Em 8 de outubro de 2022 (sábado), às 06:07 horário da Ucrânia (03:07 UTC), a ponte da Crimeia foi abalada como resultado de uma explosão, sobre ou sob as faixas de veículos no sentido oeste que vão da Rússia para Querche na Crimeia ocupada. Dois vãos veiculares de duas pistas da ponte desabaram na água. Duas pistas adjacentes no sentido leste na estrutura independente sobreviveram. A ponte ferroviária também foi significativamente danificada por um incêndio em vagões-tanque ferroviários. Quatro pessoas foram mortas e o Comitê Investigativo da Rússia iniciou uma apuração, mas indícios surgiram apontando a Ucrânia como a responsável pelo atentado.
O dano reduziu a capacidade de transporte da ponte, que estava sendo usada como rota de suprimentos para abastecer as tropas russas na Crimeia ocupada durante a invasão da Ucrânia de 2022. A explosão ocorreu um dia após o aniversário de 70 anos do presidente russo Vladimir Putin e uma semana após o anúncio da anexação de quatro regiões ucranianas pelo governo russo. Ninguém reivindicou a autoria da explosão. Volodymyr Zelensky disse que o governo ucraniano "não ordenou" o atentado.
Autoridades russas e um "alto funcionário ucraniano" conversando com The New York Times afirmaram que a explosão foi causada por um caminhão abarrotado de explosivos. A BBC, no entanto, alegou que foi mais provavelmente causado por uma embarcação autônoma. O Serviço Federal de Segurança russo deteve cinco cidadãos russos e três pessoas da Ucrânia e da Armênia acusados de conduzir a explosão. Moscou acusou os serviços de inteligência ucranianos pelo ataque. Em julho de 2023, a Ucrânia assumiu pela primeira vez a responsabilidade pelo ocorrido.
Contexto
A Ponte da Crimeia é um conjunto de duas pontes paralelas — uma rodoviária de quatro faixas e outra ferroviária de via dupla — que atravessam o Estreito de Kerch, conectando a Rússia, a leste, à Crimeia, na Ucrânia, a oeste. A construção da ponte começou em fevereiro de 2016, após a ocupação e anexação da península da Crimeia pela Rússia em 2014. As autoridades russas classificaram a obra como uma "missão histórica" e uma das etapas fundamentais para a "unificação definitiva da Crimeia com a Rússia". Em maio de 2018, a ponte rodoviária foi aberta ao tráfego e, em dezembro de 2019, a ponte ferroviária tornou-se operacional.
Durante a Invasão da Ucrânia pela Rússia (2022–presente), ambas as pontes foram utilizadas para abastecer as Forças Armadas da Rússia na Ofensiva do sul da Ucrânia. Embora existam outros métodos de suprimento de recursos para a Crimeia, incluindo portos, a Ponte da Crimeia constitui uma peça vital da infraestrutura.
Autoridades e militares ucranianos declararam reiteradamente a intenção de destruir a Ponte da Crimeia, considerando-a um alvo militar legítimo. Em junho de 2022, o general-de-brigada das Forças Armadas da Ucrânia Dmytro Marchenko afirmou que a estrutura se tornaria o "alvo número um" assim que a Ucrânia obtivesse armas para atacá-la. Em abril de 2022, Dmitry Medvedev, ex-presidente e vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia, declarou: "Um dos generais ucranianos falou sobre a necessidade de atingir a Ponte da Crimeia. Espero que ele entenda qual será o alvo de retaliação." Em agosto de 2022, Mykhailo Podolyak, conselheiro presidencial ucraniano, afirmou ao The Guardian: "É uma construção ilegal e a principal porta de entrada para abastecer o exército russo na Crimeia. Tais objetos devem ser destruídos."
