miniaturadaimagem|Manto Tupinambá na Biblioteca do Museu Nacional, no Rio de Janeiro. A peça possui mais de 300 anos e foi devolvida pelo governo da Dinamarca para repor o acervo perdido destruído em um incêndio em 2018.|230px Um manto tupinambá ou açoiaba tupinambá é uma vestimenta sagrada para alguns povos indígenas brasileiros, utilizada em diferentes cerimônias e rituais e produzida com penas de aves. Em 2024, eram reportados 11 mantos confeccionados nos séculos XVI e XVII, feitos de penas vermelhas de ave guará e fibra vegetal. Dez deles se encontram em cinco países da Europa, sendo um na Bélgica, quatro na Dinamarca, um na França, três na Itália e um na Suíça. Um dos mantos que estava na Dinamarca foi devolvido ao Brasil em julho de 2024.
Arte plumária indígena brasileira 220px|miniaturadaimagem|esquerda|Ave Guará, cujas penas são utilizadas na confecção dos mantos. A coloração avermelhada de sua plumagem advém do caratenóide astaxantina, encontrado em sua alimentação, que baseia-se em camarão, pequenos caranguejos, crustáceos e moluscos. Arte plumária indígena brasileira é resultado do processo artesanal de confecção de adornos corporais, enfeites e objetos utilizados pelos povos indígenas. Produzidas essencialmente com penas de aves, os estilos das peças variam entre as diferentes culturas, seguindo padrões estabelecidos pelas tradições de cada povo. Entre os objetos plumários para adorno corporal, podemos citar cocares, diademas, braçadeiras, brincos, peitorais, colares, pulseiras, além de suntuosos mantos, utilizados exclusivamente nas grandes cerimônias e rituais públicos.
Após a sua chegada ao Brasil, os europeus ficaram impressionados com a originalidade e exuberância da plumária indígena, especialmente dos povos Tupinambás. No caso dos mantos, destaca-se o uso de penas da ave Guará, de coloração vermelha, além de penas de papagaio.
Nas relações coloniais A chegada de Cristóvão Colombo à América inaugurou uma nova possibilidade de relações comerciais no mundo. Na sequência, ainda nos primeiros anos do século XVI, o Brasil é inserido neste comércio através dos contatos entre os europeus e os indígenas da costa. No início ocorreram trocas de alimentos nativos por objetos diversos vindos da Europa, como machados e outras ferramentas de ferro, até então desconhecidas pelos indígenas. Com as relações consolidadas, um item passa a ser o protagonista desse comércio, o pau-brasil, destacando-se também o interesse português por animais, como papagaios e macacos.GARCIA, Elisa Frühauf. “Os índios brasileiros na formação do mundo moderno”. In: Gesteira, Heloísa (org.). Magalhães-Elcano: a primeira viagem ao redor do mundo. Rio de Janeiro: Andrea Jakobsson Estúdio Editorial, 2021.
O manto tupinambá foi um dos itens que circulou nesse comércio atlântico. A maioria dos mantos chegou ao continente europeu através de saques, relações diplomáticas ou comércio com os Tupinambá durante o período colonial. Eram tratados como objetos exóticos e de coleção.
Essas peças da cultura nativa passaram por diversas mãos até chegar aos museus onde hoje se encontram. Uma das vias através das quais os mantos chegaram à Europa foi através de colecionistas, sendo um dos mais conhecidos o conde Johann Moritz von Nassau-Siegen, que foi o governador holandês do Brasil, conhecido como Mauricio de Nassau. Sofia de Hanôver, sua sobrinha, foi retratada pela pintora Louise Hollandine van de Platz caracterizada como uma indígena sul-americana usando um manto de penas. Provavelmente este objeto remonta aos que ela trouxe consigo quando do retorno de Nassau a Haia em 1644.
Uma outra forma com que esses mantos chegaram ao continente europeu foi através das diversas trocas de presentes que ocorreram entre os indígenas e os conquistadores. Durante o século XVI, com o objetivo de estabelecer a França Antártica, o explorador francês Nicolas Villegagnon foi enviado para o litoral do Rio de Janeiro, acompanhado de seu capelão, o franciscano André Thevet. Apesar da brevidade do empreendimento, eles foram responsáveis por escrever diversas histórias e crônicas sobre os costumes dos Tupinambás. Nelas, haviam relatos sobre essas trocas entre os franceses e os indígenas, realizadas com o intuito de construir alianças. Dentre tais presentes, estava o exemplar de um manto. Essa peça foi levada pelo próprio André Thevet que, em seus escritos, declarou estar impressionado com a criatividade dos nativos. Além disso, ele transcreveu que recebeu o artefato de Cunhambebe, principal liderança Tupinambá na época, juntamente com outros objetos pessoais.
Na atualidade Atualmente, existem novos exemplares do manto que começaram a ser confeccionados por Glicéria Tupinambá após uma extensa pesquisa junto ao seu povo. O primeiro produzido pela artista está exposto na coleção "Os primeiros brasileiros", organizada pelo antropólogo João Pacheco de Oliveira, no Museu Nacional.
