Português europeu, português de Portugal, português lusitano,A expressão "português lusitano" é usada sobretudo por autores brasileiros. Em Portugal, nomeadamente no seio da comunidade de linguistas e filólogos, a expressão consagrada e geralmente usada é "português original". ou português continental é a designação dada ao original linguístico da língua portuguesa falada em Portugal e pelos emigrantes portugueses espalhados pelo mundo, englobando os seus dialectos regionais, vocabulário, gramática e ortografia.
thumb|250px|Português europeu De acordo com a legislação da União Europeia, o português é uma das línguas oficiais da União (sendo língua de trabalho do Parlamento Europeu, mas não da Comissão Europeia), pelo que em textos internacionais da União, bem como nos respectivos sítios oficiais, é usada a norma europeia.Língua oficial da UE Também é ensinado na Espanha, sobretudo na comunidade autónoma da EstremaduraEspanha: Extremadura lança campanha para fomentar aprendizagem da língua portuguesa, in Público além na Andaluzia,Memorando de entendimento entre Portugal e a Junta de Andaluzia para o ensino do Português – 15/10/2020, App.pt na Galiza (onde há uma corrente reintegracionista e foi aprovada a Lei Valentín Paz-Andrade), e em todo o mundo através do Instituto Camões. Na ausência de normas-padrão próprias, os outros países lusófonos (com excepção do Brasil) seguem as convenções da norma portuguesa de Portugal existindo assim cerca de 65 milhões de habitantes (de acordo com os últimos censos) em regiões que adoptam o português de Portugal.
A norma do português é, segundo alguns autores, constituída pelo "conjunto dos usos linguísticos das classes cultas da região Lisboa–Coimbra".CUNHA, Celso e CINTRA, Luís Filipe Lindley (1984). Nova Gramática do Português Contemporâneo. Lisboa: Edições João Sá da Costa, p. 10 Outros autores consideram o português-padrão (original) como a variedade centro-meridional usada em Lisboa por falantes cultos. De facto, a "região Lisboa-Coimbra" nunca existiu (em termos geográficos, demográficos, sociológicos, linguísticos ou outros) e a atribuição de estatuto especial a Coimbra na difusão do padrão europeu (defendido, entre outros, por Manuel de Paiva Boléo) resulta simplesmente da presença da Universidade. Já em finais do , o linguista e grande pioneiro da fonética Aniceto dos Reis Gonçalves Viana, apesar de reconhecer a existência do que designou um "padrão médio" que existiria no "centro do reino, entre Coimbra e Lisboa", acabou por descrever a "pronúncia normal" (ou seja, referencial ou ortofónica) do português original a partir do uso de Lisboa.VIANNA, Aniceto dos Reis Gonçalves (1892): Exposição da pronuncia normal portuguesa para uso de nacionais e estrangeiros, Lisboa, Imprensa Nacional (Memória apresentada na 10ª Sessão do Congresso Internacional dos Orientalistas), reimpresso in Estudos de fonética portuguesa, Lisboa : Imprensa Nacional /Casa da Moeda, 1973, pp. 153 - 257; disponível online na Biblioteca Nacional Digital.
Fonologia Fonética Fonética do Português Europeu: cer
Dialectos Todas as línguas naturais mudam e apresentam variação interna de acordo com a localização geográfica ou o estatuto social dos seus falantes. As fronteiras dialectais que os dialectólogos explicitam, chamadas "isoglossas", são a interpretação cartográfica dos dados linguísticos recolhidos por observação ou por inquérito linguístico. A diversidade dialectal do português europeu tem sido caracterizada pelos seus principais estudiosos (José Leite de Vasconcellos, Manuel de Paiva Boléo e Luís Filipe Lindley Cintra) a partir, sobretudo, de características fonéticas diferenciadoras, ou seja, com base no estabelecimento de ‘isófonas’. Em termos fonético-fonológicos, existem, no território nacional português diversas variedades diatópicas distintas, algumas das quais possuem características muito específicas, que dificultam a compreensão mútua.Dialectos - Instituto Camões Actualmente, considera-se que, no território português continental, há duas grandes subdivisões dialectais: os dialectos setentrionais e os dialectos centro-meridionais. Quanto aos dialectos insulares, originalmente descendentes de variedades centro-meridionais do continente, verifica-se que apresentam particularidades fonético-fonológicas muito marcadas. Os dialectos insulares têm sido objecto de investigação dialectológica aprofundada nas últimas décadas.
