A Torre em Concurso é uma comédia de costumes em três atos, escrita em estilo burlesco por Joaquim Manuel de Macedo e publicada em 1863.Texto original da peça no site Wikimedia Commons. Classificada pelo autor como uma "comédia burlesca", a peça satiriza os costumes políticos do interior do Brasil Império a partir do enredo de um concurso fraudulento para a construção da torre de uma igreja, no qual dois forasteiros se fazem passar por engenheiros ingleses para tirar proveito da situação.
Enredo A administração de um curato determina a abertura de concurso para a contratação de engenheiro com fins de construção de uma torre para a igreja local. Por determinação do edital, o engenheiro deveria ser de procedência inglesa.
Por não haver quem entendesse inglês na cidade, dois malandros, Crespim e Pascoal, vindos de fora da cidade, decidem se passar por ingleses e competir pelo direito de construir a torre, mesmo sem ser engenheiros, para obter dinheiro fácil. Ambos fingiam falar em inglês usando palavras falsas, e embora ambos soubessem que o outro também era um farsante, nenhum dos dois ousava desmascarar o adversário temendo também ser descoberto.
Há várias cenas na peça que fazem comédia de situações da vida do interior da época, incluindo críticas sociais, de costumes, e de situações comuns do dia a dia. Há também um tom de sátira política na obra. Por exemplo, a decisão de que o engenheiro contratado deveria ser de uma nacionalidade específica apenas por ser considerado "melhor" do que outras nacionalidades (sendo apenas uma preferência pessoal da comissão que possuía o poder de decisão); ou comentários de que certas opiniões só deveriam ser levadas em consideração se a pessoa em questão fosse um "eleitor influente".
Personagens João Fernandes: juiz de paz da localidade, personagem sem força de caráter, conduzido ora pela irmã, ora pelas influências eleitorais. Ana: irmã de João Fernandes, cujos interesses pessoais interferem na condução do concurso. Bonifácio: escrivão responsável pela redação do edital de abertura do concurso. Crespim e Pascoal: dois forasteiros que se fazem passar por engenheiros ingleses para disputar o contrato da torre. Germano: personagem subordinado. Batista: partidário que, após ser desrespeitado por Pascoal, muda de facção política.
Análise Em 1866, Machado de Assis, então crítico teatral do Diário do Rio de Janeiro, dedicou parte de sua série de artigos "O Teatro de Joaquim Manuel de Macedo" à peça, afirmando que ela definia e resumia com perfeição as tendências cômicas do autor. Para Machado, Macedo raramente alcançava a "alta comédia" ou a "comédia de caráter", recorrendo antes à sátira e ao burlesco como recursos que garantiam o aplauso imediato das plateias; A Torre em Concurso, que o próprio autor rotulara como "comédia burlesca", seria o exemplo mais acabado dessa escolha estética, ao lado de O Fantasma Branco e O Novo Otelo. Ainda assim, o crítico reconhecia mérito na sátira política da obra, identificando na disputa entre facções pela contratação do engenheiro, na fraude eleitoral e na interferência da personagem Ana um retrato eficaz, embora "carregado", dos costumes políticos do período.
A pesquisadora Vilma Arêas retomou a peça em um estudo comparativo entre Macedo e Martins Pena. Arêas situa A Torre em Concurso entre os diferentes registros explorados por Macedo dentro da comédia, ao lado das peças de inspiração francesa (O Primo da Califórnia), das "óperas" (O Fantasma Branco) e do vaudeville (O Macaco do Vizinho), como o exemplo mais representativo de sua vertente burlesca. A autora aproxima ainda a peça de O Novo Otelo, do mesmo Macedo, e de Os Ciúmes de um Pedestre, de Martins Pena, ambas paródias da recepção romântica do Otelo shakespeariano então popularizada no Brasil pelas interpretações de João Caetano. Arêas observa também que falas da peça, como a exclamação da personagem Crespim ao comparar sua correria em busca de reconhecimento a uma condição de servidão, exemplificam como o vocabulário da sociedade escravista permeava, por vezes de modo quase incidental, a linguagem cômica da comédia de costumes romântica.
Ao menos uma montagem profissional do século XX é registrada, a realizada em 1959, em São Paulo, pelo Teatro Popular do Sesi (TPS), sob direção de Osmar Rodrigues Cruz.
Referências
Categoria:Obras de Joaquim Manuel de Macedo