Intolerância política diz respeito à ausência de tolerância ou a falta de compreensão quando do trato de pessoas de posições políticas diversas. Trata-se de um comportamento odioso e agressivo, de natureza política ou religiosa, por parte daqueles que possuem opiniões diferentes, demonstrando falta de flexibilidade e intransigência.Schimitt, Rosana Mara; Bueno, André. Universidade de Passo Fundo. Disponível em: ; Estacheski, Dulceli Tonet. A intolerância ao longo do tempo - desafio e perspectivas na escola contemporânea. In: Os desafios da escola pública paranaense na perspectiva do Professor PDE - Aritgos Volume I. Governo do Estado do Paraná - Secretária de Educação: Paraná, 2014. Consultado em 07 de setembro de 2023 A intolerância surge como resultado de um conhecimento insuficiente sobre determinado assunto.Hellern, Victor; Notaker, Henry; Gaarder, Jostein.O Livro das Religiões. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. Consultado em 07 de setembro de 2023
A intolerância política postula que "o outro", ou seja, o adversário, deve ser eliminado porque representa uma ameaça ao futuro e coloca em perigo a realização e a identidade do grupo ao qual se pertence. Esse processo ocorre de forma dual: inicialmente, forja-se a concepção de que a própria identidade é sinônimo da totalidade do ser. Posteriormente, os oponentes dessa identidade são categorizados como antagonistas da plenitude. Assim, os próprios antagonistas são inescapavelmente transformados em adversários de todo o mundo. Esse padrão mental tem sido adotado por diversos agentes da intolerância política nos tempos recentes. Geralmente, os que promovem a intolerância política alegam deter a verdade e vem aqueles que possuem pensamentos ou comportamentos divergentes como equivocados, merecendo, portanto, serem erradicados. Eles são considerados "inimigos e traidores" do status quo e da ordem estabelecida. O cerne da intolerância política reside na construção do inimigo, um processo que também se manifesta como uma manifestação extrema de fanatismo.CISNEROS, Isidro H. Formas Moderna de La Intolerância: de la discrimination al genocidio. Oceano, 2004. Disponível (incompleto): https://books.google.com.br/books/about/Formas_modernas_de_la_intolerancia.html?id=QMqLDwAAQBAJ&redir_esc=y. Consultado 11 de Set. 2023.
A luta contra a intolerância e os esforços para combatê-la ou reduzi-la têm se mostrado como um dos principais desafios.Cruz, Jaynara Rocha da; Reis, Fernando Figueiredo dos Santos. Intolerância Política no Brasil Atual. Anais do I e do II Seminário de Produção Científica do Curso de Psicologia da Unievangélica. Centro Universitário de Anápolis - UniEVANGÉLICA, 2019. Disponível em: http://repositorio.aee.edu.br/handle/aee/8115 Consultado em 07 de setembro de 2023 A intolerância política tem se destacado como um fenômeno crescente e preocupante, marcando profundamente o cenário político contemporâneo. A sociedade moderna, em seu esforço por construir sociedades democráticas mais inclusivas e tolerantes, parece ter se deparado com um dilema paradoxal: ao mesmo tempo em que as plataformas digitais e as redes sociais possibilitam maior acesso à informação e à participação política, também se tornaram espaços propícios para a proliferação da polarização e da intolerância.
Contextualização histórica Essa seção tem como objetivo apresentar o desenvolvimento da intolerância política ao passar do tempo, remetendo às origens dessa prática com o auxilio de momentos da história em que tal comportamento se fez presente, especialmente na história política ocidental.
Origens da intolerância política A intolerância política pode ser rastreada até a antiga Atenas, onde o "animal político" de Aristóteles abarcava uma concepção totalizante em que a política e o politicismo eram a essência do coletivo. Desse contexto, surge a imagem do "cidadão total", onde a política se sobrepõe a tudo. Nesse cenário, o cidadão total é "artificialmente feliz", vivendo em uma cidade onde a liberdade é conferida à cidade em si, mas não ao indivíduo. Esse entendimento leva à máxima de que a política é, primordialmente, exercício do poder. Essa forma de intolerância pode ser interpretada como uma política de Estado imposta à sociedade. Posteriormente, Maquiavel contribuiu teoricamente com a razão de Estado, que compreende a eficácia da dominação baseada em uma estrutura hierárquica da vida política. Nesse contexto, a lealdade ao Príncipe era uma escolha sem alternativas: "tendo de escolher, era muito mais seguro ser temido do que ser amado".
A intolerância política surgiu como fundamento de um tipo de dominação que se estendeu ao longo dos séculos sob uma diversidade de doutrinas que compartilham a noção de “dominação do ser humano pelo ser humano”. Numa tradição de pensamento que se estende de Thomas Hobbes a Karl Marx, a política representa, em última análise, um instrumento de dominação, sem ser nada mais, mas também não menos do que isso. Essas correntes argumentam que o conflito é parte inerente da vida social, o que explica a conexão entre conflito, política e poder. Essa concepção tem origem na fundamentação antropológica que sustenta que, em seus primórdios, o ser humano vivia em um estado de natureza pré-social em que “o homem é inimigo do homem”, em consonância com a característica conflituosa visão hobbesiana da política. Para Hobbes, a política é representada como a "gramática da obediência", conferindo-lhe um caráter absoluto, ao projetar a possibilidade real de eliminar o adversário. Paralelamente, o marxismo parte da concepção de "exploração do ser humano pelo ser humano" para sustentar uma perspectiva de "negação da política". Essa visão se materializa na consideração de que, na sociedade comunista do futuro, as classes sociais estão fadadas a desaparecer juntamente com a política e o Estado. Isso porque esses elementos são componentes de uma superestrutura condenada ao ocaso. Com a extinção do Estado, cessa a coerção e a exploração às quais as pessoas estão submetidas, o que culminará no fim da política.
