O Theatro São Pedro veja nota Por tradição, é mantido oficialmente o h na palavra "Theatro", mas segundo as normas ortográficas vigentes da língua portuguesa a grafia correta seria Teatro São Pedroé um teatro brasileiro localizado na cidade de Porto Alegre, capital do estado do Rio Grande do Sul.
Sua construção iniciou em 1833 mas as obras sofreram vários atrasos e interrupções, e o prédio em estilo neoclássico só foi inaugurado em 27 de junho de 1858. A rica decoração original do interior foi removida em meados do século XX e substituída por outra moderna. Com pouca manutenção, a estrutura do prédio começava a apresentar diversos problemas, e chegando à década de 1970 o edifício se encontrava em um estado de degradação avançado, sendo interditado em 1973. Foi então iniciado um restauro, que só terminou em 1984, quando foi reaberto. Mais tarde foi suas instalações foram ampliadas com um prédio anexo, o Multipalco Eva Sopher, com duas grandes salas de espetáculos, dependências administrativas e salas para ensaios e outros usos.
É o teatro mais antigo da cidade ainda existente, um dos mais antigos do Brasil, ao longo de toda a sua história tem sido um dos principais centros de promoção das artes cênicas e musicais em todo o estado, apresentando espetáculos de alta qualidade e artistas de grande renome, e é uma referência cultural de prestígio nacional. O edifício é um bem inventariado pela Prefeitura e tombado em nível estadual pelo IPHAE e nacional pelo IPHAN.
Origens O Theatro São Pedro é o resultado de uma longa série de tentativas de organização da vida cultural da cidade através da criação de uma casa para espetáculos, à luz da filosofia da instrução aliada à recreação. Esse era um desejo manifesto desde o tempo da colônia, e em 1790 foi erguida a primeira Casa de Ópera de Porto Alegre, que no entanto não passava de um precário barracão de pau-a-pique onde o que menos se via eram óperas, servindo antes para a encenação de comédias, recitais de música de salão, "peças burguesas" e variedades semi-circenses. Em 1804 o governador Paulo Gama, considerando que "a civilização já era uma realidade entre nós", tentara, com o auxílio de um grupo de próceres locais, criar um verdadeiro teatro, mais um salão de bailes e um clube de letras. Por carência de recursos, o desejo não saiu do papel, o somente pôde ser realizada uma reforma na já desgastada Casa da Ópera, dando-lhe condições um pouco melhores, que não resistiram muito, em poucos anos novamente reduzido à condição de "infecto seminário de mosquitos", situação piorada pela sua péssima localização, junto a um terreno alagadiço e insalubre.
Esta Ópera primitiva foi extinta em 1834, e quatro anos depois a cidade passou a contar com o Teatro Dom Pedro II, construído pela Sociedade Dramática Particular, que foi um avanço significativo em relação ao seu predecessor, tanto em relação às suas instalações quanto ao seu programa, mas ainda estava longe de satisfazer as ambições dos locais por um lugar que fosse capaz de receber espetáculos sofisticados e também imponente o bastante para ser fonte de orgulho cívico.
Pouco antes, ainda em 1833, Vicente Ferrer da Silva Freire, José Inácio da Silveira, João José de Oliveira Guimarães, Antônio José de Oliveira Guimarães, Manuel José Machado, Manuel José de Lião, Israel Soares de Paiva, João Inácio Teixeira, Joaquim José Gomes da Silva, Bibiano Carneiro da Fontoura, José Antônio de Azevedo e Antônio Meneses Barbosa constituíram uma sociedade acionária e solicitaram ao presidente da província Manuel Antônio Galvão a cessão de um terreno no centro da cidade para a construção de um teatro, que se chamaria São Pedro de Alcântara. O requerimento enfatizava a utilidade pública da obra, que serviria para afastar o povo do ócio pernicioso dirigindo-o para divertimentos sadios que educariam seus costumes e aperfeiçoariam sua moral. Os rendimentos pagariam o investimento dos associados e os excedentes seriam destinados para auxílio da Santa Casa de Misericórdia, que se tornaria a proprietária do imóvel.
