miniaturadaimagem|Painel de madeira entalhada com imagens de animais e humanos, que se acredita ter pertencido a uma porta em um dos palácios fatímidas (em exposição no Louvre).
Os Grandes Palácios dos Califas Fatímidas (ou Grandes Palácios Fatímidas, entre outras variantes de nome) foram um vasto e luxuoso complexo de palácios construído no final do no Cairo, Egito, para abrigar os califas fatímidas, suas famílias e a administração de seu estado. Havia dois complexos de palácios principais, o Palácio Oriental e o Palácio Ocidental. Eles estavam localizados no centro da cidade murada do Cairo, em torno da área ainda hoje conhecida como Bayn al-Qasrayn ("Entre os Dois Palácios").
Visão geral e histórico miniaturadaimagem|328x328px|Uma planta do Cairo fatímida (antes de 1200), conforme reconstruída por Stanley Lane-Poole, mostrando o layout aproximado da cidade e a localização dos palácios
Os fatímidas foram um califado muçulmano xiita que inicialmente conquistou a Tunísia, onde fundou sua primeira capital em Mádia. Em seguida, conquistaram o Egito em 969 com um exército berbere cotama do norte da África sob o comando do general Jauar Assiquili. Em 970, Jauar foi responsável pelo planejamento, fundação e construção de uma nova cidade para servir de residência e centro de poder para os califas fatímidas. A cidade foi batizada de al-Mu'izziyya al-Qahira, a "Cidade Vitoriosa de al-'Muizz", mais tarde chamada simplesmente de "al-Qahira", que nos deu o nome moderno de Cairo A nova cidade estava localizada a nordeste de Fostate, a capital anterior e principal cidade do Egito. Jauar organizou a cidade de modo que o complexo do palácio califal ficasse em seu centro, além da mesquita principal, Alazar, a sudeste.
O complexo do palácio consistia em duas partes principais: o Palácio Oriental (ou Grande Palácio), o primeiro a ser construído em 970 por Jauar para a chegada do triunfante califa Almuiz, e o Palácio Ocidental, que foi adicionado sob seu sucessor, o califa Alaziz . Juntos, eles serviram como residências dos califas e de suas famílias durante todo o período fatímida e, por isso, também eram conhecidos como Dar al-Khilafa ("Morada do Califado"). As informações sobre o layout e a aparência desses palácios vêm de alguns relatos escritos, especialmente das crônicas do historiador árabe Almacrizi e do viajante persa Nazir Khusraw.
Os dois palácios ficavam de frente um para o outro em uma praça aberta que ficou conhecida como Bayn al-Qasrayn (que significa "Entre os Dois Palácios"), em um padrão repetido da cidade real fatímida original em Mádia, na Tunísia.Çelik, Zeynep, Diane G. Favro, e Richard Ingersoll, eds. Streets: Critical Perspectives on Public Space. Berkeley: University of California Press, 1994, p. 72 Essa praça era retangular e media 105 por 255 metros (344 por 837 pés), ocupando mais de 2,5 hectares.Raymond, André. 1993. Le Caire. Fayard. Ela tinha grande significado público e simbólico e era o local de várias cerimônias relacionadas à dinastia. A grande entrada oficial do Grande Palácio Oriental, conhecida como Bab al-Dhahab ("O Portão Dourado"), estava localizada aqui.
