Guerra Civil no Sudão é um conflito interno em curso que teve início a 15 de abril de 2023, principalmente entre duas facções do governo militar do país. O conflito envolve o governo controlado pelas Forças Armadas Sudanesas e internacionalmente reconhecido, ante às Forças de Apoio Rápido, uma força paramilitar liderada pelo General Hemedti, que lidera a coligação mais ampla dos Janjaweed. As Forças Armadas Sudanesas são lideradas pelo General Abdel Fattah al-Burhan e compostas pelo Exército, pela Marinha, pela Força Aérea e pela Guarda Republicana.
Grupos armados de menor dimensão também têm participado. Os combates começaram na sequência de uma luta pelo poder no seio do governo que tinha tomado o poder após o golpe de 2021. Segundo a ONU, 14 milhões de pessoas foram forçadas a fugir devido ao conflito até 13 de abril de 2026, o que acarretou na atual maior crise de deslocados do mundo. O Conselho de Segurança das Nações Unidas impõe um embargo de armamentos e sanções. A União Europeia e os Estados Unidos da América sancionam o governo sudanês e as Forças de Apoio Rápido.
Antecedentes
Desde que o Sudão conquistou a independência em 1956, o país sofreu 20 tentativas de golpes militares, o maior número entre todas as nações africanas. O Sudão tem sido habitualmente governado por militares, intercalados com curtos períodos de regime parlamentar democrático.
Duas guerras civis — a de 1955–1972 e a de 1983–2005 — entre o governo central e as regiões do sul, mataram 1,5 milhões de pessoas e, em última análise, levaram à independência do Sudão do Sul em 2011. Paralelamente, o conflito na região ocidental do Darfur deslocou dois milhões de pessoas e matou mais de 200.000.
Guerra no Darfur e a formação das RSF Na virada do século XXI, a região ocidental sudanesa de Darfur havia suportado instabilidade e conflitos sociais prolongados devido a tensões étnicas e disputas por terra e água. Em 2003, essa situação eclodiu numa rebelião em grande escala contra o governo, contra a qual o presidente e homem forte militar Omar al-Bashir prometeu usar a força. A resultante Guerra do Darfur foi marcada por atos de violência generalizados patrocinados pelo Estado, levando a acusações de crimes de guerra e genocídio contra al-Bashir. A fase inicial do conflito deixou aproximadamente 300.000 mortos e 2,7 milhões de pessoas deslocadas à força; embora a intensidade da violência tenha diminuído posteriormente, a situação na região permaneceu longe de ser pacífica.
Para esmagar as revoltas de tribos não-árabes nos Montes Nuba, al-Bashir apoiou-se nos Janjaweed, uma coleção de milícias árabes Baggara formadas a partir de tribos comerciantes de camelos que operavam em Darfur e em partes do Chade. Em 2013, al-Bashir anunciou que os Janjaweed seriam reorganizados como as Forças de Apoio Rápido (RSF - *Rapid Support Forces*) e anunciou também que as RSF seriam colocadas sob o comando do general Janjaweed, Hemedti. As RSF perpetraram assassinatos em massa, violações em massa, pilhagens, tortura e destruição de aldeias. Foram acusadas de cometer limpeza étnica contra os povos Fur, Masalit e Zaghawa. Líderes das RSF foram indiciados por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), mas Hemedti não foi pessoalmente implicado nas atrocidades de 2003–2004.
Em 2017, uma nova lei deu às RSF o estatuto de uma "força de segurança independente". Hemedti recebeu várias minas de ouro no Darfur como clientelismo por parte de al-Bashir, e a sua riqueza pessoal cresceu substancialmente. Bashir enviou as forças das RSF para esmagar uma revolta em 2013 no Darfur do Sul e destacou unidades das RSF para combater no Iêmen e na Líbia. Durante este período, as RSF desenvolveram uma relação de trabalho com a organização militar privada russa Grupo Wagner. Estes desenvolvimentos garantiram que as forças das RSF crescessem para dezenas de milhares de membros e passassem a possuir milhares de carrinhas pickup armadas (technicals) que patrulhavam regularmente as ruas de Cartum. O regime de Bashir permitiu a proliferação das RSF e de outros grupos armados para prevenir ameaças à sua segurança vindas de dentro das próprias forças armadas, uma prática conhecida como "prevenção de golpes" (coup-proofing).
