Nikolai Onufrievich Losski (, – 24 de janeiro de 1965), também conhecido como N. O. Losski, foi um filósofo russo, representante do idealismo russo, da epistemologia intuitivista e do personalismo. Elaborou uma ética e axiologia baseada na existência do livre arbítrio (conceito chamado por alguns de "libertarianismo metafísico"). Ele deu ao seu sistema filosófico o nome de personalismo intuitivista. Fez, com isso, contribuições não apenas à antropologia filosófica, mas também à antropologia religiosa e mística. Por sua monadologia, Losski também foi categorizado dentro do neoleibnizianismo, ou leibnizianismo russo.
Nascido na Letônia, passou a sua vida profissional em São Petersburgo, Praga, Bratislava, Nova Iorque e Paris. Exilado pelos soviéticos nos navios dos filósofos, Losski foi um defensor da tradição cultural da Era de Prata russa. Ele foi o pai do influente teólogo cristão Vladimir Losski.Sciabarra, Chris Matthew. "Investigation: the Search for Ayn Rand's Russian Roots." Liberty 1999-10. 10 August 2006. Pensador sistemático e universal de filosofia, fez uma síntese de várias áreas e pensadores.
A obra de Losski definiu novas direções ao pensamento filósofo russo da época, inspirando diversas personalidades contemporâneas religiosas, filosóficas e científicas, como Nikolai Berdiaev e Semion Frank.Bischof, Marco (2007). «Vernadsky's Noosphere and Slavophile Sobornost'». In: Beloussov, L. V.; Voeikov, V. L.; Martynyuk, V. S. Biophotonics and Coherent Systems in Biology. Springer
Vida Losski nasceu em Kraslava, então no Império Russo. Seu pai, Onufri Losski, tinha raízes bielorrussas (seu avô era um padre uniata greco-católicoBelarus is the part of the world...) e era um cristão ortodoxo oriental; sua mãe, Adelajda Przylenicka, era polonesa e católica romana. Sua mente aberta levou-o a ser chamado pejorativamente de "ateu" na escola. Pego com a leitura das obras de Dmitry Pisarev, Nikolay Dobrolyubov, Nikolay Mikhaylovsky e Wilhelm Wundt, além de em discussões sobre ateísmo e socialismo com colegas, foi expulso do ginásio em 1887 sob a acusação de propaganda. Mesmo proibido de ingressar em instituições russas após esse ocorrido, conseguiu se matricular na Universidade Imperial de São Petersburgo, estudando na Faculdade de Física e Matemática de 1891 a 1894. Em 1894, começou a estudar na Faculdade Histórica-Filológica, interessando-se profundamente pelos pensadores filosóficos.
O desenvolvimento inicial do sistema metafísico de Losski foi influenciado em grande medida pelo idealismo de Alexei A. Kozlov (1831–1901), a partir do contato e amizade que Losski tinha com o filho deste filósofo, Sergei Askoldov, iniciada nessa mesma época. Segundo Losski conta em suas memórias, "sob a influência de suas conversas com Kozlov que ele rapidamente se libertou do materialismo para chegar ao seu oposto―pampsiquismo".
Losski realizou estudos de pós-graduação na Alemanha com Wilhelm Windelband, Wilhelm Wundt e G. E. Müller, obtendo mestrado em 1903 e doutorado em 1907.
A sua tese de mestrado analisou as teorias psicológicas pela perspectiva do voluntarismo, sob o título Die Grundlagen der Psychologie vom Standpunkte des Voluntarismus ("Os fundamentos da psicologia do ponto de vista do voluntarismo"). Sua magnum opus serviu ao doutorado e foi chamada Os fundamentos do intuitivismo. Buscando conciliar empirismo e misticismo, Losski chamou sua teoria primeiro de "empirismo universalista ou místico", mas somente na dissertação de doutorado definiu seu nome como "intuitivismo". Depois retornou à Rússia, publicando em diversos periódicos russos. Na época, em 1909, muitos intelectuais russos contribuíam aos simpósios Vekhi, dentre eles Berdiaev, Bulgakov, Struve e Frank, que eram ex-marxistas críticos a excessos revolucionários e publicaram um manifesto clamando à renovação espiritual da Rússia.
