João Pinto da Silva (Jaguarão, 24 de junho de 1889 — Genebra, 13 de novembro de 1950) foi um jornalista, cronista, poeta, crítico literário, historiador e diplomata brasileiro. É considerado consensualmente um dos principais críticos literários ativos no Rio Grande do Sul no início do século XX, se não o maior, e o pioneiro na sistematização da história da literatura sulina.

Biografia

Filho de Delfino Pinto da Silva e Amélia das Neves Uchôa,"Juizo de casamentos". A Federação, 01/05/1912, p. 2 nasceu em Jaguarão em 24 de junho de 1889.Vellinho, Camila Lima. Modernismo e Regionalismo na crítica literária sul-rio-grandense. Mestrado. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2011, pp. 40-41 Sua família tinha modestos recursos, e cedo teve de trabalhar. Iniciou como ajudante de tipografia no jornal Diário de Jaguarão, depois foi tipógrafo do Comércio, passando em seguida a redator.Pianta, Dante. "Personalidades Rio-Grandenses: João Pinto da Silva". Diário de Notícias, 09/02/1963, p. 4 Foi agente do jornal Situação, órgão do Partido Republicano,"Herval". A Federação, 11/07/1910, p. 1 e fundou o jornal Liberdade. Formou-se em Direito,Ferreira, Bruno Escalante. Ainda não é o Prata e já não é, tampouco, o Brasil: uma análise da escrita da história do Rio Grande do Sul de João Pinto da Silva. Licenciatura. Universidade Federal do Pampa, 2016, pp. 9-10 e em 11 de outubro de 1910 foi nomeado procurador público interino da comarca de Jaguarão."O desembargador". A Federação, 19/10/1910, p. 2

Permaneceu na procuradoria de Jaguarão até dezembro de 1911, quando foi nomeado 2º escriturário da Secretaria de Obras Públicas do Estado,"Foi nomeado". A Federação, 20/12/1911, p. 4 transferindo-se então para Porto Alegre. Em janeiro de 1912 já colaborava no jornal A Federação da capital, órgão do Partido Republicano, como comentarista político.Silva, João Pinto da. "A estrategia do federalismo" A Federação, 13/01/1912, p. 1Silva, João Pinto da. "Senador Pinheiro. A Federação, 25/01/1912, p. 1 Colaborou também no Diário de Porto Alegre, assumindo a chefia da redação em janeiro de 1917,"Viajantes". A Federação, 21/03/1916, p. 3"O Diário". A Federação, 04/01/1917, p. 4 e nas revistas Illustração Pelotense, Província de São Pedro e Máscara (desde o primeiro número),"Nossos collaboradores". Máscara, 1918; I (1): 14 publicando poesias, crônicas e crítica literária.Baumgarten, Carlos Alexandre. "Imprensa e Crítica Literária: os exemplos de João Pinto da Silva e Antônio de Mariz". In: Letras de Hoje, 1983; 18 (3)

Em 1916, completando a transição da fase da tipografia manual para a da linotipia, a Livraria do Globo se tornou apta para lançar o seu primeiro grande projeto editorial, o Almanaque do Globo, convidando Pinto da Silva para assumir a direção da publicação juntamente com Mansueto Bernardi. O Almanaque iniciou sua tiragem em 1917 oferecendo atualidades, charadas e curiosidades, mas também, indo além do perfil típico dos almanaques da época, tinha uma definida proposta educativa e cultural. Contava com destacados colaboradores, publicando artigos de história, geografia, gramática, literatura e crítica literária em uma linguagem acessível, tornando-se um sucesso de público.Silva, André Rodrigues da & Arriada, Eduardo. "O Almanaque do Globo: O seu Processo Didático e Literário em meio a Propagação da Indústria Cultural no Rio Grande do Sul (1917 – 1933)". In: XVIII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sul. Caxias do Sul, 15-17/06/2017 Em 1919 estava entre os fundadores do Sul Jornal."Sul-Jornal". Máscara, 1919; II (44): 22

Foi um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul em 1920, e membro da sua comissão de Arqueologia, Etnografia e Paleontologia. A instituição desde o início se preocupou em organizar a escrita da memória e consolidar uma identidade política e cultural para o Rio Grande do Sul. Estabeleceu contatos com a elite intelectual da capital e também com influentes figuras políticas, como Getúlio Vargas, Lindolfo Collor e Souza Docca.Ferreira, p. 29

Na Secretaria de Obras Públicas ascendeu à posição de diretor de expediente, foi oficial do gabinete dos presidentes do estado Carlos Barbosa e Borges de Medeiros, permanecendo na função por muitos anos, e em 1926 assumiu o cargo de secretário de Getúlio Vargas quando este foi ministro da Fazenda, acompanhado-o como secretário após ele se tornar presidente do estado em 1928.

Depois seguiu a carreira diplomática. Em 1931 era membro da delegação brasileira na Exposição de Sevilha, foi adido comercial nas embaixadas brasileiras de Madri, Paris e Ancara, e faleceu em 1950 em Genebra como cônsul geral do Brasil.Chagas, Wilson. "João Pinto da Silva: um crítico entre duas épocas". In: Letras de Hoje, 1984; 19 (3) Foi casado com Marieta Faria Brás,"Habilitam-se para casar". A Federação, 25/04/1912, p. 4 tendo o filho Paulo. Em 1921 casou-se pela segunda vez, com Adelina Monteiro."Echos". O Imparcial, 17/02/1921, p. 3

Moysés Vellinho deixou um testemunho significativo na conferência que proferiu sobre ele em 13 de novembro de 1951 no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, durante as comemorações do seu primeiro aniversário de falecimento:

