Champuragem ou Champuramento é processo constitutivo de uma produção simbólicaCHAVES DE MELO, Gladstone. Ensaio de estilística da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Padrão, 1980. subjacente à construção de textos poéticos. Processo, em que se opera pela infra-língua, por intermédio da ferramenta “close reading”, partindo da elaboração entremeada de todos os elementos estratégicos linguístico-literários usados para compor a poesia da imagem-mensagemBENJAMIN, Walter. Imagens de Pensamento. Lisboa: Assirio & Alvim, 2004. de uma obra literária, desencadeando, assim, a estética de obras poéticas.BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1997. Em especial, obras literária contemporâneas contribuidoras com a literatura de um modo em geral, elevando a voz da literatura da cidade de Macau, na China, expondo o conceito de champuragem ou champuramento, criado a partir de obras literária macaense. Esse conceito, ampliadamente, pode ser aplicado a qualquer obra literária tanto escrita em forma de prosa quanto em forma de poema.RODRIGUEZ, Antonio. Le Pacte lyrique: configuration discursive et interaction affective. Sprimont: Mardaga, 2003. Operacionalizando conceitos criados especialemnte para a pesquisa da literatura de base de língua portuguesa.
Champuramento etimologia
A criação da palavra "champuragem" ou “champuramento" foi feita pelo acréscimo do sufixo “-mento”, o qual emgloba a siginificação de ação/efeito advindo do vocábulo champurado,BATALHA, Graciete. N. Língua de Macau: o que foi e o que é. Revista de Cultura, Macau, n.20, 2 série,jul./set. 1994 - Governo de Macau. PEREZ, Sérgio. Macau Champurado. Youtube, 22 set. 2016. Disponível na plataforma de vídeos on-line Macau champurado (por derivação imprópria), transmitindo, dessa maneira, a devida denominação aplicável à análise crítico-literária, em conjunto a uma possível formação com o sufixo “-agem".LIMA, Carlos Henrique da Rocha. Gramática Normativa da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: José Olympio, 2002
Champuramento significações derivadas
1 O termo champuramento é uma ação comunicativa literária alegorizada, HANSEN, João Adolfo. Alegoria, Construção e Interpretação da Metáfora. São Paulo: Atual Editora, 1986. denominada de amplitude espacial do sensível, expondo a percepção champurada, via hibridismo.BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: UFMG, 1998.
2 Champuramento é uma espécie de compreensão universal do substrato de culturas, tanto orientais quanto ocidentais, que pode ser aplicado à leitura literária de forma sincronística. JUNG, Carl Gustav. Sincronicidade. trad. Dom Mateus Ramalho Rocha. 13. ed. 8. v. Petrópolis: Editora Vozes, 2005.
Champuramento - origem
O uso da estratégia de champuramento é aplicado ao processo criativo genuinamente macaense, identificado na obra Taotologias, ROCHA, Rui. Taotologias. Macau (China): Labirinto, 2016. que pode ser universalmente aplicada a qualquer obra literária.
A compreensão do conceito champuramento tem que passar pelo entendimento sobre o Papiaçam ou patuá macaense, denominado crioulo macaense, sendo uma língua crioula de base portuguesa, formada em Macau, a partir do século XVI, influenciada pelas línguas chinesas, malaias e cingalesas, com formação influenciada pelos idiomas inglês, tailandês, japonês e de algumas línguas da Índia. Esse Papiaçam apresenta a palavra champurado para designar a gênese de tais idiomas, transmutados em uma língua macaense.PEREZ, Sérgio. Macau Champurado. Youtube, 22 set. 2016. Disponível na plataforma de vídeos on-line Macau champurado.
Logo, as cenas das imagens-mensagem elaboradas nos versos de Taotologias encontram-se descritas, por analogia, como champuramento, porque resulta de uma gênese igualmente cultural.