Em 1916, tornou-se professor de filosofia em São Petersburgo. Losski apelou a um redespertar religioso e espiritual, ao mesmo tempo que apontava os excessos pós-revolução. Na mesma época, Losski sobreviveu a um acidente de elevador que quase o matou, o que o levou a voltar para a Igreja Ortodoxa Russa sob a direção do padre Pavel Florensky. Essas críticas e conversões custaram a Losski seu cargo de professor de filosofia e o levaram ao exílio no exterior, no famoso navio dos filósofos (em 1922) da União Soviética, como um contrarrevolucionário, mesmo ele sendo um socialista fabiano.
Exilado, Losski foi convidado para ir a Praga pelo primeiro presidente da república tchecoslovaca, Tomáš Masaryk. Tornou-se professor na Universidade Russa de Praga, onde ensinou por muitos anos. Em 1942, mudou-se para lecionar em Bratislava com o apoio do presidente Jozef Tiso. Esses vários anos foram férteis em amizades e interações, incluindo críticas no intercâmbio de pensamento com outros pensadores, como contra os positivistas. Ele também colaborou com o sociólogo de Harvard Pitirim Sorokin no livro Dinâmica Social e Cultural.
Em 1945, com a aproximação das tropas de Stalin durante a Ofensiva de Praga e temendo ser eliminado por agentes secretos soviéticos por ser um exilado russo, abandonou a Eslováquia, viajando para Praga e depois para Paris. Muitos de seus colegas russos foram de fato raptados pelos soviéticos e enviados a gulags.
Depois de uma breve estadia na França, em 1947 Losski assumiu o cargo de professor de teologia no Seminário Teológico Ortodoxo de São Vladimir, um seminário cristão ortodoxo em Crestwood, Nova Iorque. Em 1951, publicou o livro História da Filosofia Russa, que serviu também para desenvolver seu próprio pensamento e aproximação entre filosofia e religião, e analisou categorias de pensadores russos como "eslavófilos" e "ocidentalizantes".Lossky, Nikolay (1952). History of Russian Philosophy. Londres: George Allen and Unwin Ltd. Na introdução de Valor e Existência, também afirmara que "devido à tradição da Igreja, a Rússia tinha uma filosofia implícita, uma filosofia que nasceu do neoplatonismo dos Padres da Igreja. Este neoplatonismo implícito é a verdadeira herança do pensamento russo".
Em 1958, seu famoso filho, Vladimir Losski, faleceu tragicamente. Isso levou a Nikolai cair em profunda depressão e ter sua saúde deteriorada. Em 1961, Losski foi para a França. Os últimos quatro anos de sua vida foram passados lá, lutando contra doença, até falecer aos 94 anos em 1965.
Filosofia Intuitivismo Losski foi um dos mais proeminentes neoidealistas russos de sua época. A Гносеология ou gnosiologia de Losski é chamada de personalismo intuitivista e adaptou em parte a abordagem dialética hegeliana de se considerar primeiro um problema de pensamento em termos de sua expressão como uma dualidade ou dicotomia. Uma vez que o problema é expresso como uma dicotomia, as duas ideias opostas são fundidas para transcender a dicotomia. Esta transição se expressa no conceito de sobornost, integralidade ou união comunal mística.