Dialectos de Portugal Grupos de dialectos: thumb|Dialectos de Portugal. Dialectos portugueses setentrionais Dialectos transmontanos (10.) e alto-minhotos (4.). Ouvir registo sonoro recolhido em Castro Laboreiro (Minho). Dialectos baixo-minhotos-durienses-beirões. Ouvir registo sonoro recolhido em Granjal (Viseu). (9. e 6.) Dialecto do Baixo Minho e Douro Litoral. Inclui o Porto. Ouvir registo sonoro recolhido em Vila Praia de Âncora (Viana do Castelo). (tem características fonéticas distintas em relação aos outros dialectos setentrionais) Dialectos portugueses centro-meridionais Dialectos do centro litoral. Inclui Coimbra, Leiria e Lisboa. Ouvir registo sonoro recolhido em Moita do Martinho (Leiria). (7.) (base do português-padrão europeu) Dialectos do centro interior (5.) e meridionais (2. e 3.). Ouvir registo sonoro recolhido em Serpa (Beja, Alentejo). Dialectos do centro interior-barlavento algarvio (têm características fonéticas, sobretudo nas vogais, claramente diferentes da dos outros dialectos portugueses) Dialecto da Beira Baixa (Distrito de Castelo Branco) e norte do Distrito de Portalegre (extremo norte do Alto Alentejo). Ouvir registo sonoro recolhido em Castelo de Vide (Portalegre, Alentejo). Dialecto do Barlavento do Algarve. Ouvir registo sonoro recolhido em Porches (Algarve). Dialectos meridionais Dialectos das ilhas atlânticas Dialectos portugueses insulares madeirenses. Ouvir registo sonoro recolhido em Câmara de Lobos. (8.) (têm características fonéticas, sobretudo nas vogais, claramente diferentes da dos outros dialectos portugueses) Dialectos portugueses insulares açorianos. Ouvir registo sonoro recolhido em Ponta Garça (São Miguel). (1.) (têm características fonéticas, sobretudo nas vogais, claramente diferentes da dos outros dialectos portugueses)
Regiões subdialectais com características peculiares bem diferenciadas (também podem ser considerados grupos de dialectos distintos, embora incluídos em grupos de dialectos maiores) Dialectos portugueses setentrionais Região subdialectal do Baixo Minho e Douro Litoral. Inclui o Porto. Ouvir registo sonoro recolhido em Vila Praia de Âncora (Viana do Castelo). Dialectos portugueses centro-meridionais Região subdialectal da Beira Baixa (Distrito de Castelo Branco) e norte do Distrito de Portalegre (extremo norte do Alto Alentejo): zona centro interior. Ouvir registo sonoro recolhido em Castelo de Vide (Portalegre, Alentejo). Região subdialectal do Barlavento do Algarve: zona extremo sudoeste. Ouvir registo sonoro recolhido em Porches (Algarve).
Um mapa mais preciso da classificação Lindley Cintra pode ser encontrado no site do Instituto Camões.
Área geográfica O português europeu é falado pelos quase 11 milhões de habitantes de Portugal e pelos emigrantes portugueses espalhados pelo mundo, juntamente com os seus descendentes. A emigração maciça, que se verificou ao longo de todo o , levou a que o português europeu fosse falado noutras partes do mundo, sobretudo na Europa: Suíça, Alemanha, França, Luxemburgo, Reino Unido, na América do Norte: Estados Unidos e Canadá, mas também na África do Sul, Venezuela, Argentina, Austrália e no Brasil, onde se encontram também grandes comunidades portuguesas.
Ortografia Terminado o período de transição de seis anos, a escrita oficial do português europeu rege-se pelas normas do Acordo Ortográfico de 1990 desde 13 de maio de 2015.
