Explorações chinesas são viagens expedicionárias de chineses em terras estrangeiras, tanto por terra como por mar, que abrangem desde as embaixadas do diplomata Zhang Qian através da Ásia Central durante a Dinastia Han no até as Viagens do tesouro Ming, conduzidas pelo navegador Zheng He, que atravessaram o Oceano Índico e alcançaram a África Oriental no .
Explorações terrestres
thumb|upright=1.4|Países descritos no relato de Zhang Qian, com países visitados destacados em azul No , Zhang Qian foi enviado pelo imperador Hu para realizar uma série de embaixadas para além da Bacia do Tarim, com o objetivo de estabelecer relações diplomáticas e comerciais com reinos da Ásia Central, tal como o império Parta e os reinos remanescentes Báctrias, visando também obter aliados contra os Xiongnu. Sua expedição consistiu no primeiro contato diplomático oficial dos chineses com povos ao oeste, embora comerciantes chineses já operassem de maneira independente na chamada Rota da Seda, como Zhang Qian constatou ao encontrar produtos típicos da China Meridional em mercados báctrios que, por sua vez, foram adquiridos na Índia.
Entre 104 e , o imperador Wu de Han travou guerras contra os Iuechis, habitantes de “Dayuan”, um reino helenizado sediado em Fergana, descendente das conquistas macedônias de Alexandre, o Grande. Com isso, o imperador Wu expandiu as fronteiras da dinastia Han além do corredor de Hexi até as Regiões Ocidentais, ou Xiyu, hoje conhecidas como Xinjiang. O controle da área foi estabelecido por um protetorado, mas o domínio da distante região podia ser apenas escassamente exercido pelos Han, permanecendo assim um conjunto de estados vassalos com um grau considerável de autonomia.
Gan Ying, emissário do general Ban Chao, foi enviado no final do para travar relações oficiais com o Império Romano, então conhecido vagamente como Daqin entre os chineses. Após uma longa viagem por via terrestre, Gan Ying não pode concluir seu objetivo, terminando sua expedição após alcançar o que chamou de “Mar Ocidental” (sendo incerto se ele se referia ao Golfo Pérsico, ao Mar Negro ou ao Mar Mediterrâneo) e ser desencorajado por marinheiros a prosseguir por mar devido ao mau tempo. Seu relato, contendo descrições dos produtos e costumes dos “romanos” encontrados, é o único registro chinês conhecido de um viajante em terras ocidentais durante a Antiguidade. Extraoficialmente, no entanto, pesquisas arqueológicas indicam a presença de pessoas com origem no leste da Ásia dentro do território romano, demonstrando a existência de formas de contato apesar da distância.
Séculos depois, com o crescimento do budismo em China, o monge Xuanzang realizou uma peregrinação de 17 anos pela Índia no , ao partir de Xi’an e estabelecer-se principalmente em Nalanda, um efervescente centro de estudos budistas, visitando também cortes e mosteiros em regiões distintas como a Caxemira, Guzerate, Seri Lanca e Bangladexe. Seu propósito foi educar-se sobre o budismo na parte do mundo que lhe deu origem, reunir textos sagrados sobretudo em sânscrito (e não páli, como seria de se esperar), transportá-los para China e, de certa forma, enriquecer o budismo praticado em China a partir de fontes originais e reflexões de novas escolas de pensamento. Ao retornar, sua extensa comitiva compreendia “mais de 600 manuscritos em sânscrito, sete estátuas de Buda e mais de mil relíquias”. Apesar de restrições legais envolvendo viagens de chineses para o exterior, ele foi recebido calorosamente pelo imperador Tang Taizong ao regressar. Este lhe ofereceu cargos de prestígio na corte, todos recusados por Xuanzang, que preferiu exercer a modesta atividade de tradutor num mosteiro. Xuanzang escreveu suas experiências de viagem em Grandes Registros Tang sobre as Regiões Ocidentais, obra de imenso valor histórico, que consistiu na principal expertise chinesa sobre a Índia nos séculos vindouros, inspirou a popular novela Jornada ao Oeste, redigida durante a dinastia Ming, e se mantém no presente como uma referência para pesquisas arqueológicas nas áreas visitadas.
