A língua asurini do Xingu, ou ainda, assurini do Xingu, assurini do Koatinemo, asurinikin, surini ou asonéri (da língua Juruna), é uma língua indígena falada pelo povo de mesmo nome (autodenominados awaeté, de pronúncia [a.wa.e.'te]), localizada na Terra Indígena Koatinemo, à margem direita do Rio Xingu, no estado do Pará, Brasil. É importante ressaltar as diferenças geográficas, culturais, e, consequentemente, linguísticas entre os dois grupos asurini existentes: os asurini do Xingu e os asurini do Tocantins (ou asurini do Trocará).

A língua asurini do Xingu é pertencente ao tronco linguístico tupi-guarani, no sub-ramo V e possui cerca de 219 falantes, em sua maioria, nativos da Aldeia Assurini do Xingu. É considerada uma língua ativa e apresentou relativo crescimento nas últimas décadas: após sofrer um intenso decréscimo populacional devido ao contato com a sociedade externa, a população de 150 falantes em 1930 reduziu-se a 66 em 1994; em 2002, este número subiu para 106 falantes; atualmente, os falantes de asurini do Xingu ultrapassam a marca de 200. Apesar disso, o asurini do Xingu corre risco de extinção, e sua perpetuação está ligada à alta taxa de natalidade e casamentos interétnicos.

Etimologia As duas principais nomenclaturas para a etnia indígena asurini do Xingu (ou asurini do Koatimeno) são composições entre uma palavra de origem juruna e o local onde o povo asurini se consolidou. O termo asurini é originado do juruna asonéri, cujo significado é "vermelho", referente ao grande uso do urucum no cotidiano, documentada pela primeira vez pelo etnógrafo Curt Nimuendajú em 1948. Já os termos locacionais, Xingu e Koatinemo, referem-se às margens do Rio Xingu e à Terra Indígena Koatinemo. esquerda|miniaturadaimagem|184x184px|Indígena Asurini Entre outros exônimos, há divergências entre as denominações dada pelos kayapós: Kub(ẽ)-Kamrég-ti, segundo o etnólogo Curt Nimuendajú, que significa "grande índio vermelho" (Kub(ẽ) = "índio" + Kamrég = "vermelho" + ti = aumentativo); ou Krã-akâro que significa "cabeça redonda", segundo os xikrin do Bacajá, um subgrupo kayapó. Há ainda os nomes: Adgí Kaporuri-ri ("vermelho selvagem"), em xipáia; e Nupánunupag ("índio vermelho"), em kuruaia.

Entretanto, a etnia se autodenomina de, ainda, outra forma. O endônimo dos asurini do Xingu, especificamente, é awaeté, cuja tradução é próxima de "gente de verdade", com awa- significando "pessoas" e -eté sendo um sufixo enfático para "muito" ou "verdadeiro". Apesar disso, os asurini do Xingu chamam-se de asurinis quando em contato com a sociedade não-indígena.

Distribuição Atualmente, há apenas um povo falante da língua asurini do Xingu: a aldeia homônima localizada na Terra Indígena Koatinemo, à margem direita do Rio Xingu no estado do Pará, entre as cidades de Altamira e Senador José Porfírio.

Tradicionalmente, os asurini, divididos em duas aldeias distintas, ocuparam a área entre a margem esquerda do Rio Bacajá e a margem direita do Rio Xingu. Por volta dos anos 40, deslocaram-se, para a região dos Igarapé Piranhaquara e Igarapé Ipiaçava devido a pressões extrativistas locais e conflitos com grupos indígenas kayapós, dividindo-se e originando as diferentes aldeias asurini: Xingu e Tocantins. Pelo mesmo motivo, os asurini do Xingu deslocaram-se novamente, desta vez para o Igarapé Ipixuna, onde permaneceram até a década de 60, quando outros conflitos surgiram, com os araweté que ali se estabeleceram. Voltaram, então, para as margens do Igarapé Ipiaçava.miniaturadaimagem|200x200px|Asurini em sua comunidade

As primeiras informações sobre a etnia vieram à tona no final do século XIX, e o primeiro contato com a sociedade brasileira se deu em 1971. Entre 1972 e 1985, os asurini do Xingu ocupavam a margem direita do Rio Igarapé Ipiaçava, afluente do Rio Xingu, e com a homologação de Koatinemo, em 1986, o rio passou a ser fronteira da terra indígena, que se tornou lar oficial dos asurini, numa área de 387 834 hectares.

