A Batalha de Munda foi travada em 17 de março de 45 a.C. entre os exércitos cesarianos, comandados pelo próprio Júlio César, e os pompeianos, sob o comando de Tito Labieno e dos filhos do finado Pompeu, Cneu e Sexto Pompeu, numa planície perto da colônia romana de Munda, na Bética.<ref>Plínio, História Natural III, 11.</ref> César derrotou definitivamente as forças pompeianas e praticamente encerrou a Segunda Guerra Civil da República Romana.

Segundo Apiano, foi a mais difícil e perigosa das batalhas de César. Segundo ele, "...conta-se que César manifestou que sempre havia lutado pela vitória, mas que, nesta ocasião, teve que lutar também por sua vida". Ele teve que lutar em um terreno majoritariamente desfavorável, pois teve que atravessar um riacho e subir a elevação onde estava fortificado o exército de Pompeu, o Jovem. Apesar disto, a ferocidade com que lutou a Legio X Equestris (futura Gemina) impediu que os cesarianos fossem cercados e permitiu que César utilizasse sua cavalaria com eficiência. Tito Labieno movimentou suas tropas para interceptá-la, mas o movimento foi mal-compreendido por suas tropas, que imaginaram que se estava iniciando uma retirada; o resultado foi uma vitória completa para César.

Depois desta sangrenta vitória e da morte dos principais líderes pompeianos remanescentes (Labieno, Públio Ácio Varo e Pompeu, o Jovem), César conseguiu retornar para Roma para receber o título de "ditador perpétuo". O seu assassinato, menos de um ano depois desta vitória, deu início aos eventos que levaram à Terceira Guerra Civil da República Romana.

Localização Tradicionalmente, os historiadores tem localizando a cidade de Munda e o cenário desta batalha, chamado "Campus Mundensis" nas crônicas antigas, em diversos locais diferentes. Entre eles, o que recebia mais apoio era a cidade de Monda (segundo a opinião de Ambrosio de Morales, Rodrigo Caro e Enrique Flórez), seguida por Montilla (defendida por Miguel Cortés y López e outros principalmente pela proximidade com as localidades de Córduba e Obulco). Ainda em 1861, os irmãos Oliver Hurtado defenderam a localidade de Ronda la Vieja, perto de Ronda, mas acabaram apoiando a "planície de Vanda", perto da moderna Montilla depois da proposta do coronel Eugène Stoffel, colaborador de Napoleão III em 1887,A. Blanco Freijeiro, “La Munda del coronel Stoffel”, anexo a Ategua, Noticiario Arqueológico Hispánico nº 15, 1983, pp. 130-132 uma proposta que depois foi fortemente defendida por Adolf Schulten em 1940,"Die Schlacht bei Munda" en Deutsche Zeitschrift für Spanien, 27/10 e 10/11 de 1923 (tradução em espanhol no Boletín de la Academia de Ciencias, Letras y Artes de Córdoba, 1924; e em "Fontes Hispaniae Antiquae" (FHA), tomo V: Las guerras del 72-19 a C., Barcelona, 1940, pp. 136 e ss.) sem mais discussões posteriores.

A estas possibilidades se somaram duas novas propostas: o "Cerro de La Atalaya" (1973)R. Corzo Sánchez, "Munda y las vías de comunicación en el Bellum Hispaniense", Habis, 4, 1973, pp. 241-252. e o "Alto de las Camorras" (1984-1986),V. Durán Recio y M. Ferreiro López, "Acerca del lugar donde se dio la batalla de Munda", Habis, 15, 1984, pp. 229-235 y, M. Ferreiro López, "Acerca del emplazamiento de la antigua ciudad de Cárruca", Habis, 17, 1986, pp. 265-270. ambas perto da moderna Osuna, a cinco quilômetros uma da outra. Finalmente, há um cenário que localiza a batalha no local onde está o castelo de Alhonoz ou Aljonoz, uma antiga fortaleza árabe situada entre Herrera e Écija, às margens do rio Genil.

Todas estas localidades estão na antiga província romana da Bética, mas não é possível determinar com certeza qual delas seria a localização correta principalmente pela falta de inscrições geográficas probatórias. É possível inclusive que Munda estivesse em qualquer outro lugar da província perto dos rios e cidades citadas nas fontes antigas; por conta disto, o problema da localização exata de Munda permanece em aberto.Segura Ramos, Bartolomé (2003). “Munda”. Faventia. Vol. 25, No. 1, pp. 179-183.

