miniaturadaimagem|214x214px|O Japão abriga duas subespécies de raposa-vermelha: a raposa de Hokkaido (Vulpes vulpes schrencki, na foto) e a raposa-vermelha japonesa (Vulpes vulpes japonica). é a palavra japonesa para raposa. Raposas são um tema recorrente no folclore japonês; kitsune refere-se geralmente a isso neste contexto. As histórias as descrevem como seres inteligentes e dotados de capacidades mágicas que aumentam com a sua idade e sabedoria. Entre esses poderes mágicos, destaca-se a habilidade de assumir a forma humana — geralmente a de uma bela mulher, de uma jovem ou de uma anciã. Embora algumas histórias afirmem que as kitsune utilizam essa habilidade apenas para enganar as pessoas — como frequentemente ocorre nos folclores — outras as retratam como guardiãs fiéis, amigas, amantes e esposas. Além da habilidade de assumir a forma humana, as kitsune possuem poderes de possessão, conseguem gerar fogo de suas caudas e de sua boca, têm a capacidade de aparecer nos sonhos alheios e de criar ilusões.

Etimologia miniaturadaimagem|299x299px|Príncipe Hanzoku aterrorizado por uma raposa de nove caudas. Impressão por Utagawa Kuniyoshi, do século XIX.|esquerda A etimologia completa é desconhecida.劉 克華. 「民話の狐と人間」. 『愛知工業大学研究報告』, volume 40-A, 2005. O mais antigo uso conhecido da palavra kitsune encontra-se no texto de 794 Shin'yaku Kegonkyō Ongi Shiki. Outras fontes antigas incluem Nihon Ryōiki (810–824) e Wamyō Ruijushō (c. 934). As fontes mais antigas estão escritas em man'yōgana e identificam claramente a ortografia histórica como kitune. Na sequência de diversas mudanças fonológicas diacrônicas, a palavra passou a ser pronunciada kitsune.

Muitas sugestões etimológicas foram propostas, embora não haja consenso geral: Myōgoki (1268) sugere que ela é chamada assim porque está "sempre" (tsune) "amarela" (ki). No início da era Kamakura, Mizukagami indica que a palavra significa "veio" (ki) — partícula de aspecto perfectivo tsu — para o "quarto" (ne), com base em uma lenda na qual uma kitsune desejaria ser esposa e ter filhos. Arai Hakuseki, em Toga (1717), sugere que (ki) significa "mau cheiro", (tsu) é uma partícula possessiva, e (ne) está relacionada com inu, a palavra japonesa para "cão". Tanikawa Kotosuga, em Wakun no Shiori (1777–1887), sugere que (ki) significa "amarelo", tsu é uma partícula possessiva e ne está relacionado com neko, a palavra japonesa para "gato". Otsuki Fumihiko, em Daigenkai (1932–1935), propõe que a palavra deriva de kitsu, onomatopeia para o som emitido por uma raposa, e ne, que pode ser um afixo ou uma palavra honorífica significando "servo de um santuário de Inari".Nozaki Kiyoshi, Kitsune— Japan's Fox of Mystery, Romance, and Humor, Tokyo, The Hokuseidô Press, 1961, p. 5. Nozaki também sugere que a palavra kitsune era originalmente uma onomatopeia: kitsune representaria o som da raposa e teria se tornado o termo geral para o animal, ao passo que -nē seria um afixo afetuoso.Nozaki Kiyoshi, Kitsune— Japan's Fox of Mystery, Romance, and Humor, Tokyo, The Hokuseidô Press, 1961, p. 5.

Kitsune é uma palavra arcaica; no japonês moderno, o som emitido por uma raposa é transcrito como kon kon ou gon gon.Lafcadio Hearn, Le Japon inconnu : esquisses psychologiques, traduit par Mme Léon Raynal, Paris, 1904, p. 282.

Um dos mais antigos contos remanescentes sobre kitsune fornece uma conhecida etimologia popular da palavra.Hamel 2003, p. 89 Diferentemente da maioria dos contos de kitsune em que estas se tornam humanas e se casam com um homem, este não termina tragicamente.Goff, "Foxes", Japan Quarterly, vol. 44, no 2.Smyers 1999, p. 72 Nesta lenda, a raposa sempre retorna ao marido a cada noite na forma de uma mulher e, como parte a cada manhã, passa a ser chamada de kitsune. No clássico japonês, kitsu-ne significa "vir e dormir" e ki-tsune significa "sempre". Ono chamou por ela: "Você pode ser uma raposa, mas você é a mãe do meu filho e eu te amo. Volte quando quiser; você será sempre bem-vinda." Assim, todas as noites ela voltava e dormia em seus braços.