Línguas relacionadas A língua asurini do Xingu é pertencente ao tronco linguístico tupi, da família tupi-guarani, no sub-ramo V, mesmo grupo do kayabi. Os asurini já estabeleceram relações com os kayapós (cuja língua pertence ao tronco macro-jê) e com os araweté (cuja língua pertence à família tupi-guarani), visto que dividiram espaço geográfico.

Há estudos comparativos entre as línguas asurinis do Xingu e do Tocantins, como feito por Velda C. Nicholson em "Breve estudo da língua asurini do Xingu", apontando a anterior união das aldeias, a separação destas após atritos com extrativistas e outras etnias da região, e as semelhanças e diferenças entre asurini do Xingu (asn), do Tocantins (asu) e o proto-tupi-guarani (PTG) indicam interações periódicas entre os povos. Em sua pesquisa, Nicholson cita que a língua asurini do Xingu, em comparação ao asurini do Tocantins, tem:

Mais fonemas consonantais, com oclusivas sonoras e pré-nasalizadas; Vogais correspondentes, entretanto, mais fechadas, e variantes nasalizadas; Uso do sufixo "-(p)otat" para tempo futuro e modo desiderativo, e não "-(po)ta"; Maior restrição de verbos no gerúndio e auxiliares; Ausência do sufixo "-a", que marca substantivos; Uso do sufixo "-rambe" para marcar orações temporais subordinadas e "a'e rambe" para consequência, e não "-ramo" e "a'e ramo"; Uso do sufixo "-ete" para aumentativo, e não "-oho"; Estrutura do sintagma posposicional no modelo S + 'instrumento' -pywo, e não S + 'instrumento' -po; Prefixo "-romoi-" para comitativos, e não "-ero-".

Além de tais regras fonéticas e gramaticais, há variações de vocabulário entre as duas línguas, como nos exemplos abaixo: Exemplos de variação de vocabulário nas línguas Asurinipt-brasn (Xingu)asu (Tocantins)luadjahysahyacarangueijoohãohacipó (fino)koremakorawamuitoeteoho/etecivilizadoakarai'itoriamulherkuñỹ/mirikakosoanuvemamynivakaywaŋa-hon/ywaŋa-siŋamanhãarimoose'iwe1 (um)moi epẽnosepesowe É importante ressaltar as diferenças geográficas, culturais, e, consequentemente, linguísticas entre os dois grupos asurini existentes: os asurini do Xingu e os asurini do Tocantins (ou asurini do Trocará).

História

História do contato As primeiras informações sobre a etnia asurini do Xingu vieram à tona no final do século XIX, sendo muitos ataques locais acima do Rio Bacajá atribuídos a eles, mas também muitos sofridos por eles de povos vizinhos e homens brancos. Devido a esses conflitos, os asurinis se repartiram e deslocaram uma série de vezes no século decorrente. O primeiro contato com a sociedade brasileira se deu em 1971, com a expansão mineradora e agropecuária e a construção da Rodovia Transamazônica, pelos padres Anton e Karl Lukesch e, posteriormente, pela Funai. Com todos os embates interétnicos envolvidos e a presença branca na região, o contato com a sociedade externa foi inevitável.

Entretanto, tal contato desregulado, com diversas ações negligentes da Funai na época, junto aos diversos conflitos nos quais os asurini se envolveram, impactaram negativamente a sua população. Devido a instabilidade que a aldeia passou durante o século XX, houve queda da natalidade, intenso aumento da taxa de mortalidade e decorrente decréscimo populacional devido aos ataques intertribais e epidemias trazidas da sociedade externa, o que, consequentemente, prejudicou a organização política e doméstica tradicionais considerando a redução da aldeia e a morte dos membros mais velhos e anciões. A população de 150 falantes em 1930 sofreu uma redução de 40% nos anos 70, devido aos contágios de gripe, malária e tuberculose somados à não vacinação dos agentes e pesquisadores da Funai e à ausência de assistência médica, situação agravada ao seu ápice em 1982, quando os asurinis do Xingu eram apenas 52 indivíduos. A recuperação demográfica da etnia veio aos poucos, e em 2002 a população asurini subiu para 106 no Xingu. Atualmente, os falantes do assurini do Xingu ultrapassam a marca de 200, com a etnia e a língua ainda correndo risco de extinção, e sua perpetuação dependente de casamentos interétnicos e alta taxa de natalidade, sendo a maioria da população composta por jovens e crianças.

