A Coluna Relâmpago foi o último levante tenentista, disputado no sul do Brasil a partir de novembro de 1926. Sob a autoridade do general Isidoro Dias Lopes, exilado na Argentina, militares e caudilhos civis da oposição gaúcha combinaram incursões através das fronteiras brasileiras com sublevações no Exército no Rio Grande do Sul. O movimento, contrário aos governos federal e gaúcho, pretendia apoiar indiretamente a Coluna Prestes, que estava em Mato Grosso. Alguns conspiradores anteciparam-se à data prevista (26 de dezembro), comprometendo o plano de campanha, que foi rapidamente desfeito pelo Exército legalista e as forças estaduais.
Revoltas anteriores no Rio Grande do Sul foram sufocadas em 1924 e 1925, mas os derrotados mantinham-se nos países vizinhos. Em 13–14 de novembro ocorreram princípios de revolta nas guarnições de São Gabriel e Bagé, seguidas no dia 16 pela de Santa Maria, onde ocorreram os maiores combates. Em 7 de dezembro houve mais uma revolta do Exército, em São Leopoldo, mas debelada no mesmo dia.
Os rebeldes de Santa Maria, liderados pelos irmãos Etchegoyen, não superaram a resistência dos legalistas da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, mesmo contando com artilharia e maiores números. Após mais de um dia de combate urbano, que danificou muitos prédios e levou à fuga da população, eles se retiraram da cidade. Perseguidos pelos legalistas, foram interceptados pelos provisórios gaúchos no Seival, em Caçapava. Com metralhadoras em boas posições defensivas, eles derrotaram sucessivas cargas de cavalaria e feriram o comandante inimigo, Oswaldo Aranha.
Os rebeldes do Seival uniram-se ao caudilho Zeca Neto, vindo do Uruguai, que liderou uma guerra de movimento até sua derrota nas imediações de São Sepé, em 25 de dezembro. Outros caudilhos e militares cruzaram a fronteira para apoiá-lo, sem saber da derrota. A campanha de Júlio Barrios, do extremo oeste do estado até a região de Santana do Livramento, terminou, assim como a de Zeca Neto, com o retorno ao exílio no início de janeiro. Paralelamente a esses movimentos, Leonel Rocha entrou no país pela região do Contestado em novembro, procurando cortar a Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, mas sua longa jornada de três meses também terminou numa derrota.
Antecedentes
Brasileiros derrotados nas revoltas tenentistas de 1924 formavam uma comunidade de exilados nos países vizinhos (Paraguai, Argentina e Uruguai). Eram militares do Exército, Marinha e Força Pública de São Paulo e caudilhos civis. Todos reconheciam a liderança do general Isidoro Dias Lopes e do “chefe civil da revolução”, Joaquim Francisco de Assis Brasil, líder da Aliança Libertadora, agremiação oposicionista do Rio Grande do Sul. Os emigrados mantinham contato entre si e atendiam a qualquer convocação de Isidoro. Eles reuniam-se com lideranças políticas e enviavam e recebiam alimentos, armas, cartas e encomendas às famílias. O movimento tinha seu próprio Estado-Maior e finanças, o “caixa da revolução”.
Alguns companheiros continuavam a luta em regiões logínquas do Brasil, compondo a Coluna Prestes. Eles mantinham o contato com os exilados, que preparavam novas revoltas em seu apoio. Isidoro, embora muito velho para partir em campanha, planejava incursões através da fronteira, coordenadas com aliados civis e militares das guarnições do Rio Grande do Sul. A associação muito forte com a política civil era a peculiaridade do tenentismo nesse estado., “A continuidade do tenentismo no Rio Grande do Sul – as colunas relâmpagos, 1925-1927”. Os oficiais tenentistas e os “libertadores” gaúchos tinham objetivos diversos; estes queriam derrubar o governador do Rio Grande do Sul, Borges de Medeiros, e aqueles, o presidente do Brasil, Artur Bernardes. Mas muitos dos oficiais eram gaúchos, misturando as causas. Devido à elevada polarização da política no estado, os oficiais gaúchos ou eram “libertadores” ou governistas.
