Júlia Labourdonnay Gonçalves Roque, Viscondessa de Sistelo (Rio de Janeiro, 22 de novembro de 1853 – 1932), foi uma pintora naturalista luso-brasileira do final do séc. XIX e inícios do séc. XX, pioneira no acesso das mulheres ao ensino artístico e na participação das mulheres luso-brasileiras nos Salões anuais parisienses. Tornou-se internacionalmente conhecida como Julie de Cistello, sendo por vezes mencionada como Júlia de Sistelo ou Julie de la Bourdonnay Cistello.
Biografia
Nascimento e Família Júlia Labourdonnay Gonçalves Roque nasceu a 22 de Novembro de 1853 no Rio de Janeiro. Era filha de Boaventura Gonçalves Roque (1822-1894), natural de Sistelo, concelho de Arcos de Valdevez, que foi muito jovem para o Brasil onde conquistou fortuna enquanto fazendeiro de café e comerciante. Obtendo o título de Visconde de Rio Vez, este foi mecenas de diversas iniciativas sociais, culturais e coloniais, para além de ter desempenhado o cargo de director do Gabinete Português de Leitura de 1871 a 1873. A mãe, Maria Luisa de Labourdonnay, era de origem aristocrática francesa, tendo a sua família materna vivido exilada no Rio de Janeiro após os eventos da Revolução Francesa.
Filha primogénita, Júlia era irmã de Isabel Labourdonnay Gonçalves Roque, pintora naturalista e paisagista, que casou com José João Martins de Pinho, 1.º conde de Alto Mearim, e faleceu com 32 anos em 1888 no Rio de Janeiro, dois anos após ter recebido a Medalha de Ouro da Exposição Artística e Industrial de Petrópolis, e de Emília Labourdonnay Gonçalves Roque, também pintora e discípula de José Malhoa e Édouard Toudouze, com quem Júlia expôs paralelamente ao longo da sua carreira. Tendo vindo com o pai para Portugal por volta de 1880, Emília residiu na Quinta de Casal Soeiro, comprada em 1882 a Filipe de Sousa Holstein, em Vila Fonche, Arcos de Valdevez. Em 1894, Emília viria a casar-se com o cunhado viúvo, José João Martins de Pinho, passando a assinar a sua obra artística como Condessa de Alto Mearim e residindo no Palacete de Alto Mearim, em Matosinhos, e no Palacete da Rua do Salitre, em Lisboa.
Primeiras Exposições: aluna de pioneiros da pintura ao ar livre Apesar da sua mãe ter falecido quando Júlia tinha apenas 6 anos de idade, as suas três filhas foram educadas desde cedo em diversas disciplinas, incluindo línguas (francês, inglês, italiano, alemão), música (sob a instrução do compositor Arthur Napoleão), e artes plásticas. Os professores de pintura incluíram dois artistas pioneiros da pintura ao ar livre no Brasil: Joseph Mill (1837–1879), que também foi caricaturista pró-republicano a defensor da abolição da escravatura, e sobretudo Henri Nicolas Vinet (1817–1876) que chegou ao Rio de Janeiro em 1856, discípulo de Corot e da emblemática Escola de Barbizon em Fontainebleau.
A natureza exuberante do Rio de Janeiro, com suas montanhas e matas fechadas fascinou estes artistas: em 1860, Vinet abandonou a cidade para entrar em contato direto com a natureza, enveredando-se pelas florestas para as conhecer e observar de perto. Deu aulas particulares no seu atelier entre 1966 e 1972.miniaturadaimagem|260x260px|Passeio Público do Rio de Janeiro em 1884, a escassos metros da residência de Júlia de Sistelo no bairro da Lapa. Pintura da autoria de Rosalbino Santoro. Em 1870, então com 16 anos, Júlia participou na Exposição Geral de Belas Artes do Rio de Janeiro, onde foi apresentada como aluna de Joseph Mill e recebeu uma medalha de prata pela obra "Lembrança de Petrópolis" e por uma cópia de "As Rãs que Pedem um Rei" de Gustave Doré. Anos mais tarde, em 1879, participou na mesma mostra com as suas duas irmãs, tendo recebido uma menção honrosa com as obras "Vista de Santa Maria Madalena", "Vista de Nova Friburgo" e "Estudo de paisagem".