Champuramento - conceito
O conceito de "champuragem" ou champuramento é entendido como uma transmutação da significação dos vocábulos inseridos nos versos de obras poéticas, tidas tanto como obras poemas quanto como obras prosa. Champuramento é aplicado também por meio da combinação de fones (sons da língua) escolhidos dentro do sistema da linguagem, em que se reproduz a obra, estruturando, assim, os versos e, dentro deles, os signos, a partir de diversas maneiras de ordená-los ou colocá-los em oposição.BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: UFMG, 1998, p.183-4. Essa percepção champuradaPEREIRA, José Carlos Seabra. O delta literário de Macau. Macau (CN): Instituto Politécnico de Macau. 2015. é entendida como o sincretismo cultural filosófico-religioso dentro da obra Taotologias, que pode ser igualmente ser aplicado a diversas análises literárias, uma vez que há uma descrição de uma convergência entre orientação discursiva prevalecente na tradição poética ocidental e oriental, de forma contrastante.
1. Baseanda no oriental
a) tradição poética do Chan (zen);
b) ato de escrita econômica em relação ao sentido, da escrita poética por meio de um olhar e de um sentido do lugar;
c) centralidade do texto em relatos sensíveis do aqui e agora, prefigurando a apreensão do estar, que possibilita a transcendência da dimensão do texto.
2. Baseada no ocidental
a) grandiloquência;
b) intimismo;
C) memória (morfologia verbal).
3. Fusão (E-W): a formação de um enlace, em que a imagem-mensagem é a/o "CHAMPURAGEM" OU champuramento dos substratos cultural-filosófico-religiosos, percebido do momento da leitura silenciosa, portanto igualmente contemplativa tanto da Natureza (movimento de sístole) quanto do Humano e Social (movimento de diástole). Esse enlace pode ser lido em todas as obras literárias.CRYSTAL, David. Language. NY: Cambridge University Press, 1997.
Imagem-mensagem - conceito (subjacente)
O consceito imagem-mensagem foi criado para subsidiar o conceito de champuramento. Ele é uma derivação do conceito imagem-pensamento (“imagem de pensamento”) de Walter Benjamin. A partir desse conceito, ele diz ser difícil nomear o que temos diante dos olhos (p.22). Para Benjamin a imagem é uma forma dialética da imobilidade; logo, a imagem pode ser entendida como a concretude de uma possível abstração, que se pretende materializar. Argumenta, ainda, que isso é feito ao se expor o nome de algo, "nomeação". Consequentemente, a imagem dialética criada abarca o processo de composição poética, que se divide em duas vias. Uma pela concepção criativa, que se materializa na leitura da obra. A outra, verificada após a consumação dessa obra e alcançanda a partir da interpretação da própria obra.
Champuramento - criação X percepção
1 Champuramento aplicado ao ato de criação é processo constitutivo de uma imagem-mensagem subjacente à construção dos textos poéticos.
2 Champuramento aplicado ao ato de percepção da criação literária é a bagagem de informação que o leitor apresenta do momento da leitura.SENRA, Beatriz Jobim Pérez. Champuramento. Juiz de Fora: UFJF, 2023 - "Champuramento: um conceito poético".
Taotologias - obra literária
O título da seção “taotologias”, bem como o título da obra, Taotologias, podem ter como análise a alusão ao Dao (Tao), símbolo do daoismo (taoismo), traduzido como caminho, o qual é entendido como um constante retorno. Os títulos, da seção e da obra, são compreendidos, dessa forma, como o estudo do caminho poético. Esse título (Taotologias com “o”) poderia ser confrontado ao termo “tautologia” (tautologia com “u”), palavra de origem grega. Tautologia é um conceito usado em Lógica, que é uma ciência e arte do raciocínio (ocidental).
O raciocínio é uma forma de processamento simbólico de informações que visa tornar explícitas formas de conhecimento que antes estavam implícitas.BUCHSBAUM, Arthur. Lógica Geral. São José (SP): [s. n.], 2006. Tautologia, então, dentro da Lógica, é uma fórmula de proposições, que é sempre verdadeira para todas as possíveis valorações de suas variáveis. Ou seja, se houver um conjunto negativo, ou um conjunto positivo, ou um conjunto negativo e positivo, o resultado será sempre verdadeiro.
