Carmanhola Americana foi uma canção revolucionária que traduziu e se apropriou da canção francesa la Carmagnole, com o intuito de promover o sentimento republicano na Capitania-Geral da Venezuela, particularmente na cidade La Guaira.María Gembero-Ustárroz, "Reflejos de la música revolucionaria francesa en la España napoleónica (1808-1814): cantos y propaganda política en calles y salones." em Cuadernos de Música Iberoamericana, vol. 25-26, 2013, p. 149. URL. https://revistas.ucm.es/index.php/CMIB/article/viewFile/58954/53003 A canção foi encontrada numa operação policial aos réus do presídio da dita cidade em 1797 junto com outra copla de caráter antimonárquico intitulada "canção americana", contendo um livro que continha ademais uma tradução de Direitos do homem e do cidadão com várias máximas republicanas e um Discurso preliminar dirigido aos Americanos, um discurso dirigido aos habitantes livres da América Espanhola, entre outros documentos propagandísticos. A tradução pode ser obra de Manuel Cortês Campomanes, no entanto, não há nenhuma referência explícita a esse respeito.Georges L. Bastin, "La Carmañola americana, na tradução de Manuel Cortês Campomanes (1797)" na Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes',' URI: http://www.cervantesvirtual.com/nd/ark:/59851/bmc51475 A dita lírica foi usada como insumo probatório para demonstrar o delito de lesa-majestade dos participantes na Conspiração de Gual e Espanha, alguns dos quais tinham sido favorecidos por um indulto oferecido a nome de Carlos IV pelo Real Acordo da Real Audiência de Caracas em troca de delatar os participantes da conspiração.Archivo General de Indias, sección Estado, serie Caracas, leg. 58, doc. 27. Archivo Histórico Nacional de España, sección Consejo de Indias, Secretaría de Presidencia, Legajo 21672, exp. 5, doc. 1
Letra Transcrição de acordo com a ortografia originalArchivo Histórico Nacional de España, sección Consejo de Indias, Secretaría de Presidencia, Legajo 21672, exp. 5, doc. 1 e ao lado a tradução em português: +1. Yo que soy un sin camisa
un bayle tengo que dar
y en lugar de Guitarras
cañones sonarán
2.
Baylen los sin camisas
y viva el son, y viva el son
baylen los sin camisa
y viva el son del cañon.
3.
Si alguno quiere saber
porque estoy descamisado
porque con los tributos
El Rey me há desnudado.
Baylen los sin camisas
4.
No hay exceso ni maldad
que el Rey no haya executado
no hay fuero, no hay derecho
que no haya violado.
Baylen los sin camisas
5.
Todos los Reyes del Mundo
son igualmente tiranos
y uno de los mayores
es ese infame Carlos.
Baylen los sin camisas
6.
También los gobernadores
al Pueblo han sacrificado
pero los sin camisa
vengarán su atentado.
Baylen los sin camisas
7.
La justicia en las Audiencias
á quien más paga se vende,
del favor y el cohecho
las sentencias dependen.
Baylen los sin camisas
8.
Corregidores y Alcaldes
nos roban con insolencia
mas ya para sufrirlos
se acabó la paciencia
Baylen los sin camisas
9.
Los Yntendentes ayudan
con mucho afan al tirano
á comerse la sangre
del Pueblo Americano
Baylen los sin camisas
10.
Todos ellos á porfía
nos tiranizan furiosos,
son crueles, avaros,
sobervios y orgullosos.
Baylen los sin camisas
11.
Pero no tardarán mucho
en recibir su castigo
que ya los sin camisas
afilan los cuchillos.
Baylen los sin camisas
12.
Los Sanculotes en Francia
al Mundo hicieron temblar
mas los descamisados
no quedarán atrás
Baylen los sin camisas
13.
De la ira Americana
ya podeís temblar tiranos
que con los sin camisas
vuestra hora há llegado.
Baylen los sin camisas
14.
Cada uno de nosotros
en guerra un héroe será
que por librar la Patria
prodigios obrará.
Baylen los sin camisas
15.
Ea pues, descamisados
iros todos previniendo
para romper el yugo
que há tanto estais sufriendo
Baylen los sin camisas
16.