O Palácio Oriental (Grande Palácio) O Palácio Oriental, também conhecido como o Grande Palácio (Alcácer Alcabir), era o maior dos dois e acredita-se que tenha ocupado cerca de 9 ha, ou um quinto da área total do Cairo na época. Ele foi iniciado sob Almuiz e concluído sob Alaziz, embora trabalhos de vários tipos tenham continuado por décadas, mesmo sob Aláqueme e sob o vizir Almamune Albatai no . O palácio se abria para o resto da cidade por meio de nove portões (três a oeste, um ao norte, três a leste e dois ao sul), mas também era separado da cidade ao seu redor por jardins e praças abertas. Esse leiaute extenso, mas isolado no centro da cidade, manteve a tradição, já estabelecida pelos califas abássidas, de isolar o califa da esfera pública. Os membros do estabelecimento religioso Isma'ili (estudiosos e clérigos) também ficavam alojados no palácio ou em seus arredores, que tinha seu próprio muezim e, portanto, não dependia da chamada para oração da Mesquita de Alazar. O Palácio Oriental era composto por muitos grandes salões, sendo que os mais importantes eram precedidos por pátios (chamados dihliz). O palácio também apresentava muitos jardins ou pátios, muitas vezes cercados por pórticos e com pavilhões e fontes, onde se desenrolava a vida da corte. Os visitantes que escreveram sobre os palácios relataram pavimentos de mármore de diferentes cores, fontes centrais, luminárias e ornamentação de ouro e animais em exibição para impressionar os convidados.
A grande entrada oficial do palácio era feita pelo portão central ocidental chamado Bab al-Dhahab ("O Portão Dourado"), que se abria para a praça Bayn al-Qasrayn (sua localização seria de frente para o atual Mausoléu de Calavuno, do outro lado da rua.) Aparentemente, ele tinha ouro trazido de Ifríquia (atual Tunísia). Acima do portão havia uma sacada na qual o califa aparecia para o público em algumas ocasiões. Essa entrada levava ao "Salão Dourado" (Qa'at al-Dhahab ou Dar al-Dhahab) por meio de uma passagem abobadada com cerca de 30 metros de comprimento. O Salão Dourado funcionava como uma sala do trono, onde o califa realizava suas audiências diárias e onde ocorriam recepções oficiais e alguns festivais religiosos. Outro salão importante era conhecido como o Grande Ivã, coroado por uma cúpula. Esse era o local onde os clérigos e missionários ismailitas (da'is) realizavam sermões para os residentes do palácio, bem como alguns dos festivais religiosos mais importantes. Nesse salão, o assento do califa ficava escondido atrás de uma tela ou grade conhecida como Shubbak al-Khalifa ("Janela do Califa"). Tanto o Salão Dourado quanto o Grande Ivã foram construídos ou concluídos durante o governo de Alaziz.
Cerca de um quarto do palácio a nordeste era ocupado por uma grande praça chamada Rahbat al-Eid ("Praça do Festival"), medindo 157 por 105 metros, que era o ponto de partida para as procissões do califa pela cidade. Um dos portões orientais, chamado Babe Azumurrude ("Portão Esmeralda"), abria-se para essa praça e dava acesso à parte do palácio conhecida como Palácio Esmeralda, a residência particular do califa. Outro portão que se abria para o lado sul da praça era chamado Bab al-Eid. Um salão de arsenal, chamado Khizanat al-Bunud (aproximadamente o "Arsenal de Estandartes/Bandeiras"), ficava a leste do palácio, assim como um portão conhecido como Bab Qasr al-Sharq ("Portão do Palácio Oriental"). O portão do sudeste, Babe Dailão ("Portão dos Dailamitas"), levava ao monumento que mais tarde se tornou o santuário de Huceine, enquanto o portão do sudoeste era chamado Bab Turbat al-Za'faraan (ou Bab al-Za'faraan), em homenagem ao nome do mausoléu real adjacente. A parte sudoeste do palácio era ocupada pelas cozinhas, que também forneciam alimentos para os pobres durante o mês de jejum do Ramadã. O mais ao sul dos portões ocidentais, localizado nesse local, ficou conhecido como Bab Zuhuma, em homenagem aos odores de comida que emanavam das cozinhas. O único portão norte do palácio, Bab al-Rih ("Portão do Vento"), era a entrada usada pelos da'is. Esse portão também pode ter sido o último a desaparecer no período pós-fatímida, tendo sobrevivido pelo menos até 1408 e tendo sido visto por Almacrizi.