A tautologia busca, portanto, o resultado verdadeiro continuamente, mesmo que causa e efeito venham um após outro, seja pela validação negativa ou pela validação positiva. O Dao busca o verdadeiro continuamente, embora causa e efeito sejam simultâneos, pelo equilíbrio entre as ações negativas e ações positivas. Donde se pode depreender que tanto o ocidente, em sua tradição transcendentalista, quanto o oriente em sua tradição imanentista, e muitas vezes, também transcendentalista, podem se cruzar, porque pleiteiam o mesmo fim: a verdade. Por conseguinte, os títulos, da obra e da seção, são um provável jogo de palavras, analisado, foneticamente, como um trocadilho com a palavra “tautologia”, fazendo-se essa titulação também champurada.
Separando-se o morfema “tao”, tem-se a alusão à simbologia, do Dao (Tao), do ciclo, enquanto que o morfema “tau” se remete à redundância. Este último morfema, mesmo apresentando uma conotação pejorativa, na concepção ocidental, ainda se coaduna com a ideia de constante retorno, na concepção oriental, sendo ambos um reforço, ou positivo ou negativo, dos fatos que se repetem de alguma forma. Para além disso, tem-se que o morfema grego “tauto-” da palavra “tautologia” com uma significação de “o idêntico”, “o mesmo”. Essa possível atribuição pode reverberar na obra Taotologias como um encontro com o outro, quando dos poemas referentes ao humano, bem como também pode deixar a ver um desencontro, apresentado nos poemas referentes ao social.
Além dessa análise morfológica do prefixo da palavra “Taotologias”, tem-se também uma outra análise em relação ao seu sufixo “-logia”. Esse sufixo detém a referência à palavra grega logos, cujo fundamento filosófico encerra a ideia de colheita de algo, ou escolha de algo. O vocábulo logos é a palavra elegida para organizar o mundo, dentro da cultura grega. No pensamento socrático e, posteriormente, no pensamento platônico, o conceito de logos demonstrava essa organização por meio da definição tripartite do conhecimento, formulada por Platão, apresentada na obra Teeteto (2010).PLATÃO. Teeteto. Trad. Adriana Manuela Nogueira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2010. A clássica passagem do Teeteto, 201a-c, define como “conhecimento” a crença em uma verdade comprovada por razões e evidências. Donde se pode concluir que o caminho do logos converge ao conhecimento. O logos encadeia as crenças com as evidências que a possível realidade oferece. O caminho assim concebido pode congraçar o caminho espaço-temporal de TaotologiasROCHA, Rui. Taotologias. Macau (China): Labirinto, 2016. perfazendo um equilíbrio entre logos (ocidente) e dao/tao(oriente). Essa evidência também corrobora com o processo de champuramneto que permeia toda a obra Tautologia, por exemplo.
Além dessa reflexão morfológica, pode-se depreender, filosófico-religiosamente, segundo Chaves (2014),CHAVES, José Reis. O verbo era Deus e se encarnou na humanidade, mas não é a divindade. O Tempo,17 mar. 2014. "O verbo era Deus e se encarnou na humanidade" que, por um atributo de divindade conferido na Bíblia, exclusivamente, a Deus, há uma escrita em grego, no Novo Testamento, designando esse Deus como Theos e Jesus Cristo como Logos. Palavra, a qual, em latim, é designada como Verbum e, derivadamente, em português como “Verbo”. Essa separação diacrônica do vocábulo em logos e “verbo”, também, estabelecerá uma diferenciação entre o Logos do pré-socrático Heráclito, antes mesmo das teorias do conhecimento do livro TeetetoPLATÃO. Teeteto. trad. Adriana Manuela Nogueira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2010. e o Logos de João.BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. trad. École biblique de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2022. Isso se deve, pois, ao Logos joanino ser avesso a qualquer expressão de violência, contrariamente ao do pré-socrático.