Contexto A Hispânia já estava sob o comando dos cesarianos desde a Batalha de Ilerda (2 de agosto de 49 a.C.),Sheppard, 2009: 36 Quinto Cássio Longino atuando como governador da Hispânia Ulterior.Mommsen, 1911: 473-474 Enquanto os pompeianos reuniam seu exército na África, César ordenou que Longino fosse ajudá-lo atacando o Reino da Numídia pelo oeste com suas quatro legiões com o apoio do rei Bogudes da Mauritânia.Mommsen, 1911: 473 Para isto, Longino reuniu uma frota com cerca de 100 navios,Roth, 1999: 194 mas duas de suas legiões, a maioria de seus auxiliares e a população local eram pompeianos até Ilerda e ainda nutriam grande simpatia pelo falecido general. Esta tensão foi agravada ainda pela atuação tirânica do próprio Longino e acabou explodindo numa revolta em Córduba. O questor enviado para lidar com os rebeldes, Marco Cláudio Marcelo Esernino,Mommsen, 1911: 473; Sheppard, 2009: 36, 87 desertou, mas isto não impediu que ela fosse duramente sufocada.Silva, 2013 No outono de 47 a.C., o legado Caio Trebônio, novo governador da Ulterior e recém-chegado do oriente, interveio com ordens de substituir Longino e restaurar a paz. Contudo, a revolta impediu que a manobra contra Juba I da Numídia fosse realizada; pouco depois, o próprio César desembarcou na África.Mommsen, 1911: 473-474 Duas novas revoltas irromperam quando Longino tentou escapar, já no final de 47 a.C., com o tesouro público da província e morreu, possivelmente assassinado ou afogado na foz do rio Ebro.Sheppard, 2009: 36, 87 O evento marcou o colapso do controle cesariano na Hispânia,Sheppard, 2009: 20 com as quatro legiões de Longino se amotinando em favor dos pompeianos.

Enquanto isto, César estava ocupado lutando contra seus inimigos internos e externos no Mediterrâneo oriental. Pompeu foi vencido na Batalha de Farsalos,Sheppard, 2009: 81 o faraó Ptolemeu XIII na Batalha do Nilo,Sheppard, 2009: 86 Fárnaces II do Ponto na Batalha de ZelaSheppard, 2009: 87 e Metelo Cipião e Catão, o Jovem na Batalha de Tapso. Esta sucessão de vitórias de César colocou os pompeianos em constante estado de fuga em busca de novos refúgios; com seus comandantes sendo sucessivamente mortos, os sobreviventes passaram a lutar cada vez mais por sobrevivência, honra e vingança do que pela manutenção da República Romana.

Depois de Tapso, os pompeianos, liderados por Tito Labieno, um brilhante comandante de cavalaria que havia servido sob César durante as Guerras Gálicas,Sheppard, 2009: 26 e pelos filhos de Pompeu, Cneu, e Sexto Pompeu, fugiram para a Hispânia Ulterior.Sheppard, 2009: 27 Cneu tentou, sem sucesso, conseguir o apoio da Mauritânia,Mommsen, 1911: 474 mas acabou fugindo para as Baleares, conquistadas antes por Sexto, onde se encontrou com o irmão antes de partirem juntos para a Hispânia.Soler, 1777: 57 Ali, os dois conseguiram reunir um último grande exército com o qual pretendiam enfrentar César aproveitando principalmente as legiões amotinadas de Longino. Segundo os cronistas antigos, apenas quatro das legiões pompeianas tinham alguma experiência militar. As demais eram formadas principalmente por forças auxiliares, especialmente soldados celtiberos.Amela Valverde, 2002: 1791 Apiano menciona que grande parte do exército pompeiano era composto de libertos com anos de treinamento em combate,Amela Valverde, 2002: 1816 provavelmente não mais do deles seriam cidadãos romanos da península Ibérica; o restante era formado por antigos soldados pompeianos, desertores cesarianos, escravos fugidos, auxiliares e civis romanizados sem cidadania.Amela Valverde, 2002: 1812, 1899 A maior parte dos recrutas eram procedentes da própria Bética e da Hispânia Citerior,Amela Valverde, 2002: 1778; 1792; 1812; 1897 com grande quantidade de celtiberos. Os cavaleiros eram principalmente celtiberos, iberos e lusitanos com armamento leve.

