A Batalha de Cerro Corá ou Aquidabanigui foi a última batalha da Guerra do Paraguai, travada no dia 1 de março de 1870, nas imediações de Cerro Corá, 454 quilômetros ao nordeste de Assunção. É notória por ter sido a batalha em que o marechal Francisco Solano López, presidente paraguaio, foi morto às mãos do Exército Imperial Brasileiro.

A Guerra do Paraguai perdurava por mais de cinco anos e, após numerosas batalhas, o exército paraguaio havia sido reduzido a velhos, doentes e crianças. A batalha de Campo Grande foi o último grande combate do conflito, que a partir de então se restringiu à lutas ocasionais, nos meses finais de 1869 e início de 1870. Neste período, o Conde d'Eu organizou expedições à procura de Solano López, seguindo o caminho que sua coluna havia passado. No trajeto, os homens de López e os de Conde d'Eu faziam sofrer a população civil, seja por causa de supostas conspirações contra López, ou dos saques e maus-tratos infligidos pelas tropas imperiais. No dia 8 de fevereiro de 1870, López e sua coluna atingiram Cerro Corá.

As condições no acampamento eram deploráveis, com as quinhentas pessoas que acompanhavam López no extremo da fome e miséria. Em Cerro Corá abatia-se uma rês por dia, para alimentar a todos. Consequentemente, as posições defensivas organizadas pelo marechal eram deficientes, e a isso somava-se o fraco armamento presente. As tropas brasileiras, com cerca de homens sob o comando do general José Antônio Correia da Câmara, se aproximaram e cercaram o acampamento, de Solano López sem este saber. No dia 1º de março atacaram em duas frentes: pela parte frontal e pela retaguarda. Os dois pontos defensivos, um no arroio Tacuara e o outro no arroio Aquibadán, caíram rapidamente e o assalto ao acampamento durou poucos minutos, com a resistência se dispersando logo em seguida.

López foi cercado pelos brasileiros e, após negar render-se, foi ferido a lança por Francisco Lacerda (cujo cognome era Chico Diabo), se embrenhando na mata logo em seguida. O general Câmara o seguiu e o achou próximo ao arroio Aquibadán, onde se negou novamente a render-se, sendo alvejado no coração por João Soares. Os fatos sobre sua morte são cercados por divergências e imprecisões. Logo em seguida, a batalha foi encerrada, com cerca de 240 paraguaios presos e sete imperiais feridos. O tempo fez surgir interpretações divergentes acerca da figura de López, retratando-o ora tanto como um tirano cruel quanto um grande líder paraguaio. No decorrer dos anos, o nome Cerro Corá se tornaria parte da cultura paraguaia, batizando ruas, edifícios, parque, além de ser o título de um longa-metragem de 1978, cuja produção se consagrou como uma obra de destaque no país.

Antecedentes

O conflito miniaturadaimagem|Cenas da Guerra do Paraguai A Guerra do Paraguai foi o maior conflito armado da América do Sul, envolvendo a Argentina, o Brasil e o Uruguai contra o Paraguai. Iniciou-se em novembro de 1864, quando Solano López autorizou o aprisionamento do navio brasileiro Marquês de Olinda, que navegava no rio Paraguai e levava o presidente da província de Mato Grosso Frederico Carneiro de Campos. Em dezembro do mesmo ano, López ordenou a invasão desta província. Ao mesmo tempo, o presidente paraguaio coordenou ofensivas militares que acabaram por ocasionar a invasão de Corrientes, na Argentina e a invasão do Rio Grande do Sul, no Brasil. Tal ato hostil possibilitou a formação da Tríplice Aliança, em 1º de maio de 1865, entre os países invadidos e o Uruguai. O ataque paraguaio a Corrientes e São Pedro do Rio Grande do Sul revelou-se um fracasso militar, obrigando as tropas de López a recuar para seu território, passando de atacantes a atacados pelas tropas da Tríplice Aliança. Neste meio tempo, ocorreu a Batalha Naval do Riachuelo, na qual a Armada Imperial Brasileira desferiu uma grande derrota à Marinha do Paraguai que destruiu quase toda sua frota, impôs um bloqueio naval e isolou o país do mundo exterior.

