Teravada esotérico ou budismo esotérico do Sul são termos usados para um conjunto de tradições que se assemelham em suas práticas, pontos de vista e textos categorizados dentro do budismo esotérico e do Teravada. Refere-se principalmente aos sistemas esotéricos centrados na literatura e língua páli originados no Sudeste Asiático, os quais também foram chamados de Iogavachara (Yogāvacara) e borān kammaṭṭhāna ("práticas anteriores"). Por vezes, também foi denominado como Teravada tântrico, devido ao seu paralelo com as tradições tântricas e suas possíveis influências e interações, embora ele não faça nenhuma referência ao Tantra.
Na era pré-moderna, foi a forma meditativa tradicional e mais corrente do budismo páli no Sudeste Asiático (daí referido também como Meditação Teravada Tradicional), antes da supressão por movimentos reformistas budistas e declínio por outros fatores. Ela se baseava na exigência de iniciação em uma linhagem mestre-discípulo, pela qual se reservavam práticas transformadoras do corpo do praticante, realizando correspondência de componentes dármicos psicossomáticos com atributos búdicos, cósmicos e mântrico-gramaticais do idioma páli. É mais amplamente praticado hoje no Camboja e Laos.
Demarcação conceitual "Tantra" e "esotérico" não são termos êmicos à tradição, surgidos posteriormente ao Teravada e aplicados por acadêmicos em um deslocamento ao passado, por comparação implícita ou explícita com as doutrinas maaianas esotéricas ou tântricas. Não há, porém, nenhuma evidência de conexão histórica entre o Tantra e o Teravada esotérico.
No Ocidente, o estudo do Teravada esotérico foi iniciado pelo professor François Bizot e seus colegas da École française d'Extrême-Orient, com foco particular no material encontrado em Angkor;Crosby, Kate (2000). "Tantric Theravada: A Bibliographic Essay on the Writings of Francois Bizot and others on the Yogavacara-Tradition", Contemporary Buddhism 1 (2), 141-198 Bizot interpretou em 1976 que o Teravada possuía um aspecto "tântrico". Heinz Bechert denominou-o "Teravada tântrico". Seguindo essa linha, Lance Cousins cunhou o termo "budismo esotérico do Sul", o qual ele definiu como "um tipo de budismo do Sul que liga práticas mágicas e rituais a uma sistematização teórica do próprio caminho budista".Cousins, L. S. (1997). "Aspects of Southern Esoteric Buddhism". In: Connolly, Peter; Hamilton, Sue (eds.). Indian Insights: Buddhism, Brahmanism and Bhakd. Papers from the Annual Spalding Symposium on Indian Religions. Londres: Luzac Orienta. pp.185-207, 410. ISBN 1-898942-153. Arquivado em 21 de maio de 2015 na Wayback MachineCousins, L. S. (1997). "Buddhism". In: Hinnells, J. R. (ed.). A New Handbook of Living Religions. Oxford: Blackwell Publishers. pp.369–444. Citado em Mackenzie, Rory (2007), New Buddhist Movements in Thailand: Towards an Understanding of Wat Phra Dhammakaya and Santi Asoke. Abingdon: Routledge, ISBN 0-203-96646-5 Kate Crosby prefere o nome nativo tradicional yogāvacara ("Praticantes de Disciplinas Espirituais"), ou, mais recentemente a partir de 2013, o termo local borān kammaṭṭhāna ("velha meditação"), criado no início do século XX para contrastá-la às novas formas de meditação que se popularizavam. Pedro Manuel Castro Sánchez utiliza o termo Teravada Mahanicaia (Mahānikāya).Sánchez, Pedro Manuel Castro (2010). Theory and Practice of Mantra in the Esoteric Theravāda Mahānikāya Tradition. Ensaio de mestrado modificado submetido ao Programa de Estudos Budistas da Universidade de Sunderland. Justin McDaniel criticou o uso das categorias "Teravada tântrico" e "budismo esotérico do Sul" como estranhas à tradição, e devido a conotação de "esotérico" obscurecer o fato de que essas práticas foram correntes convencionais no budismo do Sudeste Asiático, inclusive até aos dias de hoje. Crosby, entretanto, emprega-os em comparação devido às semelhanças entre o Tantra e o Teravada esotérico. Nathan McGovern também reconhece na categoria "budismo esotérico" um valor comparativo para analisar os enquadres do Teravada e da fenomenologia do Sudeste Asiático, em que ocorreu mudança de um complexo cultural do sânscrito para outro centrado no páli.