Dios protege nuestra causa
el dirige nuestro brazo
que el Rey con sus delitos
su justicia há irritado.
Baylen los sin camisas
17.
Quando por la libertad
algún Pueblo há peleado
no hay exemplo ninguno
de haber sido humillado.
Baylen los sin camisas
18.
Todos con seguridad
sabemos que estando unidos
jamás la tirania
podrá vernos vencidos.
Baylen los sin camisas
19.
Lograda la libertad
todos felices seremos
si las puras virtudes
constantes exercemos.
Baylen los sin camisas
20.
Florecerán nuestros artes,
comercio y Agricultura
y viviremos todos
en la paz más segura.
Baylen los sin camisas
21.
La fraternidad á todos
con sus lazos ligará
y el fruto de su industria
cada uno logrará
Baylen los sin camisas
22.
Ygualmente la Justicia
se exercerá sobre todos;
los premios logrará
quien los meresca solo.
Baylen los sin camisas
23.
Seremos todos iguales
y no habrá otras distinciones
que el talento y virtud
y las grandes acciones.
Baylen los sin camisas
24.
Viva el amor de la Patria
y viva la libertad,
perescan los tiranos
y el despotismo Real.
Baylen los sin camisas
25.
Sin tardansa romperemos
tus cadenas Patria amada
pues de tu amor el fuego
nuestro pecho inflama.
Baylen los sin camisas
26.
Para una empresa tan grande
constantes todos juramos,
que morir, ó vencer
és lo que deseamos.
Baylen los sin camisas
y viva el son, y viva el son;
baylen los sin camisas
y viva el son del cañon.
Fin1.
Eu que sou um sem camisa
um baile tenho que dar
e no lugar de Guitarras
canhões soarão
2.
Bailem os sem-camisas
e viva o som, e viva o som
bailem os sem-camisa
e viva o som do canhão.
3.
Se alguém quer saber
porque estou descamisado
porque com os tributos
O Rei me fez desnudado.
bailem os sem-camisas
4.
Não há excesso nem maldade
que o Rei não tenha praticado
não há foro, não há direito
que não tenha violado.
Bailem os sem-camisas
5.
Todos os reis do mundo
são igualmente tiranos
e um dos maiores
é esse infame Carlos.
Bailem os sem-camisas
6.
Também os governadores
ao Povo sacrificaram
mas os sem-camisa
vingarão seu atentado.
Bailem os sem camisas.
7.
A justiça nas audiências
a quem mais paga se vende,
do favor e do suborno
as sentenças dependem.
Bailem os sem-camisas
8.
Corregedores e alcaides
nos rouban com insolência
mas já para suprir-los
se acabou a paciência
Bailem os sem-camisas
9.
Os intendentes ajudam
com muito afã ao tirano
á alimentar-se do sangue
do Povo Americano
Bailem os sem-camisas
10.
Todos eles à porfia
nos tiranizam furiosos,
son cruéis, ávaros,
soberbos e orgulhosos.
Bailem os sem-camisas
11.
Mas não tardarão muito
em receber seu castigo
que já os sem-camisas
afiam os cutelos.
Bailem os sem-camisas
12.
Os sans-culottes em França
ao mundo fizeram tremer
mas os descamisados
não quedarão atrás
Bailem os sem-camisas
13.
Da ira americana
já podeís tremer tiranos
que com os sem-camisas
vossa hora já chegou.
Bailem os sem-camisas
14.
Cada um de nós
na guerra um herói será
que por livrar a Pátria
prodigios obrará.
Bailem os sem-camisas
15.
Eia pois, descamisados
ireis todos previnindo
para romper o jugo
que há tanto estais sofrendo
Bailem os sem-camisas
16.
Deus protege nossa causa
ele dirige nosso braço
que o Rei com seus delitos
sua justiça irritou.
Bailem os sem-camisas
17.
Quando pela libertade
algum Povo pelejou
não há exemplo nenhum
de haver sido humilhado.
Bailem os sem-camisas
18.
Todos com confiança
sabemos que estando unidos
jamais a tirania
poderá ver-nos vencidos.