Origens miniaturadaimagem|300x300px|Tamamo-no-Mae, uma lendária kitsune que tem destaque no noh e no kyogen. Impressão por Yoshitoshi.|direitaMuitos dos mitos de raposas do Japão podem ser encontrados no folclore da China, da Coreia ou da Índia. Esses mitos populares contam histórias de raposas capazes de ter até nove caudas. Várias dessas histórias foram registradas no Konjaku Monogatari, uma coleção do século XI de narrativas chinesas, indianas e japonesas.

Há um debate sobre a origem dos mitos das kitsune: não há consenso sobre se teriam surgido inteiramente de fontes estrangeiras ou se fazem parte do folclore japonês, com raízes que remontam ao século V. O folclorista japonês Kiyoshi Nozaki argumenta que os japoneses veem positivamente as kitsune desde o século IV d.C., e que os únicos elementos importados da China ou da Coreia foram os atributos negativos associados a elas. Ele afirma que, de acordo com um livro de registros do século XVI chamado Nihon Ryakki, as raposas e os seres humanos viveram em grande proximidade no Japão antigo, e que as lendas indígenas sobre as criaturas se formaram como consequência desse convívio. A estudiosa Karen Smyers aponta que a ideia da raposa como sedutora e a conexão dos mitos de raposas ao budismo foram introduzidas no folclore japonês por meio de histórias chinesas similares, mas observa que algumas histórias de kitsune contêm elementos exclusivamente japoneses.

Características thumb|Esta obake karuta (carta de monstros) do século XIX apresenta uma kitsune. O jogo envolve relacionar fatos do folclore às imagens de criaturas específicas.|esquerda|218x218pxAcredita-se que as kitsune possuam inteligência superior, vida longa e poderes mágicos. Elas são um tipo de yōkai, ou entidade espiritual; a palavra kitsune é muitas vezes traduzida como espírito da raposa. No entanto, isso não significa que sejam fantasmas ou que sejam diferentes de raposas comuns, pois a palavra "espírito" é usada para refletir um estado de conhecimento ou iluminação.Smyers 1999, p. 127–128

Existem duas classificações comuns de kitsune. As , que são raposas benevolentes e celestiais, associadas ao deus Inari; são chamadas às vezes simplesmente de raposas de Inari. Por outro lado, as tendem a ser mais maliciosas.Yōkai no hon written by Prof. Abe Masaji & Prof. Ishikawa Junichiro Tradições locais costumam acrescentar outros tipos.Hearn. 154 Por exemplo, ninko é um espírito de raposa invisível que os seres humanos só conseguem perceber quando são possuídos por ele. Outra classificação tradicional consiste em enquadrar a kitsune em um dos treze tipos existentes, com base nas habilidades sobrenaturais que possui.

Fisicamente, as kitsune são reconhecidas por possuírem nove caudas. Em geral, um maior número de caudas indica uma raposa mais velha e mais poderosa; segundo os folclores, uma nova cauda crescerá a cada 100 anos de vida.Hamel 2003, p. 91 Um, cinco, sete e nove caudas são os números mais comuns nas histórias. Quando uma kitsune recebe sua nona cauda, sua pelagem torna-se prateada ou dourada.Smyers 1999, p. 129. Essas ganham a capacidade de ver e ouvir qualquer coisa em qualquer parte do mundo, adquirindo também sabedoria infinita (onisciência).Hearn, Glimpses, p. 159