Na atualidade, o manto tupinambá apresenta várias dimensões; trata-se de objetos sagrados que, mesmo na distante Dinamarca, nunca deixaram de habitar o mundo dos encantados. Segundo a lenda tupinambá, são entidades sobrenaturais que habitam a mata, dessa forma, espiritualmente, ele estava presente mesmo que esquecido. Esses encantados se manifestam no plano terreno por sonhos e visões. Em 2006, Glicéria relatou que conduzida por sonhos recebidos dos encantados ela inicia a confecção de um novo manto. A devolução do manto pela Dinamarca restabelece, no presente, as qualidades de artefatos dotados de atributos espirituais com poder xamânico implícito.CAFFÉ, Juliana & GONTIJO, Juliana Coelho. EXPOR O SAGRADO: O caso do manto tupinambá na exposição KWÁ YEPÉ TURUSÚ YURIRI ASSOJABA TUPINAMBÁ. MODOS – Revista de história da arte, vol.7 número 2, maio-agosto 2023
Outra dimensão aponta para o manto como construção de identidade; símbolo de resgate cultural; a retomada da produção de mantos e os saberes advindos do processo reativa as tradições; os costumes e a ancestralidade, contato com a língua antiga, a relação com a natureza e a memória tupinambá em constante reinvenção.Idem Trata-se de um ícone da identidade política e espiritual, por isso deve ficar próximo ao povo que os confeccionou.PAIVA, Alessandra Simões. REVIRAVOLTAS DECOLONIAIS DO MANTO TUPINAMBÁ. Três artistas mu e seus trabalhos em torno do artefato que se tornou ícone da identidade brasileira. VISTA – Revista de Cultura Visual, número 12, 2024 A materialização dos saberes imateriais, orais em um objeto que carrega grande valor simbólico acaba por configurar novos sujeitos políticos dentro e para a comunidade.
A ação política está relacionada com o território que ganha outro significado, e catalisando a luta pela demarcação definitiva das terras, objeto de constantes ações violentas por parte de fazendeiros e agentes do turismo. Para Glicéria, “quando os colonizadores levaram o manto retiraram nossa força”, o retorno do manto restabelece o espírito de luta.
Em sua poética artística, Glicéria “ gira em torno dos aspectos rituais no cotidiano, da presença de elementos ancestrais, de técnicas com apropriação da montagem do manto, o situacionismo, a contextualização, a ação plástica e uma ação quase jurídica (sua influência no retorno do manto)”. Para expor o objeto sagrado respeitando sua natureza espiritual e comunitária, Glicéria alegou receber orientações dos Encantados por meio de sonhos. Para quem o produziu, houve dificuldades de acesso devido à sua exposição como mero objeto.
Durante a visita ao manto de Paris, foi possível ver de perto a técnica antiga de confecção, daí a percepção que a feitura cabia às mulheres, portanto atesta Glicéria que o manto tem alma feminina. Desse modo a exposição KWÁ YEPÉ TURUSÚ YURIRI ASSOJABA TUPINAMBÁ teve um debate de caráter decolonial e de gênero.CAFFÉ, Juliana & GONTIJO, Juliana Coelho. EXPOR O SAGRADO: O caso do manto tupinambá na exposição KWÁ YEPÉ TURUSÚ YURIRI ASSOJABA TUPINAMBÁ. MODOS – Revista de história da arte, vol.7 número 2, maio-agosto 2023 Na atualidade, o manto tem se tornado símbolo também de disputas. Em Maio do ano 2000, na ocasião das comemorações da chegada de Cabral ao Brasil em São Paulo, após verem o manto de Copenhague pela primeira vez, os líderes da comunidade indígena de Olivença na época, Nivalda Amaral de Jesus e Aloísio Cunha Silva, tiveram a ideia de começar um movimento pelo seu retorno à comunidade, o que se seguiu a episódios de protestos.https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0106200006.htm A partir disso, o manto toma proporções de esforços pelo resgate da identidade étnica e histórica como marcador principal e força espiritual.
A exposição do manto tupinambá no museu da Dinamarca contribuiu para uma visão exótica das culturas indígenas, além de trazer para o centro das discussões atuais uma reivindicação da sua importância cultural, propondo um novo olhar sobre a história da arte no Brasil, que inclua e valorize as contribuições indígenas. O seu retorno não apenas iluminou a história e a significância do manto tupinambá, mas também desafiou a quem presenciou sua volta, a reconsiderar as práticas museológicas e a posição dos museus na sociedade, mostrando como a história e a museologia podem ser instrumentos de justiça social e reconhecimento cultural, afinal, o manto ainda se mostra relevante e potente para seus produtores originais e posteriores proprietários.BUONO, Amy. Seu tesouro são penas de pássaro: arte plumária tupinambá e a imagem da América. Figura: Studies on the Classical Tradition. Campinas, SP v. 6 n. 2 pp. 13-29 Jul.-Dec. 2018.
Retorno ao Brasil 220px|miniaturadaimagem|direita|Manto tupinambá do século XVI, em exposição no Museu de Arte e História da Bélgica, em Bruxelas. Produzido através da junção de vários outros mantos, tem uma dimensão muito maior do que os demais. Por um tempo foi exposto equivocadamente como o "Manto de Montezuma".Silva, Glicéria Jesus da. O Feitiço do Fio e a busca do Manto Tupinambá. Master thesis. Rio de Janeiro: Museu Nacional/UFRJ, 2025, p.69 Por ocasião da Mostra do Redescobrimento, Brasil 500 Anos, realizada no Parque Ibirapuera, em São Paulo, no ano 2000, um dos mantos existentes na Europa foi trazido do museu de Copenhagen (Dinamarca) para ser exposto naquela oportunidade. Após anos de negociação, este manto retornou ao Brasil. Trata-se do exemplar mais bem conservado que se tem notícia, que estava localizado na Dinamarca desde pelo menos 1699 e compunha o acervo do Museu Nacional da Dinamarca.
O Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro confirmou a chegada do manto Tupinambá no dia 11 de julho de 2024, mais de um ano depois da aprovação de seu retorno. As negociações para a devolução do objeto envolveram esforços entre Ministério das Relações Exteriores, Ministério da Cultura, Ministério da Educação e Ministério dos Povos Indígenas.https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/apos-300-anos-na-dinamarca-manto-tupinamba-volta-ao-brasil/