A língua lepcha, também conhecida como lapche, nünpa, rongke, róng, róng-ring, rongpa ou rongkup, é uma língua falada pelo nas regiões do Siquim e da Bengala Ocidental, na Índia, no distrito de Ilam, no Nepal e na província de Samtse no Butão.

O lepcha pertence à família linguística sino-tibetana, no ramo tibeto-birmanês. Há falantes atualmente, dentre os quais na Índia, no Nepal e no Butão.

A língua é considerada como ameaçada de extinção. Isso se dá porque, apesar de ser utilizada para a comunicação entre seus falantes, o número de pessoas que a usam está diminuindo.

Etimologia O exônimo lepcha deriva da palavra nepali "lāpce" ou "lāpcā", que originalmente significava ''discurso inarticulado''.

Por outro lado, os lepcha (que referem-se a si mesmos como róng) chamam sua língua pelo endônimo róngring, que vem da junção róng + ʔáríng, "a língua dos róng".

Distribuição A língua lepcha é falada principalmente em três países. Há cerca de 47300 falantes na Índia, principalmente no estado do Siquim mas também nos distritos mais ao norte do estado de Bengala Ocidental; 7730 no Nepal, no distrito de Ilam; e 2700 no Butão, na província de Samtse.

Os lepchas se autodividem em 4 grupos geográficos: Renjóngmú no Siquim; Támsángmú em Bengala Ocidental; ʔilámmú no Nepal; Promú no Butão. Esses quatro grupos falam variedades distintas da língua, que se reduzem, principalmente, a diferenças vocabulares, razão pela qual alguns autores não os consideram dialetos distintos. O lepcha falado pelos "Renjóngmú" possui maior influência do siquimês, enquanto o lepcha falado pelos "Támsángmú" possui uma maior influência do nepali.

História

História da língua A língua lepcha é uma língua sino-tibetana, como diversas outras faladas no altiplano tibetano. Entre os róng, a história tradicional conta que, a partir da da neve mais pura do monte Kanchenjunga, Deus criou Fodaongthing e Nazaongnyoo, os progenitores do povo róng, e conversou com eles na língua lepcha. Mais tarde, eles ensinaram a língua a seus filhos e descendentes, passando-as de geração em geração até os dias atuais.

História da documentação Os primeiros documentos ocidentais acerca da língua datam de 1840, quando Archibald Campbell publicou uma pequena lista de vogais utilizadas no lepcha. Campbell também publicou, em 1869, uma breve introdução ao lepcha. Em 1849, William Start e Karl Gottlieb Niebel conduziram durante algum tempo uma escola para as crianças lepchas em e traduziram partes da Bíblia para o lepcha. A primeira gramática da língua lepcha foi escrita por George Byres Mainwaring, o primeiro a produzir estudos aprofundados sobre a língua.

Porém, a documentação da língua lepcha floresceu somente quando Aathing Kharpu Tamsang foi selecionado para trabalhar na Escola de Estudos da África e do Oriente, na Universidade de Londres, junto com . Aathing escreveu uma série de livros e desenvolveu pesquisas sobre o lepcha. Alguns de seus trabalhos são:

A Grammar of the Lepcha language (1978) Lazaong (1982) Lepcha English Encyclopaedic Dictionary (1983)

Recentemente, os principais estudos sobre o lepcha vêm sendo feitos por Helen Plaisier.

História do ensino da língua Desde os anos 1920, os lepchas do distrito de lutaram para que o governo britânico introduzisse a língua lepcha nas escolas em seu distrito e no distrito de Darjeeling, mas o governo recusou as propostas e afirmou que os aborígines não poderiam ter seu idioma nas escolas e nem reconhecido como oficial.

Apesar de a Assosiação Indígena Tribal Lepcha demandar do governo do estado da Bengala Ocidental a introdução da língua lepcha nas escolas, o governo não atendeu ao pedido e a própria associação abriu 42 escolas noturnas de lepcha em Darjeeling. Em 2022, existiam 215 escolas noturnas ativas de lepcha em Darjeeling. A associação também publicou livros para o primário e secundário, novelas, prosas, poesias, revistas e reescritas de manuscritos lepchas antigos, além de introduzir uma fonte de computador para o abugida lepcha.

No estado de Siquim, o ensino em lepcha é oficial desde 1975, cobrindo as escolas primárias e sendo usado em algumas das universidades locais, como a Sikkim Alpine University.

Fonologia Consoantes A língua lepcha possui as seguintes consoantes: +Tabela de fonemas consonantais na língua lepchaBilabialDentalAlveolarAlveopalatalRetroflexoPalatalVelarUvularGlotalPlosiva AfricadaNasalTepeFricativa Aproximante As consoantes , , , , e possuem também as formas correspondentes aspiradas: pʰ, ʈʰ, tʰ, cʰ, kʰ e t͡sʰ.

