de julho de 2022, Marcelo comemorava seu aniversário de 50 anos numa festa com o tema do PT e do ex-presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva. A comemoração era realizada na sede da Associação Esportiva Segurança Física Itaipu, na Vila A. O evento se iniciou às 18h.

Jorge José da Rocha Guaranho era policial penal federal desde 2010, e se descreve nas redes sociais como cristão, conservador, contrário ao aborto, armamentista e bolsonarista. Em suas redes sociais, a maioria de suas postagens são em apoio a Bolsonaro e a suas pautas, e incluem críticas à Rede Globo e a Alexandre de Moraes; assim como uma selfie com Eduardo Bolsonaro. Em 2018, Guaranho foi detido por desacato a policiais militares em Guapimirim, Rio de Janeiro. Ele chegou a responder por uma sindicância interna, que foi arquivada. Em outubro de 2019, se desentendeu com seguranças de uma festa em Capanema, onde foi registrado um boletim de ocorrência pela Polícia Militar. Não houve condenação em nenhum dos casos. Estava cursando medicina na Cidade do Leste. Ele era secretário da diretoria da Associação Esportiva Segurança Física Itaipu, onde ocorria a festa de aniversário de Marcelo Arruda, mas não o conhecia anteriormente e não havia sido convidado para o evento.

Assassinato thumb|150px|Arruda no momento de sua candidatura a vice-prefeito em 2020.

A festa de aniversário de Marcelo Arruda ocorria nas dependências da Aresf, clube formado por agentes de segurança pública e privada, que recentemente havia instalado câmeras de monitoramento por todo o local. Próximo das 21h, Márcio Jacob Muller Murback, um dos diretores do clube, acessou as imagens do circuito de câmeras pelo celular e viu a comemoração de Marcelo. Márcio estava acompanhado do agente federal de execução penal, Jorge Guaranho, a cerca de 700 metros de distância, em outra associação, a Assemib. Em seu depoimento, Márcio Murback disse que Jorge Guaranho inicialmente não apresentou reação após ver as imagens através de seu celular, e que ficou por mais cerca de 3 horas no churrasco da Assemib. Depois disso Guaranho saiu da Assemib e dirigiu-se até a festa de aniversário de Marcelo Arruda, na Aresf.

A filmagem da câmera de segurança mostra um carro branco manobrando em frente à entrada da festa de aniversário de Marcelo Arruda às 23h40. O motorista é Jorge José da Rocha Guaranho, apoiador de Jair Bolsonaro e agente penitenciário federal desde 2010. Guaranho não era conhecido por ninguém da festa e não fora convidado. Uma mulher (esposa de Guaranho) e uma criança pequena (seu filho) também estavam no carro. Segundo a antiga delegada do caso, Iane Cardoso, Guaranho estaria tocando uma música relacionada a Bolsonaro no carro, com o refrão "O mito chegou e o Brasil acordou". Marcelo Arruda se dirige até o motorista tentando falar com ele, que aparenta gritar com Marcelo; segundo testemunhas, Guaranho expressou seu apoio ao presidente Bolsonaro. Marcelo então apanha um punhado de terra de um canteiro próximo e atira na direção do motorista, que por sua vez saca uma arma e aponta na direção de Marcelo. Neste momento, a esposa de Marcelo se dirige até o veículo, tentando conversar com os envolvidos. A esposa de Guaranho, dentro do veículo, abre a porta traseira, pede que seu marido pare e implora para eles irem embora. Conforme outros convidados se aproximam, Guaranho deixa o local acelerando seu veículo bruscamente.

A mesma câmera de segurança mostra a volta de Guaranho ao local às 23h51. Ele chega sozinho, estaciona o veículo e desce do carro já empunhando uma arma. A esposa de Marcelo Arruda, na entrada do local, mostra seu distintivo de policial civil e ordena que Guaranho abaixe a arma, porém ele a ignora. Eles discutem brevemente enquanto Guaranho mira em direção ao interior da festa, ele então atira algumas vezes e entra correndo no local. Nas imagens de circuito interno de monitoramento é possível ver que, ao ser atingido por um dos tiros disparados por Guaranho, Marcelo Arruda coloca a mão na altura da cintura e cai no chão do salão, rastejando em busca de abrigo embaixo de uma mesa. O atirador então adentra o local preparado para executar Marcelo, que estava prostrado ao chão, porém uma intervenção de última hora da esposa de Marcelo desequilibra o atirador e o derruba, mas não antes que Guaranho conseguisse efetuar um tiro em curta distância em Marcelo Arruda. Neste momento, a vítima começa a revidar os disparos de Guaranho, que tenta se levantar e fugir em direção à porta dos fundos, mas é alvejado múltiplas vezes até cair de costas no chão. Com o fim do tiroteio alguns homens se aproximam do local, e passam a chutar Guaranho ao notarem que o criminoso ainda tenta se mover.

A Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros chegaram ao local por volta das 0h. Marcelo Arruda e Jorge Guaranho foram levados ao Hospital Municipal de Foz do Iguaçu. Às 4h25, a morte de Marcelo Arruda foi confirmada. Seu corpo foi velado no final da tarde do dia 10, e altos quadros do PT, como sua presidente Gleisi Hoffmann, participaram do velório. O corpo de Marcelo foi sepultado às 15h30 do dia seguinte, no Cemitério Jardim São Paulo, em Foz do Iguaçu, tendo sido o evento acompanhado por centenas de pessoas.

