Período pré-dinástico Egito (anterior a ) é a denominação tradicional empregada para o período que transcorreu entre o Neolítico Tardio e o início da monarquia faraônica formada pelo rei Menés (ou Narmer). As datas do período pré-dinástico foram inicialmente definidas antes da escavação geral do Egito ter ocorrido, e descobertas recentes mostram que o desenvolvimento pré-dinástico foi muito gradual causando nos estudiosos uma discussão sobre quando exatamente o período pré-dinástico terminou.
O período pré-dinástico é geralmente dividido em períodos culturais que adquirem o nome do lugar onde um determinado tipo de assentamento egípcio estava localizado. Contudo, o mesmo desenvolvimento gradual que caracteriza o período protodinástico está presente durante todo o período pré-dinástico e as individuais "culturas" não devem ser entendidas como entidades separadas, mas divisões, como em grande parte subjetivas, utilizadas para facilitar o estudo de todo o período.
O período pré-dinástico foi precedido pelo neolítico Badariano (4 400 a.C. — 3 900 a.C.) e por outras culturas nilóticas, incluindo a cultura de Nabta Plaia, a cultura Tasiana, a cultura de al-Fayyum e a cultura de Merinde.
A maioria dos sítios arqueológicos escavados no Egito provém do Alto Egito, pois as inundações do Rio Nilo foram mais fortes na região do Delta, e a maioria dos sítios do Delta do período pré-dinástico já foram enterrados por completo.
Período pré-dinástico
O período pré-dinástico abrange de a , momento caracterizado por um intenso processo de desertificação (as atuais condições climáticas egípcias foram estabelecidas), o início da agricultura integralmente sedentária e a padronização da cultura ao longo de toda o Egito; as práticas médicas egípcias mais antigas foram datadas deste período. Ao longo do pré-dinástico as culturas egípcias que compunham as comunidades ribeirinhas do Nilo começaram a se unificar e formar pequenos Estados ao longo do Nilo; segundo a Pedra de Palermo o Egito se unificou em dois reinos, um no Alto e outro no Baixo Egito.
Oásis de Dacla
Com base em quatro datas radiocarbônicas foi possível estabelecer que a cultura Xeique Muftá desenvolveu-se entre e , embora autores como McDonald acreditem que possa ter existido durante um período maior. Seus sítios (talvez sazonais) estão associados aos sedimentos lacustres do oásis e podem ser divididos em dois períodos sujeitos ao contínuo processo de aridez enfrentado pela região a partir de Seis esqueletos identificados evidenciam desnutrição, trabalho excessivo e morte prematura. Além disso, a ausência de cemitérios e de espólios tumulares é possível evidência de uma sociedade igualitária.
A indústria lítica se baseava em lascas produzidas com quartzo e suas principais formas eram furadores, raspadores, denticulados, pontas, lâminas de foices retangulares, facas bifaciais e pontas de flechas transversais; ferramentas de pedra moída, fragmentos de cobre e casca de ovos de avestruz foram evidenciados. A cerâmica era temperada com xisto ou quartzo e raramente decorada, possuía superfície estriada e/ou ondulada e seu interior e alças eram enegrecidas. A economia local se baseava na pecuária (ovinos, caprinos, bovinos), caça (antílopes, gazelas, lebres, javalis) e coleta vegetal (frutas e gramíneas).
Baixo Egito
O período pré-dinástico é arqueologicamente muito mal representado no Baixo Egito devido as condições geográficas da região: os sítios por estarem em contato direto com o Nilo tendem a serem encobertos por camadas espessas de sedimentos produzidos pela aluvião do rio. A disseminação da cultura de Maadi-Buto em todo o Delta sugere maior uniformidade de conexões e cooperação em toda a região. Além disso, segundo Hoffman, "do ponto de vista materialista, o mais próximo contraste entre o Alto e Baixo Egito neste momento estava entre o mercantilismo crescente no norte e uma sociedade conspicuosamente consumidora e politicamente orientada no sul. No Alto Egito, comércio e metalurgia definem o tom em locais estrategicamente localizados como Maadi, enquanto no Alto Egito, estatuto social, sepultamento ritual público, e exibição dominaram a visão do mundo nacadano".