As consoantes ʈ, ʈʰ e ɖ não são originais da língua lepcha, aparecendo somente em empréstimos do tibetano.

Vogais A língua lepcha possui as seguintes vogais: +Tabela de fonemas vocálicos em lepchaAnteriorCentralPosteriorNão-arredondadaArredondadaFechadaɯSemifechada~MédiaSemiabertaAberta

Alofonia O fonema /a/, em alguns casos, é pronunciado como [ɑ].

O fonema /e/ também é pronunciado como [ɯ] ou [ʌ].

O fonema /u/ pode ocorrer raramente na forma de [ɨ].

O fonema /f/, em alguns casos, é pronunciado como [ɸ].

O fonema /z/ também pode ser pronunciado como [d͡z].

O fonema /r/, em alguns casos, é pronunciado como [ɾ].

O fonema /ŋ/, em alguns casos, quando no início da sílaba, possui pronúncia de [ɦ].

Fonotática As sílabas em lepcha são da forma C(C)(C)V(C), onde C representa uma consoante, V representa uma vogal, e itens entre parênteses são opcionais. As seguintes consoantes podem aparecer:

n Na primeira posição da sílaba todas as consoantes do lepcha podem aparecer. Na segunda posição podem aparecer /j/, /r/ e /l/ - mais especificamente, o fonema /l/ pode aparecer após /p/, /k/, /g/, /f/, /h/, /m/ e /b/, enquanto /r/ pode aparecer após os fonemas /k/, /g/, /ŋ/, /p/, /f/, /b/, /m/, /h/ e /y/ após as consoantes /k/, /kʰ/, /g/, /t/, /tʰ/, /d/, /p/, /pʰ/, /f/, /b/, /m/, /r/, /l/, /h/, /ʔ/ e /v/. Todas as sílabas que possuem três consoantes no início são da forma C-ry-V ou C-ly-V. Ao final, como coda, podem aparecer apenas as consoantes: /k/, /p/, /r/, /t/, /ŋ/, /m/, /n/ e /l/.

Não há ditongos em lepcha, todas as sílabas possuem apenas uma vogal como núcleo. Ademais, não há sílaba começada em vogal; sempre que isso acontece, a sílaba é realizada com a consoante ʔ como .

Transformações fonológicas Alguns exemplos de fenômenos fonológicos em lepcha:

Os fonemas /k/ e /g/ antes de /i/ e /e/ são palatizados, sendo realizados como [kʲ] e [gʲ], respectivamente. Os fonemas /k/, /t/ e /p/, quando na posição de coda, são realizados sem voz, nas formas [k̚], [t̚] (ou [t̪̚]) e [p̚]. Caso seja ao final da palavra, são comumente reforçados com ʔ antes do fonema, na forma de [ʔk̚], [ʔt̚] (ou [ʔt̪̚]) e [ʔp̚]. Os falantes ''Renjóngmú" pronunciam kr-, hr- ou gr- como ʈ, ʈʰ e ɖ, respectivamente. O fonema /ʃ/ é despalatalizado, pronunciado como /s/ após /i/. Os fonemas /l/ e /r/, após /h/, tornam-se : [r̥] e [l̥]. Os fonemas /v/ e /w/, apesar de serem considerados diferentes na língua lepcha, são pronunciados como [v], exceto quando os falantes sentem a necessidade de diferenciá-los. Tal assimilação ocorreu, principalmente, pela influência do nepali. O mesmo ocorre entre /f/ e /pʰ/. Os fonemas /o/ e /ɔ/ são comumente pronunciados um pouco , como [o̝] e [ɔ̝], respectivamente. Os fonemas /d/ e /t/, geralmente, são pronunciados dentalizados, na forma de [d̪] e [t̪], respectivamente.

Ortografia miniaturadaimagem|Manuscrito lepcha antigo

miniaturadaimagem|Símbolos consonantais e exemplos práticos de modificação das consoantes na escrita lepcha

miniaturadaimagem|Símbolos da escrita lepcha

Escrita lepcha A escrita lepcha é um abugida criado especificamente para ela. Inspirada na escrita tibetana, ela pertence à família de escritas brâmicas. O abugida lepcha é escrito da direita para a esquerda e, diferente do tibetano, utiliza espaço para separar as palavras.

Como nos demais abugidas brâmicos, os símbolos principais representam as consoantes iniciais da sílaba, enquanto as vogais e as consoantes de coda são representadas como diacríticos. A vogal /a/ não é marcada. A imagem ao lado exibe os símbolos usados na escrita lepcha. Os símbolos em que só aparecem uma vogal possuem um fonema /ʔ/ inerente na posição de .