Explorações marítimas Mar da China Meridional Antes da invenção da bússola por marinheiros chineses no , a navegação no Mar da China Meridional era regida sobretudo por ventos de monções, os quais mantinham condições relativamente desfavoráveis para navegar rumo ao sul do continente, pois eles seguem uma direção Norte, a partir da linha do Equador, durante o verão, enquanto assumem uma orientação Sul durante o inverno. Isso explica, por instância, a origem austronésia das populações indígenas de Taiwan durante o povoamento dessa ilha no paleolítico e a prevalência de trocas e laços culturais deles com os povos insulares do Sudeste Asiático pelo menos até o, muito mais do que com habitantes da China continental, que comercializaram com os indígenas e ocuparam gradativamente Formosa apenas a partir da Dinastia Tang.
Esse atributo remoto da ilha, a despeito da proximidade geográfica, expressa bem uma comparação de Braudel sobre a China meridional, ao sul do rio Yangtzé, representar uma espécie de América para a civilização Han, consolidada a partir do sedentarismo populacional e dinastias políticas oriundas da bacia do Rio Amarelo; o sul foi por séculos uma vasta região longínqua, com sertões inacessíveis e cantos acessíveis apenas pelo mar, repleta de aborígenes, falantes de inúmeras línguas, que mais tarde se tornaria próspera, mas somente após séculos de levas migratórias graduais, irregulares, resistências dos nativos e dos próprios chineses para ali deslocados, retrocessos, um controle estatal frequentemente apenas nominal, com sua conquista tornada possível somente a partir do lento desenvolvimento de tecnologias mecânicas e políticas, incluindo aqui a navegação. A colonização da China Meridional começou com o fim do Período dos Estados Combatentes e a consolidação imperial da Dinastia Qin no final do , quando a marinha chinesa auxiliou invasões terrestres em Cantão e no norte do Vietnã (de início chamado de Jiaozhi, depois Annan,Fairbank, 191. permanecendo não totalmente independente dos chineses até o ano 938). Como evidência da expansão náutica nessa época, um ancoradouro antigo foi encontrado em 1975 em Cantão através de escavações e datado do período dinástico Han Ele apresenta três plataformas, capazes de fabricarem navios com até 30 metros de comprimento, 8m de largura e uma tonelagem de 60 metros cúbicos.Wang (1982), 122.
Durante o Período dos Três Reinos, viajantes de Wu Oriental realizaram outras expedições costeiras. As mais importantes foram as de Zhu Ying e Kang Tai, ambos enviados pelo governador de Cantão e Jiaozhi Lü Dai no início do Embora cada um deles escreveu um relato de suas viagens, eles se perderam no ; a obra de Zhu Crônicas das Curiosidades de Phnon (t , s , Fúnán Yìwù Zhì) desapareceu por completo, enquanto o relato de Kang Contos sobre Países Estrangeiros (t , s , Wúshí Wàiguó Zhuàn), sobreviveu apenas através de referências fragmentadas em outras obras, como Shuijing Zhu e Yiwen Leiju.Sun 1989, pp. 191–193
Mais tarde, durante a Dinastia Jin, um líder rebelde conhecido como Lu Xun resistiu a ataques do exército imperial durante 100 dias antes se refugiar no Mar da China Meridional a partir de uma feitoria costeira. Por 6 anos ele ocupou Panyu, o maior entreposto litorâneo no extremo sul da China, acessível apenas pelo mar.Sun 1989, p. 201
Sudeste asiático Entre os séculos XV e XVIII a maior parte do Sudeste Asiático era bem conhecida por comerciantes chineses. Cidades portuárias particularmente sensíveis à intensificação do comércio oceânico, como Malaca, Manila e Jacarta, concentravam prósperas comunidades chinesas, interessadas não apenas em abastecer a China com produtos de luxo, como ninhos de andorinha e pepinos-do-mar, mas também em intermediar o fluxo comercial entre asiáticos e europeus, estes representados por portugueses, holandeses e, sobretudo, espanhóis e sua prata obtida nas Américas, com sua aquisição de especiarias, sedas e porcelanas. Cabe lembrar que os impérios chineses pouco estimulavam atividades comerciais com nações estrangeiras, ocupação percebida como de menor prestígio, e impunham restrições legais para isso, como uma revogada em 1567, quando finalmente autorizou-se um limite de 50 juncos comerciais por ano;Reid, Anthony (1999), "Chinese and Southeast Asian interactions", in Pan, Lynn, The Encyclopedia of the Chinese Overseas, Cambridge, MA: Harvard University Press, pp. 51–53, . medidas que afinal visavam combater, mas não preveniam algum grau de contrabando.
