Deus e o Diabo na Terra do Sol é um filme brasileiro de 1964 dos gêneros drama e nordestern, dirigido por Glauber Rocha, com roteiro escrito por Rocha ao lado de Walter Lima Jr.. No elenco principal, estavam Geraldo Del Rey, Yoná Magalhães, Othon Bastos, Sônia dos Humildes e Maurício do Valle. O filme foi produzido pela Copacabana Filmes, que também fez sua distribuição ao lado da Herbert Richers S.A..
A trama acompanha Manoel, um vaqueiro que fica revoltado por ser explorado pelo coronel Moraes, acabando por matá-lo em uma briga. Perseguido por jagunços, foge com sua esposa Rosa, se juntando a um grupo de seguidores do beato Sebastião, que promete o fim do sofrimento através do retorno a um catolicismo místico e ritual, e também a um grupo de cangaceiros liderados por Corisco e Dadá.
Marco da primeira fase do movimento Cinema Novo, Deus e o Diabo na Terra do Sol fez sua estreia mundial na 17ª cerimônia do Festival de Cannes, na França, em competição pela Palma de Ouro, prêmio de maior prestígio do festival. Aclamado como revolucionário pela crítica especializada, recebeu o Prêmio Especial do Júri no Festival de Acapulco e o Prêmio Saci de Melhor Produtor, para Luiz Augusto Mendes, e Melhor Ator Coadjuvante para Maurício do Valle. A obra também foi escolhida pelo Ministério das Relações Exteriores como o representante do Brasil ao Oscar de Melhor Filme Internacional, na 37ª cerimônia da premiação, porém acabou por não constar na lista final de indicados.
Em 1999, em uma pesquisa do jornal Folha de S.Paulo realizada com 24 críticos e estudiosos do cinema brasileiro, Deus e o Diabo na Terra do Sol foi indicado como um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos, ocupando a primeira posição na lista. Em novembro de 2015, atingiu o 2º lugar na lista feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) dos cem melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Em maio de 2026, foi incluído na lista dos cem filmes brasileiros mais importantes de todos os tempos, da mesma associação. Foi listado por Jeanne O Santos, do Cinema em Cena, como "clássicos nacionais".
Enredo Sertão, 1940. O sertanejo Manoel e sua mulher Rosa levam uma vida sofrida no interior do país, uma terra desolada e marcada pela seca. No entanto, Manoel tem um plano: usar o lucro obtido na partilha do gado com o coronel para comprar um pedaço de terra. Quando leva o gado para a cidade, alguns animais morrem no percurso. Chegado o momento da partilha, o coronel diz que não vai dar nada a Manoel, porque o gado que morreu era dele, ao passo que o que chegou vivo era seu. Manoel se enfurece, mata o coronel e foge para casa.
left|thumb|200px|Othon Bastos como Corisco em cena de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Perseguido por jagunços, ele e sua esposa resolvem ir embora e fugir, deixando tudo para trás. Manoel decide juntar-se a um grupo religioso liderado por um santo (Sebastião) que lutava contra os grandes latifundiários e em busca do paraíso após a morte. Os latifundiários decidem contratar Antônio das Mortes, que se autodenomina "matador de cangaceiros", para perseguir e matar o grupo. Rosa esfaqueia Sebastião após vê-lo matar um bebê que estava nos braços de Manoel. Antônio das Mortes chega e assassina todos os fiéis, exceto o casal. Os dois fogem novamente.
Manoel e Rosa são guiados pelo narrador da epopeia Cego Júlio até um grupo de cangaceiros, liderados por Corisco e Dadá, juntando-se a eles. Os cangaceiros também trabalham para derrubar o governo e os chefões do sertão. Antônio encontra os chefes Corisco e Dadá e os mata.
O filme termina com Manoel e Rosa, mais uma vez sozinhos, fugindo de uma aliança para outra, em busca de seu lugar em uma terra implacável.