Em vista do grande mérito da proposta, o presidente doou um terreno com 100 x 200 palmos para a sua construção, localizado na Praça da Matriz, no centro da cidade. Um projeto foi encomendado à Corte do Rio de Janeiro e as obras foram iniciadas no ano seguinte sob a direção de João Batista Soares da Silva e Souza, mas em 1835 foram interrompidas, ainda na fase dos alicerces, em função do início da Revolução Farroupilha, que se prolongou até 1845.Franco, Sérgio da Costa. Guia Histórico de Porto Alegre. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 4ª ed. 2006. thumb|esquerda|O teatro em 1875
Depois da guerra, para continuidade das obras foi constituída uma nova sociedade liderada por Antônio Joaquim da Silva Mariante, que, não obstante seu caráter privado, logo buscou subsídios oficiais, que foram concedidos pelo governo do conde de Caxias, mas pouco depois a sociedade desistiu do projeto e ofereceu os alicerces já concluídos pelo valor de cinco contos de réis. Desta forma, o novo presidente, Francisco José de Sousa Soares de Andrea chamou a si a tarefa da construção, e tentou convenceu os deputados a concederem uma subvenção, mas sem efeito. Buscando uma outra saída, constituiu ele mesmo uma nova sociedade com o apoio de alguns particulares, mas foi substituído no governo em 1849 por José Antônio Pimenta Bueno, que encampou a iniciativa de seus predecessor e fez com que os trabalhos fossem retomados em 1850, após autorizar um empréstimo de 16 contos junto aos cofres públicos, depois ampliado com mais 30 contos, reorganizar a sociedade com 45 membros acionistas e conseguir enfim um outro subsídio da Assembleia de Deputados na forma de uma loteria pública. thumb|esquerda|O Theatro à esquerda, ao lado da antiga sede da Câmara Municipal, em 1888
As origens da planta são controversas. Pode ter sido um projeto original de Phillip von Normann, ou foi elaborado na Corte do Rio de Janeiro por um arquiteto desconhecido. Segundo Athos Damasceno, as profundas modificações que Normann foi obrigado a fazer no projeto original, que não previa uso como casa de espetáculos, levam a crer que o teatro foi uma adaptação da planta de um edifício gêmeo construído no outro lado da rua, que serviria como sede da Câmara de Vereadores, demolido em 1950 após um incêndio.Damasceno, Athos. "O Teatro São Pedro: Documentário". In: Damasceno, Athos et al. O Teatro São Pedro na Vida Cultural do Rio Grande do Sul. Secretaria Estadual da Cultura, 1975, pp. 9-23
Normann de qualquer modo foi o responsável pela execução das obras, com exceção da decoração final, que ficou a cargo de Emil Julius Textor.Weimer, Günter. "Arquitetos e construtores Rio-Grandenses na Colônia e no Império". Editora da UFSM, 2006 O edifício em estilo neoclássico foi inaugurado em 27 de junho de 1858, com a representação do drama Recordações da Mocidade pela Companhia Ginásio Dramático Rio-Grandense, do empresário João Ferreira Bastos, incluindo abertura e interlúdios orquestrais dirigidos pelo maestro Joaquim José de Mendanha. Segundo as memórias de Augusto Porto Alegre, "a fina flor da sociedade compareceu ao ato, dando o decote das damas e as casacas dos cavalheiros o tom chique da solenidade em que tudo ressumbrava completa alegria". O espaço tinha capacidade para 700 espectadores e suntuosa decoração em veludo, ouro e cristais, numa época em que Porto Alegre tinha pouco mais de vinte mil habitantes. Em breve a sociedade mantenedora não conseguiria mais fazer frente às despesas de conservação, e o imóvel foi desapropriado pelo poder público em 2 de abril de 1861.
Apogeu e decadência thumb|Concerto em 1928 sob a regência de Francisco Braga. Olga Fossati é a ˞spalla thumb|Cena da ópera Rigoletto montada em 1934 no Theatro São Pedro pela sociedade Noites Líricas e o Orfeão Rio-Grandense. Na imagem estão Elsa Tschoepcke e Emílio Baldino.