Para Elie Wiesel, filósofo e escritor americano de origem romena e ganhador do Prêmio Nobel da Paz, a intolerância política é a fonte do ódio. Já Bronislaw Geremek, historiador e político polonês, define a intolerância política como uma banalização do sistema totalitário. Para outros autores, a intolerância política é produto da civilização tecnológica, tendência que sempre existiu, embora os últimos avanços científicos a tornem mais perigosa.
Exemplos históricos relevantes Nazismo na Alemanha O nazismo surgiu como uma força política na Alemanha, crescendo rapidamente no cenário desfavorável após a crise de 1929. A situação já estava sensível devido às consequências da Primeira Guerra Mundial, ao Tratado de Versalhes e às crenças firmemente enraizadas na cultura alemã, o que contribuiu para a ampla aceitação do nazismo. Naquele período, a Alemanha adotou uma política que se assemelhava a uma variação do fascismo italiano, fundamentada em nacionalismo e na aspiração por um governo forte. Esse desejo por uma liderança capaz de enfrentar os desafios econômicos, políticos e sociais era comum em toda a Europa ocidental nas décadas de 1920 e 1930. No entanto, cada país, com seus próprios contextos, tradições e ideologias, moldou o fascismo à sua maneira.Matozo, Horácio Cezar Figueiredo; Zulato, Murilo Sanchez. Alemanha Nazista: Ascensão e Queda de Hitler. IX EPCC - Encontro Internacional de Produção Científica. Unicesumar. Maringá: Nov. 2015, n. 9, p. 4-8. Disponível em:https://rdu.unicesumar.edu.br/xmlui/handle/123456789/2940?show=full Consultado em 07 de setembro de 2023
É crucial ressaltar que o clima de ansiedade e o anseio por transformação na Alemanha intensificaram-se após a Quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque em 1929. Durante esse tempo, as repercussões da Primeira Guerra ainda eram fortemente sentidas. Este ambiente tumultuado levou ao desespero em muitos países europeus. Com o início da década de 1930, surgiram propostas de abandono dos princípios democráticos e liberais. Quando Hitler assumiu o poder na Alemanha, o país ainda estava se recuperando da Grande Crise de 1929, revivendo os desafios da década de 1920, como desemprego, inflação, pobreza e fome, além das severas penalidades impostas por Versalhes. Entretanto, através de políticas econômicas, Hitler reverteu esse quadro, com o emprego em alta e uma economia robusta, restabelecendo a Alemanha como uma potência. Contudo, entre suas ações estava o rearmamento, violando o Tratado de Versalhes. Além disso, a gestão nazista, caracterizada por sua natureza autoritária, foi caracterizada por uma filosofia racista, xenofóbica e antissemitista, sendo um dos catalisadores para diversos conflitos e, também, para a eclosão da Segunda Guerra Mundial.
Caça às bruxas (séculos XV - XVII) No século XV, a Europa testemunhou dois momentos de intensa perseguição às bruxas. O primeiro surgiu por volta de 1450 a 1520, e depois, a perseguição ganhou força a partir de 1560, atingindo proporções assustadoras na chamada Grande Caça às Bruxas, que alcançou seu apogeu entre 1600 e 1650. Essa era coincidiu com o crescimento e estabelecimento dos estados modernos, a Reforma e a Contra-Reforma, bem como a Revolução Científica.Tosi. Lucía. Mulher e Ciência: a revolução científica, a caça às bruxas e a ciência moderna. Cadernos Pagu: genêro, tecnologia e ciência, nº 10, pp. 369-397, 1998. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/cadpagu/article/view/4786705 Consultado em 07 de setembro de 2023
Nesse período, uma verdadeira obsessão pela bruxaria dominou a imaginação de muitos. Essa obsessão foi alimentada por figuras esclarecidas da Renascença, líderes da Reforma Protestante, santos da Contra-Reforma, eruditos, humanistas, legisladores, monges e padres. O aspecto mais notável desse período de perseguição foi a criminalização das mulheres. Antes disso, seus responsáveis legais eram seus pais ou maridos, o que as mantinha longe dos tribunais. No entanto, a partir desse momento, especialmente as mulheres mais idosas que viviam nas áreas rurais, frequentemente viúvas, começaram a ser acusadas em massa de bruxaria. Embora não existam números exatos sobre quantos foram processados e quantas vítimas houve, os registros mostram que as mulheres representavam a maioria esmagadora dos acusados nos processos de bruxaria, com 82% na Alemanha, 85% na Escócia e na França, 66% na Suíça, 76% no Luxemburgo, 92% na Bélgica e 92% na Inglaterra.
Inquisição Espanhola (séculos XV - XIX)