Ao longo do século XX, foram diversos os instrumentos jurídicos que regeram a ortografia portuguesa oficial. Em 1911, uma reforma ortográfica"Bases da Reforma de 1911", excerto do relatório publicado no Diário do Governo n.º 213 de 12 de setembro de 1911, in A demanda da ortografia portuguesa, de Ivo de Castro, Inês Duarte e Isabel Leiria, ed. Sá da Costa, 1987, pp. 152-162. alterou profundamente a escrita do português, fazendo desaparecer as consoantes geminadas, os grupos ph, th, rh, o uso do y e do k, para além de pôr em prática muitas outras simplificações. Em 1931, foi assinado um primeiro acordo ortográfico com o Brasil.Assinado pela Academia das Ciências de Lisboa e pela Academia Brasileira de Letras em 30 de abril de 1931 e aprovada em Portugal pela portaria n.º 7.117 de 27 de maio do mesmo ano. Seguiu-se-lhe o Acordo Ortográfico de 1945Acordo ortográfico de 1945 aprovado pelo decreto n.º 35 228, de 8 de dezembro de 1945 que acabou por ser apenas aplicado em Portugal, ao qual foram aduzidas pequenas alterações em 1973.Decreto-lei n.º 32/73 de 6 de fevereiro Apesar de já não ser ensinada nas escolas, não ser utilizada pelos organismos do Estado, nem pela larga maioria dos órgãos de comunicação social, esta ortografia ainda é amplamente usada pela população portuguesa. A implementação do Acordo Ortográfico de 1990 veio pôr cobro a grande parte das diferenças existentes na escrita de muitas palavras entre o Brasil e Portugal. Por exemplo, as consoantes mudas que eram mantidas na grafia portuguesa em palavras como acto, eléctrico, adopção, Egipto e muitas outras, por motivos etimológicos ou por exercerem influência no timbre da vogal anterior.Bases Analíticas do Acordo Ortográfico de 1945, Base VI Persistem, no entanto, algumas divergências ortográficas entre Portugal e o Brasil que resultam das diferenças de pronúncia entre os dois países – fato, anistia, econômico, aspecto e recepção, no Brasil; facto, amnistia, económico, aspeto e receção, em Portugal - ou da tradição lexicográfica de cada país – húmido, missanga e beringela, em Portugal; úmido, miçanga e berinjela, no Brasil.
Gramática
thumb|direita|250px|Mapa cronológico mostrando o desenvolvimento do português
Regras de acentuação gráfica Em ambas as versões do português, as palavras agudas ou oxítonas que terminam em -a, -e, -o, -ei, -oi, e -eu levam acento agudo: sofá, pé, ré, herói, céu, pastéis etc. Já no português europeu, as palavras graves ou paroxítonas de vogal aberta, ao contrário do português do Brasil, levam também o acento agudo, como em "bónus". Por fim, as esdrúxulas ou proparoxítonas levam também acento agudo nas vogais abertas, como em "higiénico", "económico" e "fenómeno", que, no Brasil, se escrevem "higiênico", "econômico" e "fenômeno". Acentuação no Português Europeu
Conjugação No português europeu, é muito frequente o uso do infinitivo gerundivo. Até há algum tempo, a sul do rio Tejo, usava-se mais o gerúndio, mas, com os meios de comunicação, o infinitivo tornou-se mais geral em todo o país durante a primeira metade do . "Estou a fazer um trabalho." A forma "a + infinitivo" também é predominante no galego, no mirandês e é comum nas línguas galego-asturianas. Também se encontra no dialeto espanhol do noroeste peninsular/Galiza (por influência direta da língua galega), mas o castelhano-padrão usa exclusivamente o gerúndio. A forma com infinitivo trata-se de uma conjugação quase tão antiga como a do gerúndio, apesar de a sua aparição no português ser tardia, isto no segundo a linguista Ana Carvalho. Português em contacto, pág. 21 Já se encontrava em textos galegos da era medieval, por exemplo: "Junto con ágoa do ryo Minõ, onde anda a barqua a pasar..." ("Junto com água do rio Minho, onde anda a barca a passar...") Ver "A vida e a fala dos devanceiros" Volume 1.A vida e a fala dos devanceiros pág. 672 A forma original com gerúndio ainda é muito usada hoje em Portugal, sobretudo no Baixo Alentejo, Algarve, Açores e Madeira: "Estou fazendo um trabalho."