Mudar de forma Uma kitsune pode assumir a forma humana, habilidade que aprende ao atingir uma certa idade — normalmente 100 anos, embora alguns digam serem necessários apenas 50. As formas mais comumente assumidas por uma kitsune incluem: belas mulheres, jovens, idosos e homens. Essas formas não são limitadas pelo sexo ou pela idade da raposa, e uma kitsune pode reproduzir a aparência de uma pessoa específica. As raposas são frequentemente representadas com a aparência de uma bela mulher. Uma crença comum no Japão medieval era a de que uma bela mulher encontrada sozinha à noite ou ao entardecer poderia ser uma kitsune. Kitsune-gao, ou "rosto de raposa", refere-se a seres humanos — geralmente mulheres — com rosto muito estreito, olhos e sobrancelhas finas e maçãs do rosto muito salientes. Tradicionalmente, essa estrutura facial é considerada muito atraente, e em alguns contos é associada à raposa em forma humana. Variantes desses mitos mostram kitsune com outras características reveladoras, como pelos finos e sombras em forma de raposa mesmo na forma humana, pois o reflexo da luz pode revelar sua verdadeira aparência. Em algumas histórias, as kitsune têm dificuldades em esconder a cauda quando estão na forma humana; observá-la enquanto a raposa estava ébria ou descuidada era um método comum de revelar sua verdadeira identidade em algumas lendas. Algumas pessoas podem enxergar através do disfarce da kitsune simplesmente olhando com atenção, embora isso seja praticamente impossível.Heine, Steven. Algumas kitsune também podiam revelar sua verdadeira forma em razão do medo e do ódio que sentem por cães, fugindo às pressas na forma de raposa.

Uma lenda ilustra bem as imperfeições que podiam revelar um humano kitsune: a Lenda de Koan narra a história de um sábio tido como detentor de poderes mágicos que, certa vez, foi tomar um banho preparado por seus discípulos, mas a água estava muito quente e ele saiu correndo nu pelo local. As pessoas que estavam por perto ficaram espantadas ao ver que ele possuía pelos de raposa em partes do corpo e uma cauda. Em seguida, Koan se transformou em uma raposa envelhecida diante de todos e fugiu. Outras habilidades comumente atribuídas à kitsune incluem possessão, bocas e caudas que cospem fogo ou raios, manifestação voluntária nos sonhos de outras pessoas, capacidade de voar e criação de ilusões tão convincentes que são quase impossíveis de distinguir da realidade. Outros contos retratam kitsune com poderes ainda maiores, como o de dobrar o tempo e o espaço, enlouquecer pessoas ou assumir a forma de seres fantásticos. Outras kitsune agem como súcubos, alimentando-se da energia humana por meio do ato sexual.

Kitsunetsuki esquerda|miniaturadaimagem|255x255px|Inari Ōkami e seus espíritos de raposa ajudando o ferreiro Munechika a forjar a lâmina kogitsune-maru (raposinha) no final do século X. A lenda é o tema do drama noh Sanjō Kokaji.miniaturadaimagem|171x171px|Raposa de nove caudas, Clássico de Montanhas e MaresKitsunetsuki (em japonês: 狐憑き, 狐付き?), também escrito kitsune-tsuki, significa, literalmente, "o estado de ser possuído por uma raposa". A vítima geralmente é uma jovem mulher, em quem a raposa adentra por meio de seus seios.Nozaki.59 Em alguns casos, o rosto da vítima pode se transformar de tal modo que se assemelhe ao de uma raposa. Embora as raposas no folclore possuam suas vítimas por livre e espontânea vontade, também podem fazê-lo em decorrência de encantamentos lançados contra a vítima.

O folclorista Lafcadio Hearn descreve os aspectos de uma vítima:

Ele observa que, uma vez liberada da possessão, a vítima nunca mais poderá comer tofu ou qualquer alimento dedicado às raposas. No Japão, o kitsunetsuki foi visto como uma doença desde o período Heian e permaneceu como diagnóstico para doenças mentais até o início do século XX. A possessão era a explicação para o comportamento de indivíduos aflitos. No final do século XIX, o Dr. Shunichi Shimamura observou que doenças físicas que causavam febre eram frequentemente associadas a casos de kitsunetsuki. Essa crença foi perdendo seu valor ao longo do tempo, embora ainda existam casos popularmente atribuídos a ela.MIYAKE-Downen, Jean.

Na medicina, o kitsunetsuki é uma síndrome intimamente vinculada à cultura japonesa; aqueles que sofrem dela acreditam ter sido possuídos por uma raposa.Haviland, William A. (2002) Cultural Anthropology, 10th ed. Os sintomas incluem desejo por feijão-azuki, agitação, apatia e aversão ao contato visual. O kitsunetsuki é semelhante, mas distinto, da licantropia clínica.Yonebayashi, T. (1964)

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