Cultura de Maadi-Buto
A Cultura de Maadi-Buto desenvolveu-se entre 3 800 e (foi contemporânea de Nacada I-II) em sítios localizados no Delta e em Faium; Reynes e Seeher supõem, em vista do hiato ocupacional notado entre Omari e Maadi-Buto (4 400-), que possivelmente houve uma fase "pré-maadiana" que ainda não foi identificada. A cultura de Maadi-Buto começou a declinar no final de Nacada II, possivelmente devido ao expansionismo nacadano, visto que a Cultura de Nacada ambicionava obter o controle das rotas comerciais com o Oriente. No começo de Nacada III, Maadi já não existia e muitos dos seus sítios foram reocupados. Se tal processo deu-se por conquista ou infiltração é ainda uma questão em aberto. A cultura de Maadi-Buto representam um avanço significativo na complexidade social do Baixo Egito e, segundo as evidências (cronologia, arquitetura e artefatos correspondentes), possivelmente deva ter se desenvolvido a partir de influências híbridas, ou seja, tanto egípcias como palestinas.
O sítio de Maadi consiste em "restos de uma cidade em expansão" formada por um sítio principal relacionado com um cemitério (76 túmulos) e um sítio secundário relacionado com outro cemitério (450 túmulos humanos e 14 animais); as principais características do assentamento são cabanas ovais, estruturas em forma de ferradura, casas subterrâneas, estruturas retangulares (possivelmente currais), lareiras e silos (localizados nas bordas do assentamento). Paliçadas e longas valas estreitas compunham parte das defesas da cidade, no entanto, há evidência de que foi saqueada e queimada ao menos uma vez. O sítio de Saís possui três fases principais (neolítica, transicional e pré-dinástica) que transcorrem o período de e e são caracterizadas pela presença de cerâmica (especialmente as últimas duas) e restos faunísticos de animais, plantas domesticados e peixes. Tanto Saís como Buto são importantes sítios para a compreensão da origem da religião na área, tendo eles, desde o pré-dinástico, servido como centro de propagação cultual.
O sítio de Buto, dividido em sete camadas estratigráficas (estando entre elas uma camada transicional), apresentou-se como importante sítio do Delta durante o período final da cultura de Maadi-Buto tendo produzido abundante conjunto lítico e cerâmico comparável aos conjuntos encontrados em Maadi, Heliópolis e Uádi Digla. Segundo evidências localizadas nas primeiras duas camadas, os habitantes de Buto erigiram suas habitações com hastes de cana ou papiro. A camada transicional (marcada pela mudança de tipos de cerâmica) foi interpretada por alguns como evidência da substituição de uma cultura por outra, no entanto, há aqueles (Kohler e Wilkinson) que argumentam que tal camada influi numa expansão da tecnologia de cerâmica do Alto Egito e não necessariamente a expansão da Cultura de Nacada como evidenciado pelos novos modelos localizados (foram produzidos localmente). Buto, com base em artefatos descobertos in situ, possivelmente possuía conexões com culturas calcolíticas do corredor sírio-palestino e da Mesopotâmia. Além disso, possivelmente serviu como porta de entrada dos produtos comercializados pelas rotas comerciais do norte.
Os cemitérios maadianos localizam-se fora dos assentamentos e neles estão contidos enterros de jovens, homens e mulheres depositados em covas ovais ou circulares rasas envolvidos em papiros ou peles com espólio (pentes, pulseiras, conchas, paletas, pérolas, pigmentos, cerâmica, vasos de pedra e restos animais); crianças foram enterradas no interior dos assentamentos em vasos. Também foram evidenciados os primeiros exemplos de sepultamento animal. Em Heliópolis exemplos de túmulos orlados com blocos de pedra e madeiras sobre as lápides foram constatados. Inicialmente os adultos foram enterrados de forma recurvada e com as mãos no rosto; posteriormente foram colocados na cova com a cabeça para o sul e com o corpo pro lado direito.
