O terceiro governo Lula, também denominado Governo Lula 3, é o período em curso da história política brasileira iniciado em 1.º de janeiro de 2023, durante o qual Luiz Inácio Lula da Silva exerce a Presidência da República em seu terceiro mandato. Lula, do Partido dos Trabalhadores (PT), foi eleito no segundo turno das eleições presidenciais de 2022, derrotando o então presidente Jair Bolsonaro, tornando-se o primeiro presidente brasileiro eleito para exercer três mandatos e o primeiro desde Getúlio Vargas a retornar ao cargo após um intervalo entre mandatos. Iniciado sob o lema "União e reconstrução", o governo assumiu em meio à polarização política e aos desdobramentos da tentativa de golpe de Estado de 2022–2023, tendo os ataques de 8 de janeiro de 2023 como uma de suas primeiras e principais crises políticas.
Na área econômica e social, o governo retomou ou reformulou políticas e empresas públicas como Bolsa Família e Minha Casa, Minha Vida, o Mais Médicos, o Brasil Sorridente e a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), além de criar iniciativas como o Pé-de-Meia, programa de incentivo financeiro destinado a estudantes do ensino médio público de baixa renda, e a Nova Indústria Brasil. Suas políticas também foram responsáveis pela saída do Brasil do Mapa da Fome da ONU. O período também foi marcado por debates sobre a regulamentação das redes sociais, o combate à desinformação e os crimes digitais; instituiu normas para a proteção de crianças e adolescentes na internet, conhecidas como ECA Digital, incluindo iniciativas conduzidas pela Secretaria de Políticas Digitais da Secretaria de Comunicação Social (Secom). A administração também estabeleceu o Concurso Público Nacional Unificado (CPNU), popularmente conhecido como "Enem dos Concursos", destinado à seleção de servidores para órgãos da administração pública federal.
Também foi marcado pela aprovação da reforma tributária sobre o consumo, pela implementação do novo arcabouço fiscal, em substituição ao teto de gastos, pela aprovação da isenção do pagamento do Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) em até 5 mil reais e a valorização real do salário mínimo acima da inflação, ao passo que o governo passou a defender a PEC do fim da escala 6x1. Houve também aumento nos investimentos em defesa militar. A gestão registrou períodos de crescimento econômico e redução do desemprego a níveis históricos, posicionando-se entre as dez maiores economias do planeta. Ao mesmo tempo, enfrentou eventos climáticos de grande impacto, como os incêndios florestais em 2024 e o El Niño, tensões internacionais, tais quais a Crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos, que desencandou em tarifaços contra produtos brasileiros em 2025 e 2026 e ataque ao Pix, e os efeitos econômicos global da Guerra do Irã, em especial no preço dos alimentos e combustíveis, levando a desoneração dos impostos federais sobre os setores supracitados. Na política externa, o governo buscou ampliar a atuação internacional do Brasil, com a assinatura do Acordo Mercosul-União Europeia, além de retomar a participação ativa em fóruns multilaterais e reforçar políticas ambientais e de combate ao desmatamento. O país sediou a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (COP30), realizada em Belém.
Inicialmente composto por 37 ministérios, o governo promoveu alterações em sua estrutura administrativa e em sua composição ministerial ao longo do mandato; atualmente possui 38 ministérios. Em 31 de agosto de 2025, o governo Lula passou a usar um novo logotipo com o slogan "Do lado do povo brasileiro", substituindo o lema "Governo Federal Brasil" por "Governo do Brasil". Na avaliação do governo, a marca anterior, "União e Reconstrução", já teria cumprido seu papel. A nova identidade busca destacar soberania, justiça social e cuidado com a população. A mudança ocorreu em meio a ataques do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao Brasil e ao governo.thumb|Logotipo do governo entre 1.º de janeiro de 2023 e 31 de agosto de 2025.|200px
Antecedentes
Em entrevista à revista francesa Paris Match em 20 de maio de 2021, Lula confirmou sua pré-candidatura na eleição presidencial no ano seguinte. Buscando formar uma frente ampla com apoio de figuras civis e políticas de outros espectros, o Partido dos Trabalhadores (PT) convidou Geraldo Alckmin, antes adversário político de Lula, para ser seu candidato a vice-presidente em uma coligação integrada pelo PSB, PCdoB, PV, PSOL, REDE, Solidariedade, Avante e Agir.
