O saque de Meca foi um ataque realizado pelos cármatas do Barém contra a cidade de Meca em janeiro de 930, durante o Haje. Liderados por Abu Tair Aljanabi, os cármatas entraram na cidade após prometerem segurança aos seus habitantes e peregrinos, mas iniciaram um massacre nas imediações da Caaba, saquearam o santuário e removeram a Pedra Negra, que foi levada para sua base no oásis de Alhaça. As matanças e a pilhagem prolongaram-se por vários dias, e parte dos cadáveres foi lançada no Poço de Zenzem. Durante a retirada, os cármatas foram atacados pelos hudailitas, que libertaram numerosos prisioneiros e recuperaram parte dos despojos.

O ataque ocorreu após anos de crescente confronto entre os cármatas e o Califado Abássida. Desde 923, Abu Tair havia conduzido sucessivas incursões contra territórios abássidas, saqueando Baçorá e Cufa, atacando caravanas do Haje e chegando a ameaçar Baguedade. Essas campanhas coincidiram com fortes expectativas messiânicas entre os cármatas, que aguardavam a manifestação do mádi e o advento de uma nova era religiosa. Nesse contexto, a profanação da Caaba e a remoção da Pedra Negra adquiriram também uma dimensão religiosa e simbólica: além de constituir um golpe contra a autoridade abássida, o ataque expressava a rejeição cármata às formas exteriores da religião e, segundo interpretações modernas, pretendia assinalar o fim da era do Islã e a iminência de uma nova ordem messiânica.

A profanação de Meca provocou grande repercussão no mundo muçulmano e expôs a incapacidade dos abássidas de proteger os principais locais sagrados do Islã. Apesar das exigências abássidas e fatímidas para sua restituição, a Pedra Negra permaneceu em poder dos cármatas durante mais de duas décadas, sendo devolvida a Meca apenas em 951. O episódio não encerrou imediatamente o poder cármata: após abandonar suas expectativas messiânicas mais radicais, o Estado do Barém chegou a estabelecer relações mais estáveis com os abássidas e passou a obter receitas pela proteção das próprias caravanas do Haje. Sua supremacia regional, contudo, enfraqueceu nas décadas seguintes diante da expansão do Califado Fatímida, sendo definitivamente quebrada por volta de 975.

Contexto Origens dos cármatas do Barém

Nas décadas de 880 e 890, o missionário xiita ismaelita Abuçaíde Aljanabi conquistou um número expressivo de seguidores entre as tribos beduínas do Barém. Em 899, o movimento ismaelita dividiu-se entre uma facção que reconhecia a liderança do futuro califa fatímida Abedalá Almadi e aqueles que rejeitavam suas pretensões ao imamato, conhecidos como cármatas. Fosse por convicção genuína ou por conveniência política, Abuçaíde aliou-se a esta última facção. Aliado às tribos beduínas locais dos quilabitas e ucailitas, bem como aos mercadores do Golfo Pérsico, Abuçaíde conseguiu capturar a capital da região e, em 900, consolidou sua independência ao derrotar um exército abássida enviado para restabelecer o controle sobre o Barém.

Sob o governo de Abuçaíde, os cármatas do Barém permaneceram neutros diante das fracassadas revoltas ismaelitas da década de 900 contra o Califado Abássida na Síria e no Iraque, bem como diante da fundação do Califado Fatímida na Ifríquia. À exceção de uma incursão contra Baçorá em 912, mantiveram a paz com os abássidas, assegurada por doações de dinheiro e armas enviadas pelo vizir abássida Ali ibne Issa Aljarrá. Abuçaíde foi assassinado em 913/914 e sucedido, ao menos nominalmente, por seus filhos, que exerceram o poder de forma colegiada. O mais velho, , ocupou inicialmente a posição preeminente, mas seu governo foi breve; em 923, foi substituído pelo irmão mais novo, mais ambicioso e belicoso, Abu Tair Aljanabi.