A indústria lítica era baseada em sílex, quartzito e cristal de rocha e tinha como formas principais raspadores, facas com bordas retocadas, furadores, punções, buris e microburis, cunhas, brocas, machados, cabeças de clavas, mós, machados polidos, pilões, almofarizes, lâminas torcidas, pontas de flechas espigadas, foices unifaciais e cutelos. Cobre (machados com arestas de corte fino, cinzeis, punções, furadores, anzóis, agulhas, alfinetes e fios), ossos, chifres e madeira (furadores, punções, pentes, braceletes, varas, alças e tampas) também foram manufaturados; pigmentos (ocre, malaquita), paletas cosméticas (grauvaque), vasos de pedra (alabastro, calcário e basalto) e cabeças discoides de clavas são evidenciadas.
A cerâmica era temperada (palha, areia, calcita), decorada (incisões ou pinturas geométricas) e, segundo evidência, foi produzida à mão e aperfeiçoada com rodas; aparentemente as partes superior e inferior eram produzidas separadamente e depois unidas. A cerâmica localizada em Maadi foi dividida em cinco grupos: jarros globulares pretos e geralmente polidos; jarros ovoides marrom-avermelhados polidos com um anel na base; vasos vermelhos com parte superior preta; vasos vermelhos polidos com pouco tempero; vasos amarelos polidos sem tempero. Há exemplos de vasos antropomórficos, grandes jarros para armazenamentos (marrons, vermelhos, cinzas ou pretos polidos com lavagem em vermelho ou branco) e vasos importados da Palestina, Síria e Alto Egito. Cerâmicas encontradas em Heliópolis possuem, segundo Mortensen, relação com tradições autóctones, assim como palestinas: "A tradição cerâmica de Heliópolis é claramente relacionada com a tradição anterior no norte, encontrada em Merimde, Faium e el-Omari mas também mostra traços da tradição palestina: tempero com calcário moído, uso de lavagem de cal".
A economia era baseada na domesticação animal (ovinos, bovinos, caprinos, suínos, burros, cães), caça (hipopótamos, íbex, castores, tartarugas), pesca (peixes, mariscos), agricultura (trigo, cevada, linho, lentilhas, ervilhas) e comércio; importavam produtos do Oriente Próximo (madeira de cedro, nódulos de sílex, cerâmica, ferramentas de pedra, resinas, óleos, vinho, cobre, basalto), Alto Egito (pentes, cerâmica, marfim, paletas, cabeças de clava) e deserto Oriental (malaquita, manganês, cornalina, conchas, pérolas), assim como exportavam produtos para estas regiões: cerâmica, conchas e cereais para o Oriente; cobre, basalto e sílex para o Alto Egito.
Alto Egito
Cultura de Nacada
O período nacadano ou nagadano - é caracterizado pela gradual evolução de tradições econômicas e socioculturais, maior hierarquização social evidenciada por diferenças crescentes em complexidade, tamanho e espólio tumular, trabalho artesanal mais elaborado e uma intensa agricultura mista no vale do Nilo; no deserto há um estilo de vida nômade ou semi-nômade baseada no pastoreio, caça e coleta vegetal. É um momento de grande uniformidade em todo o Egito: "Uma das coisas mais impressionantes e intrigantes sobre o Antigo Egito é a aparente rapidez e abrangência com que centenas de aldeias desconexas e funcionalmente semelhantes foram transmutadas numa unidade social, econômica e política organizada - o primeiro estado egípcio. Esta transmutação começou a cerca de , no sul, e rapidamente se espalhou para o norte, abrangendo a maioria do Egito em "; "Em o solto conjunto de artefatos indicativos da fase cultural Nacada I esteve em uso em grande parte do vale do Nilo; pela fase de desenvolvimento conhecida como Nacada III, quase 600 anos antes do período faraônico, uma série de objetos típicos estava em uso em todo o país".
Cultura de Amira (Nacada I)
thumb|200px|esquerda|Modelo de barro de quatro bois ( ). Amira, hoje no Museu Britânico