Domingas Lazary do Amaral, (Pungo-Andongo, 1883 - Lisboa, 4 de junho de 1954) foi uma escritora, pedagoga, republicana, feminista e ativista portuguesa, membro da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, da Cruzada das Mulheres Portuguesas, do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas e da Maçonaria Portuguesa. É também reconhecida como uma das primeiras mulheres em Portugal a escrever sobre a condição das mulheres sob detenção em Angola no século XX.
Biografia Nasceu em 1883 na província de Malanje, em Angola, filha de José Lazary e Maria das Neves Barros. Cresceu nos círculos sociais da elite crioula, nome dado aos descendentes de nativos com portugueses emigrados nos territórios colonizados.
Dotada para os estudos, ganhou uma bolsa para viajar para Portugal, onde completou os seus estudos em Lisboa. Após, regressou a Luanda onde casou com Sebastião José do Amaral e fundou o Colégio Infantil de Luanda. Em 1908 aderiu à Liga Republicana das Mulheres Portuguesas em Luanda e no ano seguinte foi iniciada na Maçonaria Portuguesa sob o pseudónimo Heloísa d'Abelardo, integrando a Loja Humanidade do Direito Humano, em Lisboa, para onde viajava frequentemente. Em outubro de 1910, saúdou a Implantação da República Portuguesa a partir de Luanda, enquanto representante da Liga Republicana e membro da elite desta cidade.Minhas senhoras, é preciso que todas nos interessemos pela reabilitação da nossa Pátria, pois que todas temos um papel importantíssimo a cumprir: a educação dos pequeninos entes que mais tarde serão os cidadãos dignos e capazes de servir honestamente o país. Exijamos nós as professoras um ensino inteiramente laico, e a queima imediata de tudo quanto cheire a santinhos e doutrinas.Em 1916, foi uma das sócias fundadoras da Cruzada das Mulheres Portuguesas, uma colectividade de carácter republicano e democrático, dirigido por Elzira Dantas Machado e encarregado de organizar não só campanhas de recolha de donativos, confecção e distribuição de bens e agasalhos aos mais carenciados, como também de criar cursos de enfermagem necessários para preparar enfermeiras para os hospitais militares portugueses, incluindo os hospitais de campanha durante a Primeira Grande Guerra.
No mesmo ano, escreveu e publicou no jornal angolano A Capital, e posteriormente no jornal feminista A Semeadora, artigos em defesa de mulheres que cumpriam pena de degredo no Depósito Geral dos Degredados em Luanda, nos quais denunciava casos de abuso sexual, más condições de vida impostas às mulheres degredadas e a interpretação do regulamento da cadeia. Após a sua publicação, o jornal A Capital foi alvo de um processo judicial, e os artigos de Domingas Lazary foram censurados.
Fixou-se novamente em Lisboa em 1918, onde começou a dar aulas particulares e a escrever para a Alma Feminina, boletim do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (CNMP) entre 1921 e 1927, organização onde desempenhou vários papéis. Em 1924 apresentou a tese "Educação dos indígenas nas colónias e suas vantagens", no Primeiro Congresso Feminista e de Educação do qual fez parte da comissão organizadora. Dois anos depois, colaborou com Arnaldo Brazão na organização do primeiro congresso da Liga Portuguesa Abolicionista.
Em 1929 regressou a Luanda e afastou-se do CNMP por divergências ideológicas relativas à ditadura militar implantada em 1926. Contudo, em 1931 regressou novamente a Lisboa com a sua sobrinha e filha adoptiva, Maria da Piedade Lazary de Matos, que morreu prematuramente em 1947.
Durante os seus últimos anos de vida, Domingas Lazary viveu com dificuldades financeiras, sobrevivendo a coser roupa e dar explicações. Faleceu a 4 de junho de 1954 em Lisboa.
Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas Com presença activa nesta organização, integrou no movimento feminista o elenco directivo desde 1924 , onde desempenhou os seguintes cargos:
1921 - suplente da Assembleia Geral 1922 - secretária do interior - correspondência 1923-1925 - secretária do interior - actas 1926 - secretária do interior 1927 - vogal da Direcção
Em 1923, foi vogal da comissão para a elaboração do Congresso Feminista e da Educação, organizado para comemorar o décimo aniversário da fundação do Conselho, que se dá em 1924. Neste congresso, contribui com uma comunicação, intitulada A educação dos indígenas nas colónias e suas vantagens (discurso diponível na Wikisource: parte 1 e parte 2).
Pensamento político e social Considerada uma das pioneiras na defesa de uma maior autonomia para Angola, Domingas Lazary mantinha, contudo, uma visão colonial da relação entre Angola e a metrópole, entendendo o sistema colonial português como um instrumento de desenvolvimento das populações indígenas. Esta perspetiva é particularmente evidente no seu texto de 1924, A educação dos indígenas nas colónias e suas vantagens, no qual defendia a educação profissional, moral e cívica das populações africanas como meio de promover o seu desenvolvimento e, simultaneamente, contribuir para os interesses de Portugal. Deste modo, as suas posições sobre a questão colonial articulavam-se com uma conceção do papel da educação e da ação portuguesa como instrumentos de «civilização» das populações africanas. No âmbito das suas preocupações sociais, condenava também o envio de degredados para Angola, por considerar que estes constituíam um exemplo moral negativo para a sociedade colonial.
No campo dos direitos das mulheres, os seus escritos revelam uma identificação sobretudo com as reivindicações do movimento feminista branco, à semelhança de outras feministas portuguesas de origem mestiça do mesmo período, como Virgínia Quaresma. A sua reflexão sobre a condição feminina não estabelecia, de forma sistemática, uma distinção para a experiência das mulheres negras, apesar da sua própria ascendência materna africana.
Referências
Categoria:Escritoras de Portugal do século XX Categoria:Feminismo em Portugal Categoria:Maçons de Portugal do século XX Categoria:Mulheres na literatura Categoria:Escritores maçons Categoria:Ativistas de Portugal Categoria:Feministas de Portugal Categoria:Naturais de Malanje (província) Categoria:Mortos em Lisboa