Já em território paraguaio, ocorreu o maior embate campal de toda a guerra, a Batalha de Tuiuti, em 24 de maio de 1866, que envolveu cerca de 55 mil homens, sendo 32 mil aliados e 23 mil paraguaios. Nesta batalha, triunfaram os aliados, que por pouco não foram derrotados, dada a surpresa do ataque paraguaio. Estes últimos sofreram cerca de treze mil baixas. Meses depois, travou-se a Batalha de Curupaiti, caracterizada por ter sido a maior derrota aliada, com a perda de aproximadamente quatro mil soldados. Cerca de dois anos depois, os aliados obtiveram uma importante vitória na Fortaleza de Humaitá. O local era um ponto estratégico e sua conquista permitiu a ocupação da capital paraguaia, Assunção, em 1º de janeiro de 1869. Após a conquista da cidade, Luís Alves de Lima e Silva, Marquês de Caxias, até aquela altura o comandante das forças aliadas, deu a guerra por encerrada e se retirou do conflito. Foi substituído pelo príncipe Gastão de Orleans, Conde d'Eu, que deu prosseguimento à última fase da guerra, conhecida como Campanha das Cordilheiras. Nesta fase, os combates se deram contra o que sobrara do exército de López: na maioria doentes, velhos e crianças, bem evidenciado pela Batalha de Campo Grande.

À procura de Solano López esquerda|miniaturadaimagem|Solano López com a roupa com que foi morto (desenho de Angelo Agostini, com base em uma fotografia tirada por Domingo Parodi poucos dias antes da Batalha de Cerro Corá). As batalhas de Piribebuy e Campo Grande foram os dois últimos grandes embates da guerra. O que restou dos soldados que delas participaram se juntou a Francisco Solano López, antes de rumarem para o arroio Hondo. A partir de lá, a coluna marchou para a Vila de Caraguataí, onde o presidente paraguaio proclamou a quarta capital do país. A esta altura, a superioridade numérica dos aliados permitiu que organizassem três colunas, com o intuito de flanquear a coluna de Lopez, atingindo os três caminhos que davam para Caraguataí. A primeira coluna, o 2.º Corpo de Exército sob o comando do marechal Vitorino José Carneiro Monteiro, vindo de Campo Grande, avançou pela picada de Caaguijuru, no caminho central da vila. A segunda coluna, uma força mista de argentinos e brasileiros comandados pelos generais Emílio Mitre e José Auto da Silva Guimarães, avançou à direita da primeira coluna. À esquerda marchava o 1º Corpo de Exército comandado diretamente pelo Conde d'Eu. Dionísio Cerqueira, à época alferes da coluna de Vitorino, testemunhou uma cena, que ele chamou de "quadro horroroso", quando se aproximaram da picada. Foram encontrados alguns soldados brasileiros mutilados e enforcados em galhos de árvores, sobre fogueiras que haviam carbonizados seus pés. Tal cena, segundo Cerqueira, "encheu de indignação a soldadesca".

No dia 18 de agosto de 1869, a coluna do general Vitorino atingiu a picada de Caaguijuru e nela havia cerca de paraguaios entrincheirados. Seguiu-se um rápido combate com furor dos imperiais, motivados em vingar os companheiros caídos, sofrendo os paraguaios completa derrota. Também como vingança, o general Vitorino autorizou a degola dos oficiais que escaparam da morte na batalha, sendo um pouco mais de 16 homens. No dia 19, as três colunas se achavam na vila de Caraguataí, cujos moradores sofreram às mãos das tropas brasileiras. A esta altura, López já havia fugido, atravessando o arroio Salladilo, próximo do rio Manduvirá. Na vila, os brasileiros foram recebidos por 80 mulheres e crianças que conseguiram fugir de uma espécie de campo de concentração denominado Espadín, local usado por López para encarcerar as destinadas, mulheres acusadas de traição. O Conde d'Eu enviou uma força de cavalaria, sob o comando do coronel Moura, para lá, e este encontrou e resgatou cerca de 1 200 mulheres e crianças em estado de indigência. As destinadas, ao saberem da presença dos brasileiros, se exaltaram em alegria, com muitas dando gritos descompassados, emocionadas pela sua libertação. Era muito comum, na busca de Solano López, encontrarem mulheres magras, trajando trapos que imploravam de mãos estendidas farinha ou carne para saciarem a fome.

