O ultraconservadorismo refere-se a visões conservadoras extremas na política ou na prática religiosa. Na política moderna, o termo "ultraconservador" geralmente designa conservadores da extrema-direita do espectro político, abrangendo grupos ou indivíduos situados à direita daqueles que defendem visões conservadoras convencionais e estendendo-se ainda mais à direita, até incluir partidos marginais.

Elementos do ultraconservadorismo baseiam-se tipicamente na ideia de uma crise cultural; frequentemente, defendem o antiglobalismo — adotando posturas contrárias à imigração e favoráveis ao nacionalismo e à soberania — e recorrem ao populismo e à polarização política, com dinâmicas de distinção entre o endogrupo e o exogrupo. O uso de teorias da conspiração também é comum entre ultraconservadores.

História por país Américas Argentina

O presidente Javier Milei é um populista de direita frequentemente descrito na mídia como ultraconservador ou ultraliberal. A ideologia de Milei aproxima-se do anarcocapitalismo ou do paleolibertarianismo. A coalizão A Liberdade Avança, liderada por Milei, é considerada antissistema por rejeitar o peronismo, o legado político de longa data da Argentina.

Brasil

thumb|200px|Jair Bolsonaro, 38º Presidente do Brasil (2019–2023) O presidente Jair Bolsonaro foi descrito como ultraconservador durante seu mandato, frequentemente alinhando suas posições às do presidente americano Donald Trump. Ao assumir o cargo, Bolsonaro nomeou a ultraconservadora Damares Alves para chefiar o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Seu governo foi conduzido por elites que ampliaram atividades extrativistas na Floresta Amazônica, ao mesmo tempo em que entraram em confronto com os povos indígenas do Brasil.

Estados Unidos

Nos Estados Unidos, o ultraconservadorismo surgiu inicialmente quando políticos e empresas de direita lideraram a oposição ao New Deal do presidente Franklin D. Roosevelt. A partir da década de 1960, durante a Guerra Fria, o ultraconservadorismo começou a ganhar destaque, especialmente com a organização de direita radical John Birch Society. Nessa época, os ultraconservadores eram anticomunistas e opunham-se ao movimento pelos direitos civis, aos sindicatos e aos programas sociais. Membros da John Birch Society acreditavam que o movimento pelos direitos civis levaria à criação de uma "República Negra Soviética" no sul dos Estados Unidos. Em 1961, Jacob K. Javits afirmou que o ultraconservadorismo "representava um perigo para o Partido Republicano", pois estava "levando o partido mais para a direita... [o que] transformaria o Partido Republicano em um partido marginal". A partir da década de 1970, os ultraconservadores tentaram incorporar seus princípios ao governo e à cultura dos Estados Unidos, utilizando think tanks, comitês de ação política e lobistas. Esses grupos eram geralmente apoiados por indivíduos ricos, incluindo Richard Uihlein, John McIntyre e George Coleman. Os ultraconservadores passaram então a "rotular certos grupos, aparentemente com base em raça, classe e status migratório", em um esforço para polarizar a opinião pública, alegando que alguns grupos eram "parasitas" da economia.

No início do século XXI, a Segunda Nova Direita tornou-se mais ultraconservadora, incorporando elementos de neofascismo e recorrendo ao nacionalismo para evocar uma "glória nacional do passado". Após a eleição de Barack Obama em 2008, ultraconservadores fizeram declarações alarmistas sobre o teto da dívida dos Estados Unidos, defendendo cortes drásticos nos gastos sociais e a eliminação completa de alguns programas sociais. Durante o governo Obama, esses ultraconservadores se mobilizaram em torno da ideia de "tomar o país de volta" das mãos de Obama e criaram o movimento birther.

Ásia China Sob a liderança de Xi Jinping, o Partido Comunista Chinês passou a estar mais estreitamente associado a visões ultraconservadoras e ultranacionalistas, sendo descrito por alguns como detentor de elementos de centralidade na etnia Han. O Beijing Daily é um jornal da China continental, considerado por alguns como "ultraconservador".

Hong Kong

Alguns conservadores de linha-dura pró-Pequim em Hong Kong têm sido classificados por críticos como "ultraconservadores".