Lula terminou o primeiro turno na primeira colocação com 48,43% dos votos válidos, contra 43,20% de Jair Bolsonaro, com quem disputou o segundo turno, tendo o vencido por 50,90% a 49,10% do eleitorado, o resultado mais acirrado de uma eleição presidencial no Brasil. Empossado presidente em 1.º de janeiro de 2023, Lula foi o primeiro mandatário eleito para três mandatos e o primeiro desde Getúlio Vargas a exercer mais de um mandato não consecutivo, sendo também, aos 77 anos, o mais idoso a assumir o cargo.
Eleições de 2022
Em seu discurso após a vitória nas urnas, Lula adotou um tom moderado, falando que pretende "pacificar o país", mas de forma indireta chamou seu adversário político, Jair Bolsonaro, de autoritário e fascista, ao dizer que derrotou o autoritarismo e o fascismo, como já vinha se referindo antes da vitória nas eleições devido a Bolsonaro ter frequentemente flertado com esse regime, e posteriormente, antes da sua posse, afirmou: "vamos ter que derrotar o bolsonarismo nas ruas", em uma campanha marcada pela polarização e pelo maniqueísmo, no qual a campanha de Lula tentou caracterizá-lo como a única alternativa no segundo turno para quem acreditava na democracia, enquanto que Bolsonaro buscou associar Lula ao comunismo e aos regimes antidemocráticos de esquerda como os da Venezuela, Cuba e Nicarágua. O novo governo enfrentará um Congresso bastante conservador, com muitos ministros de Bolsonaro e figuras próximas ao bolsonarismo ocupando cadeiras no parlamento.
Período de transição Em 1.º de novembro de 2022, o vice-presidente eleito Geraldo Alckmin foi definido como coordenador da equipe de transição do governo. No dia 3, Alckmin e o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, reuniram-se para iniciar a transição do governo. O vice-presidente eleito também se encontrou com lideranças políticas com vistas a alterar o orçamento federal ainda em 2022, de modo a viabilizar objetivos do futuro governo.
Sua equipe de transição, composta por 913 integrantes, foi considerada a mais numerosa da história do Brasil. No entanto, a composição consistia, majoritariamente, de voluntários, com apenas 22 integrantes sendo remunerados, mesmo com a legislação permitindo até 50 vagas com salários. Dos cargos com remuneração, os salários variam em níveis de 2.701,46 a 17.327,65 reais, estes gastos somaram 242.645,32 reais para cada mês da transição. A equipe de transição, assim, reservou 1,6 milhão de reais, sendo este é o menor orçamento disponível para uma transição de governo em termos reais desde 2006, considerando a inflação, ano que passou a incluir reserva para gastos com a transição, mesmo em casos de reeleição, enquanto o da transição de Bolsonaro havia gastado todos os 2,9 milhões de reais que tinha disponíveis, o mais alto desde o supracitado ano. Em 20 de novembro de 2022, quando a equipe ainda possuía cerca de 300 integrantes, ela foi marcada por um caráter diverso, sendo politicamente ampla e buscou ser representativa do povo brasileiro. À época, era composta por, 64% de homens brancos, com 17 partidos na equipe de transição, entre eles o PP até então aliado do ex-presidente Bolsonaro no congresso, sendo 1/3 pertencente ao Partido dos Trabalhadores, a maioria até então paulistas, e de variados grupos étnicos. O Sudeste era predominante com 48% dos membros, seguido do Nordeste com 19% dos membros, sendo que brancos representavam 75%, enquanto os negros (pardos e pretos, inclusive autodeclarados) somavam 18%. Havia, ainda, 11 indígenas (3,8% do total) e quatro integrantes de origem asiática.