Oceano Índico e ultramar
thumb|right|Um junco chinês da Dinastia Song, construído no , apresentando um casco compartimentado
Marinheiros chineses navegaram pelo Oceano Índico ao menos desde o final do , comprovadamente alcançando lugares longínquos como Canchipurão, em Tâmil Nadu, ou a Etiópia.A Chinese in the Nubian and Abyssinian Kingdoms (8th century), Wolbert Smidt. Entre os séculos IV e V, peregrinos chineses como Faxian, Zhiyan e Tanwujie viajaram para a Índia através de rotas marítimas e trouxeram sutras e outros textos sagrados budistas ao retornarem.Sun 1989, pp. 220–221 Na altura do , é comprovado que pelo menos 31 monges chineses, incluindo I Ching, chegaram na Índia pelo mesmo método. Em 674 o explorador independente Daxi Hongtong foi um dos primeiros a atingir, com sua jornada, o cabo sul da Península Arábica, após atravessar 36 reinos localizados a leste do Mar da China Meridional.Sun 1989, pp. 316–321
Mercadores e diplomatas chineses que viveram durante a Dinastia Tang (618–907) e a Dinastia Sung (960–1279) viajavam regularmente pelo Oceano Índico após pousos em portos do Sudeste Asiático. Marinheiros podiam viajar até a Malásia, Índia, Seri Lanca, atingindo depois o Golfo Pérsico e navegando até a foz do rio Eufrates, no atual Iraque; até a Península Árabe e o Mar Vermelho, para comercializarem bens em Egito e Etiópia (porcelanas chinesas eram especialmente apreciadas em Fostate, capital egípcia).Bowman, 104–105. Jia Dan escreveu Rota entre Guangzhou (Cantão) e o Mar Bárbaro no final do , documentando como esse comércio internacional era feito; esse livro se perdeu, mas a obra Xin Tangshu reteve algumas de suas passagens sobre três rotas marítimas entre China e a África Oriental.Sun, pp. 310–314 Jia Dan mencionou faróis e minaretes de altura elevada presentes no Golfo Persa, cujas existências foram comprovadas um século depois por Almaçudi e Almocadaci.Needham, Volume 4, Part 3, 661. Além do relato de Jia Dan, outros cronistas chineses descreveram o continente africano com um notável grau de precisão a partir do em diante. Por exemplo, Dang Chengshi escreveu em 863 sobre o comércio de escravos, marfim e âmbar cinza realizado em Berbera, na atual Somália.Levathes, 38. Os portos chineses em Cantão e Chincheu recebiam, assim como tantos outros entrepostos não-ocidentais nessa época, milhares de viajantes persas, africanos, indianos, malaios, alguns dos quais faziam ali sua residência. Juncos chineses foram descritos pelo geógrafo marroquino Dreses na sua Geografia de 1154, bem como os bens que costumavam transportar.Shen, 159–161.
thumb|200px|Uma girafa trazida da Somalia no décimo-segundo ano do reinado de Yongle (1414)