Irã thumb|200px|Ebrahim Raisi, 8º Presidente do Irã (2021–2024) Os "ultraconservadores" — também conhecidos como "neoconservadores" ou "neofundamentalistas" — estão entre as facções dos principialistas iranianos. Esse grupo adota uma postura mais agressiva e abertamente confrontadora em relação ao Ocidente. Muitos desses ultraprincipialistas ou neoprincipialistas são civis que representam coletivamente o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica.

Socialmente, os ultraconservadores iranianos definem-se por sua postura de linha-dura contra a "intoxicação cultural ocidental" (), o que resulta na imposição rigorosa de normas morais religiosas. Esse movimento ideológico frequentemente tem como alvo os direitos das mulheres e os estilos de vida individuais, retratando-os como um campo de batalha contra o imperialismo cultural ocidental.

Japão

A organização nacionalista de extrema-direita japonesa Nippon Kaigi tem sido descrita como "reacionária" ou "ultraconservadora" devido ao seu apoio à emenda do Artigo 9 da Constituição japonesa, à defesa do Império do Japão e à negação de crimes de guerra do Japão Imperial. Desde 2006, todos os primeiros-ministros japoneses do conservador Partido Liberal Democrata têm sido afiliados à Nippon Kaigi. A atual primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, e o ex-primeiro-ministro Shinzo Abe também foram classificados como "ultraconservadores"; ambos são membros da Nippon Kaigi. Bryan Mark Rigg descreveu o próprio PLD como "ultraconservador".

Europa França thumb|200px|Jean-Baptiste, Conde de Villèle, primeiro-ministro ultramonarquista da França de 1821 a 1828 Os ultrarrealistas constituíam uma facção ultraconservadora ativa entre 1815 e 1830, durante a Restauração Bourbon na França. Um "ultra" era, geralmente, um membro da nobreza da alta sociedade que defendia firmemente o catolicismo romano como a religião oficial e única religião legal da França, bem como a monarquia Bourbon, a hierarquia tradicional entre as classes e o sufrágio censitário, opondo-se aos interesses da burguesia e às suas tendências democráticas."Ultra". Encyclopaedia Britannica. "The ultras represented the interests of the large landowners, the aristocracy, clericalists, and former émigrés. They were opposed to the egalitarian and secularizing principles of the Revolution, but they did not aim at restoring the ancien régime; rather, they were concerned with manipulating France's new constitutional machinery in order to regain the assured political and social predominance of the interests they represented".

A Action Française é um movimento político monarquista e ultraconservador francês. Sua ideologia foi dominada pelos preceitos de Charles Maurras, após a adesão deste e a conversão dos fundadores do movimento ao monarquismo. O movimento defendia a restauração da Casa de Bourbon e — após a lei de 1905 sobre a separação entre Igreja e Estado — o restabelecimento do catolicismo romano como religião oficial; tais pautas serviam como pontos de mobilização em oposição à Terceira República Francesa, considerada corrupta e ateia por muitos de seus críticos.

Alemanha

A Revolução Conservadora () foi um movimento ultraconservador na Alemanha, proeminente durante a República de Weimar — o período entre a Primeira Guerra Mundial e a tomada do poder pelos nazistas —, que contou com expoentes intelectuais como Oswald Spengler, Carl Schmitt e Ernst Jünger. Mergulhados no que o historiador Fritz Stern denominou um profundo "desespero cultural" e sentindo-se desenraizados em meio ao racionalismo e ao cientificismo do mundo moderno, os teóricos da Revolução Conservadora buscaram inspiração em diversos elementos do século XIX, incluindo o desprezo de Friedrich Nietzsche pela ética cristã, pela democracia e pelo igualitarismo; as tendências antimodernas e antirracionalistas do Romantismo alemão; a visão de uma comunidade popular orgânica e naturalmente organizada, cultivada pelo movimento Völkisch; a tradição prussiana de nacionalismo militarista e autoritário; e sua própria experiência de camaradagem e violência irracional nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. A partir das décadas de 1960 e 1970, a Revolução Conservadora exerceu grande influência sobre a Nova Direita europeia, em particular a Nouvelle Droite francesa e a Neue Rechte alemã.

Hungria Em seus primeiros anos, o Jobbik adotava posturas ultraconservadoras, promovendo o anticomunismo e o antiglobalismo como alguns de seus princípios fundamentais, embora tenha obtido maior sucesso à medida que suas posições se tornaram mais moderadas.

Bibliografia

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