Durante esse período, a sua morada principal no Rio de Janeiro situava-se na Rua Visconde de Inhaúma nº 50, à qual se juntou, por volta de 1875, uma residência no bairro da Lapa, nomeadamente na Rua de Santa Teresa nº 40 (atualmente Rua Joaquim Silva), próxima da casa onde vivia o escritor Machado de Assis. O editor português do escritor Almeida Garrett chegou a pedir ao marido de Júlia para transmitir um livro ao escritor brasileiro em 1884. miniaturadaimagem|260x260px|Castelo de Sistelo, c. 1880, de estilo neogótico, mandado construir na freguesia de Sistelo, concelho de Arcos de Valdevez, por Manuel António Gonçalves Roque, esposo de Júlia Labourdonnay Gonçalves Roque.
Casamento e Castelo de Sistelo Em 1870, Júlia Labourdonnay Gonçalves Roque casou-se no Rio de Janeiro com o seu tio paterno, Manuel António Gonçalves Roque (1834-1886), o qual era vinte anos mais velho. Também ele tinha emigrado jovem para seguir o irmão no Brasil, onde conquistou fortuna enquanto comerciante.
Reconhecido mecenas de iniciativas sociais e artísticas no Brasil e em Portugal, foi designado 1º Visconde de Sistelo. A atribuição de títulos nobiliárquicos tinha nesta altura alastrado ao ponto de tornar popular a frase do escritor Almeida Garrett: “Foge cão que te fazem barão. Para onde se me fazem visconde?”. O visconde de Sistelo foi benemérito, entre outras, da associação dos Arquitectos e Arqueólogos Portugueses e do Gabinete Português de Leitura no Rio de Janeiro.
A partir de 1880, as estadias de Júlia com o marido em Portugal são cada vez mais frequentes. Na freguesia de Sistelo, este mandou construir o Castelo de Sistelo, o chafariz, o cruzeiro, a escola e o jazigo onde a família está sepultada. Não geraram descendência, tendo Manuel António Gonçalves Roque falecido no Rio de Janeiro em 1886, quando Júlia tinha 32 anos, precipitando a sua vinda para Portugal.
Academia Julian em Paris Viúva e com uma considerável fortuna, financiou os seus estudos artísticos, tornou-se discípula do pintor português José Malhoa, e inscreve-se nos anos 1891-1893 na Academia Julian em Paris, uma das primeiras escolas a aceitar mulheres nas aulas de educação artística, precedendo a Escola das Belas Artes de Paris, que seria também frequentada pelas pintoras portuguesas Aurélia de Sousa e Sofia de Souza (inscritas em 1899 e 1900). Nesta instituição artística, Júlia foi aluna do atelier de Gabriel Ferrier e de William Bouguereau, situado no 5 rue de Berry, junto aos Champs Elysées (e próximo de onde se alojava na rue Pierre Charron et depois no 4 Rue Boccador), mas também teve aulas no atelier Passage des Panoramas (27 Galerie Montmartre). É historicamente a quarta mulher do Brasil a ser inscrita nesta escola. Das mulheres artistas portuguesas, Júlia de Sistelo apenas foi precedida na Academia Julian pela escultora Albertina Falker, inscrita em 1887-1888, que já tinha sido a primeira mulher a entrar na Academia Nacional das Belas Artes de Lisboa em 1879.
O diário de uma aluna da Academia, a reconhecida artista Marie Bashkirtseff, publicado postumamente em 1888, tinha obtido um enorme sucesso editorial e transformado a Academia Julian num objectivo para muitas mulheres em busca de emancipação. Até 1896, as mulheres eram excluídas de entrada na escola das Belas-Artes de Paris, sob pretexto dos « perigos da promiscuidade » que representavam as aulas de desenho de modelo masculino nu, indispensáveis para a pintura de História, considerada nessa altura o expoente máximo da profissionalização. Júlia de Sistelo teve também aulas de estética e história de arte com Anatole Marquet de Vasselot no 7 rue Talma em Paris. miniaturadaimagem|Júlia de Sistelo, Envio de Flores, exposta no Salão de Paris.
Exposição Universal de Paris, os Salões e a União das Mulheres Artistas miniaturadaimagem|260x260px|Júlia de Sistelo em Lisboa para o casamento da sua sobrinha Beatriz Labourdonnay Roque de Pinho com o Marquês de Alegrete. 20 de abril de 1907, Em 1897, fixou residência em Paris, tornando-se numa das primeiras mulheres artistas luso-brasileiras a expor nos Salões (ou Salons) parisienses, onde apresentou as obras "Pietà" e, em 1898, "Communiante" no Salon de la Société des Artistes Français.