miniaturadaimagem|Assis Brasil e Isidoro Dias Lopes, respectivamente o segundo e terceiro da esquerda para a direita|esquerda A conspiração dos exilados enfrentava a escassez de recursos e as medidas policiais e diplomáticas dos governos brasileiro e rio-grandense. A luta no Rio Grande do Sul, perdida em 1924, foi renovada em setembro de 1925. A nova revolta foi um desastre. A sublevação militar não ocorreu, e só uma das incursões fronteiriças se concretizou, sendo rapidamente expulsa do território brasileiro. Ainda assim, Isidoro preparava mais uma ofensiva.
Em março de 1926, um sargento do Grupo de Esquadrilhas de Aviação (GEA), unidade da Aviação Militar, denunciou ao comando da 3.ª Região Militar a participação dos oficiais numa conspiração. A informação chegou ao Ministério da Guerra e resultou em ordens para que a Região "mandasse destruir os aparelhos, ocupar o Campo por um destacamento de confiança e submeter a inquérito os oficiais, remetendo presos para o Rio os que estivessem comprometidos". Por sugestão do comandante, o major Martins, as medidas adotadas foram menos extremadas, inutilizando os aviões pela retirada de peças.
Em outubro de 1926, já se passavam dois anos da revolta no Rio Grande do Sul. A Coluna Prestes lutava em Mato Grosso. No dia 24 o comando da Coluna reuniu-se e decidiu encerrar a luta, tomando o rumo da fronteira com a Bolívia. A tropa já estava esgotada, e o comando esperava negociar uma anistia com Washington Luís, sucessor de Bernardes na Presidência da República, que tomaria posse em 15 de novembro. Os emissários da Coluna (Lourenço Moreira Lima e Djalma Soares Dutra) chegaram na véspera a Paso de los Libres, Argentina, onde morava Isidoro. O chefe militar via Washington Luís tão negativamente quanto Artur Bernardes, mas concordou com a emigração. Ele pediu somente que a Coluna resistisse por mais dois meses, dando tempo à nova revolta que ele planejava.
Preparação Os conspiradores programaram sua ação para 26 de dezembro. O trabalho foi longo, angariando recursos e indivíduos. O Estado-Maior de Isidoro, chefiado por Fernando Távora, tinha um plano minucioso; ele “fez relatórios sobre o efetivo legalista, das Forças Armadas e da polícia; um resumo dos maiores grupos civis do Centro, grupos menores e concentrações mobilizadas perto das fronteiras, incluindo seu armamento, além de um levantamento de estações telegráficas, produção de mapas”. Centros clandestinos de arregimentação e propaganda operavam em Porto Alegre, Santa Maria, Uruguaiana e Rivera, no Uruguai.
Um dos civis comprometidos, Leonel Rocha, recorda-se da confiança de Isidoro: “revolução bem preparada como esta, não houve; falhando a metade, ainda temos demais”. Civil, Leonel era um dos revolucionários veteranos comprometidos com a revolta, e portanto, “incorrigíveis”, nas palavras de Borges de Medeiros. Outro veterano, Honório Lemes, não combateu depois de sua derrota em 1925, mas seu sobrinho Alfredo sustentou a vida no exílio dos marinheiros do encouraçado São Paulo, revoltados em 1924 e participantes nos novos levantes.
O plano consistia numa invasão de quatro colunas através da fronteira, coordenada com sublevações nas unidades do Exército no Rio Grande do Sul. Uma das guarnições mais importantes seria Santa Maria, maior polo militar e centro ferroviário do estado. O ponto de concentração seria em Caçapava, município com forte presença oposicionista. Paralelamente à campanha no Rio Grande do Sul, uma das colunas adentraria por Santa Catarina e Paraná para cortar a Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande. Após a vitória no sul, os rebeldes se juntariam à Coluna Prestes, vinda de Mato Grosso, para marchar contra São Paulo.
