Paulo Roberto da Silva Lima, conhecido como Galo de Luta (São Paulo, 21 de março de 1989), é um motofretista, ativista e rapper brasileiro.Ganhou projeção nacional e internacional como um dos principais articuladores do "Breque dos Apps", paralização nacional dos trabalhadores em aplicativos que aconteceu durante o início da pandemia de Covid-19 no Brasil em 2020.

Também integrou o movimento Entregadores Antifascistas e o coletivo Revolução Periférica, tornando-se amplamente conhecido pela participação na organização do ato que resultou no incêndio da Estátua de Borba Gato, em São Paulo, em Julho de 2021..Trecho do artigo: Nesse contexto, Galo tornou-se figura proeminente que, ao demandar das empresas de aplicativo condições mínimas para a sobrevivência dos entregadores, politizou o movimento e se esforçou para construir uma categoria profissional. No ano seguinte, Galo, também membro do coletivo Revolução Periférica, foi preso e um dos responsabilizados pela queima da estátua de Borba Gato, em São Paulo, em 24 de julho de 2021.

Em fevereiro de 2023, Galo denunciou ter sido vitima de tortura durante uma abordagem policial. Segundo seu relato, teria ido espancado, queimado e submetido a humilhações por agentes de segurança, que fizeram referencia ao episódio da Estátua de Borba Gato.

Biografia

Paulo Roberto da Silva Lima nasceu em São Paulo, em 21 de março de 1989, filho de um casal de floristas nordestinos oriundos da Bahia que migraram para São Paulo e que se estabeleceram na periferia da capital paulista. Durante a sua infância, Paulo Lima auxiliava seus pais na procura de flores em uma serra situada nas proximidades de Santos.

Desde a infância, Paulo Lima tem vivido em diversos bairros periféricos de São Paulo, situados na Zona Sul, como é o caso da favela do Sapé, do Campo Limpo, e do Parque Laguna, e os situados na Zona Oeste, como o Jardim Guarau, vivência que ajudou na formação de sua personalidade e na sua conscientização acerca dos problemas sociais que atingem a população negra e pobre da periferia paulistana.

Após presenciar um episódio de aporofobia, racismo, xenofobia e violência policial envolvendo o seu pai, ainda durante a sua infância, Paulo Galo se revoltou com a agressão injustificada praticada por policiais militares contra seu genitor e, então, decidiu canalizar sua revolta para a arte, vindo a se tornar artista de rap (rapper).

Durante a adolescência, Paulo Lima avançou no seu projeto de ser artista de Rap, o que contribuiu para a sua politização, ao ler diversas obras para buscar inspiração em suas composições, tais como livros que narravam a luta do ativista estadunidense Malcolm X, o livro As Veias Abertas da América Latina, do escritor uruguaio Eduardo Galeano, uma biografia do revolucionário argentino Che Guevara. Além dessas leituras, ele também teve contato com obras musicais, como o álbum A Peste Negra do Nordeste, do grupo de rap maranhense Clã Nordestino. Todas estas obras literárias e musicais forneceram para ele conceitos que até então lhe eram estranhos, como o de comunismo, luta de classes, anti-imperialismo e soberania nacional.

O apelido "Galo" foi atribuído devido ao uso pouco usual de uma moto esportiva CBX 750F, também conhecida como "Sete Galo", para fazer entregas.

De acordo com Galo, o movimento hip hop acabou sendo a principal fonte de formação intelectual, crítica social e conscientização política. Nesta época, ele passou a compor e cantar músicas desse estilo musical.

Ativismo político De acordo com o sociólogo brasileiro Tiaraju Pablo D'Andrea, professor na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), o pensamento e práxis de Paulo Galo o coloca na condição de um intelectual orgânico da classe trabalhadora e periférica, cuja formação extra-universitária foi forjada pela experiência da vida cotidiana e da cultura da periferia paulistana, com destaque para o movimento hip hop. É filiado no Partido Mobilização Nacional desde 2020.

Paulo Galo é um dos críticos do processo de uberização que atingem os trabalhadores de aplicativos. De acordo com esse ativista, esse processo impõe uma lógica de trabalho por aplicativos digitais que resulta numa espécie de escravidão contemporânea que é reflexo da crise do trabalho marcada pelo crescente desemprego que leva as pessoas a recorrerem formas precarizadas de prestação de serviços. Enquanto isso, as plataformas digitais se aproveitariam do fato de apenas efetuarem a conexão entre as empresas que fornecem bens e os consumidores, sendo os trabalhadores cadastrados definidos como "parceiros”, uma falsa igualdade que faz com que essas plataformas se eximam de qualquer responsabilidade, sendo os gastos derivados do exercício das atividades arcados pelos próprios motofretistas..Trecho do artigo: Paulo Galo (2021, n. p.), trabalhador dos serviços de entrega por meio de aplicativo (app), em entrevista concedida ao jornal Outras Palavras, afirmou que estamos em uma “lógica de exploração muito sofisticada”. O cadastro em um aplicativo é fonte para conhecer o grau de subsunção ao capital e para definir o momento exato da substituição da força de trabalho ou, ainda, saber “até quantas horas diárias de trabalho é possível aguentar”. Na prática, o que ocorre é um controle do capital sobre os/as trabalhadores/as, mas dando a ilusão de que eles/as gerenciam sua jornada de trabalho, apesar das perdas da proteção social e do trabalho. Esse processo denominado uberização impõe uma lógica de trabalho por app que resulta numa forma de escravidão contemporânea: “Eu fui atrás de emprego de motoboy, não tinha emprego de motoboy; eu tive que me cadastrar em um emprego de aplicativo” (Galo, 2021, n, p.). Para as empresas contratantes, os serviços que ofertam são apenas a realização da conexão entre elas e os/as usuários/as. Os/as trabalhadores/as cadastrados/as caracterizam-se apenas como “parceiros/as”, eximindo-as de qualquer responsabilidade. Os gastos advindos do exercício da função são arcados pelos/as trabalhadores/as (Manzano; Krein, 2020).