Explosão
Em 8 de outubro de 2022, às 6h07 no horário local, ocorreu uma explosão nas faixas da ponte rodoviária no sentido da cidade de Kerch, na Crimeia. O impacto deu-se a meio caminho entre o arco principal sobre o Canal de Kerch–Yenikale e a Ilha de Tuzla. O evento fez com que três dos quatro vãos de um dos lados da pista rodoviária desabassem na água. O serviço de imprensa da Ferrovia da Crimeia informou que às 6h05 foi detectada uma falha na linha e que um vagão-tanque de combustível pegou fogo na cauda de um trem de carga. O vento do norte soprou chamas e fumaça em direção ao Mar Negro. O tráfego rodoviário, ferroviário e marítimo foi totalmente paralisado, gerando longas filas terrestres e marítimas. A explosão não foi classificada de imediato como ato de sabotagem pelas autoridades russas. Mais tarde no mesmo dia, a pista rodoviária foi reaberta em meia pista para veículos leves (com tráfego alternado) e o trânsito ferroviário foi parcialmente restabelecido.
Inicialmente, foram levantadas duas hipóteses principais: a explosão de um vagão-tanque na ponte ferroviária ou a detonação de um veículo na pista rodoviária. Segundo o Comitê Nacional Antiterrorismo da Rússia, um caminhão explodiu, provocando o incêndio em sete tanques de combustível do trem. Nenhum grupo assumiu a autoria de imediato, mas os veículos ucranianos Ukrainska Pravda e UNIAN, citando fontes próprias, relataram que se tratou de uma operação do Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU). O The New York Times citou uma "alta autoridade ucraniana" afirmando que "os serviços de inteligência da Ucrânia orquestraram o ataque usando uma bomba carregada em um caminhão". A Rússia alegou que um dispositivo explosivo improvisado foi detonado a bordo do caminhão em movimento. Especialistas observaram que a presença de fagulhas intensas poderia indicar o uso de termita, substância que atinge temperaturas suficientes para danificar o aço da estrutura e inflamar os combustíveis no trem.
Impactos imediatos Cinco pessoas morreram: o motorista do caminhão e quatro ocupantes de um automóvel próximo.
Sete vagões-tanque de um trem composto por 59 vagões com destino à Crimeia pegaram fogo. Com o fechamento da ponte, o fluxo de saída da península diminuiu, formando filas de veículos de até 5 km, embora rotas marítimas permanecessem ativas. Mais de 100 caminhões aguardaram em filas para embarcar em balsas de capacidade reduzida. A navegação comercial no estreito também sofreu paralisações temporárias.
O prefeito ocupante de Sebastopol, Mikhail Razvozhayev, decretou restrições à venda de alimentos e combustíveis, cancelando as medidas cerca de uma hora depois ao declarar que os estoques da península eram suficientes.
Danos estruturais às pontes Três vãos da pista rodoviária no sentido Kerch foram danificados, com dois deles caindo na água. Imagens de satélite indicaram descoloração nas vigas da ponte ferroviária causada pelo intenso calor do incêndio de combustível. Engenheiros avaliaram que as vigas metálicas de sustentação sofreram enfraquecimento térmico. Como a ferrovia possui via dupla, o tráfego foi retomado no trilho não afetado poucas horas após o incidente. O Ministério dos Transportes da Rússia informou no dia seguinte que os trens de carga e passageiros voltaram a operar conforme o cronograma.
O governo russo ordenou que os reparos estruturais fossem concluídos até 1 de julho de 2023, contratando a construtora moscovita Nizhneangarsktransstroy. Em 9 de novembro de 2022, o Ministério da Defesa do Reino Unido divulgou relatório de inteligência apontando que a restauração total dificilmente se completaria antes de setembro de 2023. A pista rodoviária passou por interdições temporárias em novembro para a instalação de novos vãos metálicos de 64 m.
Reações Rússia Autoridades russas na Crimeia atribuíram a responsabilidade pelo ataque à Ucrânia. Porta-vozes do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia acusaram o "regime de Kiev" de terrorismo, enquanto parlamentares da Duma Estatal defenderam retaliações severas. Sergey Aksyonov, o governador russo da Crimeia, declarou que "a situação é controlável — desagradável, mas não fatal".
Em 9 de outubro, o presidente Vladimir Putin declarou: "Não há dúvida. Este é um ato de terrorismo destinado a destruir infraestruturas civis de importância crítica [...]. Isso foi idealizado, executado e encomendado pelos serviços especiais ucranianos." Apresentadores da mídia estatal russa defenderam ataques massivos de retaliação contra a infraestrutura de energia e transporte em toda a Ucrânia.
