A Batalha de Cochim, também as vezes chamada de Segundo Cerco de Cochim, foi uma série de conflitos travados entre março e julho de 1504, com a ocorrência tanto de confrontos navais quanto terrestres, principalmente entre a guarnição portuguesa situada em Cochim, aliada ao próprio Reino de Cochim, e as forças invasoras do Samorim de Calicute com vassalos da costa do Malabar.João de Barros (1552–59) Décadas da Ásia: Dos feitos, que os Portuguezes fizeram no descubrimento, e conquista, dos mares, e terras do Oriente.. [Dec. I, Lib 7.]
Antecedentes Desde a fragmentação do Estado Chera, no século X, o governante da cidade-Estado de Calecute, conhecido como o Samorim, era geralmente reconhecido como suserano pela maioria dos pequenos Estados da Costa do Malabar, na Índia. Sob o governo do Samorim, Calecute desenvolveu-se como uma importante cidade comercial, tornando-se o principal entreposto do comércio de pimenta de Querala e o maior centro de distribuição de outras especiarias provenientes de regiões mais a leste (ver comércio das especiarias).
Na primeira viagem portuguesa à Índia, em 1498, Vasco da Gama dirigiu-se imediatamente a Calecute e procurou assegurar um tratado comercial com o Samorim. Pouco impressionado com Gama, o já idoso Samorim permitiu que os portugueses comprassem especiarias nos mercados de Calecute, mas recusou conceder-lhes quaisquer privilégios adicionais.
A expedição seguinte, comandada por Pedro Álvares Cabral (a 2.ª Armada da Índia, em 1500), chegou mais bem preparada. Entretanto, o antigo Samorim falecera, e Cabral negociou um tratado com o novo soberano, tendo sido estabelecida uma feitoria portuguesa em Calecute. Contudo, ao fim de apenas alguns meses, surgiram conflitos entre os agentes portugueses e os comerciantes árabes já estabelecidos na cidade, nos quais o Samorim se recusou a intervir. Em dezembro de 1500, rebentou um motim, a feitoria portuguesa foi tomada de assalto e numerosos portugueses foram massacrados. Considerando o Samorim responsável pelo sucedido, Cabral exigiu uma indemnização pelas perdas sofridas e a expulsão de todos os comerciantes árabes da cidade. Perante a recusa do Samorim, Cabral ordenou o bombardeamento de Calecute.
Assim teve início a guerra entre Portugal e Calecute. Os portugueses encontraram rapidamente aliados locais entre algumas das cidades-Estado da Costa do Malabar, que há muito ressentiam a supremacia de Calecute. Cochim, Cananor e Coulão abriram os seus portos e convidaram os portugueses a estabelecerem-se.
As armadas portuguesas que se seguiram passaram a bombardear regularmente Calecute, atacando os seus navios e desviando o tráfego comercial da cidade. O Samorim percebeu rapidamente que não valia a pena enfrentar a frota portuguesa no mar — a superioridade tecnológica dos portugueses em navios e artilharia era demasiado grande. Em terra, porém, a diferença não era tão acentuada. Afinal, a presença portuguesa na Índia resumia-se a um pequeno número de agentes comerciais.
Os portugueses tinham vindo em busca de especiarias. O Samorim concluiu que, se conseguisse exercer a sua autoridade tradicional sobre os Estados do Malabar e impedir o acesso dos portugueses às especiarias, estes acabariam por abandonar a região ou seriam forçados a negociar condições mais razoáveis e a aceitar uma paz vantajosa. Para isso, teria de obrigar os reinos seus rivais de Cochim, Cananor e Coulão a encerrarem os seus mercados ao comércio português.
Em teoria, o plano do Samorim era sólido. Os portugueses tinham antagonizado parte da população da Costa do Malabar. As suas frotas deixavam um rasto de violência, faziam exigências desproporcionadas aos governantes locais e perturbavam o comércio e a vida quotidiana ao longo de toda a costa. Não deveria ser difícil convencer as cidades do Malabar a aderirem, pelo menos temporariamente, a um boicote geral ao comércio português. Contudo, Cochim recusou as exigências consideradas desrazoáveis do Samorim.
Primeiro Cerco de Cochim (1503) A cidade de Cochim era um centro comercial em crescimento, situado na margem da lagoa de Vembanad. O príncipe hindu que a governava, Unni Goda Varma, o Trimumpara Raja de Cochim, não tinha uma posição política sólida. Formalmente, era um príncipe de categoria inferior, subordinado aos membros mais velhos da família que governavam do outro lado da lagoa, em Edapalli, os suseranos oficiais da região. É, aliás, bastante provável que o Trimumpara estivesse envolvido numa disputa familiar e que tivesse procurado originalmente a aliança com os portugueses para reforçar a sua posição perante os seus próprios parentes.