Transição política
Em dezembro de 2018, começaram os protestos contra o regime de al-Bashir, iniciando a primeira fase da Revolução Sudanesa. Oito meses de desobediência civil prolongada foram recebidos com repressão violenta. Em abril de 2019, os militares (incluindo as RSF) depuseram al-Bashir num golpe de estado, pondo fim a três décadas do seu governo; os militares estabeleceram o Conselho Militar de Transição, uma junta. Bashir foi preso em Cartum; não foi entregue ao TPI, que havia emitido mandados para a sua prisão por acusações de crimes de guerra. Os protestos exigindo um governo civil continuaram; em junho de 2019, as forças de segurança do CMT, que incluíam tanto as RSF quanto as FAS (Forças Armadas Sudanesas), perpetraram o Massacre de Cartum, no qual mais de cem manifestantes foram mortos e dezenas foram estuprados. Hemedti negou ter orquestrado o ataque.
Em agosto de 2019, em resposta à pressão internacional e à mediação da União Africana e da Etiópia, os militares concordaram em partilhar o poder num governo de união nacional civil-militar interino (o Conselho de Soberania de Transição), liderado por um Primeiro-Ministro civil, Abdalla Hamdok, com eleições planeadas para 2023. Em outubro de 2021, os militares tomaram o poder num golpe liderado pelo líder das Forças Armadas do Sudão (FAS), Abdel Fattah al-Burhan, e por Hemedti. O Conselho de Soberania de Transição foi reconstituído como uma nova junta militar liderada por al-Burhan, monopolizando o poder e interrompendo a transição do Sudão para a democracia.
Origens do SPLM-N e do SLM O Movimento de Libertação do Sudão (ou Exército; SLM, SLA ou SLM/A) é um grupo rebelde ativo no Darfur, composto principalmente por membros de grupos étnicos não-árabes e criado em resposta à sua marginalização pelo regime de Bashir.Flint, Julie and De Waal, Alexander (2008) Darfur: A New History of a Long War Zed Books, London, pp. 16–17, Jok, Jok Madut (2007) Sudán: Race, Religion and Violence Oneworld, Oxford, p. 4 Desde 2006, o movimento dividiu-se em várias facções devido a desentendimentos sobre o Acordo de Paz de Darfur, com algumas facções juntando-se ao governo em Cartum."Darfur Peace Agreement Fact Sheet" Office of the Spokesman, U.S. Department of State, May 2006, from Internet Archives Em 2023, as três facções mais proeminentes eram o SLM-Minnawi liderado por Minni Minnawi, o SLM-al-Nur sob o comando de Abdul Wahid al-Nur e o SLM-Tambour liderado por Mustafa Tambour. O SLM-Minnawi e o SLM-Tambour assinaram o Acordo de Paz de Juba de 2020, cessando as hostilidades e recebendo nomeações políticas, mas o SLM-al-Nur recusou-se a assinar e continuou a lutar.
O SPLM-N foi fundado por unidades do predominantemente sul-sudanês Exército de Libertação do Povo do Sudão (SPLA) estacionadas em áreas que permaneceram no Sudão após a votação pela independência do Sudão do Sul em 2011. Estas forças lideraram então uma rebelião nos estados do sul de Kordofan do Sul e Nilo Azul alguns meses depois. Em 2017, o SPLM-N dividiu-se entre uma facção liderada por Abdelaziz al-Hilu e uma liderada por Malik Agar, com al-Hilu exigindo o laicismo como condição para a paz, ao que Agar não concordou. Durante a revolução sudanesa, a facção de al-Hilu declarou um cessar-fogo unilateral por tempo indeterminado. Em 2020, foi assinado um acordo de paz entre o governo sudanês e a facção de Agar, com Agar juntando-se mais tarde ao Conselho de Soberania de Transição em Cartum. Al-Hilu resistiu até concordar em assinar um acordo de paz separado com o governo sudanês alguns meses depois. Outras medidas para consolidar o acordo estagnaram após o golpe de 2021, e a facção de al-Hilu assinou em vez disso um acordo com o SLM-al-Nur e o Partido Comunista Sudanês, concordando em cooperar para redigir uma 'carta revolucionária' e afastar os militares do poder.