Ucrânia thumb|upright=0.75|Selo postal ucraniano emitido em outubro de 2022 ("Ponte da Crimeia novamente!")
A conta oficial do governo ucraniano no Twitter publicou mensagens irônicas sobre o incêndio, enquanto Mykhailo Podolyak afirmou que o ataque era apenas o começo: "Crimeia, uma ponte, o começo. Tudo o que é ilegal deve ser destruído, tudo o que foi roubado deve ser devolvido à Ucrânia [...]." O Ministério da Defesa da Ucrânia comparou o evento ao afundamento do cruzador Moskva, publicando: "O cruzador de mísseis guiados Moskva e a Ponte de Kerch — dois símbolos notórios do poder russo na Crimeia ucraniana — caíram. Qual é o próximo da fila, russos?".
O diretor dos correios ucranianos (Ukrposhta) anunciou o lançamento de uma série comemorativa de selos postais dedicada ao evento. O chefe do Conselho de Segurança Nacional e Defesa da Ucrânia, Oleksiy Danilov, publicou um vídeo da ponte danificada ao lado da gravação de Marilyn Monroe cantando "Happy Birthday, Mr. President", em referência ao aniversário de 70 anos de Vladimir Putin, comemorado no dia anterior.
O presidente Volodymyr Zelenskyy comentou em seu discurso noturno: "Hoje foi um dia razoável e ensolarado no território do nosso Estado. Infelizmente, esteve nublado na Crimeia. Embora também estivesse quente."
Internacional O ministro dos Negócios Estrangeiros da Estônia, Urmas Reinsalu, saudou a explosão, lembrando que as autoridades ucranianas há muito consideravam a ponte um alvo legítimo.
O eurodeputado polonês Robert Biedroń declarou que o ataque funcionou como um "bálsamo para o coração", observando que a infraestrutura ilegal russa construída na Crimeia ocupada estava sendo destruída.
Consequências thumb|Fila de caminhões perto do Estreito de Kerch aguardando travessia por balsa após a explosão, outubro de 2022
O Ministério dos Transportes da Rússia reativou o serviço de balsas no Estreito de Kerch para suprir a demanda de transporte de carga.
A ponte é um elo logístico crucial para as forças russas na frente sul da guerra. Analistas apontaram que os danos causaram gargalos temporários no transporte de suprimentos militares pesados.
A pista rodoviária da ponte foi totalmente reaberta para automóveis em 23 de fevereiro de 2023, após a substituição dos vãos destruídos. Em 5 de maio de 2023, o governo russo anunciou a reabertura total da ponte ferroviária.
Efeito nas forças russas A inteligência militar britânica observou que a capacidade de transporte pela ponte ficou seriamente degradada no curto prazo. O uso intensivo de balsas foi necessário devido à proibição temporária de veículos pesados na ponte rodoviária. A dependência russa do transporte ferroviário reduziu o impacto logístico geral no envio de blindados, mas o ataque teve forte impacto psicológico ao expor a vulnerabilidade da estrutura.
Efeito no governo russo A destruição parcial da ponte representou um golpe simbólico para o Kremlin, visto que a inauguração em 2018 fora promovida como uma das maiores realizações do governo de Putin. Putin afirmou expressamente que a onda de ataques com mísseis contra cidades ucranianas em outubro de 2022 foi realizada em retaliação direta pela explosão da ponte.
Em maio de 2023, o ex-professor de história Nikita Tushkanov foi condenado na Rússia a cinco anos e meio de prisão sob as leis de censura de guerra após classificar a explosão da ponte como "um presente de aniversário para Putler".
Investigação O Comitê de Investigação da Rússia abriu um processo criminal sobre o incidente. O Serviço Federal de Segurança (FSB) afirmou posteriormente que os explosivos (22 770 kg) foram transportados escondidos em paletes a partir do porto de Odessa, passando pela Bulgária, Armênia e Geórgia antes de entrar no território russo e ser carregados no caminhão.