Havia a necessidade de manter pressão sobre López, na intenção de impossibilitar uma reorganização de suas forças. Por isso, ainda no dia 18 de agosto, o general argentino Mitre enviou uma força de cavalaria brasileira para marchar no encalço da coluna lopizta, com o general se juntando a ela no dia seguinte. Neste dia atingiram o Manduvirá, avançando até chegarem no arroio Salladilo, encontrando o regimento argentino San Martín, que estava na retaguarda inimiga; López, porém, já se havia movido de lá. No dia 20, uma pequena força brasileira, sob o comando do coronel Carlos Neri, deparou-se com a retaguarda dos paraguaios no arroio Hondo, a cerca de 30 quilômetros de Caraguataí; resolveram, porém, acampar no local, junto com o resto das tropas de Mitre. No dia seguinte, avançaram sobre os paraguaios, mas, antes de atacarem, o general Mitre enviou uma nota de intimação ao comandante paraguaio exigindo sua rendição em até trinta minutos sob a garantia de que viveriam e voltariam para a casa; entretanto, sa nota dizia que, se recusassem, seriam degolados, inclsuive até mesmo os eventuais prisioneiros. A nota causou surpresa tanto para Solano López, que se indignou com a nota; também foi surpreendido com a nota o Conde d'Eu, que disse ter estado alheio ao incidente, pelo ineditismo do teor da mensagem. No fim do prazo, os imperiais descobriram que o inimigo se aproveitou do tempo dado para fugir.

Durante a fuga, López passou a deduzir supostas conspirações de seus subordinados para matá-lo. No dia 27 de agosto, três espiões paraguaios, o coronel Hilario Marcó e mais 86 soldados foram executados a tiros de fuzil. Em 7 de setembro, a coluna paraguaia acampou próxima do arroio Capivarí, onde López ordenou a morte de mais alguns soldados de sua escolta, que estariam envolvidos na conspiração. As tropas brasileiras, ao passarem por esse trajeto, encontraram as ossadas e mais de cem crânios destes paraguaios. Novos combates ocorreram entre os brasileiros e paraguaios no dia 21, no povoado de San Isidoro (no atual distrito de Curuguaty) e no dia 22, em Hurucuatí, próximo da vila de San Joaquín, todos vencidos pelos brasileiros, sendo este último local ocupado pelas tropas vencedoras. Na perseguição aos remanescentes, o capitão Pedro Werlang relatou ter visto centenas de mortos estendidos pela estrada, assassinados por estarem exaustos e doentes. Eram homens, mulheres e até crianças, mortas para evitarem serem capturados pelos brasileiros. Em outubro, o 1º Corpo de Exército brasileiro permanecia em Caraguataí e o 2.º Corpo ocupava San Joaquín. Havia soldados argentinos e alguns paraguaios antilopiztas em ambos os exércitos, porém as forças argentinas se retiraram, permanecendo apenas 800 nesta região. Os poucos soldados uruguaios no Paraguai estavam acampados em Cerro León. Coube, a partir de então, aos soldados brasileiros a tarefa de capturar Solano López.

No dia 26, o Conde d'Eu estava tendo dificuldades em manobrar seu exército no encalço do presidente paraguaio, devido aos constantes problemas de abastecimento, e para não deixá-lo escapar pelo interior, dividiu suas forças em pequenas vanguardas. Uma dessas, sob o comando de Fidélis Pais da Silva, alcançou e dominou a vila de Curuguaty, no dia 28. Enquanto isso, uma coluna de homens, vindos de Concepción e liderados pelo general José Antônio Correia da Câmara, patrulhava a fronteira mato-grossense para impedir que López atravessasse o rio Paraguai para a margem direita. O acampamento de López rumou para o leste em direção da serra de Maracaju, em fins de dezembro. Nos primeiros meses de 1870, os imperiais souberam que López estava nesta região, e aia em direção de Ponta Porã, desviando-se em seguida para o caminho do Chiriguelo. De lá, López e os poucos remanescentes do seu exército rumaram para o local conhecido como Cerro Corá.

Acampamento de Cerro Corá