Elenco
Geraldo Del Rey como Manoel: um vaqueiro que se revolta contra a exploração imposta pelo coronel Moraes, acabando por matá-lo em uma briga. Perseguido por jagunços, foge deixando tudo para trás Yoná Magalhães como Rosa: esposa de Manoel. Foge junto com o marido Lídio Silva como Sebastião: beato que promete o fim do sofrimento através do retorno a um catolicismo místico e ritual Maurício do Valle como Antônio das Mortes: um matador de cangaceiros, contratado para exterminar os seguidores do beato Roque Santos como Cego Júlio: narrador da epopeia que guia Manoel e Rosa até Corisco Othon Bastos como Corisco: um dos últimos comparsas de Lampião, e célebre pela sua selvageria. Chefe dos cangaceiros junto a Dadá Sônia dos Humildes como Dadá: esposa de Corisco, sendo chefe dos cangaceiros ao seu lado Milton Rosa como Coronel Moraes: patrão de Manoel que tenta o enganar, sendo morto por ele João Gama como Padre Antônio Pinto como Coronel da Região
Produção Antecedentes e desenvolvimento
Glauber Rocha dirigiu Deus e o Diabo na Terra do Sol com 24 anos, sendo este o seu segundo longa-metragem. Anteriormente, Rocha tinha realizado o longa Barravento (1962). O filme foi produzido após o golpe militar de 1964, época em que o Cinema Novo, movimento cinematográfico brasileiro influenciado pelo Neorrealismo italiano e pela Nouvelle vague, estava em seu auge, em um tempo que foi marcado pelo descontentamento de um grupo de cineastas com relação às questões políticas e sociais do país. O movimento ficou marcado pela desigualdade e a opressão de um contexto de luta que marcou não só ele como o terceiro mundo nessa época.
Glauber, fascinado com a vitalidade, energia e violência de Corisco, realiza Deus e o Diabo na Terra do Sol em 1963. O roteiro, escrito por Rocha ao lado de Walter Lima Jr., amplia a sua crítica social em relação à exploração de sertanejos e à pobreza no sertão do nordeste.DEUS e o Diabo na Terra do Sol. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2026. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obras/123435-deus-e-o-diabo-na-terra-do-sol. Acesso em: 13 de abril de 2026. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7
Escolha do elenco e filmagens Adriano Lisboa foi chamado por Rocha para interpretar Corisco, porém não pôde, que o fez chamar Othon Bastos para o papel, que conheceu na Escola de Teatro da Bahia. Entre os outros nomes do elenco, participaram Geraldo Del Rey, Yoná Magalhães, Sônia dos Humildes como Dadá, e Maurício do Valle como Antônio das Mortes. O personagem de Valle despertou tanto o interesse da crítica e do público que voltaria em outro filme de Rocha, O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969).
O projeto foi realizado com uma equipe pequena. Os produtores eram Luiz Augusto Mendes, Agnaldo Azevedo e Jarbas Barbosa, além do próprio cineasta. O diretor de fotografia era Waldemar Lima, que contava com o apoio do assistente de câmera Eufrasio e do maquinista Roque Assis. A literatura de cordel foi a principal referência dada por Glauber a Lima, que fez inúmeros testes para chegar a fotografia idealizada pelo diretor, que deveria ter a textura das xilogravuras e ser “mais sertão, mais preto e branco, mais caatinga e menos artifícios”. Walter Lima Jr., que assinou o roteiro ao lado de Glauber, trabalhou em conjunto com Paulo Gil Soares na assistência de direção. Soares também era responsável pelos figurinos e pela direção de arte.
As filmagens ocorreram no município de Monte Santo, no estado da Bahia, sendo iniciadas em 18 de junho de 1963 e finalizadas em 2 de setembro do mesmo ano. Durante a cena em que Manoel, personagem de Geraldo Del Rey, carrega uma enorme pedra sobre a cabeça enquanto escala o Monte Santo de joelhos, Del Rey insistiu em carregar uma pedra real que pesava mais de 20 quilos - algo que preocupou Glauber. Após as filmagens, Del Rey teve que tirar dois dias de folga, devido à fadiga.RAMOS, Fernão Pessoa; MIRANDA, Luiz Felipe Enciclopédia do Cinema Brasileiro SENAC São Paulo, 2000
Pós-produção Durante a dublagem do som, Othon Bastos, além de dublar a si mesmo como Corisco, também dublou o beato Sebastião, embora Lídio Silva interpretasse o personagem na tela. Rafael Justo Valverde, que estava na equipe do som ao lado de Aluizio Viana e Geraldo José, assinou a montagem. A trilha sonora foi composta pelos músicos Sérgio Ricardo e Heitor Villa-Lobos, com letras escritas por Glauber. Ricardo também assume o papel do cantador, que narra a história com suas canções.