Abu Tair e a guerra contra os abássidas

thumb|300px|Mapa do Iraque nos séculos IX e X

Sob a liderança de Abu Tair, então com apenas 16 anos, os cármatas iniciaram uma série de incursões contra o Califado Abássida com um ataque de surpresa a Baçorá, em agosto de 923. A cidade foi saqueada durante 17 dias, após os quais os cármatas partiram sem encontrar oposição, levando consigo um enorme comboio de despojos e cativos. Em março de 924, destruíram a caravana do Haje que regressava de Meca para Baguedade, capturando diversos membros proeminentes da corte abássida. A reação do governo abássida aos ataques cármatas revelou-se ineficaz. As forças invasoras eram pequenas, porém altamente móveis, o que fazia com que qualquer resposta militar abássida chegasse tarde demais. Ao mesmo tempo, a base cármata no Barém encontrava-se protegida contra represálias abássidas. As rivalidades entre as facções da corte abássida, sobretudo entre o vizir Alboácem Ali ibne Alfurate e o comandante-em-chefe Munis Almuzafar, prejudicaram ainda mais a organização de uma resposta eficaz.

A caravana do Haje de 925 foi atacada a caminho de Meca e, apesar de contar com uma escolta de seis mil homens, foi obrigada a recuar para Cufa, perseguida pelos cármatas e sofrendo pesadas baixas. Os cármatas exigiram então a entrega de Baçorá e do Cuzistão e, diante da recusa, invadiram Cufa e saquearam-na durante sete dias. A pilhagem atingiu tal proporção que até os portões de ferro da cidade foram desmontados e transportados para o Barém. Na temporada seguinte do Haje, em janeiro de 926, uma forte escolta militar garantiu a segurança dos peregrinos, embora as autoridades tivessem de pagar uma vultosa quantia aos cármatas para obter salvo-conduto. No Haje seguinte, a caravana teve de ser inteiramente cancelada, pois o governo abássida não dispunha de recursos para custear sua escolta. O pânico espalhou-se por Meca, e seus habitantes começaram a abandonar a cidade diante da expectativa de um ataque cármata, que acabou não ocorrendo.

Invasão cármata do Iraque e a descoberta do mádi Em outubro ou novembro de 927, os cármatas, comandados por Abu Tair, invadiram o Iraque. Cufa foi capturada, e simpatizantes xiitas locais proclamaram o fim da dinastia abássida e a chegada iminente do messias islâmico, o mádi. Na época, os cármatas esperavam a chegada do mádi e o início da era final do mundo em 928, quando os planetas Saturno e Júpiter entrariam em conjunção. O avanço cármata em direção a Baguedade foi detido quando os abássidas romperam os canais, inundando os campos e destruindo as pontes que davam acesso à capital califal. Os cármatas recuaram para além do Eufrates, mas continuaram marchando para o norte ao longo do rio, em direção à Alta Mesopotâmia, saqueando as regiões por onde passavam e extorquindo pagamentos das cidades locais.

Finalmente, no verão de 928, os cármatas retiraram-se para suas bases no Barém. Abu Tair deixou para trás um poema no qual prometia retornar e se apresentava como o arauto do mádi. Os preparativos para a chegada do mádi intensificaram-se: uma fortaleza, denominada , foi construída no oásis de Alhaça, e muitos simpatizantes xiitas acompanharam os cármatas em seu retorno, ansiosos por presenciar a chegada do messias. Entre os prisioneiros capturados durante a invasão estava um jovem persa chamado Abu Alfadle Alisfaani, feito prisioneiro em . O jovem, de cerca de vinte anos e comportamento altivo, foi reconhecido por Abu Tair como o aguardado mádi.

Massacre dos peregrinos e pilhagem da cidade thumb|280px|Caaba em 2003

Em 929, após anos de interrupção, as caravanas do Haje foram retomadas sob escolta militar e chegaram a Meca em dezembro daquele ano. Em 11 de janeiro, no dia em que teriam início os ritos do Haje, um exército cármata liderado por Abu Tair surgiu diante da cidade. A guarnição local tentou impedir seu avanço, mas Abu Tair reivindicou seu direito de entrar em Meca como muçulmano e deu garantias de segurança à cidade e a todos os que nela se encontravam. Assim que Abu Tair e seus homens entraram na cidade, contudo, começaram a massacrar os peregrinos reunidos para realizar o circuito ritual em torno da Caaba, enquanto seus líderes recitavam em tom de escárnio versículos do Alcorão que prometiam proteção divina por intermédio do templo sagrado. Os cadáveres foram deixados insepultos, e alguns foram lançados no Poço de Zenzem. O governador de Meca, , estava entre os mortos.