Prelúdio Nos meses seguintes ao golpe de 2021, a já débil economia sudanesa registou um declínio acentuado, alimentando amplos protestos que exigiam que a junta devolvesse o poder às autoridades civis. Surgiram tensões entre al-Burhan e Hemedti relativamente à reintegração por parte de al-Burhan de funcionários islamistas da velha guarda que haviam dominado o governo de Omar al-Bashir. Hemedti viu a nomeação destes funcionários como um sinal de que al-Burhan estava a tentar manter o domínio da elite tradicional de Cartum sobre a política sudanesa. Isto representava um perigo para a posição política das RSF, uma vez que tais elites eram hostis a Hemedti devido à sua origem étnica como um árabe do Darfur. A expressão de pesar de Hemedti pelo golpe de outubro de 2021 sinalizou um fosso cada vez maior entre ele e al-Burhan.
As tensões entre as RSF e as FAS começaram a escalar em fevereiro de 2023, quando as RSF iniciaram o recrutamento de membros em todo o Sudão. Ao longo de fevereiro e início de março as RSF concentraram forças na capital sudanesa, Cartum, até que um acordo foi intermediado em 11 de março e as RSF se retiraram. Como parte deste acordo, realizaram-se negociações entre as FAS, as RSF e líderes civis, mas essas negociações foram adiadas e paralisadas por divergências políticas. A principal das disputas era a integração das RSF nas forças armadas: as RSF insistiam num calendário de 10 anos para a sua integração no exército regular, enquanto o exército exigia a integração no prazo de dois anos. Outras questões contestadas incluíam o estatuto conferido aos oficiais das RSF na futura hierarquia e se as forças das RSF deveriam estar sob o comando do chefe do exército e não do comandante-em-chefe do Sudão, al-Burhan.
Em 11 de abril de 2023, as forças das RSF destacaram-se perto da cidade de Merowe, bem como em Cartum.Sudan: clashes around the presidential palace, there are fears of a coup attempt in Khartoum – video , 15 de abril de 2023. As forças governamentais ordenaram-lhes que saíssem e a sua recusa deu origem a confrontos, com as forças das RSF assumindo o controlo da base militar de Soba a sul de Cartum. Em 13 de abril, as forças das RSF iniciaram a sua mobilização, suscitando receios de uma potencial rebelião contra a junta. As FAS declararam a mobilização como ilegal.
Eventos 2023 Em 15 de abril, rebeldes das Forças de Suporte Rápidas (RSF) atacaram as bases das Forças Armadas Sudanesas (SAF) por todo o Sudão, incluindo a maioria da cidade de Cartum e seu aeroporto. Os confrontos entre os dois grupos ocorreram no Palácio Presidencial e na residência do general Al-Burhan. Em resposta, a SAF fechou todos os aeroportos e realizou ataques aéreos contra posições do RSF. Houve confrontos na sede da emissora estatal, a Sudan TV, que foi capturada pelas forças rebeldes do RSF. Pontes e estradas em Cartum foram fechadas e a RSF afirmou que todas as estradas que seguem para o sul de Cartum foram fechadas. Em 16 de abril, as SAF anunciou o resgate de um major-general e um brigadeiro, a prisão de vários oficiais da RSF e a tomada do aeroporto de Merowe. A Autoridade de Aviação Civil do Sudão fechou o espaço aéreo do país e o provedor de telecomunicações MTN desligou os serviços de internet. Os confrontos recomeçaram em 17 de abril em Cartum, Ondurmã e no aeroporto de Merowe. As forças armadas sudanesas reivindicaram o controle da sede da Sudan TV e da rádio estatal na capital e os rebeldes lançaram um vídeo em sua página do Twitter.