Lançamento O filme foi lançado comercialmente nos cinemas brasileiros em 1 de junho de 1964, no Rio de Janeiro. Teve uma pré-estreia alguns dias antes, em 28 de maio em São Paulo.
A produção sofreu censura por parte da ditadura militar brasileira, sendo classificada para maiores de 18 anos.
Home video e restauração Em dezembro de 2002, o longa foi lançado em DVD pela Versátil Home Vídeo, em parceria com a RioFilme. Na América do Norte, teve um lançamento em DVD pela Koch Entertainment. Em 2022, na 75º edição do Festival de Cannes, foi reexibido em uma versão restaurada em 4K, na sessão "Cannes Classics", 58 anos depois de sua estreia mundial.
Recepção Opinião da crítica No agregador de críticas de cinema Rotten Tomatoes, Deus e o Diabo na Terra do Sol recebeu uma aprovação de 100% com base em 15 avaliações de críticos, registrando uma nota de 8,3 de 10. O Metacritic, que usa uma média ponderada, atribuiu ao longa uma pontuação de 74 em 100, baseado em 6 críticos, indicando "geralmente favorável".
A.H. Weiler, do The New York Times, elogiou o filme, chamando-o de "Simples, em preto e branco, mais impactante como uma polêmica chocante do que como um drama memorável". Ted Shen, do The Chicago Reader, escreveu: "A fusão de elementos europeus e afro-brasileiros — diálogos, imagens requintadas em preto e branco e música de Villa-Lobos — é surpreendentemente original e poética ao transmitir a esperança e o desespero dos oprimidos". A revista Time Out elogiou o estilo do filme como sendo "algo entre balada folclórica e mito contemporâneo, já que as referências à história e cultura brasileiras são onipresentes e bastante opacas para os não iniciados".
Listas de melhores, essenciais, e mais importantes filmes Deus e o Diabo na Terra do Sol foi incluído em prestigiadas listas de melhores, essenciais, e mais importantes filmes brasileiros, entre elas nas realizadas pela Folha de S.Paulo, Associação Brasileira de Críticos de Cinema, Rolling Stone, Terra, Gazeta do Povo e O Globo, sempre nas primeiras dez colocações. Em maio de 2026, a Abraccine atualizou sua lista, agora como os filmes brasileiros mais importantes em ordem cronológica, contando com o longa de Glauber.
Prêmios e indicações Em 1964, foi indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes. No mesmo ano, recebeu o Prêmio Náiade de Ouro no Festival do Cinema Livre, e o Prêmio Governador do Estado de Melhor Música para Sérgio Ricardo. No Prêmio Saci de 1965, Luiz Augusto Mendes recebeu o prêmio de Melhor Produtor, enquanto o ator Maurício do Valle recebeu o de Melhor Ator Coadjuvante. Em 1966, no Festival de Acapulco, recebeu o Prêmio Especial do Júri.
Ainda foi o representante brasileiro ao Oscar de Melhor Filme Internacional.
+ Ano Cerimônia Categoria Indicado Resultado1964Festival de Cinema de CannesPalma de OuroGlauber RochaFestival do Cinema LivrePrêmio Náiade de OuroPrêmio Governador do EstadoMelhor MúsicaSérgio Ricardo1965Prêmio SaciMelhor ProdutorLuiz Augusto MendesMelhor Ator CoadjuvanteMaurício do Valle1966Festival de Cinema de AcapulcoPrêmio Especial do Júri Glauber Rocha
Legado
Junto com Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos, e Os Fuzis (1964), de Ruy Guerra, o filme completa o tríptico central da primeira fase do Cinema Novo.