O conceito se consolidou para se referir a tradições meditativas cujas doutrinas se baseavam na literatura páli, mas que não foram derivadas diretamente do Cânone Páli ou do Visuddhimagga de Budagosa; e que compartilham entre si características comuns originadas no Sudeste Asiático, principalmente nas áreas dos atuais países Camboja, Laos, Tailândia e Birmânia, mas ainda incluindo até mesmo sua presença no Sri Lanka. O Teravada esotérico contém uma doutrina mantranaia que lembra a do Maaiana e apresenta práticas semelhantes às do tantrismo, envolvendo a manipulação do alfabeto páli como língua sagrada e meditações com analogias de macrocosmo-microcosmo, em que elementos da consciência são trazidos para uma transformação do praticante centrada no corpo.
O termo borān kammaṭṭhāna, porém, não inclui um outro sistema do Teravada esotérico, o weikza, cujas linhagens surgiram no século XIX na Birmânia, mas faz referências a tempos históricos de dois séculos antes. Ele surgiu longe do ambiente urbano e das influências médicas e políticas coloniais e enfatiza práticas de longevidade. O weikza também exige iniciação por um mestre e realiza manipulação de letras, números e cânticos para adquirir poderes mágicos e fins mundanos.
Teoria e práticas Há diversos paralelos entre e o Tantra indiano e o Teravada esotérico, como as questões de transformação do corpo e a utilização simbólica de números e letras. Kate Crosby sugere que eles podem ser explicados pelas ciências comuns que ambos compartilhavam em suas culturas: a gramática gerativa, teoria dos grupos matemática, obstetrícia aiurvédica e alquimia do mercúrio; elas possibilitariam desenvolvimentos semelhantes e convergências entre essas doutrinas religiosas.
Assim como no Tantra, o "esotérico" faz referência mais a uma retórica de sigilo e é indicativo de se privilegiar as interpretações internas profundas sobre aspectos exteriores. As doutrinas do Teravada esotérico não eram necessariamente escondidas, mas devido à transmissão circunscrita e muito dependente da oralidade, não eram muito divulgadas. Nem todo material do borān kammaṭṭhāna era esotérico; mas os praticantes da tradição realizavam interpretações alegóricas e os suttas apócrifos exotéricos continham um simbolismo oculto.
Os textos do borān kammaṭṭhāna não fazem, porém, referência alguma ao Maaiana, Tantra ou à literatura sânscrita. Como tal, seu sistema não possui mandalas e deidades do Tantrismo. Também não realiza rituais sexuais, uma especificidade do Tantra. Toda a base teórica do Teravada esotérico deriva do Abidama do século V; porém não emprega desenvolvimentos posteriores, como análises mais refinadas da materialidade encontradas em um compêndio do Abidama do século XII.
Crosby forneceu sete características principais ao borān kammaṭṭhāna: a construção ritual do Buda dentro de si mesmo; homologia de macrocosmo-microcosmo através da língua sagrada; a consideração de que os dhammas surgem a partir de sílabas pális; um princípio de substituição mágica; interpretações esotéricas de palavras, objetos e mitos que possuem um sentido exotérico no Teravada padrão; a prática de iniciação; esse conjunto ser utilizado para objetivos tanto mundanos quanto supramundanos.