Metade do exército estava na Ulterior, incluindo um pequeno contingente de cavaleiros númidas sob o comando do príncipe Arabião, filho de Masinissa II.Amela Valverde, 2002: 1899 Cartago Nova estava cercada pelos pompeianos porque, assim como Tarraco, era uma das poucas cidades locais que se mantiveram leais a César.Arrayás Morales, 2006: 184 As fontes não mencionam o resultado do cerco e é possível que Cartago Nova jamais tenha sido conquistada pelos pompeianos.Soler, 1777: 57-58 Contudo, uma frota cesariana, sob o comando de Caio Dídio, enfrentou a frota pompeiana de Públio Ácio Varo na Batalha de Carteia, perto do estreito de Gibraltar. A batalha terminou de forma inconclusiva, com os cesarianos se retirando para Gades e os pompeianos, para Carteia.Sabau y Blanco, 1817: 300-301

Os comandantes cesarianos na península, Quinto Fábio Máximo e Quinto Pédio, foram rapidamente vencidos e acabaram obrigados a pedir a ajuda de César enquanto se defendiam em Obulco. César partiu de Roma em 5 de novembro e chegou em Córduba em 2 de dezembro, percorrendo mais de km em menos de um mês. Em Obulco, César recebeu uma embaixada de cordubenses que afirmaram ter rendido a cidade aos pompeianos por não terem como resistir. Também chegaram mensageiros de Ulia, uma cidade turdetana que estava cercada pelos pompeianos, para onde foram enviadas seis coortes sob o comando de Lúcio Júnio Pacieco. Naquele momento, a região toda estava se revoltando principalmente por causa dos saques a Ategua e Veubi pelos pompeianos. Depois de enviar Pacieco a Ulia, César marchou para Córduba.Aldama, 1860: 135

César levou consigo oito legiões e cavaleiros, incluindo legiões veteranas das Guerras Gálias: Legio V Alaudæ, a VI Ferrata e a Legio X Equestris, além de outras novas, como a III Gallica e a XIII (futura Gemina).

O exército pompeiano estava ocupando Córduba e César iniciou um cerco. Pompeu, o Jovem, estava na cidade e teve que pedir que seu irmão, Sexto Pompeu, trouxesse suas tropas para enfrentá-lo; César assegurou o fornecimento de recursos para seu exército tomando Ategua em 19 de fevereiro. Em 7 de março, uma escaramuça ocorreu em Soricaria e terminou com vitória de César. Depois desta vitória, muitos soldados pompeianos começaram a desertar, o que forçou a mão de Sexto. Além disso, a derrota bloqueou o caminho de volta para a fortaleza de Carteia e obrigou Sexto a seguir para Córduba.Dodge, 2012 Cneu se retirou para o sul e César o perseguiu até o ópido de Munda, alcançando-o em 16 de março. Cneu havia cometido o mesmo erro que todos os generais que já haviam enfrentado César. Em suas campanhas, César sofria dos mesmos problemas que acometiam a todos os militares de seu tempo, especialmente a ineficiência das linhas de suprimento que obrigavam os exércitos em marcha a viveram dos recursos que conseguissem amealhar na região onde estavam. Por conta disto, os exércitos de César estavam sempre vulneráveis a táticas fabianas, ou seja, a táticas que evitavam o confronto direto para forçar a exaustão do exército inimigo.Sheppard, 2009: 22 Durante toda a guerra civil, os inimigos de César sempre tinham a vantagem numérica, em terra e no mar, o controle das fortalezas locais, das provisões e do território, mas nenhum deles tentou atacar este ponto mais vulnerável. Nunca recorreram a estratégias de terra arrasada ou ao ataque deliberado aos bandos que buscavam suprimentos; todos cederam e acabaram concedendo a César a batalha campal decisiva que ele tanto buscava.

Batalha Os dois exércitos se enfrentaram nos "Campus Mundensis", na Bética. O exército pompeiano estava acampado em uma suave elevação, uma posição desfavorável para um ataque de César. As duas forças permaneceram à vista uma da outra por vários dias até 17 de março, o dia que iniciou a batalha.