No , o vizir Almamune Albatai (no cargo de 1122 a 1125) acrescentou mais três pavilhões ao palácio. Ele também foi responsável pela construção da Mesquita al-Aqmar, que ainda existe hoje, na extremidade noroeste do palácio.
O mausoléu: Turbat al-Za'faraan
Anexado à extremidade sul do palácio oriental havia um mausoléu conhecido como Turbat al-Za'faraan ("A Tumba de Açafrão"), que servia como local de sepultamento dos califasLev, Y. 2001. "Aspects of the Egyptian Society in the Fatimid Period". In Vermeulen, Urbain & J. van Steenbergen (eds.). Egypt and Syria in the Fatimid, Ayyubid, and Mamluk Eras III: Proceedings of the 6th, 7th and 8th International Colloquium Organized at the Katholieke Universiteit Leuven in May 1997, 1998, and 1999. Peeters Publishers. p. 20. Até mesmo os restos mortais dos califas fatímidas na Tunísia foram transferidos para cá quando o califado foi transferido para o Egito. As tumbas acabaram sendo completamente demolidas pelo emir mameluco Jaarca Alcalili para dar lugar ao Khan al-Khalili no final do , que deu seu nome à área do souq circundante ainda presente hoje. Jaharkas supostamente se desfez dos ossos da família real fatímida jogando-os nas colinas de lixo a leste da cidade.
Também adjacente ao mausoléu dos califas havia um santuário do que supostamente abrigava a cabeça de Huceine, o filho de Ali que foi morto na Batalha de Carbala em 680 e é reverenciado como mártir pelos xiitas. Originalmente, acreditava-se que sua cabeça estava enterrada em Ascalão, mas os fatímidas a levaram para o Cairo em 1153, quando Ascalão foi ameaçada pelos cruzados. Como os fatímidas reivindicavam a descendência da mãe de Huceine, Fátima, a criação desse santuário foi um importante ato simbólico e religioso. O santuário existe até hoje (embora tenha sido reconstruído várias vezes) na Mesquita al-Hussein, que é muito visitada pelos muçulmanos.
O Palácio Ocidental miniaturadaimagem|Um ivã no maristão (hospital) do Sultão Calavuno que incorpora restos do Palácio Ocidental Fatímida, que anteriormente ficava nesse local
O Palácio Ocidental, menor, também conhecido como Palácio Menor (Cácer Alçaguir Algarbi), foi inicialmente construído como residência para uma das filhas do califa Alaziz, Sital Mulque (que também foi governante de facto entre 1021 e 1023). Cobria cerca de 4,5 hectares e tinha duas alas que envolviam os lados sul e norte da praça Bayn al-Qasrayn. De modo geral, sabe-se menos sobre esse palácio, pois ele foi rapidamente substituído por outras estruturas na era pós-fatímida. O palácio foi construído no local de um vasto jardim existente anteriormente chamado al-Bustan al-Kafur (ou al-Bustan al-Kafuri), que foi originalmente estabelecido aqui pelo governante iquíxida Abu Almisque Cafur, que governou o Egito antes dos fatímidas. A parte ocidental do jardim foi mantida para o prazer dos fatímidas e foi inicialmente reservada para a família do califa. Os palácios oriental e ocidental, bem como esses jardins a oeste, eram todos conectados por grandes túneis que permitiam que os califas fossem de um para o outro a cavalo. O Palácio Ocidental foi reformado em 1064 pelo califa Almostancir, que esperava abrigar os califas abássidas, seus rivais sunitas, depois de tê-los deposto brevemente em Bagdá por um ano (em 1058-59); no entanto, esse objetivo nunca foi alcançado. O palácio também era conhecido como Qasr al-Bahr ("Palácio do Mar/Rio") em referência ao fato de que ficava próximo ao antigo canal (o Khalij), que passava ao lado do Cairo e que outrora se estendia até o Mar Vermelho.
Outros palácios e instalações Fatímidas próximos