thumb|Carro do fumacê no município de Coronel Fabriciano.
O fumacê no Brasil refere-se à aplicação de substância inseticida por meio de um veículo com caçamba dotado de pulverizador, que expele o veneno pelas ruas das cidades. Ao longo das décadas de 1980 e 1990, esta foi uma das principais estratégias na tentativa de reduzir a proliferação do mosquito transmissor da dengue, do vírus da zika, da Chikungunya e da febre amarela nas cidades brasileiras. Reporta-se, no entanto, que essa técnica tem sido utilizada pelo poder público no Brasil sem questionamentos sobre sua eficácia ou segurança, perpetuando-se por ser uma ação cômoda e positiva do ponto de vista eleitoral, ao atender aos pedidos da população pelo fumacê nos canais mantidos pelas prefeituras. Nesse contexto, seu uso tem sido debatido e questionado por especialistas de diversas áreas envolvidos nas pesquisas sobre epidemias.
Eficiência dos fumacês
thumb|Palácio de Manguinhos, a sede da Fiocruz, uma das principais instituições de pesquisa de epidemiologia do Brasil.
Em 2024, durante a epidemia enfrentada pelo Brasil no primeiro semestre, o infectologista da Fundação Oswaldo Cruz, Rivaldo Cunha, afirmou em entrevista ao SBT News que a eficácia dos fumacês, depois que a epidemia está estabelecida, seria mínima.
Além de sua ineficiência, de seu alto custo e de seu sentido antipedagógico junto à população, o fumacê, segundo infectologistas especialistas em entomologia, como o professor da Universidade Federal do Espírito Santo Aloísio Falqueto, é responsável por problemas na saúde humana e acaba por exterminar os insetos que encontra pelo caminho, incluindo as abelhas, especialmente as de espécies nativas brasileiras sem ferrão, que são fundamentais para a polinização das florestas e para a estabilidade da agricultura. Guilherme Plotecya, membro da Associação de Meliponicultores do Espírito Santo, por sua vez, lamenta que, durante os anos de eleições municipais, o fumacê continue sendo usado como cabo eleitoral por vereadores e prefeitos, aproveitando-se da falta de conhecimento da população sobre as formas efetivas de combater essas doenças e de sua crença anacrônica na necessidade do fumacê.
Impactos na saúde humana e no meio ambiente
thumb|Aplicação de fumacê no Distrito Federal, em 2022, com a utilização de um trator em meio à população transeunte.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, há evidências de que o Malathion, veneno utilizado por anos no fumacê no Brasil, causa câncer em animais. O produto é considerado pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer como provavelmente cancerígeno também para os seres humanos, uma vez que pesquisas indicam uma associação entre a exposição ao pesticida e o desenvolvimento de linfoma não Hodgkin e câncer de próstata. De acordo com o Manual sobre Medidas de Proteção à Saúde dos Agentes de Combate às Endemias, publicado pelo Ministério da Saúde do Brasil em 2019, as pessoas responsáveis pela aplicação desses produtos, chamadas de "agentes de combate às endemias", estão potencialmente expostas ao risco de intoxicação exógena, doenças respiratórias agudas e crônicas, doenças do sistema nervoso e neuropsiquiátricas, doenças hepáticas e renais, bem como alguns tipos de câncer relacionados ao trabalho. Em 2019, quando o Ministério Público do Trabalho interditou o serviço de fumacê em todo o Distrito Federal, a alegação foi a de que se tratava de uma ação necessária, pois havia décadas que os trabalhadores da área vinham sendo envenenados e desenvolvendo câncer. Poucos anos antes, em 2016, à época do amplo uso do Malathion, Fernando Carneiro, biólogo, pesquisador e então diretor na Fundação Fiocruz, afirmava que:
Acerca dessa possibilidade de uso de fumacês aéreos, pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz e da Universidade Federal do Rio de Janeiro alertam para a ineficácia desse tipo de ação para o controle do Aedes, prevista na Lei 13.301/2016. Em artigo publicado no jornal O Globo, os pesquisadores Denise Valle, Ricardo Lourenço de Oliveira e Pedro Lagerblad de Oliveira defendem que tal medida seria inaceitável tanto pelo bom senso quanto pelo risco à saúde humana e pelo prejuízo ambiental, além de ser uma ação potencialmente desastrosa e desprovida de sentido.
Substituição do Malathion pelo Cielo
thumb|Moradora de Brasília concedendo uma entrevista na iminência da passagem de um carro do fumacê, no ano de 2016, quando o Malathion ainda era o produto mais utilizado no Brasil.