Em 1900, expôs na Exposição Universal de Paris. Na secção portuguesa das Belas Artes, exposta no Grand Palais, participaram onze mulheres artistas: Júlia de Sistelo, a sua sobrinha Maria Luísa do Alto Mearim, a sua irmã Emília de Alto Mearim, o clã das três irmãs Emília dos Santos Braga, Laura Santos, Virginia Santos Avelar, e também Branca de Araújo Assis, Fanny Munró, Laura Sauvinet Bandeira, Maria Augusta Bordalo Pinheiro e Leonor da Silva Nogueira. Após a exposição, guardou na sua posse vários quadros — tal como "Á espera dos Barcos" de Souza Pinto, que também residia em Paris — salvando-os inadvertidamente do naufrágio do barco a vapor francês Saint André que os transportava de regresso a Lisboa. miniaturadaimagem|Retrato em destaque de Júlia de Sistelo na sua participação ao Salão feminista da Union des Femmes Peintres et Sculpteurs em 1905. Revue Illustrée, 15-03-1905. miniaturadaimagem|"Prête à sortir" (1910) da autoria de Júlia do Sistelo. Pintura apresentada no Salon da Union des Femmes Peintres et Sculpteurs em Paris.|399x399px Em 1908, viajou de novo ao Brasil, onde expôs na importante Exposição Nacional do Rio de Janeiro com uma série de paisagens representativas da nova geografia burguesa urbana de Portugal e França, como o Castelo do Queijo na Foz do Porto, a Tapada da Ajuda em Lisboa ou ainda as margens do rio Sena. A relação com o Brasil nunca foi interrompida depois da sua ida para Portugal após a morte do marido e da instalação em Paris após o falecimento do pai : em 1896 participou nas Exposições Gerais de Belas Artes do Rio de Janeiro, enviando a obra "A Saudade", cujo título assume valor de mensagem, regressando a esse salão anual inúmeras vezes, em 1901 e 1902, seguindo-se 1912 e 1913 e depois 1922.
Nas duas primeiras décadas do século XX, converteu-se numa das mulheres lusófonas que mais vezes expôs no Salon da Société Nationale des Beaux Arts de Paris (Salão da Sociedade Nacional de Belas Artes) ao participar nas edições de 1905, 1906, 1909, 1910, 1912, 1913, 1914 e 1924.
Foi membro fundador em 1913 do Cercle des Artistes Brésiliens (Círculo de Artistas Brasileiros) em Paris, juntamente com Fedora do Rego Monteiro, Helene Pereira da Silva, Virgílio Maurício, Manuel Madruga, João Zanin Turin, João Zaco Paraná, Jose Marques Campão, Vicente do Rego Monteiro, Jose Wasth Rodrigues ou Oscar Pereira da Silva.
A partir de 1905, expôs nos salões anuais da organização feminista Union des Femmes Peintres et Sculpteurs (União das Mulheres Pintoras e Escultoras) que tinham lugar no Grand Palais, tal como o Salão da Société Nationale des Beaux Arts. A União fundada por Hélène Bertaux é considerada uma das primeiras sociedades de mulheres artistas e o Salão gerou inovações importantes: sem júri de seleção (até 1896), recusou estabelecer hierarquias entre géneros de pintura ou em relação ao design e às artes aplicadas, introduzindo uma preocupação pelo corpo no espaço, com divans para repouso.
Júlia de Sistelo expôs em 19 edições deste salão feminista entre 1905 e 1932, numa altura em que este era dirigido pela Duquesa Anne d'Uzés, também ela viúva e historicamente a primeira mulher a obter uma carta de condução de automóveis em 1898. Sendo monárquica, esta duquesa manteve uma amizade epistolar com a anarquista Louise Michel, militou para que as mulheres casadas pusessem dispor de um salário e participou à fundação da União Francesa para o Sufrágio das Mulheres em 1909.
A pintura "Sous les Pommiers" de Júlia de Sistelo foi celebrada em 1913 pelo célebre poeta e crítico modernista Guillaume Apolinaire, no jornal L'Intransigeant, como "uma das pinturas mais graciosas" do Salon da Union des Femmes Peintres et Sculpteurs.
Várias pinturas suas expostas nos Salões parisienses foram reproduzidas em postais, evidenciado a sua popularidade junto do público, particularmente La Grand-mère, Sous les Pommiers, Prête à sortir, Solitude e Envoi de Fleurs.