Bailem os sem-camisas
19.
Alcançada a liberdade
todos felizes seremos
se as puras virtudes
constantes exercemos.
Bailem os sem-camisas
20.
Florescerão nossas artes,
comércio e agricultura
e viveremos todos
na paz mais segura.
Bailem os sem camisas
21.
A fraternidade á todos
com seus laços ligará
e o fruto de sua indústria
cada um lucrará
Bailem os sem-camisas
22.
Igualmente a Justiça
se exercerá sobre todos;
os prêmios lucrará
só quem os merecer
Bailem os sem-camisas
23.
Seremos todos iguais
e não haverá outras distinções
que o talento e virtude
e as grandes ações.
Bailem os sem-camisas
24.
Viva o amor da Pátria
e viva a liberdade,
pereçam os tiranos
e o despotismo real.
Bailem os sem-camisas
25.
Sem tardansa romperemos
tuas cadeias Pátria amada
pois do teu amor o fogo
nosso peito inflama.
Bailem os sem-camisas
26.
Para uma empresa tão grande
constantes todos juramos,
que morrer, ou vencer
é o que desejamos.
Bailem os sem-camisas
e viva o som, e viva o som;
bailem os sem-camisas
e viva o som do canhão.
Fim
Difusão da Carmanhola Americana Por seu caráter clandestino é difícil saber com certeza a difusão que teve a Carmanhola Americana para além dos círculos próximos a Manuel Gual e José María Espanha, no entanto, é conhecida o labor propagandística que assumiram desde o exílio na ilha de TrindadeArchivo General de Indias, sección Estado, serie Caracas, leg. 58, doc. 27. pelo qual é provável que se difundisse entre os povoadores das províncias de Venezuela, mais quando a tonada singela da canção permitia que qualquer pudesse aprender as ideias ali expressadas sem necessidade de saber ler.Lia Bugliani, "La Carmañola Americana (1797) entre la Carmagnole Francesa (1792) y el Canto de las Sabanas de Barinas (1817-1818)" en Núcleo, No. 16, 1999, p. 4. Pierre Constant, Musique des fetes et ceremonies de la Revolution francaise, Paris, Imprimerie Nationale, 1899, pp. 146-147. Segundo Pedro GrasesPedro Grases, Preindependencia y emancipación (protagonistas y testimonios), Obras 3, Caracas, Seix Barral, 1981, p. 163., a Carmanhola Americana era dançada em 1810 por um grupo denominado o Clube dos Sem-camisas, sem que a letra tivesse sido modificada significativamente.Pedro Grases, Preindependencia y emancipación (protagonistas y testimonios), Obras 3, Caracas, Seix Barral, 1981, p. 163.
Semelhanças com la Carmagnole O paralelismo mais evidente entre a versão d'A Carmanhola francesa de 1792 e a Americana de 1797 encontra-se na estrofe: Carmanhola AmericanaLa CarmagnoleBaylen los sin camisasy viva el son, y viva el sonbaylen los sin camisay viva el son del cañon.Dansons la carmagnoleVive le son, vive le sonDansons la carmagnole,Vive le son du canon! No entanto, na maior parte de seu conteúdo, a Carmanhola Americana é uma produção própria que se apropria da tonada francesa mas constrói um texto com um sentido particular, já que não tem um tom celebratorio como o original francês, senão que pretende impulsionar o espírito dos que a escutem para organizar as ações revolucionárias.Georges L. Bastin A Carmanhola Americana também representou um ataque particular às instituições fundamentais da monarquia hispânica em Índias, tais como as Audiências, juízes, governadores, corregedores, prefeitos e intendentes. Ademais, se enuncia ao Rei como tirano e déspota, quem em geral não era atacado nas rebeliões, onde era comum em mudança apelar ao lema "Viva o Rei, morra o mau governo", que representava a lealdade à monarquia apesar dos abusos de seus administradores.
Música Ainda que não se tenham encontrado partituras que indiquem a tonada com a qual se cantava a Carmanhola Americana, é provável que se assemelhasse à melodia com a que se cantava la Carmagnole:
Referências
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