O sentimento da população de Cochim era, em grande medida, desfavorável aos portugueses. A cidade não era autossuficiente em alimentos, e os seus habitantes tinham sofrido bastante com a perturbação geral do comércio ao longo da Costa do Malabar. Além disso, Cochim possuía uma importante população muçulmana — tanto árabes expatriados como mappilas locais — e os portugueses nunca esconderam a sua hostilidade em relação a eles. No entanto, eram precisamente esses comerciantes que asseguravam, em grande parte, o abastecimento da cidade. A população de Cochim não compreendia, nem podia compreender, as vantagens da situação em que se encontrava.
Percebendo o crescente descontentamento, o Trimumpara Raja instalou o feitor português Diogo Fernandes Correia e os seus assistentes, Lourenço Moreno e Álvaro Vaz, no próprio palácio, garantindo ainda que fossem sempre acompanhados por guardas fiéis quando circulavam pelos mercados da cidade. Entretanto, a influência do Samorim sobre o interior de Querala reduziu drasticamente o fornecimento de pimenta a Cochim. Os feitores portugueses ficaram desapontados com a escassez de especiarias disponíveis nos mercados locais, e o Trimumpara Raja tinha plena consciência de que o interesse português começava a voltar-se para outras cidades mais promissoras, nomeadamente Coulão. Se os portugueses abandonassem Cochim, todos os seus esforços teriam sido em vão.
Os conselheiros do Trimumpara opunham-se à aliança com os portugueses e insistiam para que este procurasse uma reconciliação com o Samorim. Advertiam-no de que a fidelidade contínua dos naires de Cochim não poderia ser dada como garantida em caso de guerra. Apesar disso, o Trimumpara Raja recusou abandonar os portugueses.
Em março de 1503, logo que a frota portuguesa (a 4.ª Armada da Índia) partiu de regresso a Lisboa, o Samorim decidiu obrigar o seu adversário a ceder pela intimidação. Os portugueses tinham deixado uma pequena esquadra de patrulha costeira para ajudar na defesa de Cochim. Contudo, o seu comandante, Vicente Sodré, desvalorizou os rumores sobre os preparativos militares do Samorim e decidiu conduzir a patrulha para o Mar Vermelho, a fim de atacar o tráfego mercante. Só regressaria no final do verão.
Em abril, o Samorim avançou sobre Cochim à frente de um grande exército de Calecute, com cerca de 50 000 homens. Pelo caminho juntaram-se-lhe vários senhores do Malabar seus aliados, entre os quais os governantes de Edapalli. O filho do Trimumpara, Narayan, apressou-se a interceptar o avanço inimigo com uma força de cerca de 5 500 soldados de Cochim, tentando impedir a travessia do exército de Calecute num vau próximo de Edapalli. Narayan repeliu corajosamente dois ataques, mas, por fim, os agentes do Samorim conseguiram, através de subornos e intrigas, convencer muitos dos naires de Cochim a abandonar a linha da frente. No ataque seguinte, Narayan foi derrotado e morreu em combate juntamente com os homens que lhe permaneceram fiéis.
A heroica resistência de Narayan deu tempo suficiente ao seu pai e aos seus hóspedes portugueses para fugirem de Cochim, atravessando as águas até à ilha de Vypin , acompanhados apenas por um pequeno grupo de guardas leais. O Samorim ocupou a cidade de Cochim e exigiu que o Trimumpara lhe entregasse os agentes portugueses, mas o rei recusou. As defesas naturais da ilha de Vypin e o agravamento das condições meteorológicas impediram um ataque imediato. Frustrado, o Samorim limitou-se a incendiar a cidade de Cochim e jurou regressar quando o tempo melhorasse.
Antes de destruir Cochim, o Samorim de Calecute retirou uma antiga pedra sagrada, sobre a qual os antigos reis Chera do Malabar eram tradicionalmente entronizados como «Senhores do Mar» e suseranos de todos os Estados do Malabar. Essa pedra encontrava-se originalmente na antiga capital de Cranganor, tendo sido posteriormente transferida para Cochim. O Samorim ordenou então que fosse novamente deslocada, desta vez para Edapalli.
O principal exército de Calecute regressou nesse mesmo mês de agosto e, uma vez mais, o Trimumpara Raja e os agentes portugueses encontravam-se refugiados em Vypin. O Samorim e os seus aliados do Malabar preparavam embarcações de assalto para atacar a ilha quando avistaram seis navios portugueses fortemente armados, comandados por Afonso de Albuquerque — a vanguarda da 5.ª Armada da Índia — a navegar rapidamente em direção a Cochim. Perante esta demonstração de força, os exércitos aliados do Malabar começaram imediatamente a dispersar-se. O Samorim, contrariado, viu-se obrigado a levantar o cerco e regressou a Calecute.https://en.wikipedia.org/wiki/Battle_of_Cochin
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