miniatura|Logotipo do governo de transição Uma das primeiras medidas anunciadas pela equipe de transição foi a busca de recursos para garantir que fossem cumpridas as promessas de Lula na campanha eleitoral, como a manutenção do Auxílio Brasil (que voltaria a se chamar Bolsa Família) no valor de 600 reais por família, que custaria 52 bilhões de reais, com acréscimo de 150 reais para cada criança de até 6 anos de idade, que custaria 18 bilhões de reais, o reajuste do salário mínimo acima da inflação e a correção das tabelas do imposto de renda e do SUS, dentre outras medidas, que não cabem no orçamento de 2023, já definido por Bolsonaro. As soluções possíveis encontradas pela equipe de Lula foram a aprovação de uma Proposta de Emenda à Constituição autorizando que o teto de gastos seja ultrapassado, de forma excepcional, inicialmente, em cerca de 200 bilhões por quatro anos, ou a abertura de crédito extraordinário ao orçamento, com prévio aval do Tribunal de Contas da União, para evitar questionamentos sobre a constitucionalidade da medida. esquerda|miniaturadaimagem|245x245px|Vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin discursa na abertura dos trabalhos do Governo de Transição, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em Brasília A equipe de transição decidiu, afinal, que a autorização para ultrapassar as restrições ao crescimento das despesas imposta pelo teto de gastos deveria ser obtida mediante aprovação de uma emenda constitucional (PEC da Transição), chamada também de "PEC do Estouro". A medida, que não veio acompanhada de contrapartidas para corte de despesas em outras áreas do orçamento federal nem de aumento da arrecadação, não foi bem recebida no mercado financeiro, levando ao aumento dos juros futuros, à desvalorização do real e à queda do Ibovespa. De acordo com o ex-ministro Henrique Meirelles, criador do teto de gastos, que apoiou Lula na campanha eleitoral e que era cogitado para ocupar o cargo de Ministro da Economia, a política econômica de Lula irá pelo mesmo caminho do governo Dilma, período no qual ocorreu a maior recessão da história brasileira. E uma nota técnica da Consultoria de Orçamento da Câmara disse que a "PEC da Transição eleva dívida em 10 pontos até 2026". Entretanto, partidos do chamado centrão sinalizaram que a licença para ultrapassar o teto de gastos será mais modesta, apenas o suficiente para manter em 600 reais o auxílio brasil e para reajustar o salário mínimo acima da inflação, e somente para o ano de 2023, em um valor estimado em 58,4 bilhões de reais. Para os anos seguintes o governo teria de negociar com a nova composição do parlamento.
Outra medida colocada em prática pela equipe de Lula, liderado pela presidente do partido do então presidente eleito, Gleisi Hoffmann, foi a tentativa de barrar a nomeação de autoridades jurídicas e diplomáticas por parte do Bolsonaro. Segundo a assessoria de Lula, esses novos cargos podem servir como apoio político ao presidente. Assim, como tentou impedir, sem sucesso, a indicação Ilan Goldfajn a presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), ele foi indicado no então governo Bolsonaro, pelo então ministro da economia, Paulo Guedes.
Em 8 de novembro, foi instituído o Gabinete de Transição Governamental, sendo organizado em Gabinete do Coordenador, Coordenações, Conselho de Transição Governamental e pelos Grupos Técnicos, este último contando com 31 grupos técnicos, a Coordenação dos Grupos Técnicos faz parte das Coordenações. O Gabinete tem como sede o Centro Cultural do Banco do Brasil em Brasília, miniaturadaimagem|Geraldo Alckmin entrega PEC da transição ao presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira