Sainadim ibne Maomé Turca de Ispaã e Cujande (; nome completo: Ṣāʾin al-Dīn Abū Muḥammad ʿAlī b. Afżal al-Dīn Muḥammad b. Ṣadr al-Dīn Abī Ḥāmid Muḥammad Turka Iṣfahānī Khujandī) (1369–1432), conhecido simplesmente como Ibn Turka, Khwāja Turka Iṣfahānī ou Ṣāʾin-i Turka, foi um cádi xafiita, professor e filósofo islâmico.Melvin-Koushki, Matthew S. (maio de 2012). The Quest for a Universal Science: The Occult Philosophy of Ṣāʾin al-Dīn Turka Iṣfahānī (1369-1432) and Intellectual Millenarianism in Early Timurid Iran. Universidade de Yale.
Suas obras impulsionaram uma difusão científica junto a um humanismo religioso. Tornou-se o mais influente ocultista do Irã timúrida ao sistematizar e difundir na ideologia e prática imperial do Islamicado pós-mongol a então corrente magia de letras-números chamada de "letrismo", erguendo-a a um sistema monista teológico próprio ('ilm al-tawḥīd) segundo os moldes akbarianos e de influência neopitagórica. Ele considerou o letrismo a ciência suprema universal. Esse projeto teve grande influência sobre a prática literária, a filosofia, astronomia, historiografia e teoria política do Persianato até pelo menos o século XVII.Melvin-Koushki, Matthew S. «Ibn Turka». In: Fleet, Kate; Krämer; Gudrun; Matringe, Denis; Nawas, John; Stewart, Devin J. Encyclopædia of Islam 3ª ed. Brill.
Biografia Era filho de Afzal al-Din Turka. A família Turka (cujo nome significa "pequeno turco") tinha dentre membros notórios juízes e acadêmicos isfahanis. Dela Ibn Turka herdou a posição de juiz chefe xafiita na cidade.
Sainadim e sua família foi levada a Samarcanda após sua cidade natal, Isfahã, ser conquistada por Tamerlão em 1387.
Após Samarcanda, viajou durante 15 anos (de 1393–1408) por locais como Meca e Bagdá, mas nesse ínterim de maior importância foi sua estadia no Cairo, a capital mameluca. Lá, foi um protegido e representante do alquimista letrista Sayyid Husayn Ahlati, que foi médico pessoal de Barcuque e mestre de alguns dos mais influentes ocultistas no Persianato do início do século XV.
Após a morte de Tamerlão, ele retorna a Isfahã em 1408, onde começa a lecionar. Depois, torna-se membro da corte de Pir Maomé em Xiraz.
Após o assassinato de Pir Maomé, seu irmão Iscandar assume o poder e, de 1409 a 1412, Ibn Turka faz parte de sua corte em Isfahã. Este sofre perseguições por inveja de rivais, precisando se mudar a Xiraz.
Iscandar foi o primeiro patrono timúrida de Ibn Turka: o sultão era adepto das ciências ocultas e financiava massivamente letristas e astrólogos-astrônomos. Porém, sofreu derrota e foi destituído por seu tio, Xaruque, em 1414.
Foi no período a partir desse momento, até 1422, que ele tentou tentou se afastar da vida pública. Em 1415, renuncia-a após a execução de seu antigo patrono Iscandar e passou a se dedicar aos seus escritos.
Este, porém, mostrou ser um período em que passou por intensos conflitos intelectuais, conforme escreve em suas apologias Nafsat al-masdur-i avval e Nafsat al-masdur-i duvvum ("Primeiro" e "Segundo Escarro Tubercular"). Já amplamente difundido em terras persas em uma vasta rede, sua fama acabou por levar a acusações por rivais e à destruição de sua carreira. Foi acusado de sufismo e criticado por seu interesse em ciências ocultas. Por volta de 1422, passou por processos inquisitoriais quando seus oponentes geraram duas acusações contra ele na corte de Iscandar. Inicialmente foi denunciado sob a acusação de seu viés sufista; mas foi considerado inocente por Xaruque, que o afastou do ambiente hostil de Isfahã e estabeleceu-o como juiz em Iazde, onde passou por anos calmos escrevendo.
Sofreu uma terceira e última inquisição em 1427, quando foi novamente convocado a Herate, desta vez para se defender das acusações de hurufismo, junto a outros intelectuais letristas, após uma conspiração de assassinato contra Xaruque por um membro hurufita. Isso não era verdade, pois Ibn Turka expressou abertamente sua devoção ao credo xafeíta e se pôs distante do hurufismo e do sufismo organizado, considerando a vertente antinomiana deste uma heresia. Foi, no entanto, condenado, destituído de suas propriedades, aprisionado e torturado, terminando em exílio. Passou seus anos finais buscando reconciliação com Xaruque, o patrocínio de figurões e escrevendo tratados. Afinal, recebeu a promessa de restituição pelo sultão timúrida, retornando a Herat, porém sua situação permaneceu indefinida. Lá Ibn Turka faleceu em 1432.
Ele foi marido de várias esposas e teve 10 filhos (3 homens e 7 mulheres).
Filosofia O sucesso da filosofia de Ibn Turka foi póstumo, pois viveu durante um período político e ideológico tumultuado que incluiu a ascensão de visões competidoras, como o takfirismo e o movimento político sufi Ḥurūfiyya.
As obras de Ibn Turka receberam grande demanda por parte de governantes islâmicos (de Istambul a Deli), e, junto a confrades letristas, ele se constituiu parte de uma rede de ocultistas neopitagorizantes entre os impérios islâmicos, a qual se referia nos escritos e correspondências como "Os Novos Irmãos da Pureza" (ikhwān al-ṣafāʾ wa-khullān al-wafāʾ).
Em história comparada, a época via um humanismo islâmico análogo ao que aconteceria décadas depois no humanismo renascentista da Europa: ambos partilharam de um movimento cultural amplo envolvendo todos os campos das ciências, artes, filosofia, religião e política, incluindo os interesses ocultistas. Matthew Melvin-Koushki compara Ibn Turka ao pai do humanismo europeu Pico della Mirandola: este último utilizou a Cabala como ciência humana suprema, enquanto Ibn Turka desenvolveu o sistema próprio islâmico de letrismo cognato ao judaico, naquilo que ele também considerava a ciência humana suprema. Assim, Ibn Turka foi um expoente do humanismo que adotou uma síntese filosófica, científica, bem como ocultista, similar àquela que ocorreria 70 anos depois na Europa. Segundo Melvin-Koushki, Ibn Turka também compartilhava do princípio de coincidentia oppositorum (majmaʿ al-aḍdād) encontrado em alguns dos renascentistas: "Um dos primeiros pensadores muçulmanos modernos a desenvolver exatamente uma doutrina antropocêntrica, porém evolutiva, perenialista, porém progressivista, chauvinista, porém concordista, elitista, porém democratizante, científica, porém literária, filológica, porém política, helênica, porém, abraâmica e, acima de tudo, ocultista."Mohammad Taqi Danesh Pajouh chamou Ibn Turka de "o Spinoza do Irã" por seu projeto filosófico revolucionário, sendo comparável o monismo e panenteísmo de ambos.
Ibn Turka era de posição sunita que aceitava credos do xiismo duodecimano, buscando uma unificação da história profética. Advogava por um "sunismo científico".
Seus escritos inspiraram uma virada na filosofia safávida, partindo da síntese helenística-árabe já consolidada por filósofos anteriores e expandindo com um tom perenialista mais antigo até à filosofia de sábios pré-socráticos. A partir disso foram incorporados novos textos e fragmentos deles na intelectualidade corrente. miniaturadaimagem|Diagrama cosmológico letrista no "Livro dos Inquéritos" de Ibn Turka (1420). Manuscrito Majlis 10196, fólio 63a (1424-1435). Em seu projeto filosófico, sintetizou a filosofia peripatética e iluminacionista com a teoria de ibne Arabi. Nele, encabeçava a arte do letrismo árabe (), a qual era uma prática desenvolvida desde o século IX que tinha aspectos ontológicos consagrados segundo os Nomes de Alá, sendo direcionada para o retorno ao Um; e de adivinhação baseada no valor das letras, conforme encontradas tanto na codificação corânica quanto na metafísica gramatical-astral em que o cosmos alegadamente se estrutura.
Embora as obras akbarianas sirvam de base teórica ao letrismo, foi a aplicação tecnológica dele que Ibn Turka avançou, em um uso matemático e talismânico dos nomes divinos encontrados no Corão. Ibn Turka descreveu uma divisão dessa ciência entre ahl al-taḥqīq (a linha teórica segundo a teologia de ibne Arabi) e ahl al-khawāṣṣ (o uso prático segundo Ahmad al-Buni), e realizou uma síntese de ambas, sistematizando-a como uma reunião de metafísica com física e aplicando-a à filosofia política."Dado que a ciência das letras é uma ciência universal compreendendo inúmeras outras ciências sob sua égide, cada uma delas importante e digna de propósito em seu próprio direito, os praticantes desta ciência naturalmente se enquadram em vários campos. De um modo geral, no entanto, eles podem ser divididos em dois grupos abrangentes. O primeiro e mais conhecido grupo consiste naqueles que se preocupam com as propriedades ocultas das letras (ahl-i khawāṣṣ). (…) O segundo grupo consiste daqueles que estão preocupados com as realidades subjacentes às letras (ahl-i ḥaqāyiq)."―"Das Letras" (R. Ḥurūf) (1414).Melvin-Koushki, Matthew (2014). «The Occult Challenge to Philosophy and Messianism in Early Timurid Iran: Ibn Turka's Lettrism as a New Metaphysics». In: Mir-Kasimov, Orkhan (org.). Unity in Diversity: Mysticism, Messianism and the Construction of Religious Authority in Islam (em inglês). Leiden: BrillEle punha o letrismo fundamentado em taḥqīq (lit. "fazer o real ou verdadeiro") e como culminância dele: este era um princípio que tornava a ciência das letras ao mesmo tempo a mais transcendente e a mais empírica, superando as ciências antigas. Ibn Turka define por objetivo: "investigar a tudo no cosmos, tanto universais quanto particulares, e sua categorização por meio desta ciência".