Durante mais de cem anos, o Theatro São Pedro foi palco de alguns dos mais importantes espetáculos assistidos em Porto Alegre. Óperas completas passaram a ser viáveis, sendo apresentadas quase todos os anos temporadas com variada programação, paralelamente se desenvolveu um programa de peças de teatro e recitais de câmara, e por ali passaram músicos e atores insignes como os pianistas Arthur Rubinstein, Friedrich Gulda, Magda Tagliaferro e Claudio Arrau, o maestro Heitor Villa-Lobos, as cantoras Bidu Sayão e Marian Anderson, o dramaturgo Roman Riesch, o grupo francês Les Comediens des Champs-Elisées, a Orquestra de Versalhes, os atores Walmor Chagas, Paulo Autran, Fernanda Montenegro, Paulo Gracindo e outros.
Na década de 1950 o interior foi reformado e modernizado, substituindo-se toda a rica decoração original. Nas suas dependências foi instalado o Museu de Arte do Rio Grande do Sul, que ainda não tinha sede própria. As obras eram depositadas no sótão e para servir como sala de exposições o foyer do vestíbulo foi adaptado, sendo inaugurado em 1957. O museu permaneceria no teatro até sua interdição na década de 1970, e neste período, apesar da precariedade das instalações, desempenhou um papel importante no cenário artístico do estado, apresentando muitas exposições bem sucedidas.Melo, Diego Pereira de. O registro da imprensa na construção da história organizacional: Memorial do Theatro São Pedro. UFRGS, 2013, pp. 35-36
Entrementes, o edifício passou por novas obras na década de 1960, mas apesar do grande prestígio da instituição, cronicamente o Theatro recebia pouca atenção do governo no campo da manutenção da estrutura. No início da década de 1970 o prédio estava arruinado, com infestação generalizada de cupins, infiltrações e sérios problemas na rede elétrica, e em abril de 1973 foi interditado por falta de condições de funcionamento e risco à segurança das pessoas, sendo mesmo cogitada sua demolição. Antonio Hohlfeldt, que dirigia o museu nesta época, disse que a situação era precaríssima, "o medo de que o prédio incendiasse era a preocupação de todos os dias", e "com todo o cupim que tinha, o madeirame velho, a fiação era um risco constante, e a gente morria de medo que, durante a noite, acontecesse um curto-circuito e se queimasse tudo".Hohlfeldt, Antônio. "Do amadorismo à profissionalização". In: MARGS. MARGS 50 Anos: Lembranças e envolvimento profissional: Anos 70, 2004
Restauração e reinauguração thumb|esquerda|Plateia e palco thumb|esquerda|Vista dos camarotes.
As obras de restauração iniciaram em 1975 sob a direção técnica do arquiteto Carlos Mancuso. A direção administrativa coube a Eva Sopher, que na época dirigia o Instituto Proarte. Prevista para demorar dois anos, a restauração se arrastaria até 1984. Devido ao grau avançado de deterioração do prédio, a restauração foi radical, e praticamente só o esqueleto do edifício foi mantido. Alguns elementos da decoração original puderam ser preservados, como os gradis de ferro das galerias, mas a maioria dos outros foi reconstruída, buscando uma aproximação com o estilo do século XIX, como o lustre de cristal, os assentos, os entalhes e a pintura do forro,Prikladnicki, Fábio. "Como o Theatro São Pedro sobreviveu a 160 anos de história no Rio Grande do Sul". Zero Hora, 22 de junho de 2018 executada por Léo Dexheimer, Plínio Bernhardt, Danúbio Gonçalves e Carlos Mancuso."Patrimônio: quatro mil pessoas já participaram do Caminhos da Matriz". Sul 21, 09/10/2011 Ao mesmo tempo, dentro da filosofia de "integração do passado com o presente", foi dotado de modernos equipamentos cênicos e funcionais.
Enquanto isso, em 1977 foi incluído pela Prefeitura no Inventário dos Bens Imóveis de Valor Histórico e Cultural e de Expressiva Tradição,"Lei nº 4317 de 16 de setembro de 1977". Prefeitura de Porto Alegre e em 1984 foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do Rio Grande do Sul.Theatro São Pedro. Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do Rio Grande do Sul