Até o ano de 2019, o Ministério da Saúde recomendava o inseticida chamado Malathion, classificado pela IARC como provavelmente cancerígeno para os seres humanos. O produto acabou sendo substituído diante da comprovada resistência do Aedes aegypti à substância. Contudo, em vez de buscar alternativas sustentáveis, o Ministério passou a recomendar o produto chamado Cielo, da empresa norte-americana Clarke Mosquito Control Products. O Cielo™, conhecido ainda como Cielo™ ULV e Nebula™ ULV, traz em sua ficha de descrição que pode ser nocivo se ingerido ou em contato com a pele, provocar irritação ocular e ser muito tóxico para os organismos aquáticos, nos quais possui efeitos prolongados, além de também ser tóxico para abelhas, de acordo com seu próprio fabricante. O Estado do Espírito Santo possui, desde 2021, uma lei que dispõe sobre a proibição da utilização de inseticidas à base de compostos neonicotinoides nos serviços de carro fumacê nos centros urbanos, cujo objetivo é impedir a morte de abelhas, visto que os inseticidas à base de neonicotinoides são extremamente letais para as colônias. Ainda no contexto do processo de trocas e substituições dos produtos utilizados como veneno nos fumacês, em estados como São Paulo, sua aplicação foi restringida pela Secretaria de Saúde do Estado em 2001, uma vez que o produto usado no fumacê tinha baixa eficiência e não atingia os mosquitos que estavam dentro das casas, além de provocar graves impactos ambientais, como a morte de pássaros e plantas e complicações em pessoas com problemas de saúde, principalmente pulmonares. Outras secretarias estaduais já emitiram notas análogas ao longo dos anos, como a de Sergipe, que, por meio de sua Vigilância Epidemiológica, adverte que o uso indiscriminado do carro fumacê pode causar danos graves à saúde e ao ecossistema como um todo. Entre 2016 e 2019, o estado do Ceará, por exemplo, recebeu 174 mil litros de Malathion, de acordo com a Secretaria Estadual da Saúde (Sesa). No ano seguinte, já em 2020, o Ceará solicitou 10 mil litros do inseticida para uso no primeiro trimestre, mas o Ministério só autorizou o envio de 5,4 mil litros. Naquele ano, segundo a Coordenadoria Geral das Arboviroses, a remessa do produto Cielo estava prevista para o mês de março. Luciano Pamplona, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), contudo, ressaltou que o Cielo é um inseticida e que, se as pessoas forem submetidas a uma exposição prolongada, podem ter problemas respiratórios e quadros alérgicos.
Recomendações durante o uso
thumb|No município brasileiro de Votuporanga, servidor a borrifar pesticida em roupas no varal.
No Brasil, nos municípios que ainda fazem uso do fumacê, as recomendações fornecidas pelas secretarias de saúde incluem sair de casa e levar consigo os animais de estimação e cobrir objetos de uso doméstico, além de proteger crianças e idosos, cobrir aquários, gaiolas, bebedouros e alimentos para evitar o contato com o veneno por um período mínimo de três horas após a passagem do carro do fumacê. De modo geral, recomenda-se ainda no Brasil deixar portas e janelas abertas, como faz a Secretaria de Saúde do Distrito Federal, que diz explicitamente: "abra as portas e as janelas para o fumacê entrar". No entanto, países como Estados Unidos, França e Bornéu recomendam exatamente o oposto: manter portas e janelas fechadas. No caso dos Estados Unidos, as recomendações incluem ainda que crianças e mulheres grávidas tomem cuidado para evitar a exposição ao veneno, com todas as pessoas permanecendo dentro de casa ou evitando a área sempre que ocorrer a pulverização por cerca de 30 minutos, além de fechar janelas e portas, desligar os aparelhos de ar condicionado, proteger os olhos, lavar as roupas que entrarem em contato com o veneno e consultar um médico caso apresentem efeitos na saúde decorrentes da pulverização. Há alguns municípios no Brasil, contudo, que seguem recomendações análogas àquelas dos Estados Unidos. Em Farroupilha, por exemplo, a recomendação é que os moradores mantenham as portas e janelas fechadas e não circulem pelas ruas durante o período do fumacê, já que, devido à toxicidade do produto, ele pode ser prejudicial à saúde.
No município brasileiro de Patrocínio, no entanto, há registros de que, mesmo com a intensa nuvem de fumaça contendo o pesticida, moradores permaneceram na rua e na porta de casa observando a passagem do carro do fumacê, sendo cobertos pela nuvem de veneno. Em Ribeirão Preto, a orientação da Secretaria da Saúde já foi a de que as pessoas deveriam deixar a casa aberta e, quando o caminhão passasse, permanecer do outro lado da rua, instrução dada no mesmo ano em que o município registrou moradores com dor de cabeça, irritação na garganta e enjoos logo após uma aplicação do "fumacê", o veneno utilizado para combater a dengue.
Uso eleitoral dos fumacês
Os fumacês têm sido utilizados pelo poder público no Brasil sem questionamentos sobre sua eficácia ou segurança, perpetuando-se por serem uma ação cômoda e positiva do ponto de vista eleitoral, ao atender aos pedidos da população pelo fumacê nos canais mantidos pelas prefeituras. Guilherme Plotecya, membro da Associação de Meliponicultores do Espírito Santo, por sua vez, lamenta que, em anos de eleições municipais, a tendência seja que o fumacê continue sendo usado como cabo eleitoral por vereadores e prefeitos, aproveitando-se da falta de conhecimento da população sobre as formas efetivas de combater essas doenças e de sua crença anacrônica na necessidade do fumacê.
Protestos e ataques contra os carros fumacês
Protestos contra os carros fumacês são registrados em diversos países da América, tais como Canadá e Estados Unidos. Entre os relatos de ataques e protestos contra os carros fumacês no Brasil, registra-se, em 2019, um ataque na região do Morumbi, na cidade de São Paulo, possivelmente cometido com pedras ou tiros. Durante a epidemia de dengue de 2024, reportou-se ao menos um ataque no município de Uberlândia, onde um morador arremessou uma pedra no para-brisa traseiro do automóvel, que ficou danificado.
Alternativa aos fumacês
thumb|Ação de combate à dengue na comunidade de Ilha de Santana, em Olinda. É importante a adoção de ações para impedir a proliferação dos pernilongos, como: evitar o acúmulo de água e fazer a limpeza de lotes e terrenos.