A escrita lepcha está disponível no Unicode.

História De acordo com a tradição lepcha, a escrita lepcha foi inventada pelo estudioso Thikúng Mensalóng, inspirado por missionários budistas, no século XVII, sendo baseada na escrita tibetana. Inicialmente, era escrita na vertical, de cima para baixo, mas, com o passar do tempo, houve uma rotação de 90º e a escrita passou a ser na horizontal. O primeiro texto impresso em lepcha foi uma tradução do Evangelho de São Matheus, publicado em 1845.

Romanização

A romanização da escrita lepcha foi primeiramente proposta por George Byres Mainwaring. Atualmente, usa-se essa romanização com algumas pequenas modificações. A transliteração dos fonemas em lepcha para a escrita latina está exibida na tabela abaixo: +Romanização da língua lepchaLetraSom(IPA)Pronúnciaa/ə/[ə] como no som entre as consoantes /d/ e /v/ da palavra advogado, no sotaque portuguêsâá/a/[a] como em falarb/b/[b] como em bemc/c/ [c] sem equivalente em portuguêsch/cʰ/ [cʰ] sem equivalente em portuguêsd/d/[n] como em nadardr/ɖ/ [ɖ] sem equivalente em portuguêse/e/[e] como em estrela/ɛ/[ɛ] com em ervaf/f/[f] como em fogog/g/[g] como em águah/h/[h] como em hat, em inglêsi/i/[i] como em istoíj/ʒ/[ʒ] como em jeitok/k/[k] como em comok/kʰ/[kʰ] como em come, em inglêsl/l/[l] como em elesm/m/[m] como em marn/n/[n] como em nuvemny/ɲ/[ɲ] como em montanhang/ŋ/[ŋ] como em sing, em inglêso/o/[o] como em novoó/ɔ/[ɔ] como em copop/p/[p] como em soprarph/pʰ/[pʰ] como em support, em inglêsr/r/ [r] sem equivalente em portuguêss/s/[s] como em sersh/ʃ/[ʃ] como em chát/t/[t] como em contarth/tʰ/[tʰ] como em two, em inglêstr/ʈ/ [ʈ] sem equivalente em portuguêstrh/ʈʰ/ [ʈʰ] sem equivalente em portuguêsts/t͡s/[t͡s] como em pizzatsh/t͡sʰ/ [t͡sʰ] sem equivalente em portuguêsu/ɯ/ [ɯ] sem equivalente em portuguêsú/u/[u] como em luav/v/[v] como em vidaw/w/[w] como em euy/j/[j] como em jeitoz/z/[z] como em dizerʔ/ʔ/[ʔ] como na pausa da expressão de negação ã-ã Apesar de alguns fonemas possuírem duas versões na transliteração latina, isso se deve ao fato dos grafemas correspondentes em lepcha também serem diferenciados, provavelmente, devido à razões históricas.

Gramática Pronomes A língua lepcha utiliza pronomes pessoais e possessivos invariáveis em gênero mas com três flexões de número (singular, dual e plural). Além disso, as formas do singular possuem diferença entre forma reta e oblíqua.

Pronomes pessoais A língua lepcha possui os seguintes pronomes pessoais: +Pronomes pessoais em lepcha Singular (oblíquo) Dual Plural Primeira pessoa go (kasu) kányí káyú Segunda pessoahó (ʔádo) ʔányí ʔáyú Terceira pessoa hu (hudo) hunyí huyú

Pronomes possessivos Para formar os pronomes possessivos dos casos dual e plural em lepcha, basta acrescentar o sufixo "-sá" no pronome pessoal correspondente. Caso o pronome seja de alguma pessoa no singular, usa-se a forma obliqua do pronome pessoal. +Pronomes possessivos em lepcha Singular Dual Plural Primeira pessoa kasusá kányísá káyúsá Segunda pessoaʔádosá ʔányísá ʔáyúsá Terceira pessoa hudosá hunyísá huyúsá

Pronomes demonstrativos Os pronomes demonstrativos em lepcha são construídos a partir dos prefixos "ʔá-", que indica proximidade em relação ao falante, e "ʔo-", que indica distância em relação ao falante (similar ao uso antigo do português isto versus isso).

Há, ainda, os morfemas "pe-" ou "pí-" (intercambiáveis), que significam "lá"(mais longe do que o indicado pelo prefixo "ʔo-"), o prefixo "me-", que significa "lá em baixo", e o prefixo "ta-" ou "tá-", que quer dizer "lá em cima".