Os cármatas saquearam a Caaba, despojando-a de suas relíquias, objetos preciosos e ornamentos. Até mesmo suas portas foram arrancadas e levadas, permanecendo no lugar apenas a calha de ouro do telhado, conhecida como . Por fim, a Pedra Negra foi arrancada de seu encaixe e levada pelos invasores. Segundo uma tradição, Abu Tair compôs um poema no qual proclamava que a Caaba não pertencia a Deus, pois Deus jamais escolheria para si uma casa. Um relato, considerado exagerado pelos historiadores modernos, afirma que somente o saque retirado da Caaba foi tão volumoso que foram necessários cinquenta camelos para transportá-lo de volta ao Barém. Entre as relíquias conservadas em Meca, apenas o foi salvo, depois de ser retirado clandestinamente do local. Segundo ao menos um relato, alguns habitantes da própria cidade também participaram do massacre, atacando os peregrinos. Os cármatas prosseguiram com as matanças e a pilhagem durante oito a onze dias, retirando-se todas as noites para seu acampamento fora da cidade e retornando na manhã seguinte. Durante a viagem de regresso, foram emboscados pelos hudailitas, no contexto de um conflito mais amplo entre a tribo e os cármatas. Os hudailitas conseguiram libertar muitos prisioneiros e recuperar grande parte dos despojos antes que os cármatas escapassem.

Motivações do ataque

As motivações dos cármatas para o ataque e para a remoção da Pedra Negra permanecem, em certa medida, incertas. Segundo o historiador Hugh N. Kennedy, os cármatas certamente esperavam obter concessões do governo em troca da devolução da Pedra Negra e talvez pretendessem até mesmo desviar a rota do Haje, com as oportunidades comerciais que proporcionava, para sua própria capital em Alhaça. A hipótese de que os cármatas pretendiam desviar o Haje para Alhaça, contudo, foi contestada por diversos historiadores, entre eles Michael Jan de Goeje, um dos primeiros estudiosos modernos do ismaelismo. Como destaca o historiador Heinz Halm, o ataque não constituiu uma simples incursão militar contra «infiéis» ou contra os abássidas, considerados usurpadores pelos cármatas: o saque da Caaba foi um ato de sacrilégio que rompeu efetivamente os vínculos entre os cármatas e o Islã tradicional. A doutrina cármata sustentava que todas as religiões reveladas anteriores — o judaísmo, o cristianismo e o próprio Islã — e suas escrituras não passavam de véus: impunham formas e regras exteriores () destinadas a ocultar a religião interior e verdadeira (), tal como teria sido praticada no Paraíso. A vinda do mádi não apenas anunciaria o fim dos tempos, mas também revelaria essas verdades esotéricas () e libertaria a humanidade das obrigações exteriores da lei religiosa, a xaria.

Halm interpreta a recitação zombeteira de suras durante o massacre como manifestação do propósito dos cármatas de demonstrar que a revelação alcorânica era falsa, e considera o saque de Meca coerente com a crença de que, com a vinda do mádi como manifestação de Deus na Terra, todas as religiões anteriores se revelariam falsas e, consequentemente, elas e seus símbolos deveriam ser rejeitados. Segundo o historiador Farhad Daftary, a transferência da Pedra Negra para Alhaça destinava-se «presumivelmente a simbolizar o fim da era do Islã» e o início de uma nova era messiânica. Embora Abu Alfadle Alisfaani não tenha sido apresentado publicamente como mádi até 931, Halm argumenta que os acontecimentos de 930 estavam intimamente relacionados às expectativas messiânicas nele depositadas por Abu Tair e tinham como objetivo preparar o terreno para a manifestação definitiva do mádi.

Consequências