Entregadores Antifascistas Na condição de motociclista entregador (motofretista ou motoboy) por meio de plataformas de aplicativos, Paulo Lima "Galo" começou a desenvolver o seu ativismo político e sindical ainda no ano de 2020, quando essa classe de trabalhadores passou a ter uma elevação de sua carga de trabalho por causa das medidas de isolamento social adotadas durante a pandemia de Covid-19 no Brasil, sem que esse aumento de trabalho resultasse em quaisquer melhorias nas condições trabalhistas destes entregadores de aplicativos. Esta desigualdade nas relações de trabalho entre os motociclistas e as plataformas de aplicativos contribuiu para o surgimento do movimento social de trabalhadores, em que Paulo Galo se destacou como uma de suas principais lideranças.

Este movimento social de trabalhadores recebeu o nome de Entregadores Antifascistas, visto que ele surgiu no contexto dos protestos e manifestações que foram realizados ao longo de 2020 pedindo a saída do presidente Jair Bolsonaro, que por inúmeras vezes negou a gravidade da pandemia causada pelo Coronavírus e, de acordo com parte da opinião pública, não realizou esforços suficientes para garantir condições econômica mínimas para a população durante a pandemia. A mais conhecida destas mobilizações foi o famoso Breque dos Apps de 10 de junho de 2021, em que foram reunidos diversos motofretistas que paralisaram suas atividades para reivindicar melhores condições de trabalho.

Revolução Periférica Em 28 de julho de 2021, juntamente com Danilo Oliveira "Biu", Paulo Lima Galo se apresentou espontaneamente à 11º Delegacia de Polícia, situada em Santo Amaro para assumir a autoria do incêndio da estátua de Borba Gato ocorrido em 24 de julho de 2021 com o propósito de realizar um ato simbólico de natureza política para debater o papel dos bandeirantes no genocídio de populações indígenas e negras. Danilo acabaria sendo liberado, enquanto Galo acabou sendo preso.Justiça determina prisão de suspeito de incendiar estátua do Borba Gato; 'objetivo foi abrir debate sobre o genocida e abusador de mulheres', diz preso

À imprensa na época, Paulo "Galo" declarou que tinha o objetivo de "abrir um debate", sem pretensões de machucar qualquer pessoa ou causar pânico, pois o que se pretendia era provocar nas pessoas uma reflexão para que elas decidissem "se querem ter uma estátua de 13 metros de altura que homenageia um genocida e um abusador de mulheres".

Galo ficou preso durante 14 dias, tendo sido posto em liberdade em 11 de agosto de 2021, após decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que havia concedido uma liminar em um habeas corpus ajuizado pela defesa de Paulo Galo em 5 de agosto de 2021.

Atuação como cantor e compositor de rap Desde a adolescência, Paulo Galo buscou se desenvolver como artista de rap, tendo participado de vários movimentos de hip hop que aconteciam na periferia de São Paulo. Entre os eventos que ele participava estava a Cooperifa, um sarau de poesias que acontecia nestes espaços alternativos, no qual Galo foi levado pelo Du Guetto, pelo Gato Preto e por outros artistas e envolvidos com a cena rapper.

Ataques sofridos Uma reportagem da Agência Pública datada de março de 2022 informou que, após analisar uma série de documentos, fotos e relatos, teria descoberto que a plataforma digital iFood tinha desenvolvido uma "máquina oculta de propaganda" com o objetivo de desacreditar lideranças motoboys e sabotar a organização dos entregadores por melhores condições de trabalho. Este mecanismo envolvia a contratação de agências de publicidade que utilizavam táticas que levam a uma desinformação do público em geral, por meio da criação de memes, páginas e perfis falsos (trolls) nas redes sociais, além de infiltrar agentes em manifestações para espionar ou sabotar as atividades. De acordo com o designer Gus Kondo, que analisou esses episódios à luz do design, as táticas adotadas pela citada corporação reproduziam os métodos adotados pelo FBI para desarticular movimentos sociais que estavam ativos nos Estados Unidos dos anos 1956 a 1971, com destaque para o Partido dos Panteras Negras e para o Movimento dos Direitos Civis.

Em 15 de fevereiro de 2023, durante o período de seis da manhã ao meio-dia, Paulo Galo foi vítima de violência policial ao ser parado enquanto pilotava sua moto sem capacete. Durante esta abordagem, os agentes de segurança pública vinculados ao Estado de São Paulo teriam excedido no uso da força, não somente empregando-a de forma desproporcional diante da situação, como ainda teriam executado supostos atos de tortura, que teriam resultado em lesões no braço do ativista.

Galo recebeu manifestações públicas de apoio de sindicatos, movimentos populares, organizações de direitos humanos e lideranças políticas. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) divulgou uma nota de solidariedade na qual repudiou as violências denunciadas, classificou o episódio como tortura e cobrou investigação do caso.

Controvérsias

Incêndio da estátua de Borba Gato e prisão Em 24 de julho de 2021, o movimento Revolução Periférica por meio de seus membros Paulo Galo, líder dos Entregadores Antifascistas de São Paulo) e Danilo Oliveira "Biu" realizou um ato simbólico de natureza política ao incendiar a Estátua de Borba Gato com o propósito de promover um debate sobre o papel dos bandeirantes no genocídio indígena e negro no estado de São Paulo. Mesmo tendo se apresentado voluntariamente à polícia, Galo acabou sendo preso, enquanto Biu foi liberado.