Versão de Francielle Sales da Silva A esposa de Jorge Guaranho, Francielle Sales da Silva, negou o caráter político do crime, e afirmou que o encontro entre Marcelo Arruda e Guaranho foi mera coincidência. Segundo ela, seu marido estaria fazendo rondas na Aresf quando o crime aconteceu, e que Guaranho teria sido provocado por Arruda primeiro, por estar escutando a música Bolsonarista "O mito chegou". Francielle sustentou que seu marido não esperava ser recebido de forma agressiva, pois lhe contaram que havia muitos policiais na festa de Marcelo Arruda. Ela testemunhou que seu marido teria mostrado a arma apenas quando Arruda jogou terra no carro, e que ele ficou muito aborrecido pois pessoas de dentro da festa teriam jogado terra e pedras no carro, o que fez com que ele fosse embora com sua família, mas também fez com que decidisse voltar até o local para "tirar satisfação". Ela alegou que seu marido não era um extremista de direita, e que o fanático seria na verdade a vítima, Marcelo Arruda.

Os diretores da associação confirmaram em depoimento que a prática de fazer essas rondas seria algo comum, porém o presidente da associação informou que apenas o caseiro Elianai Figueiredo saberia precisar melhor a frequência das rondas de Guaranho. Quando questionado, o caseiro respondeu que recordava-se que o investigado havia realizado apenas uma dessas rondas, cerca de 8 meses antes. Jorge Guaranho fora secretário da Aresf, porém havia se desligado da diretoria por volta daquele mesmo período de tempo, segundo seus colegas. O laudo feito pela Polícia Científica refutou a hipótese de que Arruda teria jogado pedras no carro.

Investigação O secretário de Segurança Pública de Foz do Iguaçu, Marcos Antonio Jahnke, lamentou a morte e afirmou que a Polícia Civil investigaria as motivações do crime: "Pelo que a gente percebeu foi uma intolerância política". Uma Comissão Parlamentar Especial foi criada para acompanhar o caso. Inicialmente, a Polícia Civil do Paraná havia informado que Guaranho havia morrido. No entanto, na tarde do dia 10 de julho, retificou a informação, dizendo que ele estava internado em estado grave, e em 12 de julho, a Secretaria de Segurança Pública do Paraná divulgou que ele estava sedado na UTI do hospital Ministro Cavalcanti em Foz do Iguaçu, sem previsão de alta. A delegada que investigava o caso era Iane Cardoso. Ela recebeu críticas pois, em sua primeira entrevista, chamou Guaranho de "vítima". Além disso, foram localizadas em suas redes sociais manifestações contra o PT. Na manhã do dia 11 de julho, foi anunciado que o governo do estado a substituiu pela delegada divisional de homicídios, Camila Cecconello. O motivo oficial da substituição, segundo a assessoria da secretaria de Segurança Pública do estado, é porque "a divisional de homicídios tem mais recursos e experiência para essa situação".

Ainda no dia 11 de julho, a pedido do Ministério Público do Paraná, a Justiça expediu o mandado de prisão preventiva de Guaranho. No dia 15, a delegada, Camila Cecconello, encerrou o inquérito e descartou a possibilidade do assassinato ter configurado crime político. Assim, a investigação e eventuais processos contra Guaranho seria realizada partindo do preceito de que ele cometeu crime comum. A medida recebeu diversas críticas de familiares da vítima, criminalistas e do PT. Advogados da família cogitaram realizar uma investigação internacional para apurar os fatos.

No dia 17 de julho, a Secretaria de Estado da Segurança Pública do Paraná anunciou que não havia previsão para enquadrar o assassinato como político, pois a antiga Lei de Segurança Nacional foi revogada pela Lei de Crimes contra o Estado Democrático de Direito, que não tipifica a situação. O órgão deu apoio ao inquérito publicado pela Polícia Civil e justificou suas ações dizendo que era uma instituição técnica e que “opiniões ou manifestações políticas estão fora de suas atribuições expressas na Constituição”.

No dia 19 de julho, O juiz Gustavo Germano Francisco Arguello, da 3ª Vara Criminal de Foz do Iguaçu, devolveu o inquérito à Polícia Civil, pedindo novas informações. Os laudos pedidos são referentes ao confronto balístico, análise de gravador de vídeo, análise do aparelho celular do investigado, veículo automotor e do local de morte. Então, no dia 20, os procuradores de justiça Tiago Lisboa e Luís Marcelo Mafra Bernardes da Silva do Ministério Público do Paraná denunciaram Jorge por homicídio duplamente qualificado por motivo fútil e perigo comum. Também foi pontuado a motivação política do crime, indo contra a versão oferecida pela delegada Camila Cecconello. Ainda faltam os laudos periciais solicitados, mas os procuradores acreditam que os mesmos podem ser anexados posteriormente na denúncia. Guaranho terá dez dias para apresentar sua defesa, e poderá chamar até oito testemunhas.