História da documentação miniaturadaimagem|"Oficina Jejeyga – Introdução ao Tupi Guarani dos Awaeté"|180x180px Sendo o asurini um povo por muito tempo isolado, em conjunto com as desavenças entre a aldeia e a Funai nos primeiros contatos, o histórico de registro, estudo e transmissão da língua asurini do Xingu não são cronologicamente bem definidos, apesar de, atualmente, já haverem diversos estudos sobre o povo e sua língua, como, por exemplo, as obras "Breve Estudo da Língua Asurini do Xingu" (1982), de Velda Nicholson; "Estudo Morfossintático do Asurini do Xingu" (2009), de Antônia Pereira Alves; e "Mito e arqueologia: a interpretação dos Asurini do Xingu sobre os vestígios arqueológicos encontrados no parque indígena Kuatinemu - Pará" (2002) de Fabíola Andréa Silva. Os demais artigos, em específico sobre a língua, que se tem registro são dos pesquisadores Lukeschi (1996), Monserrat e as Irmãzinhas de Jesus (1998), e Silva (1998).miniaturadaimagem|180x180px|Cultura material asurini: Arte gráfica em vaso de cerâmica.Além disso, entre outubro e novembro de 2019, ocorreu uma oficina sobre a língua indígena na Casa da Linguagem do Pará, em Belém, a "Oficina Jejeyga - Introdução ao Tupi Guarani dos Awaeté", com cinco aulas ministradas por um pajé aprendiz asurini, Timei Assurini, ressaltando a importância da linguagem para os povos indígenas e contando com a participação de linguistas e pesquisadores envolvidos com o povo. Cultura Material e Arte Gráfica miniaturadaimagem|180x180px|Arte gráfica asurini: pintura corporal tradicionalA cultura material asurini engloba cerâmica, tecelagem, cestaria, armas, enfeites corporais, bancos de madeira e flautas. Além da utilidade cotidiana de tais instrumentos, há a decoração destes itens com a arte gráfica asurini, composta por formas geométricas nas cores amarelo, vermelho e preto que seguem uma gramática própria com diversos sistemas de significação e registram o cotidiano, a tradição e as entidades simbólicas e ritualísticas da etnia. Tal arte gráfica também se dá de forma corporal através de tatuagens, representando a organização hierarquica interna da aldeia e a realização de cerimônias.

Fonologia O asurini do Xingu apresenta um sistema fonético de 16 consoantes, divididas entre surdas, sonoras e labializadas, com um total de 28 variações consonantais, e 10 vogais, sendo metade delas nasalizadas.A sílaba tônica, em geral, recai sobre a última sílaba e a língua não apresenta tons.

Consoantes O asurini do Xingu apresenta um sistema fonético de 16 consoantes, sendo 5 oclusivas, 3 nasais, 3 fricativas e 2 africadas, 2 aproximante e 1 tepe, divididas entre surdas, sonoras e labializadas. Possui um total de 28 variações consonantais, que se dão em: //, // e // em final de palavra, após // e //, tornando-se as consoantes plosivas aspiradas //, // e //; alofonia entre as nasais // e //, com a palatal aparecendo em início de palavras, e a velar, no final; homorgânicas // e //, // e //, e // e //, com as nasais em final de palavra e as plosivas em início e meio; combinações pré-nasalizadas, entre oclusivas com cortorno nasal após vogais nasais, em //, // e //; // e //, com a fricativa ocorrendo antes de //, e o mesmo para suas versões sonoras // e //. As variações consonantais do asurini do Xingu estão representados na tabela abaixo. As consoantes padrão da língua estão marcadas em negrito, enquanto suas variações estão representadas em itálico. +Variações consonantais da língua asurini do XinguBilabialAlveolarPós-AlveolarPalatalVelarGlotalPlosivaSurdas Sonoras Labializadas kwAfricadaSurdas Sonoras Pré-nasal ᵐⁿ ᵑNasalVibranteFricativaSurdas SonorasAproximante

Vogais