Outras características da prática incluem:
O uso de linguagem codificada Centros de energia e canais como chacra/marma e nadi O uso do simbolismo da embriologia A alquimia do mercúrio como modelo para o processo contínuo de purificação A prática da magia para cura, longevidade, proteção, etc. Adoração (puja) de Budas, Devas e Espíritos Um caminho aberto a todos, monges e leigos Aplicações internas/externas (mão direita-mão esquerda) A importância do ritual
O que distingue o borān kammaṭṭhāna em relação a todas as outras formas meditativas do Teravada é que todas as suas práticas se iniciam com as cinco alegrias (pīti), estabelecidas em comentários do Cânone Páli desde o século V e que atuam como subdivisões do primeiro diana, em estágios de atingimento. As pīti eram correlacionadas a planos superiores da cosmologia budista, em que cada pīti nutria os seres elevados como um "alimento sutil". Antes da descoberta do cordão umbilical, dizia-se também que o embrião era nutrido por pīti. Outro distintivo não encontrado em nenhum outro local é uma visualização progressiva de atingimentos que concentra as cinco pīti em partes do corpo. Ela era posta de início sobre a cavidade das narinas, descendo por outros centros, até serem depositadas no útero; nisso, independente se o praticante era homem ou mulher, pelo menos ele era identificado simbolicamente como feminino, possuindo um "útero". Os atingimentos podiam ser vistos como "sinais", esferas de luz ou outras formas que apareciam ao meditador. Ao final, atinge-se um corpo dhamma iluminado.
A analogia do desenvolvimento com o processo embriológico é presente em toda a prática pré-moderna do borān kammaṭṭhāna. O conjunto teórico da obstetrícia aiurvédica sobre embriologia e o desenvolvimento fetal no útero servia não apenas de simbolismo, mas também as práticas de cuidados a bebês não nascidos eram empregadas na geração do Buda no praticante.
Eles consideravam exclusivamente o páli como língua sagrada, cujas letras e fonemas eram também empregadas de forma simbólica para fins criativos durante as meditações ou em outras práticas. Mantras, gatas e iantras possuíam poder intrínseco. O alfabeto páli e suas sílabas são correlacionados a raios de cores, virtudes, elementos psicossomáticos e cosmogônicos. Nisso, a numerologia é também importante, particularmente a do número cinco. Elementos clássicos também eram empregados em algumas visualizações. Realizava-se, assim, uma "alquimia de letras", que transforma o substrato ao qual se aplicam.
Cousins vê a prática do budismo esotérico do Sul como sendo definida pelo mapeamento dos mundos interior e exterior, e chama isso de misticismo "tantro-cabalístico". Com isso ele quer dizer "uma forma de misticismo que utiliza um mapa bastante elaborado de correspondências―entre o corpo humano, o cosmos e algum tipo de realidade ou conhecimento superior. No processo, ele se baseia em todos os recursos das tradições amplamente dispersas da magia e do ocultismo―letras, sons e simbolismo numérico, juntamente com o uso de padrões estruturados de forma ou gesto."
Dois dos mantras sagrados mais usados nos textos do Iogavachara são Namo Buddhaya ("Homenagem ao Buda") e Araham ("Digno"). Aqui está um exemplo de interpretação esotérica do simbolismo de letras e números de Namo Buddhaya:
NA, simboliza as doze virtudes da mãe; MO, as vinte e uma virtudes do pai; BU, as seis virtudes do rei; DDHA., as sete virtudes da família; YA, as dez virtudes do professor.
A recitação dessas frases sagradas era usada como prática de meditação. Robert Percival (no Ceilão de 1796 a 1800), descreveu a meditação do mantra budista assim: "Em seus cintos, eles usam cordões suspensos de contas feitas de madeira marrom ou preta; e murmuram orações à medida que avançam."
Em um texto estudado por Bizot, a meditação inclui o uso da visualização de luzes coloridas emparelhadas com sílabas sagradas localizadas em todo o corpo e visões do Buda e uma estupa no topo do monte Sumeru. Outro texto chamado Ratanamala usa a fórmula itipi so para vários propósitos, incluindo proteção espiritual, usos mágicos mundanos que são denominados "mão esquerda", a transformação do corpo em um kayasiddhi, um corpo espiritual, bem como para a busca do nirvana (denominado "caminho da mão direita").