Conhecimento e memória A epistemologia de Losski teve uma virada após sua conversão religiosa, abandonando suas tendências céticas e agnósticas anteriores em favor da patrística, dos patriarcas ortodoxos e do neoplatonismo cristão. Foi influenciado pelos místicos russos Aleksei Stepanovich Khomiakov (1804–1860) e Ivan Vasilyevich Kireevsky (1806–1856) na fase mais tardia de sua vida, e principalmente por Vladimir Soloviov. Buscando mais elaborar uma filosofia metafísica do que uma teologia, desenvolveu um sistema neoidealista que chamou de personalismo intuitivista, incorporando a gnosiologia neoplatônica e a dialética hegeliana em sua epistemologia. Utilizava de conceitos como intuição ou o noema husserliano para afirmar que a percepção humana dos objetos do mundo captava imediatamente e diretamente os objetos reais, e não suas imagens. Para ele, apreendemos e conhecemos os objetos em seu ser real, sua essência. Dizia que havia uma conexão entre sujeito e objeto, que Losski chamava de "coordenação epistemológica", a qual era supratemporal e supraespacial. Ele chamava esse seu sistema epistemológico, ontológico e metafísico de "realismo ideal".
Para Losski, no processo de entendimento se desenvolve a compreensão de um objeto pela experiência consciente direta e, a partir disso, forma-se a memória, a qual se torna fundamento para todos os processos conscientes subsequentes. Assim, segundo ele, a mente absorve e estrutura as impressões da realidade direta de maneira coesa e unificada com o mundo. Para Peter Mornar, essa apreciação noética de Losski é monista.
Defendia, assim, um intuitivismo absoluto e imanentismo, pela assertiva "tudo é imanente em todo o resto", e afirmava que a consciência atuava não racionalmente, mas através da intuição e nous, em uma conexão orgânica do conhecedor com o ambiente. O nous, por meio da atividade racional da lógica, estrutura as várias parcelas de experiências armazenadas na memória. Ele assumia um otimismo epistemológico em que todas as coisas seriam passíveis de entrar na consciência, e que os objetos existem independentemente da consciência do sujeito (transsubjetividade). Para Losski, todas as coisas são consubstanciais.
Ele considerava a existência de seres ideais e reais em uma dicotomia. Para isso, adotava uma monadologia, em que as mônadas de Leibniz eram chamadas por Losski em seu sistema pessoal de "agentes substantivais". Esses agentes substantivais são seres ideais concretos que servem de ponte entre a realidade ideal e os seres atuais. Losski os considerava dotados de liberdade, natureza criativa e aperfeiçoabilidade infinita. Diferente de Leibniz, que afirmava as mônadas como mentes "dormentes", há para Losski, por trás dos processos materiais, vários agentes substantivais que pertencem a estágios inferiores de evolução, participando da criação do processo global de maneira complexa em vários níveis. Enquanto para Leibniz as mônadas eram "sem janelas", para Losski, seguindo Kozlov, havia abertura, interpenetração e interação entre as mônadas.
Assim, o sistema de Losski se assemelha a alguns temas metafísicos de interesse atual, como o pampsiquismo. As almas, em sua interação, são agentes substantivais, em um personalismo hierárquico, à medida que há transferência de sabedoria na interação.
Segundo Losski, a materialidade é derivada do conjunto dos agentes substantivais, conforme afirma: "O ser material é um processo; surge no processo de interação de agentes substantivos – o que leva ao mesmo tempo à origem do espaço e do tempo" e "o esforço mútuo dá origem à existência da matéria"; a partir disso é possível se originar a injustiça, porém nesse sistema ele também faz emergir um significado moral do cosmos, em progressiva desmaterialização. Em Personalismo versus Materialismo (1952), Losski afirma concordar com a "teoria dinamística da matéria" da física moderna, parcialmente concordando com a filosofia do processo de Alfred N. Whitehead.
Grande parte do trabalho de Losski sobre uma teoria ontológica do conhecimento foi feita em colaboração com seu amigo próximo e colega de trabalho Semen L. Frank. Juntos, focaram a pesquisa na abstração do conhecimento, afirmando que o "conhecimento epistemológico" apenas era obtido após a abstração consciente dos eventos intuitivamente experienciados e memorizados, a partir do que o sujeito transcende a realidade o espaço e tempo, mas continua conectado com o mundo.
Sobornost e o mundo como um todo orgânico