Revoltas nas guarnições Bagé e São Gabriel À revelia de qualquer ordem de Isidoro, na noite de 13 para 14 de novembro houve uma sublevação entre praças do 9.º Regimento de Cavalaria Independente (RCI), de São Gabriel. Liderados pelo sargento Walter Corrêa da Silva, os rebeldes foram para a Ponte Seca, onde combateram brevemente com forças policiais e civis durante a madrugada. O tenente Vicente Mário de Castro, envolvido na conspiração em outra unidade local (1.ª Bateria do 6.º Grupo de Artilharia a Cavalo), aconselhou-os a se retirarem para Caçapava. Convencido que a revolta era precoce, o tenente permaneceu em São Gabriel, aguardando uma hora melhor. Os rebeldes do 9.º RCI refugiaram-se na estância do coronel oposicionista Favorino Dias, no Seival, Caçapava.
Outro sargento de São Gabriel estava em Bagé, onde sublevou os praças às 01h00 da madrugada de 14 de novembro. Este princípio de revolta foi sufocado ainda dentro do quartel, ao custo da vida de um tenente legalista.
A precipitação do movimento seria fatal. Conforme o historiador Coralio Cabeda, “a revolução já nascia morta”. Nem todos os emigrados estavam a postos, e o fator surpresa foi perdido. O governo estadual e o comando da 3.ª Região Militar imediatamente tomaram providências contra as conspirações. Apesar da precipitação, o general Isidoro chamou à atividade os demais conspiradores para que os sargentos não fossem abandonados. A próxima revolta seria “uma tentativa, quase desesperada, de manter aceso o facho revolucionário”. A data de 14 de novembro pode ser relacionada à vontade de obstruir a posse de Washington Luís.
O 1.º Regimento de Cavalaria (RC) da Brigada Militar, sediado em Santa Maria, enviou seu 4.º Esquadrão para São Gabriel. Outra formação da cidade, a 5.ª Brigada de Infantaria, colocou o Grupo de Esquadrilhas de Aviação de sobreaviso. O coronel Enéas Pompílio Pires, comandante da brigada, solicitou um reconhecimento aéreo, o que não foi possível atender; dos 30 aviões do Grupo, os únicos em condições de voo eram os quatro da 1.ª Esquadrilha de Bombardeio, de Alegrete, um dos quais fora mandado para Porto Alegre. O segundo-tenente Idílio Aleixo foi buscar um dos aviões em Alegrete, onde ele foi preso pela guarnição local, que julgou a missão muito suspeita.
Santa Maria Rumores Antes mesmo das revoltas em São Gabriel e Bagé, o clima era tenso em Santa Maria. Muito se falava de uma sublevação do Exército, a ser deflagrada em 15 de novembro, no feriado da Proclamação da República. Dentro dos quartéis do Exército, acreditava-se numa revolta da guarnição da Brigada Militar por falta de pagamento do soldo. Desde o mês anterior, circulava o boato de que Washington Luís dissolveria o Exército, deixando somente as forças estaduais.
A 5.ª Brigada de Infantaria, sediada em Santa Maria, manteve oficiais e sargentos de sobreaviso em suas residências. Seu comandante, o coronel Enéas Pompílio Pires, sabia do comprometimento de alguns dos subordinados com a conspiração, e procurou evitar um conflito dentro do quartel. Uma medida mais forte contra a revolta seria a prontidão rigorosa, mas possivelmente os conspiradores estavam até no serviço de informações do comandante, deixando-o mal informado sobre as revoltas em São Gabriel e Bagé. Os conspiradores, por sua vez, acreditavam erroneamente no sucesso dos levantes anteriores, e ficaram mais confiantes depois do 4.º Esquadrão do 1.º RC deixar a cidade.
O major Aníbal Garcia Barão, comandante interino desse regimento, precaveu-se mantendo-o em prontidão. Somente um pelotão, fortemente armado, participou do desfile de 15 de novembro. Apesar das expectativas, as cerimônias transcorreram sem incidente. À noite, militares do Exército confirmaram ao major a iminência da revolta. Todo o pessoal do regimento em Santa Maria pernoitou no quartel.
Deflagração