"Ninguém se devotou com mais constância do que ele ao estudo dos homens, dos fatos e das letras do Rio Grande do Sul. Toda a sua vida de escritor e homem de pensamento, aqui e fora daqui, pode-se dizer que foi consagrada ao empenho, não de exaltar gratuitamente a gente e a terra desta extremadura, senão de entendê-las e fazê-las entender. [...] A atividade crítica de João Pinto da Silva – podemos dizê-lo sem nenhum favor – marcou época no Rio Grande do Sul e projetou seu nome largamente no cenário intelectual do país. O ensaísta, que acompanhara tão de perto o movimento anterior à Semana de Arte Moderna, havia de conquistar, entre os círculos literários do Rio e dos estados, a autoridade que se costuma reconhecer em quem, como ele, soube sempre se conduzir no exercício da crítica com invulgar equilíbrio e isenção. Isenção e equilíbrio são realmente os traços que melhor o definem. Comedido, maneiroso, fiel ao meio termo, era, sem dúvida, um espírito severamente disciplinado, sempre em guarda contra excessos e destemperos".Vellinho, Moysés. "João Pinto da Silva". Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, 2021 (160)

Obra

Seu trabalho de crítica literária foi muito respeitado em seu tempoFerreira, p. 17 exerceu importante influência sobre a geração seguinte, e geralmente é tido como um dos principais críticos literários rio-grandenses do início do século XX. Para o historiador da literatura Carlos Baumgarten, ele é o maior de todos em sua geração. Seu estilo de escrita é geralmente uma mistura de crônica e ensaio, trai uma influência do Parnasianismo em seu preciosismo e amor ao beletrismo, mas também recebeu influências do Romantismo e do Simbolismo, em sua valorização da afetividade, seu gosto por expressões em alguns momentos enfáticas e grandiosas, e nas relações que muitas vezes estabelece entre a produção literária e a biografia dos autores, suas desditas, seus amores e anseios pessoais, seu caráter e seus imperativos morais.

Sua abordagem analítica em parte é devedora da crítica impressionista e eclética do fim do século XIX, mas para Baumgarten ele foi um dos primeiros a desenvolver uma teoria estética bem organizada. Para Celso Vieira, ele é um "nobre estilista" e "um ágil e vigoroso espírito, armado da esplêndida noção de beleza helênica", "autor de ensaios penetrantes e originais", "um caso perfeito de elegância no dizer e justeza no pensar. [...] A evolução da crítica nacional tem nesse escritor, simpaticamente ilustre, um aspecto renovado pela sensibilidade, pela cultura, pelo verdadeiro entendimento das formas da arte, sem desequilíbrio ou exagero, vinculando no mesmo credo a serena beleza e a impecável razão".Vieira, Celso. "Letras amaveis". O Paiz, 25/09/1926, p. 3

Criticou certos aspectos do Modernismo, entre eles as suas contradições estéticas internas e a pouca coesão dos seus membros, mas reconheceu seu valor enquanto descoberta de "alguns matizes novos, sonoridades inéditas", que poderia trazer uma grande contribuição á cultura brasileira no futuro, embora no tempo em que escrevia isso ainda lhe parecesse apenas uma promessa. Na opinião de Camila Vellinho, "a visão que João Pinto da Silva tinha do momento histórico em que vivia e a forma como conseguia ver as implicações desse momento histórico nas manifestações artísticas fazem com que suas críticas mantenham sua atualidade".Vellinho C., pp. 48-49 Bruno Ferreira salientou que seu exame da literatura envolvia uma análise do processo histórico, estabelecendo relações de continuidades e rupturas na evolução dos estilos literários e a dependência do escritor em relação à contribuição de outros. Neste sentido, foi um dos primeiros autores em âmbito estadual a questionar a tradicional periodização do estilos em escolas autocontidas.Ferreira, pp. 25-29 Procurou resgatar a obra do poeta Cruz e Sousa, sendo um dos pioneiros no seu reconhecimento e valorização.

Para Baumgarten, o acerto e a atualidade do seu juízo crítico se deviam provavelmente ao exame direto das fontes, o que não era comum no ensaio sulino anterior, "marcado, em geral, por afirmações de caráter genérico e de feição doutrinária muito forte". Sua produção também se destaca pela preocupação com a análise dos processos técnicos da escrita e da construção de personagens literários; pela reflexão sobre a natureza e função da crítica; pelo continuado esforço em identificar e valorizar as especificidades da literatura gaúcha em relação à literatura brasileira, sem contudo defender, como muitos outros intelectuais gaúchos faziam, o separatismo cultural; pelo entendimento da literatura como a expressão da cultura em seu sentido amplo, o que o levou a incluir na análise literária aspectos sociológicos, econômicos e políticos; pelo grande espaço dedicado ao debate da questão nacionalista; pela crítica à influência norte-americana na América Latina, defendendo a sua autonomia e a sua união em uma grande pátria latino-americana; pela inclusão da dramaturgia no estudo do campo literário; pela análise das relações entre a América Espanhola e a América Portuguesa, louvando o sentimento nacional dos espanhóis e deplorando a ausência dele entre os brasileiros; e por fim se distingue dos críticos anteriores e outros de sua geração pelo seu consistente equilíbrio no exame e discussão dos assuntos literários, evitando levantar polêmicas. "Opinando sobre as principais questões colocadas por seu tempo, João Pinto da Silva confere à crítica literária sul-rio-grandense um caráter moderno, destituído de qualquer provincianismo. Homem atento às inovações que se processam no campo da literatura ao longo das três primeiras décadas do século, contribui com seu trabalho para equiparar o Rio Grande aos mais importantes centros intelectuais do país, no momento em que este passa por profundas transformações que vão determinar uma mudança de rumo na sua produção cultural". Augusto Meyer sintetizou sua trajetória: